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Chapitre II : Techniques expérimentales de caractérisation

5. Microscopie électrochimique à balayage (SECM) :

5.3. Les modes de fonctionnement :

Aludindo à inserção profissional, os ciganos tendencialmente são considerados pelos entrevistados como desempregados ou então como vendedores ambulantes. Aqueles que se dedicam à “venda”, estão desagradados com as dificuldades e limitações crescentes no exercício da atividade e também face à redução das margens de lucro, atendendo à situ- ação de crise que o país atravessa e mudanças ocorridas no sector do comércio. Poucos são ainda aqueles que frequentam ações de formação profissional.

As únicas famílias que têm experiência de trabalho são aquelas que estão nas feiras e que vendem. E que, neste momento, se queixam muito porque as pes- soas não têm poder de compra, portanto não compram e eles também estão a passar por dificuldades. (Coordenador de Projeto de Associação, 35-39 anos).

Ainda assim há casos de sucesso, embora muito residuais foram-nos contados ca- sos de ciganos que ou concluíram o 12º ano e trabalham na linha de montagem de uma empresa do ramo automóvel, ou que conseguiram trabalho no setor público ou mesmo em atividades sazonais.

Namorava com raparigas que não eram ciganas para grande desgosto da mãe. Tinha um percurso escolar normal, relacionava-se com… tinha amigos que não eram exclusivamente ciganos. Sempre tentou trabalhar nas férias escolares e depois da escola. Sempre trabalhou portanto estava logo ali um percurso di- ferente (Coordenadora de Centro Comunitário, 30-34 anos).

A maior parte deles são comerciantes. Trabalham no município. Outros traba- lham com a sucata, outros trabalham na pintura, outros trabalham na cons- trução civil. (Presidente da Associação/Técnico no Projeto Escolhas, 30-34

anos).

(…) a grande maioria da população cigana que nós sempre apoiamos, sazo-

nalmente na apanha da castanha, para Espanha na apanha da laranja e etc., assim esse tipo de coisas, de resto biscates, trabalhos pontuais, mas nunca tive- ram empregos certos. (Diretor de serviços, 40-44 anos).

A grande maioria das famílias ciganas valoriza um possível emprego independen- temente dos papéis de género, contrariando-se assim a ideia pré-concebida segundo a qual os homens não pretendem trabalhar nem autorizam o trabalho feminino. As expectativas em relação à possibilidade de encontrarem emprego por parte de ambos os elementos do casal são, contudo, reduzidas, embora esta questão assuma contornos diferentes de acordo com os padrões de inserção sócio territorial. Para uma técnica que coordena um projecto Escolhas, nos meios rurais não falta oferta de trabalho sazonal na agricultura e, de um modo geral, essas oportunidades são bem aceites.

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tamos a falar de uma família. Poderemos estar a falar de três, quatro casais. Tirando essa família, em todas as outras, se a mulher encontrasse um emprego seria positivo, se ele encontrasse um emprego seria positivo. Mas as expectati- vas são tão baixas ou nenhumas, numa ou noutra circunstância. (Técnica de

Associação, 35-39 anos).

(…) isto é um dos preconceitos que nós, que a sociedade maioritária tem sobre

os ciganos, é que não querem trabalhar, mas isto não é verdade porque os ciga- nos trabalham, trabalham. Não têm emprego mas trabalham imenso. Fartam- se de ir aos trabalhos sazonais, por exemplo as mulheres… (…) sim, no campo. Por exemplo as mulheres ciganas raramente têm emprego, agora o trabalho que fornece uma mulher cigana ao longo da sua vida é uma coisa espantosa, mesmo, daquelas que vivem nas condições aqui no interior rural, não é, depois muitos deles vão à azeitona, muitos deles vão ao morango a Espanha, eles tra- balham, não têm é emprego, trabalham imenso sim, e… epá e não conheço nin- guém que tenha recusado uma oferta, as ofertas de trabalho são muito poucas, não é? (Coordenadora do Projeto Escolhas, 30-34 anos).

O papel da mulher cigana foi bastante valorizado em contexto de trabalho nas fei- ras, enfatizando o seu envolvimento e empenho em todas as fases do processo, desde a montagem da estrutura à fase da venda propriamente dita. Ao homem, cabe, sobretudo, a componente da negociação e aquisição dos produtos a comercializar. Mais do que comple- mentar, a força de trabalho feminina no grupo cigano, é cada vez mais crucial para garantir a sobrevivência do grupo familiar.

Quando se aborda a temática das oportunidades existentes para os indivíduos ci- ganos no mercado de trabalho, ou da ausência das mesmas, os interlocutores são unânimes em considerar que, por um lado, existem diversas barreiras discriminatórias no quadro da sociedade maioritária que inviabilizam o acesso de pessoas ciganas a um emprego, e, por outro lado, observamşse algumas lacunas ao nível das competências formativas e sociais por parte destas pessoas, que têm muitas dificuldades para encontrar motivação num con- texto discriminatório em que se deparam com recusas constantes por parte dos potenciais empregadores. Conforme declarou uma das entrevistadas, “as empresas recusamşse a con- tratar ciganos”. E então, como é que se poderá ultrapassar este impasse que é sistemati- camente produzido e reproduzido sobre os ciganos? Como demonstrar que estas pessoas também merecem uma oportunidade para demonstrar as suas competências? Neste ponto em particular há certamente muito trabalho de divulgação por parte das entidades respon- sáveis pela empregabilidade em Portugal. “As pessoas e as empresas recusam‐se a contratar

ciganos. Depois, com a crise económica em que nós estamos, nem sem ser ciganos quanto mais os ciganos. (Coordenadora de Centro Comunitário, 45-49 anos).

Acresce ainda que, de acordo com vários exemplos evocados pelos entrevistados, quando porventura um indivíduo cigano consegue encontrar uma oportunidade de em- prego, acaba quase sempre dispensado depois da entidade patronal tomar conhecimento da sua pertença étnica e independentemente das qualidades profissionais demonstradas. Esta situação é retratada em outros estudos recentemente realizados em contexto nacional (por exemplo, Mendes, 2007; Magano, 2010). As múltiplas barreiras já referidas concorrem para uma espiral de desmotivação difícil de contrariar e conduzem, frequentemente, a um relacionamento instrumental com as instituições ligadas ao emprego, colmatando em situ- ações de desemprego na maior parte das vezes.

[O contacto com o Centro de Emprego ocorre] porque são obrigados, no âm-

bito do processo do RSI. São obrigados a ter a inscrição ativa e têm que cum- prir, não com as apresentações, porque não recebem o subsídio de desemprego, mas têm que cumprir com as convocatórias para as sessões e cumprir planos de formação. Para eles é um bocado desmotivante e acaba por ser muito frustran- te serem chamados para formação, para ofertas de emprego, quando sabem, à partida, que nunca ficarão. (Coordenador de Projeto de Associação, 35-39

anos).

Eles dizem muitas vezes “porque é que não nos dão trabalho”. (…) Eles realmen- te eles referem isso, e depois há concelhos aqui perto que realmente estão a fazer a integração profissional de ciganos e eles depois têm lá família e sabem como é que se processa lá e depois dizem “porque é que aqui não fazem o mesmo?” Porque eles sentem-se muito excluídos nessa parte, eles dizem preferia ter um trabalho e ganhar um ordenado do que ter o rendimento social de inserção.

(Animadora de Projeto Escolhas, 30-34 anos).

Sobre os casos mais graves de continuidade de situações de desemprego e desocu- pação, surgem as suspeitas de desempenho de atividades ilícitas, como o tráfico de drogas e armas, facilmente estereotipáveis e generalizáveis.

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Um nível mais elevado, uma máfia mesmo de tráfico de armas. Tenho aqui muitos assim. Tráfico de armas. Dependem, a maior parte, dos RSI’s. A maior parte deles… (Coordenadora do Projeto Escolhas, 35-39 anos).

(…) destes aqui é muito difícil [a integração], é quase por obrigação de e mesmo

assim às vezes, lá está, conseguem furar o sistema e ficar com outros rendimen- tos (…) há muita droga, aqui a etnia cigana está em peso e depois envolvem os outros que não são da etnia cigana para guardar as coisas. E depois também não têm emprego (…) e se calhar pela via do emprego deixavam a droga, não é?! (Técnica Superior de Serviço Social, 40-44 anos).

Relativamente à formação profissional, detetaram-se alguns casos de instituições que, em tempos, já ofereceram formações para adultos, mas que, neste momento, inter- romperam essa oferta por desajuste da instituição com as especificidades da população ci- gana e não cigana. No entanto, em situações em que ainda oferecem, há bastantes ciganos, mesmo jovens adultos a frequentar. No entanto também se constata que “(…) nós temos

formações em que se queriam inscrever oito ciganos, e se se inscrevessem os oito ciganos as outras pessoas diziam que já não iam. (Técnica do Projeto Escolhas, 35-39 anos). Ou seja, a

possibilidade de haver formandos ciganos contribui para a não candidatura de pessoas não ciganas.

Pronto, então o que é que dá o Centro de Emprego como formação? Dá os tais CEFs, não é, e a algumas formações modulares, nas formações modulares te- mos bastantes ciganos porque, porque muitas vezes é por causa de mecanismos de obrigatoriedade, não é?! (Coordenadora do Projeto Escolhas, 30-34 anos).

(…) houve uma altura em que havia maior oferta para alfabetização. O que

acontece é que essa oferta também não é ajustada à comunidade, porque para uma mulher, por exemplo, analfabeta, mãe de crianças que ainda amamen- ta, frequentar um curso noturno com mais uma turma de vinte, como dezoito homens, é uma coisa muito complicada no seio da comunidade. (Técnica do

Na nossa associação temos tido vontade de fazer essa…quer cursos, workshops com adultos, e já tivemos alfabetização para adultos. (Coordenador da insti-

tuição, 30-34 anos).

Como referido por Maria do Carmo Gomes (2013), a formação profissional pode ser uma forma de a comunidade adulta e jovem adulta conseguir aumentar os seus níveis de escolarização e, consequentemente, encontrar um trabalho estável e que se prolongue no tempo. A não frequência dessas e de outras ações poderá promover situações de pro- longamento do desemprego, algo que não permite encontrar motivação para a procura de formação, de melhores condições sociais suas e dos seus filhos, tal como num círculo.

Em alguns dos territórios em que trabalham os entrevistados, muitos ciganos têm acesso ao Rendimento Social de Inserção (RSI) e, em alguns destes territórios foi mesmo re- ferido que quase todos têm acesso a esta prestação social. Perante a grandeza da dimensão que assume esse benefício, como vimos, a possibilidade de perderem o direito a esta presta- ção social é uma preocupação central nas suas vidas (e também na dos técnicos).

Os entrevistados associam ainda à população cigana os apoios à maternidade, o abo- no de família, o abono complementar no caso de deficiências, bem como algumas reformas, estando estas entre as mais referidas. Note-se que foi frequentemente referido que é difícil os ciganos perderem o RSI mesmo quando os filhos faltam à escola, apesar de fazer parte das condições para se aceder a esta prestação social (poderia ser interessante explorar o que impede o corte, pura e simples do benefício perante uma situação de incumprimento). No entanto também são referenciadas muitas situações de corte da prestação por falta de cum- primento do plano de inserção, seja dos próprios beneficiários seja dos seus dependentes.

A única preocupação deles é se lhes falta o rendimento, é a única coisa que mexe com eles e é a única coisa que às vezes a gente podia enquanto entidade, todos em conjunto, trabalhar nesse sentido, não é? Mas não, há crianças que não vão à escola mas eles continuam a receber o rendimento (Coordenadora de Projeto,

30-34 anos).

E serem penalizados no caso de saírem [da formação]. Então todos aqueles… nós começamos com 27 formandos, estamos com 17, houve uma integração

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Subsídios? Como se chama isso?… O abono de família? Pronto, isso sim. Mas depois isso acaba por ser muito diminuto, mas todos têm direito. Mas às vezes até esse direito, que eles sabem que o têm, o perdem, porque não reclamam, porque não abrem conta, sei lá, mil e uma situações. (Diretor de serviços, 40-

44 anos).

Em contrapartida, o subsídio de desemprego quase nunca surge associado às pes- soas ciganas, uma vez que nesta população serão raros os casos de pessoas que trabalharam efetuando descontos para a Segurança Social, condição essencial para conseguir ter acesso a esse subsídio. Dois casos particulares e deveras interessantes foram realçados dizendo respeito à recusa face aos subsídios por morte e de apoio a idosos.

Muitas vezes me dizem “os ciganos querem é o dinheiro, dinheiro, dinheiro”, e, por exemplo, esquecem-se que numa situação de luto eles não aceitam um subsídio da Segurança Social. Eles não conseguem viver ou pagar o funeral com o dinheiro, sabendo que aquele dinheiro veio porque aquela pessoa morreu. Então não o recebem, nunca! (…) Para a terceira idade acontece um pouco o mesmo. Não vão procurar grandes apoios. Os idosos são deles, eles têm que cui- dar deles! Tem aqui situações de reformas de alguns que trabalharam, recebem reforma. De resto, mais nada. (Técnica de Associação, 35-39 anos).

O acesso à Segurança Social não é para a comunidade cigana, não me venham cá com histórias. Claro que não têm acesso à Segurança Social. Eles não têm anos de descontos, vão começar agora? (Presidente da Associação/Técnico no

Projeto Escolhas, 30-34 anos).

Tirando o RSI, não há praticamente mais nada de apoio para eles. (Diretor de

serviços, 40-44 anos).

Dada a centralidade dos serviços da Segurança Social, em geral, e das instituições e técnicos gestores do RSI, em particular, no acesso das populações ciganas a prestações sociais, importa conhecer o testemunho de dois dos responsáveis acerca das relações que se estabelecem entre os ciganos e as referidas entidades, relatadas frequentemente como uma relação de dependência por parte das pessoas ciganas, revelando dificuldades de autono- mia na obtenção dos seus próprios rendimentos e condições de vida.

(…) Conseguem ter uma relação equilibrada com a Segurança Social. Depois

há a relação com a gestora do processo de RSI que, ou é muito boa quando con- seguem o que querem, ou então é horrível quando não conseguem. (…) [Há fa-

mílias que não recebem o RSI] porque não foi atribuído, ou porque foi cortado,

ou porque não cumprem o que está estabelecido no Plano de Inserção. E exis- tem cada vez mais casos. (Coordenador de Projeto de Associação, 35-39 anos).

É a forte dependência que eles têm de tudo o que é, de instituições, do Estado,

ainda se sente muito. E é a ideia de “Estou a receber isto por mês, é um dado adquirido, e vou às feiras, mas isso acaba por não ser muito rentável e recebo o rendimento e o que é o que eu quero é pedir uma casa social” e é um bocado essa a dificuldade, eles quererem ser autónomos. (Técnica Superior de Serviço

Social, 30-34 anos).

Todavia, nem todos os ciganos vivem de subsídios, abonos familiares ou de refor- mas, ou mesmo da venda ambulante, existindo pessoas que trabalham por conta de ou- trem, em várias áreas, alguns em atividades continuadas e outras em atividades sazonais agrícolas como a apanha da fruta, do caracol, de bivalves, entre outras. Mas isso é, aqui é a

grande maioria da, da população que está desempregada, normalmente há o trabalho sazo- nal e... e influencia também um pouco também com os hábitos da comunidade cigana, […]

(Coordenador de projeto, 35-39 anos).

10. Sociabilidades e relações interpessoais: a língua