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Dans le document Concepts et procédures de travail (Page 162-167)

Figura 11 – Cemitério de “Terra Preta”

Conforme relatos de pessoas que vieram morar na região há cerca de 60 anos atrás, disponíveis nas fichas de inventários da comunidade de Linha Carolina Alta, o cemitério de “Terra Preta” já existia há muito tempo. Os entrevistados contam que nele eram enterradas pessoas que não tinham condições de serem sócias em comunidades próximas, e também pessoas sem famílias que chegavam de outras regiões e logo depois vinham a falecer.

Atualmente o terreno é mantido pela família Flores, que é dona das terras que circundam o local em questão. Não conseguimos uma data exata da fundação do cemitério, mas pelas informações levantadas com as entrevistas e pelas datas que estão registradas em alguns túmulos é possível dizer que o cemitério possui mais de 100 anos de idade.

A tradição das famílias que moram no município, assim como em outros grupos rurais da região, é sempre enterrar seus entes queridos nos cemitérios das comunidades. Neste caso específico, a criação deste cemitério deve ter ocorrido para resolver a questão das migrações à região de outros grupos não praticantes da religião católica ou que não desejaram fazer parte efetiva de alguma agremiação. Conforme Radünz (2008),

Nas comunidades, via de regra, não se concebia um enterro não realizado por um religioso (com exceção do suicídio), ou uma criança não batizada. A confirmação era encarada com um rito, quando a criança era apresentada socialmente ao poder dançar. Nesse contexto, o próprio casamento, para ser aceito socialmente, precisava do aval religioso. Essa elaboração religiosa, fruto de uma religiosidade própria, fez das comunidades espaços sociais necessários no processo de adequação dos imigrantes à nova pátria. (RADÜNZ, 2008, p. 58).

A aproximação das comunidades de origem alemã, praticantes do luteranismo, com as comunidades de imigração italiana, praticantes do catolicismo, indica que elas são muito próximas, especialmente no que diz respeito aos ritos comunitários, no que concerne à questão da morte.

No caso do cemitério de “Terra Preta”, existem pessoas dos mais diversos credos, enterrados pelos mais variados motivos. Nos relatos orais que obtidos, há a menção às pessoas que cometiam suicídio e que a comunidade não admitia que fossem enterradas junto aos outros associados já falecidos. O mesmo se dá com as crianças não batizadas, seguindo-se o mesmo critério, separando os espaços dentro do próprio cemitério ou buscando outro local para fazer o sepultamento.

Segundo o relato oral do proprietário do local, Rodinei Flores, que corrobora as falas da outra entrevistada, Osmilda Trevisol, a maioria das pessoas que foram enterradas neste cemitério tiveram mortes trágicas, tais como enforcamento, afogamento, mortes por frio e assim por diante.

Ele ainda reforça que a antiga sede da comunidade de David Canabarro era próxima ao cemitério, informação que ele teria recebido de seu pai, que faleceu no ano de 2012. Além disso, o acesso ao local é liberado para todos, apesar de ter cercas e portões que cercam a propriedade. Há também uma antiga estrada, que atualmente está em desuso e que leva até o cemitério.

Este local é uma importante memória do povo boa-vistense, pois congrega nele uma importante parte de sua história, talvez uma que foi esquecida ou suprimida ao longo do tempo. É possível notar esse fenômeno do esquecimento ou do desconhecimento do local ao conversar com pessoas do município que sequer sabiam da existência dele, ou para qual finalidade ele se destinava e ainda se destina.

Tendo em vista que aí está contida uma infinidade de histórias de vida que ainda podem ser descobertas, através das quais podemos entender um pouco mais do funcionamento das comunidades da região e como eram seus costumes e práticas, no caso específico, os rituais de enterros. Como afirma Nora (1984),

Os lugares de memória nascem e vivem do sentimento que não há memória espontânea, que é preciso criar arquivos, que é preciso manter aniversários, organizar celebrações, pronunciar elogios fúnebres, notariar atas, porque essas operações não são naturais. É por isso a defesa pelas minorias, de uma memória refugiada sobre focos privilegiados e enciumadamente guardados nada mais faz do que levar à incandescência a verdade de todos os lugares de memória. Sem vigilância comemorativa, a história depressa os varreria. São bastões sobre os quais se escora. Mas se o que eles defendem não estivesse ameaçado, não se teria, tampouco, a necessidade de construí-los. Se vivêssemos verdadeiramente as lembranças que eles envolvem, eles seriam inúteis. E se, em compensação, a história não se apoderasse deles para deformá-los, transformá-los, sová-los e petrificá-los eles não se tornariam lugares de memória. É este vai-e-vem que os constitui momentos de história arrancados do movimento da história, mas que lhe são devolvidos. Não mais inteiramente a vida, nem mais inteiramente a morte, como as conchas na praia quando o mar se retira da memória viva. (NORA, 1984, p. 13).

Talvez a história seja a grande responsável por manter viva a memória de comunidades, justamente por criar espaços em que estes locais possam ser identificados e cuidados, em uma esperança de que ele se perpetue no tempo e no espaço. É justamente em Nora que buscamos o aporte teórico para justificar a criação e a preservação de espaços ou locais de memória.

O chamado para fortalecer os vínculos pessoais e comunitários através de uma identificação com as origens é uma das nossas proposições ao elencarmos estes espaços como sendo o registro histórico vivo de um grupo. Mais do que registrar esses locais, é importante que a comunidade, como um todo, se una para que estes patrimônios locais sejam conservados. Também é necessário que outras pessoas se envolvam na busca por mais informações, e que o poder público faça sua parte na preservação destes lugares.

Quantas histórias podemos contar ao visitar estes espaços, ou quantas outras pessoas podem descobrir que ali pode residir um vínculo familiar ou identitário. Mais do que inventariar estes espaços, é importante que a comunidade, como um todo, assuma para si a proteção destes lugares, para que em um futuro próximo possam contar a sua história e da sua comunidade com um pouco mais de bases históricas.

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