Aos 27 anos de idade, Moura intercalava sua atuação profissional entre sua função como primeiro clarinetista na orquestra do teatro municipal e primeiro saxofonista na orquestra da rádio Nacional, ao mesmo tempo em que frequentava informalmente o Beco das Garrafas, reduto dos músicos do movimento musical urbano surgido em 1957, a bossa nova. Era uma travessa sem saída da rua Duvivier, entre os edifícios de números 21 e 37, no Rio de Janeiro, que abrigava um conjunto de casas noturnas, situado no bairro de Copacabana, nas décadas de 1950 e 1960.
Nesse local Moura conheceu o pianista e compositor Sérgio Mendes, com o qual consolidou amizade e estabeleceu um grupo de pequena formação instrumental com aqueles que viriam a estar entre os mais significativos e atuantes músicos brasileiros. O grupo era formado por Sérgio Mendes (piano), Otávio Bailly (contrabaixo), Pedro Paulo (trombone), Dom Um Romão (bateria) e Paulo Moura (sax alto).
“Ali (Beco das garrafas) me tornei muito amigo do Sérgio Mendes e Otávio Bailly (baixista), que estavam com a ideia de formar um grupo instrumental. Aí, resolvi entrar nessa também, e começamos a ensaiar. E me lembro do seguinte: pediram que eu fizesse os arranjos para o grupo, já que eu tinha tanta experiência com orquestra” (GRYNBERG, 2011, p. 106).
De acordo com Spielmann (2008, p. 14) o grupo formado por Moura e Mendes era chamado inicialmente “Samba Rio” e passou a ser referenciado como “Bossa Rio” após a apresentação do grupo realizada no Carnegie Hall, renomada sala de espetáculos em Nova Iorque, em 21 de novembro de 1962. Após esse concerto, o grupo realizou mais duas apresentações. A primeira em Greenwich village, principal reduto dos mais renomados músicos da cidade nova-iorquina, e a última no Lisner auditorium, em Washington. Essas apresentações marcaram uma das decisivas etapas de penetração da bossa nova nos Estados Unidos, sendo consideradas um marco para a expansão e reconhecimento do movimento bossanovista no cenário internacional. (CAMPOS, 2005, p. 101).
Nessa ocasião em Nova Iorque, Moura teve a oportunidade de gravar junto com o saxofonista Cannonball Adderley22 o LP “Cannonball Adderley” e o “Bossa Rio”.
22 Saxofonista alto americano, nasceu em 25 de setembro de 1928 em Tampa, Flórida, e faleceu no dia 8 de agosto de 1975 em Gary, Indiana. Cannonball Adderley foi uma figura central do jazz moderno, imprimindo um estilo que influenciou gerações de saxofonistas e improvisadores. Gravou mais de 50 álbuns, tendo participado de
Nessa mesma época, Moura passou a ser mais requisitado como arranjador. Foi um período de grande produção de arranjos escritos para diversos artistas como Elis Regina, Toni Tornado, Edson Machado, entre outros. O disco “Edison Machado é samba novo” (1963) contém quatro faixas nas quais Moura participa como arranjador, além de ter atuado como saxofonista alto. De acordo com Barsalini (2009, p. 107), esse disco distingue-se inteiramente do âmbito musical bossanovista. Existe uma liberdade marcante na reciprocidade interativa entre os músicos que executam essas obras, independentemente dessas peças serem previamente arranjadas. Esse disco é reconhecido como o ponto marcante do estilo posteriormente conhecido por samba-jazz; portanto representativo para o momento de desenvolvimento de sua carreira como solista e na elaboração de uma música brasileira instrumental improvisada, que Moura estava interessado em desenvolver.
A carreira de arranjador de Moura poderia ter tido continuidade e se aprofundado em virtude de uma proposta feita pelo diretor da Phonogram23, Sr. Pittigliani. Moura atuaria como arranjador de gravação, função a qual teria uma demanda enorme de execução de arranjos para variados estilos. Contudo, essa variedade justamente não lhe permitiria se especializar no estilo de seu maior interesse. Por mais atrativa que parecesse a oferta proposta a ele, Moura não via com bons olhos essa oportunidade, pois ela se confrontava com sua busca pela consolidação de sua carreira como instrumentista solista.
“Embora ainda não houvesse uma possibilidade definida de viver profissionalmente como solista, eu queria ter mais tempo para estudar, para me desenvolver tecnicamente, me atualizar. E essa coisa dos arranjos me atrapalhava, mesmo não havendo, naquela época, tantas oportunidades nem muito espaço para solista de música instrumental.” (GRYNBERG, 2011, p. 108).
Em 1968 Moura gravou o LP “Hepteto” (Ouver Records). Nesse álbum Moura vivencia uma atuação mais intensa como arranjador e solista. O disco marca a primeira participação de Wagner Tiso como músico e arranjador de algumas faixas junto a Moura, uma relação produtiva de larga existência. No ano de 1969, lançou o LP “Paulo Moura e quarteto” (Equipe), dando continuidade à exploração de uma original leitura jazzística da música brasileira, iniciada com o disco anterior. Lançou ainda mais dois LPs. “Fibra” (Equipe, 1971) é
formações instrumentais arregimentadas por Miles Davis, além de grupos que ele liderou com seu irmão, o trompetista Nat Adderley.
23 Phonogram se instalou no Brasil, em 1960, após a aquisição da CBD, e somente no início dos anos 1970 é que lança seus discos com o selo próprio, tornando-se Polygram, posteriormente (VICENTE, 2002, p. 53).
um disco no qual Moura intensifica sua procura por uma personalidade musical solística. “Pilantrocracia” (Equipe, 1969) nasceu do movimento musical brasileiro do final dos anos 1960, representados por uma rica fusão de influências.
Moura começou a manifestar uma insatisfação com o movimento da bossa nova por não conseguir se identificar com a camada social que a desenvolvia e realizava aquela produção musical. Atrelado a esse sentimento, Moura demonstrava uma preocupação com a desvalorização dos instrumentos percussivos, mais relacionados ao samba, que haviam sido excluídos pela instrumentação estilizada do movimento bossanovista, o qual privilegiava as progressões harmônicas e as canções em detrimento aos ritmos de origem afro-brasileira.
Para Moura, essa matriz africana era considerada um dos elementos fundamentais e mais originais presentes na música brasileira.
Sendo eu de origem africana, nunca tive dificuldade de entender o jazz, sua sensibilidade, sua expressividade blue. Mas, tive dificuldade em ser aceito pela bossa nova. E por isso, sempre tive com ela uma ligação ambivalente, admiração e afastamento. Como uma criação da zona sul do Rio, branca e estilizada, manteve em seus grupos apenas a presença de uma bateria quase estilizada, excluindo ritmos e artistas negros de suas formações. Os instrumentos percussivos, referência ao samba, perderam a vez. Nada de pandeiros, tambores, ganzás... nada que lembrasse a mãe África. Nem mesmo pela cor de seus instrumentistas de sopro, como eu”. (Por que imaginei um encontro entre Gershwin e Jobim Programa do SESC São Paulo, junho de 1998).
FIGURA 6-PAULO MOURA COM O GRUPO BOSSA RIO
(Paulo Moura toca sax-alto (o primeiro da direita para a esquerda) durante apresentação da banda Bossa Rio Sextet formada pelos músicos Pedro Paulo (trompete), Octávio Bailey (violoncelo), Sérgio Mendes (piano), Durval Ferreira (violão) e Dom Um Romão (bateria) no Carnegie Hall em Nova Iorque. O Bossa Rio Sexteto gravou em um estúdio de Nova Iorque o álbum. Acervo pessoal - Instituto Paulo Moura. Disponível em: <www.institutopaulomoura.com.br>. Acesso em 06/05/2017).