A viabilidade dos níveis de satisfação com a vida dos adolescentes está positivamente correlacionada com o mecanismo específico para a coe- rência de comportamento de intimidade nas relações entre pais e filhos e para a satisfação nas relações românticas (Cummings, 1998). Estes autores sugerem também que as relações de intimidade na amizade com o amigo do mesmo sexo na infância de uma pessoa influenciam na organização das expectativas relativamente ao comportamento nas relações de intimidade adultas.
8.1. Influência nas relações de intimidade
O passado de uma pessoa parece influenciar a organização das expecta- tivas relativamente ao comportamento nas relações de amizade adultas. Estudos interculturais apresentam testes bem sucedidos da viabilidade dos modelos dos adolescentes como mecanismo específico para a inti- midade no comportamento de base segura das relações entre pais e
filhos, amigos do mesmo sexo e para as relações românticas com o sexo oposto.
Vivemos num mundo onde a depressão e a infelicidade é patologia cor- rente (Barros, 2003). Ninguém duvida da importância da intimidade para a felicidade da pessoa e muito especialmente para os jovens adolescen- tes, para a saúde física e psíquica e também para o seu sucesso pessoal e para a satisfação com a vida.
Hendrick et al., (1998) estudaram este raciocínio, investigaram a compo- nente da tomada da perspectiva da intimidade. A realidade fenomenal de uma pessoa fornece prognósticos úteis na satisfação com a vida da outra pessoa. Uma componente central do comportamento relacional de intimidade e comunicação é a empatia (Davis e Oathout, 1987), que é a habilidade em ter a perspectiva do outro e comunicar a sua intimidade e compreensão ao outro. A intimidade tem uma correlação positiva com o comportamento de empatia e boa comunicação, gestão de conflitos e consideração social (Davis, 1994).
A auto-revelação, as tácticas de conflito e a competência relacional são constructos que representam o comportamento de intimidade, comuni- cação, conflito e consideração. Porque a intimidade e o afecto são tão importantes para a satisfação com a vida (e.g. Anderson e Guerrero, 1998) e estão ligadas aos constructos da comunicação como a orientação para a motivação (Hendrick e Hendrick, 1987 a).
A orientação para a motivação está ligada à regulação emocional e estratégias de manutenção da auto-estima. Os indivíduos motivados para o crescimento da intimidade adoptam poucas atribuições que sublinham o «eu» após o sucesso, poucas atribuições defensivas após fracasso e poucas estratégias de lidar com todos os outros participantes (Knee, 1998). Inclinam-se mais para percepção verídica e autêntica, cognição e comportamento do que para contrapartidas motivadas pelo «ego». Quando se é motivado para o crescimento da intimidade, uma pessoa pode ver as opiniões diferentes do amigo íntimo ou do parceiro român- tico como interessantes, em vez de ameaçadoras e como uma oportu- nidade de aumentar a intimidade e compreensão do que o reflexo de diferenças fundamentais.
A investigação da Psicologia Social e das Ciências Sociais tem-se dedi- cado à exploração e previsão da satisfação na relação de intimidade (Sternberg e Hojjat, 1997). Existe uma abordagem «fenomenológica» para compreender a satisfação e felicidade na relação: parte-se do
princípio que numa relação íntima não é só o comportamento público do parceiro em si que influencia a satisfação, mas também que a per- cepção do comportamento do parceiro pode afectar directamente a satisfação na relação de uma pessoa (Davis e Oathout, 1987; Murray, Holmes e Griffin, 1996). Estudos indicam que a satisfação na relação de um indivíduo é influenciada pela percepção das atitudes em rela- ção ao amor do parceiro (Hendrick, Hendrick e Adler, 1988), empatia percepcionada (Davis e Oathout, 1987), auto-revelação percepcionada (Millar e Millar, 1988) e competência relacional percepcionada (Canary e Spitzberg, 1989).
Os processos de intimidade nas relações, incluindo as atitudes em rela- ção ao amor, estão implicados na comunicação e no grau de intimidade na relação. A empatia e a capacidade de responder a um outro, é pelo menos em parte, boa comunicação (Davis e Oathout, 1987). Auto-revela- ção é um aspecto do comportamento da comunicação, e a competência relacional pode ser avaliada em termos de comunicação efectiva. Assim, as capacidades de comunicação deveriam estar ligadas à satisfação na relação ao afectar as percepções do parceiro e ao moldar subtilmente as interacções correntes. A eficácia da comunicação envolve duas compo- nentes: até que ponto é eficaz quem responde e até que ponto é percep- tível o modo como é eficaz de quem responde. O processo de comunica- ção envolve auto-percepções da capacidade de comunicar assim como percepções das capacidades de comunicação do parceiro. Ambas podem afectar o nível de intimidade, a satisfação com a relação e a felicidade na vida.
A auto-percepção reflecte a construção pessoal do mundo à volta de cada indivíduo, incluindo a do parceiro. As auto-percepções influen- ciam as percepções do parceiro, mais do que as próprias percepções do parceiro influenciam as suas próprias auto-percepções. Visto que as construções da comunicação encontram-se no limiar das interacções correntes.
Pensa-se que a influência direccional das auto-percepções de uma pes- soa nas percepções que essa pessoa tem do seu parceiro influencia o estabelecimento da intimidade. Outros constructos podem ter também impacto na satisfação com a vida, nomeadamente as atitudes em rela- ção ao amor estão relacionadas com a satisfação (Hendrick et al., 1988). Estas são também características dinâmicas da pessoa, criadas por um misto de estrutura da personalidade, experiência anterior na intimidade nas relações de amizade com o amigo do mesmo sexo e interacções na relação actual com o parceiro romântico (Sharabany, 1994).
Outro factor importante é a auto-estima, como se viu noutro estudo (Diener, 1984), uma alta auto-estima é um dos factores mais fortes de bem-estar. Muitos estudos demonstram uma relação entre auto-estima e bem-estar (e.g., Kosma e Stones, 1978; Reid e Ziegler, 1980, citados por Neto, 2001, p. 65).
O comportamento íntimo é benéfico para a auto-estima do adolescente por causa das experiências afectivas e cognitivas que o acompanham (Prager, 1995). Noutro estudo (Campbell et al., 1976, citados por Neto, 2001, p. 65), demonstrou-se que a auto-estima tem uma alta correlação com a satisfação com a vida, mais do que qualquer outra variável.
Outro factor relacionado com a satisfação com a vida e o bem-estar são as relações de intimidade na vizinhança. Parece que quanto maior for a homogeneidade da composição étnica da vizinhança, maior é a satisfa- ção dos adolescentes (Neto, 2001).
Quanto melhor os estudiosos compreenderem o modo como os com- portamentos íntimos geram experiências íntimas, mais aprenderemos acerca do modo como as interacções íntimas produzem efeitos benéfi- cos. Deveríamos estudar o impacto das interacções íntimas nas rela- ções. Distinguem-se as relações íntimas de outras relações pessoais pela frequência da intimidade relacional, esta alimenta outras caracte- rísticas que dão às relações íntimas um cariz especial. Estas caracterís- ticas por sua vez, devem resultar em relações íntimas mais satisfatórias, estáveis e harmoniosas (Prager, 1995).
8.2. Relações íntimas e bem-estar
Considerando que as relações íntimas são tão importantes para o bem- -estar das pessoas, deveríamos identificar os factores que realçam o seu funcionamento. Esta abordagem é bem documentada (e.g., Duck, 1994a, no significado da comunicação; Derlega e al., 1993, na auto-reve- lação, Gottman, 1994, no gestão do conflito, Rusbult e al., 1982, 1986, no compromisso; Holmes, 1991, na confiança; Hatfield e Sprecher, 1986, no amor, citados por Prager, 1995, p. 218).
A descrição feita por jovens acerca das suas relações com os seus melhores amigos, em termos de auto-revelação, troca de informação íntima e bem-estar, aumentou entre os 16 e 19 anos tanto para rapazes como raparigas (Sharabany et al., 1981). As manifestações de intimi- dade mostrando mudanças maiores com a idade foram a franqueza e
espontaneidade, conhecimento e sensibilidade, vinculação, exclusividade e dádiva e partilha. Os adolescentes esperam também que os seus ami- gos satisfaçam as suas necessidades de intimidade e bem-estar, mais do que qualquer outra pessoa (Furman e Buhrmester, 1985). Rapazes e raparigas reconhecem que são as raparigas que são mais íntimas (Bukowski, Sippola e Hoza, 1999) e que mostram aumento de intimidade do início ao fim da adolescência (Sharabany et al., 1981, 2000), registam mais frequentemente ocorrências de auto-revelação e passam mais tempo com os amigos do que os rapazes. Alguns autores sugeriram que essas diferenças podem ser mais uma questão de estilo do que de subs- tância (Buhrmester e Furman, 1987), outros afirmam que estas diferen- ças podem reflectir uma maior variabilidade de comportamento íntimo entre os rapazes do que entre as raparigas.
Para identificar os processos pelos quais as relações íntimas realçam o bem-estar dos parceiros, Prager (1995) refere que as relações íntimas proporcionam a felicidade dos parceiros pela satisfação de necessida- des importantes. A compatibilidade das necessidades dos parceiros e a negociação hábil podem ambas contribuir para a satisfação das neces- sidades de intimidade. Podem também prever se alguns padrões de necessidades ajudam ou não a satisfação de outras. Deveríamos exami- nar as circunstâncias nas quais as relações íntimas podem ir ao encon- tro das necessidades das pessoas.
As relações íntimas têm uma função importante na saúde, bem-estar e felicidade das pessoas, fornecendo um cenário para aprendermos como aproveitar a vida e adaptarmo-nos ao stresse. Os cientistas sociais têm mostrado interesse pelas relações íntimas o que promete uma maior compreensão pela promoção do bem-estar humano.
As relações bastante íntimas podem ser sentidas como insatisfató- rias para o parceiro que deseja um nível mais elevado de intimidade, enquanto que um nível mais baixo de intimidade pode ser satisfatório para outra pessoas com expectativas mais baixas (Eshel, 1993).
Um estudo (Acker e Davis, 1992) avaliou a satisfação com a vida e o bem- -estar ao determinar a diferença entre auto-descrição do eu real e do eu ideal do indivíduo. O eu ideal tende ser mais elevado. O ponto até o qual o eu real é mais baixo indica o grau de satisfação com a vida. Sharabany (2000) defende que a intimidade desejada é geralmente mais elevada do que a intimidade obtida.
Pode-se estudar a satisfação com a relação íntima ao examinar a discre- pância entre os níveis reais e desejados de intimidade com o parceiro,
quanto maior a discrepância, menor é a satisfação. Mede-se a satisfação para se poder avaliar o significado pessoal dos diferentes níveis de inti- midade que se espera encontrar.
Outros constructos podem ser encontrados como predictores do bem- -estar, como a pertença cultural (grupo minoritário ou maioritário), posi- ção social e auto-estima (Gottmane e Mettetal, 1987).
Quando a intimidade é definida como um conceito de níveis múltiplos, incluindo facetas como a confiança, partilhar e dar, exclusividade ou ser sensível e conhecer o outro, é mais provável detectar os aspectos satis- fatórios das relações amorosas de solteiros e maritais. Num estudo (Sharabany, 1996), assumiu-se que no grupo dos casados havia maior satisfação com as relações íntimas entre os sexos, do que os jovens adultos ou adolescentes, sendo que o grupo dos casados e o dos pais tinham mais satisfação com a intimidade com os cônjuges do que os outros dois grupos. Outro determinante da satisfação considerado no estudo foi o género do indivíduo.
As relações íntimas podem beneficiar das interacções íntimas ou intimi- dade relacional. Esta deve exercer um impacto positivo e directo sobre o funcionamento da relação por causa do seu valor recompensador (Reis e Franks, 1994). A intimidade relacional tem um valor recompensador porque as pessoas sentem-se aceites e estimadas.
Quanto mais frequentes forem estas interacções recompensadoras mais sentirão a relação como recompensadora. Os parceiros desenvolvem expectativas positivas um em relação ao outro como resultado dessas interacções recompensadoras. Estas expectativas podem ser a fonte de efeitos positivos acerca da relação mesmo quando os parceiros não estão envolvidos activamente na interacção. A intimidade relacional deve afectar o funcionamento da relação de modo indirecto pelas associa- ções positivas com outros factores de reforço da relação como o afecto, a confiança e a coesão.
A extensão do funcionamento da relação depende dos contextos nos quais estão envolvidos. Nem as interacções íntimas nem as relações íntimas (Duck, 1991) podem ser entendidas isoladamente dos seus con- textos. Os factores contextuais podem modificar o impacto da intimidade relacional nas relações íntimas.
A felicidade depende mais do que cada indivíduo tem na sua intimidade do que nos seus bens materiais. Para Barros (2002) a felicidade e a
infelicidade estão e processam-se dentro de nós. Está na capacidade de cada um em relação ao optimismo. Confúcio refere que o homem será feliz se souber encontrar o céu dentro de si. Para La Rochefoucauld quem não consegue encontrar a felicidade em si mesmo, é inútil pro- curá-la em outra parte. Segundo Aristóteles (384-322 a. C.) a felicidade não se encontra nos bens exteriores e para Marco Aurélio a felicidade do homem depende se si mesmo. Paul Valéry (1871-1945) referiu que homem feliz é aquele que, ao despertar, se reencontra com prazer e se reconhece como aquele que gosta de ser, ou «a felicidade é, antes do mais, sentir-me», como nos refere um adolescente entrevistado neste estudo.
Se observamos a sociedade contemporânea vemos que apesar de todos os esforços materiais, o homem encontra-se cada vez mais solitário e insatisfeito com a vida porque apesar de todo o progresso material o indivíduo sente inimizade e infelicidade, a nível individual e colectivo ou nacional.
Pode afirmar-se que a procura do bem-estar constitui um objectivo da existência humana. Certamente o bem-estar psicológico dominará as preocupações dos investigadores no século XXI (Barros, 2002). O bem- -estar é uma característica mais ou menos estável da personalidade, um estilo cognitivo sobre como o sujeito se relaciona consigo próprio (no seu raciocínio moral), com os outros e com as situações da vida quotidiana (na família, na escola ou emprego, na política, no desporto e noutras manifestações sócio-culturais). Contrasta com a solidão e a insatisfação com a vida. As experiências íntimas são uma fonte importante de bem- -estar individual.
No que se refere à satisfação com a vida, aparentemente a satisfação na relação é determinada de forma complexa. As percepções do par- ceiro são importantes. As influências acontecem dentro de um contexto de intimidade na relação. Muitos constructos estão relacionados ou determinam a satisfação com a vida. Hendrick et al. (1998) dão o enfo- que nos constructos de intimidade na relação a dois como a tomada de perspectiva: empatia, auto-revelação, conflito, competência relacional e amor.
A empatia é a capacidade de resposta de uma pessoa a uma experiên- cia corrente de outra pessoa (Davis e Oathout, 1987). Uma componente chave da empatia é a tomada de perspectiva, definida como a capacidade de compreender uma outra pessoa e colocar-se no seu lugar. O com-
portamento de tomada de perspectiva geral está associado à satisfação com a vida e bem-estar. A tomada de perspectiva de intimidade numa relação de amizade ou amorosa a dois refere uma tomada de perspectiva numa relação íntima, específica e está correlacionada com a tomada de perspectiva geral. Enquanto a tomada de perspectiva geral é mais dispo- sicional e operacional numa grande variedade de relações, a tomada de perspectiva numa relação a dois é uma construção definida mais relacional: a sua presença ou ausência pode estar implantada e atribuída ao contexto da relação.
Os indivíduos têm expectativas básicas acerca da relação de intimidade no que diz respeito ao grau em que os parceiros devem compreender o seu ponto de vista. Uma falha na satisfação dessas expectativas bási- cas resulta numa diminuição da satisfação na relação de intimidade (Long e Andrew, 1990). Se os parceiros são sensíveis ao ponto de vista dos outros em geral, mas não conseguem esta consideração especial para o seu próprio parceiro de amizade íntima ou parceiro amoroso, estes parceiros registam mais solidão, satisfação reduzida e mais pen- samento em acabar com a relação de intimidade (Long e Andrew, 1990). É crítico para a satisfação com a vida e para a estabilidade da relação de intimidade. Um dos meios de mostrar tal empatia é através de uma relação de intimidade baseada na comunicação relacional através da auto-revelação (Davis, 1994; Davis e Oathout, 1987).
A auto-revelação, é qualquer revelação voluntária de informação que revela algo acerca de nós que é considerada pessoal (Antill e Cotton, 1987) e contribui para a satisfação nas relações de intimidade. Exis- tem duas hipóteses relativas à influência da revelação auto-registada e aquela percepcionada pelo parceiro. O modelo da reciprocidade diz que o nível de satisfação depende do nível de revelação oferecido pelo parceiro. O modelo do efeito directo diz que o nível de satisfação depende do próprio nível de auto-revelação e do parceiro num grau menor.
Outro aspecto chave da intimidade nas relações de amizade e de amor é o modo como se lida com o conflito, pois alguns conflitos são inevitáveis nas relações de amizade e nas relações românticas íntimas (Christensen e Walczynski, 1997). Existem três tipos de tácticas de conflito ou estra- tégias de comunicação (Canary e Emmers-Sommer, 1997) utilizadas durante as situações de conflito: «integrativa» que integra (tácticas que envolvem a partilha de informação, colaboração e negociação), «evita- mento» que evita e previne (tácticas que implicam mudança de tópicos, recusa de conflito e enfoque semântico) e distributiva (tácticas destru- tivas como crítica, mostrar fúria e sarcasmo).
Estudos mostram que durante situações de conflito os pares e casais não ansiosos têm afirmações «integrativas», orientadas para as ques- tões, sendo ou verbais e não verbais positivas ou neutras, assim como uma natureza cognitiva e virada para a solução de problemas (Canary e Spitzberg, 1989). As capacidades de comunicação compostas de reve- lações afectivas e capacidade de resolver problemas são indicadores fortes de intimidade e satisfação porque os comportamentos «integra- tivos» contribuem para interacções mais compensadoras, com mais probabilidade de solução de conflitos e com maiores níveis de intimidade e bem-estar, de satisfação com a vida e felicidade (Canary e Emmers- -Sommer, 1997).
Os padrões de interacção nos pares de amizade e nos casais amorosos insatisfeitos indicam que os pares ansiosos não têm capacidade de res- posta apropriada. Tendem a ser críticos, exigentes, ciumentos, solitários e orientados para eles próprios, com uma natureza defensiva e menos orientada para a solução de problemas. As tácticas que evitam o conflito estão correlacionadas com a probabilidade da solução do conflito e dimi- nuem a satisfação com a vida (Canary e Spitzberg, 1989).
A competência relacional é a característica geral envolvida no desen- volvimento e manutenção das relações satisfatórias (Hansson, Jones e Carpenter, 1984). É também a capacidade de comunicar de modo eficaz e apropriado com o parceiro (Spitzberg e Hecht, 1984). A competência relacional é um atributo percepcionado de um indivíduo com efeitos directos e significativos sobre a satisfação com a vida e o bem-estar (Hansson et al., 1984; Spitzberg e Canary, 1985).
A competência relacional envolve três factores: a competência «uma impressão interpessoal da qualidade de um desempenho de comunica- ção em particular», o ser apropriado «resultado da comunicação que evita uma clara violação das regras relacionais ou expectativas» e a efi- cácia «ponto até ao qual os objectivos dos actores são atingidos» (Canary e Cupach, 1988, p. 310).
Em situações em que tanto o indivíduo como o parceiro usam as tácticas de conflito «integrativas» (Canary e Spitzberg, 1989), a percepção dessa utilização contribui para uma avaliação positiva das competências rela- cionais gerais do parceiro (Canary e Cupach, 1988), e para sentimentos de maior confiança, intimidade, controlo mútuo, satisfação e bem-estar para o parceiro. A percepção das tácticas de conflito distributivas leva a uma avaliação negativa do episódio de conflito (Spitzberg e Canary, 1989).
Canary e Cupach, (1988) referem que os casais de namorados que per- maneciam juntos e os que se separavam mostravam mais amor paixão, auto-revelação, auto-estima, compromisso, investimento e satisfação e menos jogos de amor. As pessoas que dão valor às relações íntimas têm mais tendência para adoptarem estratégias de conflito que realçam a relação, enquanto que os que dão menos valor às relações íntimas abordavam o conflito de modo mais egoísta.
Este capítulo centrou-se no processo de conceptualização e análise do constructo teórico da intimidade, para tal apresentaram-se os cinco níveis de intimidade (Prager, 1998), as relações íntimas na adolescên- cia. Analisaram-se as relações de intimidade com os pais e com o(a) amigo(a) do mesmo sexo. Paralelamente à análise das diferenças de intimidade, género e cultura focalizou-se a relevância da intimidade no bem-estar do adolescente. No capítulo seguinte iremos proceder à apre- sentação do constructo teórico da amizade, sua análise, relações nos grupos de pares e influência das variáveis psicossociais.
CAPÍTULO II – AMIZADE
«O sorriso aberto e o olhar vivo davam-lhe um ar adolescente. Alguma vez soubeste que eu me reprimia contigo? Um certo medo de te desagradar e de te perder, como quando infantil- mente te levei a minha fotografia na ideia adolescente de tu saberes quanto te amava.»
Ferreira V., Cartas a Sandra, p. 112