3.1 – O problema
A gravidez e a maternidade na adolescência são consideradas um problema social e de saúde pública em muitos países ocidentais desenvolvidos e em desenvolvimento. Em Portugal, a proporção de nados vivos de mães adolescentes (10 a 19 anos) situou-se em 5% dos nascimentos no ano de 2005 (INE, 2006). No Brasil, a percentagem de nascimentos de bebés de mães adolescentes é, em média, acima dos 20% do total de nados vivos (MS- Brasil, 2006b).
Pela relevância do tema, pelo modo como as adolescentes são afectadas por uma gravidez e também como a maternidade precoce pode afectar os filhos dessas jovens mães, foi proposto este trabalho, que tem como objectivo principal conhecer a realidade actual nos seus vários aspectos, da gravidez e maternidade na adolescência no município de Uberaba, no estado de Minas Gerais, Brasil.
A gravidez na adolescência em Uberaba apresenta percentagens elevadas. Situa-se em torno de 19% dos nascimentos ocorridos no município nos últimos anos e não está entre as percentagens mais elevadas do Brasil, que se encontram nas regiões norte e nordeste do Brasil.
3.2 – Tipo de Estudo
O estudo realizado é descritivo e transversal. Segundo Carmo & Ferreira (1998) é descritivo porque estuda, compreende e explica a situação actual do objecto de investigação, neste caso, a gravidez e a maternidade na adolescência num município brasileiro e transversal porque estuda um grupo ou população, as adolescentes grávidas ou mães, em um momento específico do tempo.
A investigação empírica foi executada em duas partes sendo inicialmente realizada uma análise dos nascimentos ocorridos no município nos anos de 2001 a 2005, através do estudo das bases de dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos – SINASC. Na segunda parte do trabalho empírico foram realizadas 25 entrevistas às jovens gestantes e mães adolescentes, na faixa etária entre 14 e 19 anos com o objectivo de conhecer o perfil dessas jovens, algumas questões sobre sua saúde, o seu percurso de vida e as suas perspectivas actuais e futuras.
3.3 – Amostra
Na primeira parte do estudo empírico foram analisadas as bases de dados do SINASC, nos anos de 2001 a 2005.
Na segunda parte, a amostra estudada constituiu-se de 25 jovens adolescentes entre os 10 e 19 anos, grávidas e/ou mães, que compareceram para atendimento ou consulta de acompanhamento pré-natal no Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher – CAISM, unidade de referência para saúde da mulher, na Unidade Básica de Saúde Rosa Maria e em algumas residências de jovens gestantes contactadas através dos serviços de saúde em que procuraram consulta médica, no município de Uberaba, estado de Minas Gerais, durante o mês de Março de 2007. A opção por estes dois serviços de saúde deu-se através de um estudo anterior sobre a rede de atenção à saúde (Saúde, 2006) que, analisando todos os serviços onde eram realizados os acompanhamentos de pré-natal na rede pública de atendimento, verificou-se que estes dois serviços realizaram no ano de 2005, cerca de 75% do total de atendimentos de acompanhamento pré-natal da rede pública de saúde – SUS, do município, sendo assim mais acessível o encontro com as adolescentes gestantes e mães.
3.4 – Recolha dos dados
Para a primeira parte do trabalho houve autorização verbal da Directoria de Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde, para a utilização das bases de dados do SINASC, para a construção da série histórica e análise da frequência e percentagem dos nascimentos de bebés de mães adolescentes (com idades entre os 10 e 19 anos), comparativamente aos nascimentos de bebés de mães adultas (com 20 anos e mais) residentes no município de Uberaba e que ocorreram durante os anos de 2001 a 2005.
O instrumento de recolha de dados (anexo nº 1 p. 213) da segunda parte do trabalho (inquérito por entrevista) foi previamente elaborado pela investigadora, a partir de leituras e entrevistas a informantes qualificados, profissionais de saúde que trabalham com adolescentes. Foi realizado um pré teste com o instrumento junto a um grupo de jovens para melhor adequação do mesmo e para se atingir os objectivos propostos no trabalho.
A solicitação de autorizações junto às chefias dos serviços e aplicação do instrumento de recolha de dados foi realizada durante o mês de Março de 2007, sendo o instrumento aplicado directamente pela investigadora.
Para a aplicação do instrumento foi realizada uma solicitação de autorização (anexo nº 2 p. 218) aos serviços de saúde onde foram atendidas as jovens. Inicialmente as jovens eram contactadas e informadas sobre a pesquisa e os seus objectivos, verbalmente e através de um “Termo de Esclarecimento” escrito (anexo nº 3 p. 219). Posteriormente ao esclarecimento e concordância das jovens e seus pais/mães ou responsáveis, no caso das menores de 18 anos, era solicitado às jovens e responsáveis que assinassem o “Termo de Consentimento após Esclarecimento” (anexo nº 4 p. 220). As entrevistas foram realizadas sempre individualmente, com a presença somente da investigadora e da jovem gestante, para evitar possíveis constrangimentos da jovem para responder às perguntas na presença de outras pessoas. Os critérios de inclusão na amostra adoptados nesta pesquisa foram as jovens adolescentes grávidas, com idades entre os 10 e 19 anos, que compareceram para atendimento médico nas unidades de saúde e que aceitaram colaborar com a pesquisa.
As entrevistas foram realizadas em salas de atendimento dos serviços e nas casas das jovens, às quais tínhamos realizado o contacto prévio nos serviços de saúde.
3.5 - Variáveis em estudo
Para a primeira parte do trabalho foram analisadas as variáveis contidas na “Declaração de Nascido Vivo” – DN (p. 106), com referência à mãe, tais como:
1 – Local de ocorrência do nascimento da criança; 2 – Idade;
3 – Estado civil; 4 – Escolaridade; 5 – Ocupação habitual;
Com referência à gestação e ao bebé foram observadas as seguintes variáveis: 1 – Duração da gestação;
2 – Tipo de parto;
3 – Número de consultas de pré-natal; 4 – Peso da criança ao nascer;
5 – Presença de anomalias congénitas.
Não foram analisadas todas as variáveis constantes da DN por considerar-se não apresentarem relevância para os objectivos do estudo.
Para a segunda parte do trabalho foram analisadas as seguintes variáveis: 1 – Demográficas: idade da jovem, estado civil, origem étnica, religião;
2 – Socioeconómicas: escolaridade, trabalho/emprego, rendimento familiar;
3 – Familiares: número e idade dos irmãos, situação de coabitação anterior e actual da jovem, idade da mãe da adolescente quando teve o primeiro filho;
4 – De saúde e sexualidade: idade da menarca, idade da primeira relação sexual, conhecimento e utilização de métodos contraceptivos e acompanhamento pré-natal;
5 – Sobre o pai do bebé: idade do pai do bebé;
6 – Sobre a gravidez: desejo da gravidez, sentimentos em relação à gravidez, suportes sociais formais e informais e projecto de vida.
3.6 – Métodos de análise das informações
A análise das bases de dados do SINASC foi realizada utilizando o programa informático EpiInfo 3.3.2 que é uma série de programas informáticos para uso de profissionais de saúde pública que trabalham com investigações de epidemias, administram bases de dados de vigilância epidemiológica e outras, incluindo bases de dados gerais e análises estatísticas. É um programa de domínio público e disponibilizado gratuitamente para uso, cópia, tradução e distribuição pelo CDC – Centers for Disease Control and Prevention – Atlanta (www.cdc.gov/epiinfo). Foram realizados quadros e gráficos referentes às frequências e percentagens das variáveis em estudo, constantes na DN, de mães adolescentes (10 a 19 anos) comparativamente às mães adultas (20 anos e mais).
A análise das entrevistas com as gestantes foi realizada através da utilização do software EpiInfo 3.3.2 para as questões fechadas e pela análise de conteúdo para as questões abertas. A técnica de análise de conteúdo segundo Berelson é “a descrição objectiva, sistemática e quantitativa do conteúdo manifesto da comunicação” (Vala, 2001 p. 103). A análise de conteúdo é uma das técnicas mais comuns nas investigações empíricas realizadas pelas diferentes ciências sociais e humanas. Na análise de conteúdo, o ponto de partida é a mensagem, mas deve ser considerado em que contexto os indivíduos produziram os discursos e molda-se na concepção crítica e dinâmica da linguagem. Deve- se considerar não apenas o significado das palavras e dos enunciados mas também a interpretação do sentido em que um indivíduo atribui às mensagens.
Segundo Bardin (1977) é um conjunto de técnicas de análise das comunicações que visa obter, através de procedimentos sistemáticos e objectivos, a descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção e recepção das mesmas.
As entrevistas realizadas com as adolescentes foram gravadas e posteriormente transcritas e estudadas através da análise temática e categorização das falas das jovens. Foram elaboradas selecções dos temas, criadas unidades de categorização onde os elementos encontrados no conteúdo do texto foram agrupados em categorias. Dessa forma, foram realizadas distribuições de frequências à partir dos conteúdos dos textos escritos, no caso deste trabalho, dos inquéritos por entrevista realizados com as jovens adolescentes gestantes e mães.
A abordagem qualitativa também é realizada através da categorização dos elementos do texto, que com suas particularidades visam esclarecer as diferentes características e significados do discurso. A análise de conteúdo focaliza, num primeiro momento, o conteúdo evidente. Posteriormente, pode-se aprofundar a análise para se perceber os elementos ocultos ou simbólicos da mensagem. Nessa investigação os conteúdos foram organizados à partir de temas e categorias construídas à partir do objecto de análise, o discurso das jovens gestantes e mães.
4 – APRESENTAÇÃO, ANÁLISE E