Neste item serão apresentadas algumas das propostas de compartimentação do relevo em escala regional existentes para a área de estudo. Esses trabalhos fornecem uma visão geral acerca da configuração geomorfológica da alta/média bacia do Rio Grande e áreas adjacentes. Aspectos mais detalhados dessa configuração serão tratados nos capítulos seguintes.
Entre as propostas de compartimentação geomorfológica em escala regional, destaca-se a do IPT (Hasui et al. 1982). De acordo com esse trabalho, a área de estudo está inserida na província do Planalto Atlântico, caracterizada por uma sequência de planaltos profundamente retrabalhados em sucessivos ciclos de erosão. Um conjunto de condicionantes geológicas, geomorfológicas e morfotectônicas permitiu a distinção de treze zonas e de algumas subzonas no Planalto Atlântico. A área de interesse do presente trabalho posiciona-se quase que integralmente na zona Planalto do Alto
Rio Grande. Apenas uma estreita faixa na extremidade sul/sudeste pertence à zona Serra da Mantiqueira.
O Planalto do Alto Rio Grande consiste num planalto de estrutura complexa, maturamente dissecado, desfeito em morros, serras lineares e elevações de topo plano que se erguem a cerca de 2100 m de altitude em seus limites meridionais, embora as altitudes decaiam acentuadamente em direção ao norte. Sua diversidade litológica e estrutural influiu grandemente no modelado e no traçado da rede dos menores coletores da drenagem. No entanto, muitos dos maiores coletores da rede de
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drenagem manifestam em seu traçado uma notável independência em relação às direções estruturais, sejam foliações, falhas ou fraturas. Esses cursos d'água atravessam serras quartzíticas e outras rochas resistentes, sem manifestarem maiores adaptações a zonas mais fracas. Esse fato sugere que a rede dos maiores coletores da bacia do Rio Grande teria idade mais antiga, que resultaria de superimposição às estruturas pré-cambrianas, a partir de uma cobertura sedimentar, ou teria sido previamente estabelecida sobre uma superfície de aplainamento tão evoluída, que tais estruturas não apresentariam obstáculos significativos à drenagem (Hasui et al. 1982).
São distinguidas por suas peculiaridades, quatro subzonas do Planalto do Alto Rio Grande:
Planalto de Senador Amaral, Planalto de Caldas, Planalto de Campos do Jordão e Maciço do Itatiaia. Todas se situam junto às bordas daquele e resultam de soerguimentos cenozoicos por falhas
e/ou flexuras, que as elevaram a altitudes bem acima das dominantes no restante do planalto. No entanto, Hasui et al. (1982) ressaltam que a movimentação cenozoica de algumas dessas falhas carece de confirmação, já que as depressões lineares adjacentes podem ser um produto da escavação pela erosão fluvial atuando em rochas mais brandas.
A Serra da Mantiqueira corresponde a um conjunto de escarpas, serras e morros, no qual o
Planalto do Alto Rio Grande termina bruscamente a sul e sudeste, dividindo suas águas com as da
bacia do Rio Paraíba do Sul. Considerando aspectos topográficos, genéticos e de situação na drenagem do Planalto Atlântico, Hasui et al. (1982) distinguiram duas subzonas na Serra da
Mantiqueira: a paulista, que limita a norte a depressão tectônica do Médio Vale do Paraíba em São
Paulo, estendendo-se em pequeno trecho aos sopés do Maciço do Itatiaia no Rio de Janeiro; e a subzona mineira, desenvolvida inteiramente em Minas Gerais.
A subzona paulista corresponde a uma frente dissecada e relativamente pouco recuada de sua origem, um bloco de falha suavemente inclinado para o interior do Planalto do Alto Rio Grande. Já a
subzona mineira afasta-se progressivamente do rio Paraíba do Sul, denotando, não só o desvio desse
rio para leste, a partir da Bacia de Resende, mas um recuo erosivo muito ativo das escarpas. Também as altitudes máximas às quais se eleva a serra passam a decrescer a nordeste do Maciço do Itatiaia (Hasui et al., 1982).
Ao sul do Planalto do Alto Rio Grande ocorre a zona denominada Médio Vale do Paraíba. Esta apresenta-se com claras características de um graben, que abateu irregularmente a superfície cimeira das serras da Mantiqueira e da Bocaina. A sudeste, ocorre a zona Baixo Vale do Paraíba, representada pelas subzonas Serrania Cristalina e Serrania do Pomba-Muriaé. Localmente, esta zona é interpretada como resultante do recuo erosivo para noroeste das escarpas da Serra da Mantiqueira. A nordeste, a borda não tectônica do Planalto do Alto Rio Grande limita-se com a zona Alto Rio Doce,
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enquanto a oeste ocorre a Zona Cristalina do Norte Paulista, que é drenada por afluentes do baixo Rio Grande e do Rio Tietê.
Ao norte, a área limita-se com Planalto de Belo Horizonte por uma faixa de elevações discretas conhecidas como serras das Vertentes e da Galga. De acordo com os autores, a análise do relevo dessa zona do Planalto Atlântico não denota quaisquer reflexos de movimentação tectônica cenozoica, que não a epirogênica. O divisor de águas com o Planalto do Alto Rio Grande é interpretado como sendo unicamente erosivo. Portanto, essas regiões teriam permanecido estáveis durante o Cenozoico, em contraste com o setor sul do Planalto do Alto Rio Grande e o vale do Paraíba (Hasui et al., 1982). É nesta área de contato entre os planaltos de Belo Horizonte e do Alto Rio Grande que se encontram os trechos altimetricamente anômalos do interflúvio entre as bacias dos rios São Francisco e Grande. Um desses trechos pouco expressivos do divisor está localizado na região de Pimenta (MG), a oeste da Serra da Galga e pelo menos 200 m abaixo desta. Como já citado anteriormente, essa feição peculiar é alvo de uma das hipóteses do presente estudo.
Saadi (1991) propõe uma compartimentação morfoestrutural da bacia do alto Rio Grande, na qual a diferenciação em compartimentos é comandada pelas consequências acumuladas de dois fatores tectônicos. O primeiro fator é a intensidade do soerguimento mesozoico-cenozoico que tem por resultado a profundidade da dissecação posterior e consequentemente o grau de energia do relevo. O segundo fator é a relação existente com os cinturões de cisalhamento ou zonas de falhas que induzem o grau de fragmentação e as orientações principais do relevo. Os compartimentos individualizados pelo autor estão representados na Figura 3.7 e serão descritos a seguir.
O primeiro compartimento é denominado Escarpa Meridional e corresponde à escarpa que liga as cumeadas da Serra da Mantiqueira ao vale do Rio Paraíba do Sul. Sua origem tectônica é incontestável e sua orientação ENE deriva do controle exercido pelas falhas do sistema Serra da Mantiqueira. A importância dessa escarpa reside no seu papel de divisor hidrográfico nítido entre as bacias do Rio Grande e do Rio Paraíba do Sul. O seu levantamento por falhamento induziu um basculamento generalizado para NW do planalto sul mineiro.
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Figura 3.7 - Compartimentação morfoestrutural da bacia do alto Rio Grande. Fonte: Modificado de Saadi (1991), retirado de Costa (1999).
O compartimento Degrau Superior (Blocos da Serra da Mantiqueira) constitui o primeiro degrau controlado pelas falhas do sistema Serra da Mantiqueira e é caracterizado por um agrupamento de serras alongadas em direção principal SSW-NNE. Esses relevos apresentam uma dissimetria marcada, sendo a face exposta a SE ou SW sempre a mais íngreme e desnuda. Os basculamentos desses blocos tectônicos para NE ou NW constituem a tônica principal da morfologia. Os fortes desníveis devidos aos falhamentos e reavivados pela erosão são característicos desse compartimento. O planalto de Campos do Jordão, os maciços alcalinos de Passa Quatro e Itatiaia e a Zona de Falhas de Passa Vinte estão inseridos nesse compartimento.
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O Degrau intermediário se diferencia do precedente pelo rebaixamento sensível das altitudes e pela suavização do relevo. Na região de Pouso Alegre a influência das falhas do Cinturão de Cisalhamento Ouro Fino e do Sistema de Falhas de Camanducaia transparece no fatiamento do relevo em cristas alongadas e também dissimétricas.
O Planalto de Caldas-Machado possui como principais peculiaridades a composição por rochas metamórficas de médio e alto grau e a ausência de orientação tectônica preferencial. Este planalto de desníveis topográficos reduzidos coincide com a Cunha de Guaxupé e suas margens são delineadas por falhas dos cinturões de Ouro Fino e Campo do Meio.
O Planalto de Madre de Deus de Minas é um bloco de orientação SW-NE que ficou ileso da influência dos grandes cinturões de cisalhamento. Esse compartimento estende-se da região de Cruzília-Minduri às serras da região de São João del-Rei, onde é interrompido por uma escarpa. A morfologia é de colinas com perfis convexos suavizados e topos frequentemente planos, separados por vales abertos e entulhados, apesar dos rios correrem sobre rocha.
O Corredor (de cristas) de Campo do Meio abrange uma série de cristas alongadas na direção NW-SE devido ao controle pelas falhas do Cinturão de Cisalhamento Campo do Meio. A maior parte das cristas mostra uma dissimetria entre flancos S e N. O relevo adquire claramente as características de uma zona de cisalhamento, com alternância de cristas e vales paralelos numa largura de várias dezenas de quilômetros.
As Serras quartzíticas ocorrem nas regiões de Carrancas-Luminárias e São João del-Rei e são estreitamente controladas por falhas transcorrentes do Cinturão de Cisalhamento de Ouro Fino. As serras formam saliências abruptas nas margens do Planalto de Madre de Deus de Minas e se caracterizam por apresentam topos aplainados e traçados interrompidos por cortes fluviais epigênicos.