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4-ASPECTS THERAPEUTIQUES :

B- EPIDEMIOLOGIE DE L’INFECTION PAR LE VHC :

2. Modes de transmission : [14]

Outra recepção crítica de Primeiras estórias a ser salientada é a do professor da Faculdade de Letras e Comunicação, da Universidade Federal do Pará, Sílvio Holanda. Sua apreciação da referida obra não é uma continuação da leitura estilística de Paulo Rónai e nem à guisa de parábolas285. O seu artigo “O trágico em Guimarães Rosa”, publicado na revista

Moara, no ano de 2003, inclina-se a uma leitura de um prosoema286 sob exames de temas

trágicos nas estórias rosianas, tais como a ideia de fatalidade e de destino, interessando-nos particularmente porque o leitor é conduzido a vivenciar uma intensa experiência dramática.

Para Sílvio Holanda, o quarto volume de Guimarães Rosa é uma súmula temática de sua obra. Ele, ainda, destaca que a forma narrativa adotada pelo ficcionista mineiro é de uma linguagem de forte concentração poética. Lembremos que Rosa escreveu poemas reunidos em um único volume nomeado de Magma, sendo premiado pela Academia Brasileira de Letras, em 29 de junho de 1937, que permaneceu por um longo período inédito para muitos. Finalmente, apesar do atraso de sessenta anos após essa premiação (1997), tomamos

281 CORTÁZAR, Julio. Valise de cronópio. Trad. David Arrigucci Jr. e João Alexandre Barbosa. São Paulo:

Perspectiva, 1974. p. 151-152.

282 Idem, ibidem, p.152. 283 Idem, ibidem, p.157.

284 RÓNAI, Paulo. ROSA, João Guimarães. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: José Olympio, 1962.p. XXXIX. 285 Sílvio Holanda faz uma crítica em relação à análise de Primeiras estórias feita por Heloísa Vilhena de

Araújo. Esta afirmou: “Primeiras estórias são, elas próprias, quanto à forma, parábolas que encerram um sentido oculto. [...] Este sentido, revelando sob os contos, não é nenhum princípio ético, nem filosófico, nem teológico. É a intuição de Deus. É Deus, tornado real na vida daquele que ouve”. Cf. ARAUJO, Heloisa Vilhena de. O

espelho: contribuição ao estudo de Guimarães Rosa. São Paulo: Mandarim, 1998. p. 255.

286 O crítico Oswaldino Marques define o estilo literário de Guimarães Rosa com o termo prosoema, pois situa as

narrativas rosianas dentro de duas categorias que ocorrem ao mesmo tempo, a prosa e a poesia. Cf. MARQUES, Oswaldino. Ensaios escolhidos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968. p. 83.

conhecimento desse único livro de poemas do autor, porém, lendo as suas obras não podemos negar a sua riqueza como poeta-prosador.

Sobre os personagens do livro Primeiras estórias, o professor Sílvio Holanda destaca que não existe lugar-comum para eles. Por exemplo, a criança de “As margens da alegria” e de “Os cimos” que vê mais do que os adultos em sua volta podem acreditar e o louco de “Darandina”, mais do que os homens da ciência com seus cargos e títulos. Eles veem o não visto, a poesia que inaugura todas as coisas e que pode gerar o espiritual e nele se transformar. Como já sabemos em “As margens da alegria” o personagem Menino enfrenta as dificuldades que lhe são impostas — a morte do peru e a destruição do que viria ser uma grande cidade — com uma atitude amorosa que o faz achar nas coisas belas ou feias a origem da alegria. Sílvio Holanda faz o seguinte comentário:

Fundem-se, na experiência do olhar do Menino, o novo e o belo. Este surge também por um esforço contínuo de nomeação (malva-do-campo, lentiscos, canela-de-ema, buriti, etc). Tal alegria, contudo, desfaz-se, numa ruptura dolorosa, pela consciência da temporalidade fugaz e da caducidade da beleza, assinalada pela perda de um animal que ele aprendera a amar287.

Compreendemos que a fenda entre a razão e a loucura que há em “Darandina”, com um protagonista que ironiza as argumentações dos médicos de um hospício e das autoridades da cidade se aproxima, de certa forma, do herói quixotesco com seu cortejo de excluídos: pobres, mendigos, ciganos, desatinados, assistente de animais e um ex-soldado. Assim como esse dito “herói” era marginalizado, por isso não levado a sério, o sujeito esquizofrênico do referido conto também o era. No entanto, o Secretário de Finanças Públicas, que era chamado de “nosso homem empalmeirado” pelo narrador da estória, contrariava toda a equipe psiquiátrica do hospício em proporção que ganhava admiração dos citadinos.

O universo rosiano que está povoado por seres de exceção é ressaltado por Eduardo Coutinho, no seu texto “Guimarães Rosa: um alquimista da palavra”, de 1994. Portanto, outro crítico que soma ao grupo de estudiosos da obra de Guimarães Rosa:

Lúcidos em sua loucura, ou sensatos em sua aparente insensatez, os tipos marginalizados que povoam o sertão rosiano põem por terra as dicotomias do racionalismo, afirmando-se nas suas diferenças. E, ao erigir este universo, em que a fala dos desfavorecidos se faz também ouvir, Rosa efetua verdadeira desconstrução do discurso hegemônico da lógica ocidental, e se lança na busca de terceiras possibilidades288.

287 HOLANDA, Sílvio. O trágico em Guimarães Rosa: Primeiras estórias. Moara, Belém, v. 20, p.116, 2003. 288 COUTINHO, Eduardo. Guimarães Rosa: um alquimista da palavra. In: ROSA, João Guimarães. Ficção completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v. 1, p. 21.

Sílvio Holanda, ao promover uma analogia da circularidade da “tematização do dramático em Primeiras estórias mostra-nos a superioridade dos poderes da invenção sobre o real”289. Enfatiza que estamos diante de escritos de uma verdadeira forma poética narrativa

“fundada no conceito de mistério [que] joga com os pólos rotina x novo, real x irreal, propiciando ao leitor uma experiência estética que lhe permite uma nova percepção do mundo e das relações que se estabelecem entre este e a obra literária”290.

Apesar de não ser o foco na nossa análise, o nono conto do livro Primeiras estórias torna-se essencial para nós, pois nos permite confrontá-lo com “As margens da alegria”, “Os cimos” e “Darandina” no que concerne a tragédia grega à problematização do agir humano. Tendo em vista que o professor Sílvio Holanda concentra-se no enredo de “Fatalidade”, afirmando tratar-se de uma referência ao problema do destino, lembrando pensamentos como os da Grécia Antiga, os do Cristianismo (a graça paulina) e as filosofias orientais (ligadas ao

Karma)291, vocalizados pelo protagonista Meu Amigo da referida narrativa. O estudioso

ressalta que cada pensamento enfatiza determinados aspetos de ações humanas.

Entretanto, deter-nos-emos na primeira orientação em que os personagens, o Menino (do primeiro e último conto) e o Secretário de Finanças Públicas (de “Darandina”) se confrontam com o pensamento de Meu Amigo ao molde dos gregos: “A vida de um ser humano, entre outros seres humanos, é impossível. O que vemos, é apenas milagre; salvo melhor raciocínio”292.

Meu Amigo que recebia a insígnia de fatalista pelo narrador-personagem apontava que quem entendia das coisas eram os gregos e que “[a] vida tem poucas possibilidades”293. O que

sabemos, de antemão, é que na tragédia grega pesava sobre o indivíduo uma fatalidade que o fazia passar de um estado bom inicial a um estado mau final, assim, incidia-lhe o destino, brincando ironicamente com as ilusões da aventura terrestre.

Miguel de Unamuno (1864-1936) é um dos pensadores de maior relevância da história espanhola, como filósofo é o mais admirável representante do existencialismo filosófico e literário da Espanha, em determinada ocasião a respeito do sentimento trágico do mundo, ele indaga o que viria a ser o destino e a fatalidade, vejamos: “O que é o Fado, que é a Fatalidade,

289 HOLANDA, Sílvio. O trágico em Guimarães Rosa: Primeiras estórias. Moara, Belém, v. 20, p. 121, 2003. 290 Idem, ibidem, p. 123.

291 Idem, ibidem, p. 124, 2003. “Cativeiro da ação e reação nascimento após nascimento. Carma > sânscrito karma. Nas Filosofias da Índia, o conjunto das ações dos homens e suas consequências. Liga-se a carma às

diversas teorias de transmigração, e por meio dele se definem as noções destino, e do encadeamento necessário, por força desses dois fatores, entre os diversos momentos da vida dos homens”.

292 ROSA, João Guimarães. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: José Olympio, 1962. p. 59. 293 Idem, ibidem, p. 59.

senão a irmandade do amor e da dor; e esse terrível mistério de que, tendendo o amor à felicidade, assim que a toca morre, e morre com ele a verdadeira felicidade?”294

Ao contrário dos personagens trágicos, a criança (de “As margens da alegria”, “Os cimos”) e o louco (de “Darandina”) subvertem a tradição clássica grega em relação à fatalidade e o destino, porque impressiona o leitor visto a intenção de não negar nem a tristeza, nem a alegria conjugadas na experiência do personagem, que, aliás, não se trata de uma substituição seja de um objeto de amor por outro, seja da razão pela loucura ou desta pela razão, mas de perceber que a vida continua fluindo.

Na iminência da tragicidade, a criança e o louco agem sobre os seus destinos com a liberdade de poder criar e recriar seus caminhos no universo que lhe é reservado. Nessa mesma linha de pensamento em que viver é viver mesmo, Ettore Finazzi-Agrò em seu trabalho destinado à obra de Guimarães Rosa nos presenteia com a sua ideia de que,

[c]olocando-se numa região oscilante entre duas dimensões, o homem trágico repensado por Guimarães Rosa não escolhe ou escolhe apenas a não-escolha de viver até o fim a sua situação de fronteiriço. É ali, com efeito, nesse limiar insituável da lógica e da existência, é nesse “cruce dos camiños” que se pode descobrir a liberdade de viver, sim, uma vida “muito perigosa”, mas vivendo-a como banimento e, ao mesmo tempo como lugar, finalmente “livre”, do “abandono”295.

O problema da liberdade e do destino são resolvidos por uma ação transgressora que consiste em conviver com as vicissitudes e não se esquivando delas. O homem trágico repensado pelo escritor mineiro é aquele que procura lidar com as contradições da vida, mesmo diante de grandes atrociades. Parafraseando Unamuno, não se trata de evitar transpor o inescrutável, nem rebelar-se, porém de considerar o problema face a face.

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