Antes de adentrar na concepção do pós-estruturalismo, se faz necessário compreender o objeto que o precedeu: o estruturalismo. Ambas as escolas foram as que mais influenciaram no século XX, devido sua complexidade em discutir a problemática do sujeito e sua subjetividade. Sobre o estruturalismo, se entende que ele foi uma forma intensificada do formalismo, ou seja, ele está voltado para o texto literário com seus elementos internos. Foi predominante na década de 1960 com um dos seus expoentes, o linguista Ferdinand Saussure (1857-1913). Ele forneceu bases para outros críticos e linguistas e estava interessado na função dos elementos linguísticos e não na sua causa (PETERS, 2000).
Para Peters (2000) Saussure tinha a definição da língua como objeto de estudo e se pautava no conceito de signo, esse que seria uma espécie de moeda que tem dois lados: o significante e o significado, onde o primeiro seria a parte concreta e o segundo seria o conceito. Isso é relevante para discutir a estrutura de qualquer obra literária, pois no estruturalismo se tem essa estrutura universalizante, sendo uma espécie de esqueleto universal. Dessa forma, a linguagem passa a ocupar uma posição central na teoria estruturalista, isso quer dizer que o que vai determinar a vida em sociedade e o homem como homem é a linguagem.
O estruturalismo institucionalizou um paradigma transdisciplinar que contribuiu para integrar as ciências humanas, penetrando em diversas áreas e se transformou em um globalizante referencial teórico para a análise semiótica e linguística da sociedade, da economia e da cultura. Paralelamente o estruturalismo começou a desenvolver uma forma poética de crítica literária e de análise do discurso, substituindo o modelo humanista. Isso demonstra que no estruturalismo as identidades e as realidades são constituídas de acordo com
a linguagem que é posta por uma estrutura de signos. De acordo com Newman (2005) seria a ideia de que a experiência e a realidade são estruturadas através das relações com a linguagem que determina o seu significado.
Roman Jakobson (1896-1982) foi quem primeiramente cunhou o termo estruturalismo para designar uma abordagem estrutura-funcional de investigação científica dos fenômenos. Para Michel Foucault (1926-1984) o estruturalismo não foi uma invenção francesa, para ele, nenhum dos seus protagonistas sabiam muito bem o que estavam fazendo, ele mesmo se declara nunca ter sido um estruturalista, no entanto, reconhece que o problema discutido pelo estruturalismo era um problema próximo dos seus interesses: o sujeito e sua reformulação (SARUP, 1993).
O pós-estruturalismo surge do estruturalismo, então apesar de suas diferenças, é possível encontrar muitos conceitos que se assemelham em ambas concepções. Ele tem como objeto o estruturalismo e tenta superar aquilo que o precedeu, ou seja, seria uma resposta filosófica a esse estruturalismo, onde se buscou descentralizar as estruturas, criticando a metafísica, mas ao mesmo tempo preserva os mesmos elementos centrais da crítica ao sujeito humanista.
Origens do que Howarth (2013) aponta como um projeto pós-estruturalista remetem às décadas de 1960 e 1970 da França, em que se verifica um engajamento de intelectuais no questionamento de premissas associadas ao pensamento estruturalista e formalista, este desenvolvido por Saussure, Hjelmslev, Jakobson, Lévi-Strauss e Althusser. Dentre as obras que fomentaram os eventos de maio de 1968 em Paris e a emergência desta nova corrente estão: Écrits de Jacques Lacan e A Ordem das Coisas de Michel Foucault, em 1966; Escritura e Diferença, e Gramatologia de Jacques Derrida, assim como Diferença e Repetição de Gilles Deleuze, em 1968; Arqueologia do Conhecimento de Foucault, e Semiotike de Julia Kristeva, em 1969; S/Z de Roland Barthes, e O Anti-Édipo de Deleuze e Guattari, em 1970. O fio que os une é a crítica ao existencialismo, à fenomenologia e ao Marxismo, assim como a reelaboração de temáticas associadas ao estruturalismo.
A concepção nasce como uma tentativa de desconstruir essa linguagem como central, ou seja, qualquer que seja a temática não existe algo universal, pelo contrário, eles têm peso inter-relacionados. Isso quer dizer que o modelo saussariano e sua semiótica na linguagem começam a sofrer críticas por um tipo de desconstrução abordada por Jacques Derrida que busca os momentos de ruptura e mudanças. De acordo com Williams (2012), Derrida desconstrói e critica a ideia da linguagem centrada, sem um significado original ou transcendental, e de um sistema linguístico completamente constituído e fechado.
Além da linguagem, o pós-estruturalismo discute o tempo, o sujeito e uma série de elementos que estão emaranhados juntamente com a linguagem. A questão do signo difere da concepção estruturalista, pois ele não é fixo e pode se alterar, diferente do significado e significante na outra concepção. Para os pós-estruturalistas ocorre um deslizamento do significado sobre o significante, ou seja, uma cadeia de significantes e significados, onde todos estão relacionados e se ressignificando pois não é algo fixo entre um momento e outro (WILLIAMS, 2012).
Nesse caso, se deu a emergência da concepção pós-estruturalista por ser caracterizado como um estilo de filosofar na forma da escrita, retirando a ideia de homogeneidade, singularidade e unidade, ou seja, ele amplia o conceito de estrutura, fazendo uma crítica paralelamente. Ainda continua com a concepção estruturalista de observar o sujeito como um elemento governado por sistemas e estruturas, entretanto, essas estruturas seriam móveis e contingentes (PETERS, 2000). Além da crítica as noções de verdade e sua ênfase na pluralidade da interpretação. Todos os seus pensadores problematizam o sujeito cartesiano – kantiano humanista (sujeito autônomo, livre e auto-consciênte). Isso quer dizer que o sujeito é construído a partir de práticas socioculturais, submetido as práticas e as estratégias de normalização e individualização que caracterizam as instituições modernas.
Portanto, as afinidades entre o estruturalismo e o pós-estruturalismo se pautam em refletir na crítica da filosofia humanista do renascimento e do sujeito racional, ambos efetuam um energético ataque aos pressupostos universalistas da racionalidade e autonomia. Além de uma grande relação com a literatura e uma sensibilidade textual. As inovações e diferenças denotam que o pós-estruturalismo discute um interesse por uma história descontinua das estruturas genealógicas. Para Sarup (1993), o pós-estruturalismo ao efetuar uma crítica política dos valores iluministas, representa um aprofundamento da noção de democracia, pois criticam que as democracias liberais constroem a identidade política em oposições binárias com o efeito de excluir certo grupos culturais.
O pós-estruturalismo como um movimento está na sua terceira ou quarta geração, onde a primeira e a segunda tiveram como bases as pesquisas de Foucault, Derrida, Lyotard e Deleuze; e a terceira e quarta geração são baseadas nos estudos feministas, pós-colonialistas, psicanalistas, neofoucaultianos, neodeleuzeanos e neoderrideanos. Além de que como foi observado a questão do discurso foi abordada em ambas perspectivas, se configurando como conceito chave para a problemática abordada no presente trabalho. Dessa forma, a noção de discurso foi discutida sob o âmbito da Teoria do Discurso de Laclau e Mouffe, o qual está detalhado no tópico a seguir.