8.2 Encoding and decoding model in the problem of identification of images from fMRI
8.2.3 A modified version of the encoding model
Pesquisadora: “Como os surdos acessam ao Ensino Superior?”
P1: “Tendo a possibilidade e alçando ao Ensino Superior, a gente vai ter que trabalhar com isso. Ela caiu de paraquedas num ambiente com todos os desafios possíveis”. (APÊNDICE E, P1, Questão 4).
Pesquisadora: “Estudantes com deficiência têm acessado o Ensino Superior?”
P2: “Não tem acesso, tem que criar, o que eu sei é que tem alunos em iniciativas como a do CAUM24, se eu não me engano, lá tem são onze surdos, um número que eu acho razoável pra gente pensar, mas eu vejo assim [...] teve uma menina que quebrou o pé lá (risos) e momentaneamente teve uma deficiência, uma insuficiência pelo menos e foi uma batalha pra gente conseguir uma sala no térreo. Eu acho que a universidade não esta preparada para o para o deficiente de nenhum tipo [...] nem a sala de aula. Estou te falando que para o canhoto a gente tem que ir buscar cadeira.”
Pesquisadora: - “O que levaria a existência dessas iniciativas?”
P2: “Esse recorte que foi meio transversal, a estudante tem muita dificuldade, um nível primário, entendeu?”
Pesquisadora: “Sim.”
P2:” porque se ela tivesse na infância tido boa formação teria mais oportunidades.” Pesquisadora: E como esse público tem acessado ao Ensino Superior?
P2: “No caso da estudante que é o caso que eu conheço, por esforço lá do grupo que está promovendo essa inserção ali no CAUM né? E a partir desse projeto [...] Não sei como as pessoas se organizaram pra chegar nesse projeto, se os professores responsáveis por isso foram até a associação de surdos, imagino que sim, porque é um grupo razoável de surdos e não acho que seja uma organização natural e que todos eles tenham vindo pro CAUM, eu
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Cursinho Alternativo da Unesp de Marília (CAUM), um projeto em que um grupo de estudantes da própria universidade e professores da rede pública ligado ao Laboratório de Linguagem e Surdez / Lalis– Unesp.
acho que houve uma busca dessas pessoas e acho muito interessante isso porque é uma ação e ela está ativa.”. (APÊNDICE E, P2, Questão 4).
P3: “Ela é o primeiro caso no nosso curso.” (APÊNDICE E, P3, Questão 4).
Pesquisadora: “E como será que os surdos estão chegando ao Ensino Superior?”
P4: “Ah...então... eu fiquei bastante contente de saber que haviam mais nove candidatos também com deficiência auditiva, que passaram pelo projeto do cursinho” CAUM”.(APÊNDICE E, P4, Questão 4).
Pesquisadora: “O que você entende por necessidades educacionais especiais?”
P5: “Seria importante nós professores estarmos recebendo maiores informações, pois as demandas são inúmeras, não sobrando oportunidades de nos formar melhor para isso”. (APÊNDICE E, P5, Questão 7).
O primeiro tema tratado nas entrevistas relaciona-se com os sentidos políticos e ideológicos que propiciaram o acesso da estudante surda à universidade e os primeiros impactos nesse sentido. Durante o diálogo, fizemos uma reflexão sobre os mecanismos de acesso e avaliamos os problemas que afetam a estudante, frente às atitudes do contexto que deve acolher aqueles grupos historicamente excluídos da universidade.
Entretanto, os docentes salientam que a possibilidade de acesso não ocorre no processo formativo, especialmente no Ensino Médio, e concluem que a chegada de surdos na universidade se dá pelos mecanismos existentes nos vestibulares, a exemplo das políticas afirmativas ou de iniciativas de ONGs e grupos de pesquisa de universidades para o preparo dos estudantes surdos para a prova de vestibular.
Um exemplo disso, elencado durante as conversas, é o Cursinho Alternativo da Unesp de Marília (CAUM), onde se ministram aulas referentes aos conteúdos cobrados no vestibular aos surdos que passaram por um processo escolar que não favoreceu sua aprendizagem e também os auxiliam a compreenderem os dizeres do edital dos processos seletivos.
Além disso, no momento da realização da prova de vestibular, o grupo busca o cumprimento legal, no que se refere aos direitos dos candidatos surdos, especialmente com base no Decreto nº. 5.626/2005 (BRASIL, 2005c), que legisla sobre a obrigatoriedade de o processo seletivo ser disponível em Libras, com a presença de intérpretes, além de definir critérios de flexibilidade na correção das provas, pautados na diferença linguística, já que o surdo é usuário da língua portuguesa como segunda língua.
Com o apoio dessa iniciativa, a estudante acessou a universidade, engrossando o pequeno índice de surdos que conseguem passar por essa etapa, indo na contramão do processo escolar, que, na realidade, tem obstruído essa conquista para esses indivíduos.
Trazendo a literatura para nos auxiliar a compreender esses diálogos, Martins e Lacerda (2015) alertam que os estudantes das escolas públicas têm em geral um rendimento abaixo da média nas avaliações externas, pela má qualidade formativa dos anos escolares, pois a preocupação com a socialização impera sobre os objetivos de aprendizagens. Para as autoras, tal situação se agrava quando se trata do surdo, cuja escolarização ocorre mediante um processo que não contempla suas necessidades linguísticas, exigindo uma reavaliação do modelo inclusivo vigente. P2 faz referências a essa situação, denotando que o baixo índice de estudantes surdos na universidade ocorre pela falta de habilidades para o exercício do exame vestibular, provocada por uma defasagem que vem se alastrando ao longo dos anos de escolarização.
Ao dialogar sobre essa iniciativa, P1 pondera que essa experiência possibilitou o ingresso da estudante graças a um trabalho pensado no surdo, então, a universidade também precisa mover ações e se responsabilizar pela presença da graduanda, pensando em propostas, ações e políticas institucionais que valorizem suas características.
Ela se remete ao tempo vivido numa experiência enquanto docente em uma universidade privada, narrando o caso de uma estudante surda no curso de Arquitetura, que, desde o primeiro ano, contou com a presença de intérpretes e pôde concluir a formação. A professora avalia que a Unesp não se programa para receber os estudantes surdos, não comunica os professores sobre a chegada deles e nem busca recursos e profissionais para remover as barreiras.
Em relação à falta de informações sobre a vinda da estudante, refletimos com os docentes sobre suas angústias no momento em que souberam, de forma casual, mediante percepção ou contato com colegas do curso. Nesse diálogo, eles sentiram a necessidade de partilhar os sentidos conosco na linguagem em uso e questionaram a existência dos programas para incentivar os surdos a se inscreverem, mas reconhecem que o problema não se resolve facilmente se outros fatores influenciarem a desistência na graduação.
Em consenso, os professores acreditam ser uma oportunidade positiva para a universidade modificar sua estrutura e redistribuir os privilégios das vagas que antes eram restritas a um determinado público. O contexto começa a se tornar heterogêneo, todavia a mudança esperada não seria no sentido de facilitar, mas de dar condições para a participação.
P1, por exemplo, vislumbra sua futura atribuição na coordenação do curso; atenta para o fato de que a última reestruturação realizada no projeto pedagógico do curso foi feita em 2012 e complementa que irá providenciar uma reestruturação, pensando na presença da estudante, buscando um sentido como um ato de compreensão distante da lógica estabelecida no contexto.
Nessa reflexão, ela traz as vozes de outras pessoas que falaram com ela a respeito da estudante e pensa que seria importante o contato com disciplinas práticas para ampliar a compreensão sobre os termos teóricos, mas, ao mesmo tempo, traz a voz de uma colega de trabalho que atua na prática e pondera que essa ação beneficiaria também aos demais estudantes recém-chegados ao curso que, da mesma maneira, sentem a complexidade dos conteúdos. P1 lamenta não ter muitas informações, ações e recursos ao alcance para melhorar o processo de permanência da estudante surda.
Os participantes descrevem o acolhimento dos professores e dos colegas de turma que foram profundamente alterados pela presença da estudante, causando mobilizações, como a busca por curso de Libras e informações sobre a constituição da aluna e recursos tecnológicos para tornar o ambiente coerente, mas, com o tempo, foram percebendo a demanda maior por responsabilidade da instituição.
Tal percepção nos mostra que o primeiro impacto levou os atores do contexto a fazerem algo para tornar a passagem da estudante pelo curso positiva, mas apesar dessas boas intenções, tomaram consciência dos limites que não poderiam ultrapassar nessa via de mão dupla, pois ao ajudar, tudo parece resolvido para universidade que não toma medidas cabíveis, mas que tem condições de resolver. Por outro lado, sentimos na fala dos professores a sensação de negligência em esperar pela vontade política e a pressa por uma atitude por parte da estudante surda e sua família para resolver essas questões.
Em evidência a afirmativa anterior, P3 e P4 contaram que, inicialmente, a estudante iria desistir do curso, mas os professores, mediante a presença da TILSP voluntária nesse processo, se apresentaram a ela perspectivas para o futura profissional a fim de convencê-la a continuar frequentado a graduação, mas sempre havendo a iminência de abandonar por falta de contratação efetiva de um intérprete e consequentemente pelo distanciamento dos conceitos do curso que tornam cada vez maior.
P3 sente um aborrecimento imaginando o cotidiano da estudante no contexto com barreiras até mesmo para frequentar outros ambientes como biblioteca, seção de graduação, xerox, cantina, eventos científicos sem garantias, recursos e funcionários que saibam Libras, num ambiente voltado para ouvintes.
Todavia, os participantes afirmam que a entrada da estudante provocou mudanças neles próprios, conhecendo a cada dia a forma como o surdo aprende e suas diferenças e, apesar de sua chegada ao Ensino Superior ser sinônimo de dúvidas e desafios, os enunciados dos professores nos revelam que essa presença funciona como um “start” para alçar novos caminhos e possibilidades, fomentando mudanças pensadas nas peculiaridades formativas dos surdos.
O sentimento em relação aos surdos que ingressam no Ensino Superior é o da possibilidade de se graduarem e participarem de profissões que outrora não podiam exercer, ganhando saberes e qualificação que os fortaleçam para reivindicar a efetivação das demandas como, por exemplo, educação bilíngue no país, afastando os estigmas sobre a surdez que proliferam e resultam numa educação que está longe de atender a esses sujeitos.