Se por um lado a invenção de Gutenberg aumentou a circulação das palavras escritas, também ajudou a divulgar mais imagens e para outros propósitos. A prensa móvel de Gutenberg (inventada por volta de 1440-1450) nada mais é do que um aparelho de xilogravura em larga escala, cheio de minimatrizes reutilizáveis – os tipos móveis que continham as letras. Mas também é possível colocar matrizes maiores nas páginas da prensa, matrizes essas com desenhos e artes, e foi isso que aconteceu também. Depois que a prensa móvel e sua técnica se espalharam pela Europa (em cinquenta anos, a prensa móvel passou de uma unidade para duzentos e cinquenta), vários fabricantes de livros aproveitaram para inserir imagens junto com os textos prensados, e isso por vários motivos, como veremos a seguir.
A Igreja Católica aproveitou-se das imagens – especialmente estátuas, vitrais e quadros – para promover-se entre a massa de iletrados que era a Europa da Idade Média. Com a Reforma, porém, Martinho Lutero e outros protestantes tiveram de pensar em formas de concorrer com as ideias católicas já tão sedimentadas no imaginário popular. Burke (1989, p. 246) nos explica que, para os protestantes, “a grande prioridade era tornar a Bíblia acessível
às pessoas simples, numa linguagem que elas pudessem entender.” Por outro lado, as prensas móveis permitiram que milhares de exemplares da Bíblia, traduzidos em diversas línguas além do alemão (como húngaro, francês, inglês, tcheco, galês), passassem a circular por toda a Europa em bem pouco tempo (até meados do séc. XVI). A maioria dessas bíblias era escrita com vocabulário simples e acessível. Ao mesmo tempo, continua o autor, essas bíblias ajudaram a aumentar o capital cultural e literário das línguas em que eram traduzidas.
Apesar dos esforços dos protestantes, porém, Burke explica que ainda estava muito longe de haver bíblias para todos. Por outro lado, e ainda mais grave, a imensa maioria da população europeia era analfabeta. Depois da Reforma, a taxa de alfabetizados entre os protestantes tornou-se bem maior que entre os católicos, e o autor acredita que uma coisa tenha afetado a outra: quanto mais protestantes, mais alfabetizados e vice-versa. Mas como foram atraídos os católicos iletrados? Entre as soluções pensadas pelo próprio Lutero estão as músicas, o teatro e o uso de novos rituais, muito mais teatralizados que os das igrejas católicas: discursos emocionados, com lágrimas e suspiros tanto dos pregadores como nos espectadores, deixavam os encontros protestantes muito mais interessantes. Os primeiros reformadores, continua Burke, perceberam logo que as pessoas comuns absorviam muito mais informação pelos olhos do que pelos ouvidos, e já que o povo não lia, o jeito foi apelar para as imagens e suas possibilidades. Assim, além dos recursos acima mencionados, também imagens desenhadas e impressas, utilizando-se as prensas móveis, foram muito usadas nos primeiros anos da Reforma.
A Bíblia de Martinho Lutero (1545), considerada um marco na literatura e língua alemãs, contém 117 xilogravuras feitas por Lucas Cranach e impressas por Hans Lufft, além de diversas iluminuras em dourado.54 Lufft foi o maior editor e impressor das bíblias de Lutero. Já Cranach foi um grande artista da época, mais conhecido por seus quadros, mas suas xilogravuras também se destacam pela beleza das imagens e sua força de síntese. As imagens de Cranach foram feitas para ilustrar histórias e trechos específicos – a primeira xilogravura da bíblia de Lutero mostra Adão e Eva no Paraíso (Fig. 16) em três momentos: o primeiro plano mostra Adão e Eva, com Eva segurando uma maçã e acima deles uma serpente também segurando uma maçã com a boca; no segundo plano à esquerda, Adão está escondido atrás de uma espécie de palmeira, enquanto Eva, também escondendo partes do corpo, recebe a reprovação de Deus, que aparece envolto numa aureola brilhante (sim, Deus é representado);
54 Esclarecendo que a primeira bíblia completa (conforme conhecemos hoje) publicada por Lutero é de 1534,
enquanto a bíblia consultada para esta tese é a edição de 1545, ambas contendo xilogravuras. Mas não foi possível descobrir, pelo menos até onde pude pesquisar, se as xilogravuras das duas bíblias são idênticas.
num terceiro plano, mais ao fundo à direita, Adão e Eva estão já fora do Paraíso, e um anjo com uma espada de fogo guarda a entrada para que não possam retornar.
Diversas xilogravuras da época seguiam esse estilo de mostrar mais de uma parte de uma história ao mesmo tempo. Tendo em vista o preço que custava fabricar um livro nos primeiros anos da prensa, é razoável supor que esse estilo de desenho fora pensado justamente para aproveitar ao máximo o espaço e as possibilidade de comunicação da imagem. E isso não foi exclusivo das xilogravuras bíblicas, como veremos mais à frente. Essas xilogravuras formavam uma narrativa em imagens, usando os mesmos mecanismos básicos subjacentes a uma história em quadrinhos; também tinham uma sintaxe, já que seus símbolos permitiam o reconhecimento de signos conhecidos do povo iletrado: personagens e situações bíblicas. Também percebe-se uma omissão total aos séculos de questionamentos sobre o uso das imagens para representar seres humanos e deuses. Ou talvez, mais provável, essa omissão fosse uma vontade deliberada de ignorar tais questionamentos em nome dos valores pastorais das imagens, usando as mesmas estratégias da Igreja Católica.
Cranach ainda colaborou com diversas xilogravuras (27, para ser exato) em outro texto famosíssimo de Lutero: o panfleto Passional Christi und Antichristi (1521), feito para
Figura 16: Adão, Eva a serpente e participação especial de Deus.
contar a passagem da paixão de Cristo às pessoas iletradas, mas também para incutir nestas o ódio pela Igreja Católica.
Outro protestante que se aproveitou da estratégia das xilogravuras para ilustrar melhor seus textos foi Ulrich von Hutten (19-?). Von Hutten foi contemporâneo de Lutero e também buscou ridicularizar a Igreja Católica através de suas Cartas aos Homens Obscuros, mas foi bem mais indiscreto que Lutero nos usos das imagens: cada capítulo de sua obra começa com uma xilogravura, que é uma síntese do assunto, e muitas dessas imagens mostram membros da Igreja em situações comprometedoras, justamente para inflar o ódio também nos leitores iletrados (Fig. 17). Provavelmente seguindo a mesma estratégia de Lutero, de tentar atingir o público católico analfabeto, as ilustrações tornavam-se, em muitos casos, o melhor modo de transmissão da informação na obra de Von Hutten.
Nos três casos dos reformadores acima, as imagens não serviram apenas para ilustrar ou embelezar os livros. Elas tinham propósitos claros de instruir as pessoas que as vissem, pessoas essas que, quase sempre, não dominavam a língua escrita. Nesse sentido, os livros e panfletos dos primeiros anos da Reforma Protestante foram inovadores. A Igreja Católica, que dominou nobres e plebeus por tanto tempo, não havia pensado no poder evangelizador da imagem em nível individual, usando recursos imagéticos de modo mais geral em suas catedrais e posteriores obras de arte. Mas é claro que devemos lembrar que a Igreja dominou em outra época, quando ainda não havia a prensa móvel e nem a ideia de ensinar o povo a ler. E o uso das imagens pelos reformadores também foi algo muito mais individual e localizado: cada reformador e/ou /pregador tinha suas próprias ideias sobre como
Figura 17: A Igreja católica e seus pecados.
usar tal recurso. Por fim, sendo as imagens transmissoras de conhecimento igual às letras, a Bíblia de Lutero foi uma das primeiras traduções multimodais e intersemióticas da História, pois envolveu não apenas a tradução das palavras do latim, mas também, como já dito, muitas passagens foram transformadas em imagens para os leitores da época. E cada imagem contava toda uma história a quem a visse.
Nas reimpressões posteriores as imagens desapareceram. Como dito antes, o protestantismo e o alfabetismo estavam relacionados e talvez as imagens tenham se tornado “desnecessárias” com o aumento dos alfabetizados, ou talvez, como lembra Burke (1989), as imagens, assim como o teatro, tenham sido consideradas, mais uma vez, essencialmente más e descartadas. Assim, a ideia de transmitir informações e conversar com leitores através de outras imagens além das verbais foi abandonada nas religiões.55 Contudo, percebemos aí que as pessoas já intuíam que seria possível contar histórias usando-se imagens.
De fato, os reformadores nem foram os primeiros a fazerem isso no mundo ocidental. Rogério de Campos (2015, p. 24) fala dos bänkelsängers, pequenas trupes
que vagueavam pelo que hoje é a Alemanha desde pelo menos o século XIV apresentando seu teatro sem atores. Um cantor-narrador, um violinista para fazer a trilha sonora e uma lona pintada com a sequência de imagens que contam uma história. Enquanto fazia sua narrativa, o cantor apontava com uma vareta para a imagem de cena correspondente. [...] Uma história em quadrinhos para um público analfabeto.
Haviam grupos equivalentes aos bänkelsängers por toda a Europa, e suas narrativas giravam em torno de crimes reais – contados com minúcias de detalhes – e críticas a determinados grupos ou pessoas – geralmente pessoas que não pudessem prendê-los pelas críticas feitas, como os protestantes e seus líderes em terras católicas e vice-versa, e os judeus em toda parte. Nesse sentido, as trupes tinham forte popularidade entre as camadas mais pobres, e concorriam com as autoridades quando se tratava de informar o povo. Campos compara as narrativas dos bänkelsängers aos jornais de notícias populares de nossa época: escabrosos e sensacionalistas, mas moralistas e reacionários. Por causa disso, e apesar de todo cuidado, era comum a prisão de algum membro, como forma de controlar e/ou censurar seu poder. De qualquer modo, é possível imaginar que os reformadores, entre outros, tenham se inspirado nas trupes para criar seus modelos de narrativas bíblicas.
55 Uma das poucas religiões, talvez a única, que desde sua origem investiu, e ainda investe, pesado em imagens
impressas para atrair novos fieis é as Testemunhas de Jeová. Basta ver o seu site, onde estão disponíveis diversas de suas publicações, novas e antigas, para perceber como as imagens, que podem ser desenhos, gráficos e fotografias, transmitem muitas informações: www.jw.org. Outra característica que merece destaque sobre as Testemunhas de Jeová é seu trabalho impressionante na tradução de seus livros e panfletos para as mais diversas línguas do mundo: são 978 idiomas (segundo o próprio site), incluindo dezenas de línguas de sinais!
O advento das prensas móveis mudou a forma de lidar com palavras e imagens também nas artes e em outros campos. Saindo da religião e seguindo para a descoberta do Novo Mundo, também os usos das imagens em livros se fizeram presentes. Yobenj Chicangana-Bayona (2017) explica que a Carta de Colombo contém as primeiras ilustrações dos nativos encontrados por Cristóvão Colombo nas ilhas caribenhas. Na verdade a Carta foi escrita em 1493, ainda a bordo da Nina, quando Colombo retornava para a Europa, mas no mesmo ano surgiu na Basileia, Suíça, a primeira edição da Carta, com xilogravuras mostrando o contato dos espanhóis com os índios. Claro que em 1493 as técnicas de impressão e xilogravura ainda estavam em precário desenvolvimento. Além disso, como observa o autor, as xilogravuras não foram feitas, ou orientadas, por Colombo. Eram imagens que já haviam sido usadas em outros livros, mas que representavam, de certo modo, a ideia de descoberta de outros povos. A carta de Colombo ainda foi impressa por diversos outros editores na Europa, o que gerou um fenômeno interessante, pois o mesmo documento podia receber outras ilustrações dependendo do local em que fosse impresso. Em Florença, no mesmo ano, a Carta fora publicada com uma imagem no mesmo estilo das existentes na Bíblia de Lutero: uma história contada em planos (Fig. 18).
No primeiro plano à direita, aparece o rei Fernando, o Católico, apontando para o mar; no segundo plano, no meio da xilogravura, aparecem dois pequenos barcos e um terceiro maior, próximos de uma costa; no terceiro plano à esquerda, aparecem as representações dos índios, mulheres de cabelos longos e com as cinturas cobertas por folhas e homens barbudos e totalmente nus. Essa xilografia estaria mais próxima das descrições feitas por Colombo em sua Carta. Contudo, destaca Chicangana- Bayona (2017), tal como a publicação
da Basileia, as representações
etnográficas dos índios nada tinham a ver com a realidade descrita, pois os índios não eram barbudos e as índias não se cobriam, além de que o rei Fernando não tinha barba até onde se sabe.
Figura 18: A América segundo os primeiros livreiros.
A mesma xilogravura da Carta de Florença foi reutilizada treze anos mais tarde na
Lettera di Americo Vespucci, o documento escrito por Vespúcio por ocasião de sua viagem à América e que foi publicado em 1506 também em Florença. O reuso de xilogravuras ou de partes delas, ou mesmo a repetição de imagens estereotipadas para representar figuras exóticas,56 fazia, e faz, parte de um esquema cognitivo elaborado. Elas se tornavam signos de ideias prontas, como as palavras. As imagens eram repetidas por conta desses sentidos prontos e sedimentados ao longo do tempo, para seus criadores e para quem as via com frequência, como se fossem palavras consagradas pelo uso num idioma.
Vale mencionar aqui o trabalho de Theodor de Bry, editor, livreiro e gravador flamengo e huguenote, que criou um grande projeto editorial, a coleção Thesaurus de Viajes o
Collectionnes Peregrinatorum in Indiam Occidentalem et Indian Orientalem, popularmente conhecida como Grandes Viagens, na qual De Bry juntou vários relatos de viagens e os ilustrou. Os principais relatos da coleção eram do alemão Hans Staden e dos franceses Jean de Lery e André Thevet, todos do séc. XVI. Staden passou um tempo no que hoje é o Nordeste do Brasil, sendo inclusive sequestrado e tornado escravo pelos índios tupinambás. Lery e Thevet viveram um tempo no Rio de Janeiro, onde também tiveram contato com a incipiente sociedade colonial brasileira e com os índios que lá viviam (CHICANGANA-BAYONA, 2017).
O destaque de De Bry, porém, foram as ilustrações que ele deu aos relatos. Já estamos no fim do séc. XVI e agora a prensa móvel e as xilogravuras estão altamente desenvolvidas, o que permitia imprimir imagens com muitos detalhes e até em cores. Por outro lado, já havia passado o fascínio inicial que os europeus sentiram pelo exótico Novo Mundo. Assim, as imagens buscavam mais fidelidade aos relatos, e não eram meras reproduções ou reusos de imagens e xilografias mais antigas, além de que várias fontes podiam ser consultadas para corroborar ou repudiar alguma informação que aparecesse nas xilogravuras. As imagens serviram mesmo como representações e descrições das culturas ameríndias (Fig 19). Claro que, como sublinha Chicangana-Bayona, 2017, p. 105), o viés europeu de De Bry perpassava tudo:
Na maioria das imagens sobre o Novo Mundo, os artistas não tinham nenhum compromisso com o natural. No século XVI, no momento de produzir uma gravura, a tradição e as convenções culturais jogavam um papel maior que a experiência de observar diretamente do natural...
56 Chicangana-Bayona (, 2017, p. 84 em diante) cita o exemplo de uma mesma imagem que fora usada para
representar mongóis asiáticos em textos anteriores e depois para representar índios do Novo Mundo. Lembrando que pela mesma época aconteciam as tentativas de evangelização dos povos asiáticos pelos católicos, através das ordens militares e mendicantes.
A maior crítica do autor prende-se ao fato de que, apesar das diferenças óbvias de fenótipos e genótipos, ameríndios e europeus eram quase sempre representados nas mesmas posturas, com as mesmas proporções e até com as mesmas expressões faciais. As mulheres índias quase sempre eram desenhadas como as musas gregas e as mulheres bíblicas, ou seja, com longos cabelos, corpo sedutor e em poses sensuais. Os homens índios apareciam eretos e de feições nobres, caso fossem “domesticados”, ou encurvados e fazendo caretas, caso fossem “selvagens”.
De qualquer modo, as imagens das Grandes Viagens, assim como na Bíblia de Lutero, serviram como perfeitas transmissoras de sentidos e conhecimento, muito mais até que as palavras que as acompanhavam, dependendo de quem estivesse lendo. Além de que as obras de De Bry também foram traduções em imagens de textos narrativos anteriores. Foi desse gênero de imagens complementadas com legendas ou pequenas narrativas que muitos estudos de antropologia e botânica tiraram o costume de ilustrar e explicar com imagens mais que com palavras.
Figura 19: Xilogravuras coloridas adornam os relatos de viagens no séc. XVI.
Enquanto os livros científicos enchiam-se de imagens, também enchiam-se os noticiários e folhetins, mas de um tipo especial de imagens: as narrativas em quadrinhos ganhavam espaço. Campos (2015) mostra que elas ainda não tinham o formato e a sintaxe da atualidade, mas seus autores contavam muito mais que apenas críticas e histórias de crimes: romances, tragédias, guerras e fábulas eram também traduzidos em ilustrações, quase sempre em preto e branco, e algumas legendas cuidavam de contextualizar e complementar as imagens. As histórias podiam ser baseadas em fatos reais ou podiam ser imaginárias, mas quase todas eram feitas para o público adulto. Muitos quadrinhos, contudo, não tinham quaisquer palavras, fiando-se na capacidade dos leitores de depreenderem as informações pelos signos imagéticos, e pelas relações com situações e personagens de suas épocas e sociedades. Até o começo do séc. XIX, as aparições dos quadrinhos eram tímidas em folhetins e livros, mas então um número cada vez maior de editores, escritores e outros artistas passou a se utilizar dos quadrinhos como forma narrativa. Na segunda metade daquele século, já havia revistas e livros especializados no assunto.
Em 1865, foi lançado um dos primeiros livros de quadrinhos de fama internacional: Max und Moritz, do alemão Wilhelm Busch. Max e Moritz eram dois meninos muito endiabrados, que aprontavam todo tipo de travessura, muitas delas consideradas cruéis e ofensivas tanto na atualidade quanto na época em que o livro foi lançado. O livro de Busch integra de forma muito criativa os textos e as imagens: enquanto os primeiros contam de forma recatada e poética as aventuras dos meninos, as segundas mostravam de forma nua e crua a engenhosidade e a maldade de que eles eram capazes. Max und
Moritz foi traduzido para diversos idiomas e considerado um dos maiores best-sellers da literatura infantil mundial. Foi o primeiro livro infantil ocidental publicado no Japão, e no Brasil foi traduzido por Olavo Bilac e publicado em 1915.
Também os símbolos foram desenvolvidos no sentido de comunicarem e narrarem de forma eficaz. Começamos pela língua matemática. Alguns poderão argumentar sobre até que ponto existe mesmo uma língua e não uma linguagem matemática. Se considerarmos que: duas ou mais pessoas podem se comunicar usando símbolos matemáticos e regras algébricas
Figura 20: Max e Moritz, ou Juca e Chico.
compartilhados por ambas; que a matemática usa um suporte (um canal ou modo, que pode ser uma folha de caderno ou uma lousa) para transmitir sentidos; que os símbolos e regras matemáticas podem expressar ideias concretas e abstratas; que as fórmulas matemáticas admitem certas formas para serem escritas ou faladas, mas não aceitam, ou toleram menos, outras formas, seja por falta de lógica, seja por pura convenção; e que os símbolos podem ser sistematizados e combinados de forma quase infinita para criar e transmitir ideias, então existe sim uma língua matemática. Falar de fatos passados nessa língua seria algo bem mais difícil que nas línguas convencionais: imagino que um teorema matemático seria o mais próximo que essa língua conseguiria articular ao tentar falar do passado. A quantidade de verbos seria bem limitada – por exemplo, o sinal de igual (=) seria o verbo ser – e imaginar o futuro seria falar de estatística e probabilidade – por exemplo, uma chance de 100% de algo acontecer seria um “futuro do presente do indicativo” –, embora com os verbos quase o tempo todo no presente. Mas seria um ótimo exercício de imaginação tentar. Por outro lado, a sua tradução seria extremamente simples, já que a gramática, as regras das operações matemáticas, nunca se altera. Teríamos de traduzir apenas os números e suas bases decimais.