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CHAPITRE 2 : ANALYSE FONCTIONNELLE

2. C APTURE DES BESOINS FONCTIONNELS

2.2. Exigences fonctionnelles

2.2.2. Module Administration

A opção por uma metodologia compreensiva, já descrita neste capítulo, pode levantar algumas questões de  natureza  metodológica,  nomeadamente  (Guerra,  2010):  “Estamos  perante  a  ‘explicação’  ou  a  ‘interpretação’  do  social  e  o  que  significam  esses  conceitos?  (...);  Como  se  poderá  dispensar  uma  representatividade  estatística  a  favor  de  uma  representatividade  social?  (...);  Qual  a  epistemologia  da  relação entrevistado/entrevistador e como equacionar a ‘perda de objectividade’? (...); Haverá oposição na  passagem de metodologias dedutivas para metodologias indutivas (...) na análise sociológica?” (p.12).  Para responder à primeira questão, neste trabalho coloca‐se um pouco de parte a procura das causas dos  fenómenos sociais e baseia‐se a análise em hipóteses de relacionamento entre variáveis, ou seja, há uma  recusa  em  interpretar  a  realidade  de  forma  linear  e  determinista,  analisando‐se  universos  sistémicos  e  complexos em que as variáveis identificadas poderão ser, em simultâneo, causas e efeitos, das acções de  umas e outras.  

Relativamente  à  segunda  questão,  a  resposta  é  que,  numa  análise  compreensiva,  a  preocupação  central  não  é  a  definição  de um  conjunto  de  sujeitos  estatisticamente  representativos,  mas sim  de  um  grupo  de  sujeitos  “socialmente  significativos,  reportando‐nos  à  diversidade  das  culturas,  opiniões,  expectativas  e  à  unidade  do  género  humano”(Guerra,  2010,  p.  20).  E  garantir  esta  “representatividade  social”  é  fundamental nas investigações que utilizam entrevistas em profundidade, como foi o caso deste trabalho.   Já relativamente à questão do risco da perda de objectividade do entrevistador, esta é de facto uma das  críticas  que  frequentemente  é  apontada  às  metodologias  de  investigação  compreensivas.  E  também  se  podem  levantar  questões  de  ordem  ética,  que  se  colocam,  não  só  pela  relação  algo  intimista  que  se  estabelece  entre  o  entrevistador  e  o  entrevistado,  mas  também  pelo  risco  de  ser  possível  identificar  os  entrevistados e assim quebrar o compromisso de confidencialidade. No entanto, Guerra (2010) argumenta  que não se deverá dar tanta importância às questões de ordem afectivo‐relacional que se levantam quando  se  trata  de  entrevistas  em  profundidade,  porque,  segundo  a  autora,  a  entrevista  exige  o  mesmo  que  qualquer  outra  técnica  de  recolha  de  informação  que  decorre  do  estabelecimento  de  uma  relação  de  confiança, concretamente neutralidade e controlo dos juízos de valor, confidencialidade, clareza de ideias e  devolução  de  resultados.  Assim  sendo,  devem  sim,  ser  garantidos  os  dois  principais  princípios  éticos:  informar correctamente os indivíduos acerca dos objectivos da investigação e proteger as fontes. 

No que diz respeito à última questão, da oposição na passagem de metologias dedutivas para as indutivas,  o trabalho de construção do objecto, da análise e das hipóteses é feito em contínuo, desde o início até ao  fim  da  pesquisa.  O  que  também  diferencia  estas  metodologias  é  o  papel  que  cada  uma  delas  atribui  à  teoria,  no  processo  de  investigação.  Concretamente,  nas  metodologias  hipotético‐dedutivas,  o  que  é  definido a priori é colocado no contexto da prova, ou seja, a principal função da investigação é a verificação 

de  uma  determinada  teoria  enquanto  que  nas  metodologias  compreensivas,  as  relações  entre  variáveis  potencialmente  explicativas  de  um  determinado  fenómeno  são  colocadas  no  contexto  da  descoberta,  e,  neste  contexto,  o  investigador  procura  a  formulação  de  conceitos,  teorias  ou  modelos  com  base  num  conjunto de hipóteses que tanto podem surgir durante ou no final da investigação. Importa enfatizar que as  metodologias compreensivas não recusam a ideia da prova, apenas esta é accionada mais tarde quando são  formuladas  as  primeiras  hipóteses  a  partir  de  um  contexto  empírico  já  trabalhado.  As  metodologias  compreensivas privilegiam o contexto da descoberta, recorrendo ao conceito da indução para fundamentar  o processo de análise e a relação entre a teoria e o saber empírico. E a indução analítica consiste em partir  do concreto para o abstracto, identificando‐se as características centrais de um determinado fenómeno e  deduzir,  se  possível,  uma  explicação  universal  (Guerra,  2010).  A  teoria  vai‐se,  assim,  construindo,  num  processo  evolutivo,  sendo  esta  o  ponto  de  chegada  deste  método  e  não  um  ponto  de  partida.  E  será  da  interacção  entre  os  quadros  de  referência  conceptuais  disponíveis  e  os  dados  que  são  recolhidos  no  terreno, que surgem as variáveis explicativas, construção que é feita no decorrer da pesquisa. Ainda assim,  importa  referir  que  este  método  de  investigação  não  tem  que  ser  tão‐somente  indutivo,  até  porque,  quando  o  investigador  chega  ao  campo,  terá,  por  um  lado,  objectivos  de  pesquisa  bem  definidos,  bem  como pode ter já em mente um determinado quadro conceptual, tal como aconteceu neste trabalho. Assim  sendo, neste tipo de investigação,  a indução e a dedução andam a par. 

Importa  ainda  discutir  a  razão  da  opção  pelas  entrevistas  aprofundadas,  exploratórias,  individuais  e  semiestruturadas, a peritos, neste trabalho, e não por outro método, nomeadamente o método de Delphi  ou o Focus Group que, à partida, também se adequariam ao estudo em causa. Antes de mais, o recurso a  entrevistas ainda continua a ser o meio mais comum de recolha de informação em investigação qualitativa,  tendo como objectivo a obtenção da perspectiva dos entrevistados sobre o tema ou temas em estudo, bem  como  captar  as  razões  que  estão  por  detrás  desse(s)  mesmo(s)  pontos  de  vista.  E,  para  conseguir  atingir  esse objectivo, neste caso, o grau de estrutura da entrevista que o entrevistador impôs aos entrevistados  foi  relativamente  baixo  e  com  uma  preponderância  de  questões  abertas.  Nesta  situação  concreta,  o  entrevistado  é  entendido  como  um  participante  activo  no  processo  de  investigação,  podendo  até  influenciar  o  curso  da  entrevista,  ao  invés  de  apenas  responder  passivamente  às  questões  previamente  estabelecidas pelo entrevistador (King, 2004). As entrevistas semiestruturadas, individuais, a informadores  privilegiados,  que  se  consideraram  adequadas  a  este  estudo  exploratório  contribuíram  assim  para  a  construção do modelo de análise, bem como para a construção de interpretações hipotéticas da realidade  em  estudo,  fundamentais  para  a  fase  seguinte,  a  de  observação.  Importa  ainda  referir  que,  com  estas  entrevistas,  o que  se procurou  foi  a diversidade, ou  seja,  procurou‐se garantir  a heterogeneidade  exigida  nos  perfis  dos  entrevistados,  bem  como,  no  que  diz  respeito  ao  entrevistador,  ser  o  menos  directivo  possível,  para  garantir  maior  riqueza  do  conteúdo  recolhido.  Não  se  deixou,  no  entanto,  de  explicar  o  objectivo da entrevista e os seus temas, havendo assim alguma orientação temática das entrevistas, com 

uma entrevista mais aberta inicialmente, com um fecho progressivo à medida que as questões centrais iam  sendo identificadas.  

Relativamente  à  não  opção  pelo  método  de  Delphi,  um  processo  estruturado  que  permite  receber  as  opiniões  de  especialistas  através  da  realização  de  questionários  intensivos,  interpolados  por  feedbacks  controlados  de  opiniões,  sob  a  forma  de  rondas,  e  cujo  objectivo  é  obter  o  consenso  de  opiniões  de  um  grupo  de  especialistas,  este  apresenta,  segundo  Munaretto,  Corrêa  &  Cunha  (2013)  e  Correia  (2010)  um  conjunto de desvantagens, de onde se destacam as que, de alguma forma, justificaram a sua exclusão neste  trabalho  como  método  de  recolha  de  dados.  Em  primeiro  lugar,  o  facto  do  participante  responder  ao  questionário sozinho pode fazer, por exemplo, com que este não se lembre de tudo o que pensa sobre o  assunto  e,  em  segundo  lugar,  e  uma  vez  que  no  decorrer  das  discussões  existe  feedback,  ou  seja  os  participantes  recebem  opiniões  e  comentários  dos  outros  especialistas,  isso  poderá  levar  à  revisão  de  posições  assumidas  inicialmente  existindo  o  risco  de  se  obter  consensos  artificiais,  demasiado  rápidos  e  com  menor  aprofundamento  dos  temas  em  análise.  Outro  risco  poderá  ser  a  possibilidade  de  não  se  explorar e até de serem ignoradas as opiniões dissonantes, reforçando a ideia do resultado poder ser o de  um consenso artificial. 

Relativamente à técnica de Focus Group, esta tem como objectivo a recolha de dados através da interacção  de um grupo de especialistas, que se traduz numa discussão conduzida por um moderador, que traz consigo  um conjunto de tópicos previamente preparados para serem aprofundados pelo grupo. Nestes encontros,  os  participantes,  para  além  de  exporem  a  sua  opinião,  são  incentivados  a  participar  pelo  próprio  moderador, podendo trazer para a discussão novos temas relacionados com o tema central. Importa ainda  recordar  que,  com  esta  técnica,  se  procura  explorar  percepções  colectivas  e  não  individuais,  devendo  o  moderador  garantir  a  participação  de  todos  os  membros  do  grupo  na  discussão.  Não  se  pretende  aqui  necessariamente obter um consenso, sendo fundamental que os participantes exponham as suas opiniões e  que estas sejam debatidas, para que se identifiquem os padrões e tendências dos grupos analisados, grupos  esses  que  devem  ser  o  mais  homogéneos  possível.  Concretamente,  pode  existir  uma  opinião  preponderante, mas não há necessariamente um consenso ou uma opinião grupal. Também Munaretto et  al. (2013) apresentam algumas desvantagens na utilização desta técnica e que fundamentam a não opção  por  este  método  de  recolha  de  dados  neste  trabalho,  nomeadamente  as  tendências  grupais  que  podem  conduzir à conformidade de opiniões e à opressão de um ou outro participante pelos outros participantes,  bem como, no caso de temas mais controversos, os participantes poderem ser levados a concordar com a  opinião  da  maioria.  Outro  dos  riscos  desta  técnica  é  o  de  as  discussões  serem  dominadas  por  poucas  pessoas, acabando assim os resultados por representar a opinião de poucos participantes. 

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