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MODALITÉS DIAGNOSTIQUES ET THÉRAPEUTIQUES

Dans le document Dépistage néonatal MMA - Avis (Page 48-53)

A presença dos africanos e afrodescendentes nos sítios arqueológicos históricos começou a despertar o interesse dos arqueólogos apenas na década de 1960, sendo que os primeiros estudos estavam voltados ao tema da escravidão. Ainda hoje, muitos pesquisadores não conseguiram transcender seus estudos para além da condição de cativeiro imposta aos negros e negras que viveram nos espaços escravistas, e por vezes, os arqueólogos encontram coisas em contextos que chamam de mágico-religiosos, no qual buscam interpretá-los a partir de analogias com a África do período colonial. Por outro lado, arqueólogas como Patrícia de Carvalho (2012; 2018) Camila Agostini (2017) e Elis Meza (2018), entre outros tem buscado interpretações afro- religiosas para contextos afro-diaspóricos, percebendo a centralidade da ancestralidade como elemento identitário para os grupos (Gabby HARTEMANN & Irislene MORAES, 2017),

Nessa tentativa de se apartar de discursos colonialistas sobre a presença africana no continente americano, a arqueologia deve buscar outras fontes de conhecimento, principalmente aquela que é o suporte principal da ancestralidade africana, a oralidade, que foi responsável pela permanência de conhecimentos e de memórias que atravessaram o tempo e o espaço, transformando a diáspora africana numa celebração de elementos culturais que sobreviveram até os dias

151 de hoje. Dessa forma, os arqueólogos devem ir além do material, buscando ressaltar “a importância de entender a arqueologia como contação de história

para criar uma ciência decolonial, engajada politicamente para a comunidade e que dê uma centralidade à noção de memória” (Gabby HARTEMANN & Irislene

MORAES, 2017, p. 26).

Nesse sentido, as memórias afro-diaspóricas e da resistência no “tempo da escravidão” foram buscadas nessa pesquisa a partir dos conhecimentos situados de pessoas da periferia. Essas histórias, longe de serem esquecidas, são rememoradas cotidianamente através da atuação de figuras ancestrais centrais na Umbanda, as Pretas e Pretos Velhos.

Essa representação do Preto-Velho, passível de “leitura” por uma comunidade específica, cumpre uma espécie de função social. É ele, o preto-velho, um dos responsáveis por manter viva uma memória da escravidão (com seus sofrimentos, sua resistência e sua superação) e, concomitantemente, por auxiliar no sobrepujamento das dores daqueles que o procuram. Para os consulentes (Lívia REZENDE, 2017, p. 178)

As memórias do tempo da escravidão são marcadas por dor, sofrimento e privação, mas as histórias contadas pelos Pretos e Pretas Velhas, que chegam na terra para prestar sua caridade através da incorporação, mostram que eles resistiam aos castigos e abusos físicos que sofriam, mantendo a fé nos Orixás e fazendo seus feitiços, o que até hoje é passado de exemplo aos filhos da terreira, que buscam nos conselhos dos Pretos Velhos a força e a coragem para enfrentar seus problemas cotidianos.

Os Preto Velho foram um povo sofrido, eles tiveram que sofrer, muitos perderam dente, muitos perderam braço, muitos não tinham uma roupa pra usar, só ganhada, andavam de pé descalço. (Mãe de Santo Ilsa Carla Farias, junho de 2018)

O Pai Joaquim apanhou tanto, mas foi o maior reprodutor. Ele era de Angola. Ele apanhava no tronco, mas não chorava, mas ele tinha 4 ou 5 negras pra engravidar. Tinha suas regalias, mas ele tinha que fazer filho e filho, porque o sinhozinho queria mais escravos. (Relato de Maria, junho de 2018)

152 A fé e o feitiço57 eram os principais instrumentos de resistência dos negros

e negras que lutavam contra a opressão escravista. A designação de feiticeiro, cunhada pelos brancos de forma pejorativa para minimizar as práticas afro- religiosas, é ressignificada pelas pessoas afro-religiosas que, quando exclamam os feiticeiros, estão reafirmando sua luta, como se este fosse um grito de resistência. O feitiço servia para amedrontar os brancos, e quando estes demonstram medo é porque a ação está surtindo efeito, pois o povo que conhece e cultua sua ancestralidade não teme ser um feiticeiro, pois isso lhe dá prestígio e respeito.

Preta velha Dona Maria era uma velhinha cabeça branca, que cuidava um filho de sinhorzinho, mas te digo “Oh nega feiticeira!” (Relato de Maria, junho de 2018)

Povo de Preto Velho também, tudo que eles te dizem é certeiro, pode acontecer daqui um mês, um dia, daqui há 10 anos. O que Preto Velho fala e faz ninguém mais desfaz. Porque “Oh povo bem feiticeiro!” (Mãe de Santo Ilsa Carla Farias, junho de 2018)

A ancestralidade dos saberes africanos faz do feitiço dos Pretos Velhos os mais temidos e poderosos. Com conhecimentos antigos trazidos da África, o Preto Velho conhece mandingas que não são possíveis de serem desfeitas por outras entidades, nem mesmo o temido Exu (povo da rua), pois só os ancestrais africanos compartilham desses segredos.

Trabalho de Preto Velho o Exu não desmancha. Porque o Preto Velho veio muito primeiro e o Preto Velho não vai te trair jamais. Porque o Preto Velho pode ter certeza que ele é teu amigo. Por tudo que eles passaram na terra, por sofrer, por tronco essas coisas tudo, são mais amigos, são bons, eles trazem aquela coisa boa, tu conversa com Preto Velho te dá uma calmaria, aquela paz. (Relato de Maria, junho de 2018)

Os Pretos Velhos são chamados de milongueiros58, pois conhecem bem as

ervas e seus efeitos curativos. Por isso geralmente são procurados pela comunidade para resolver problemas de saúde, buscando chás, infusões e

57“Para designar a aberração dos negros da Costa da Guine e para dissimular o mal-

entendido, os portugueses (muito católicos, exploradores, conquistadores, até mesmo mercadores de escravos), teriam utilizado o adjetivo feitiço, originário de feito, particípio passado do verbo fazer, forma, figura, configuração, mas também artificial, fabricado, factício, e por fim, fascinado, encantado.” (LATOUR, 2002, p. 16)

58Aquele que, entre os Negros da África faz ou aplica os milongos.(nome com que designam

153 benzeduras. Herança africana, esses conhecimentos medicinais curavam as doenças e aliviavam as dores provocadas pelos castigos físicos de pessoas escravizadas, sendo os feiticeiros importantes agentes no auxílio dos companheiros de senzala.

Eles estão sempre te passando uma palavra boa, te incentivando, te confortando. Eles te confortam, te passam a mão na cabeça, é uma energia muito boa. Eles são muito milongueiro, tu diz assim “ah Vó, tô com uma dor de garganta” e eles já tem uma receitinha pra te dar. Aí tu faz e funciona! Claro, não é como ir no médico tomar um antibiótico, mas funciona. Mas é uma coisa que no tempo deles não fazia esse luxo, porque não ia a médico, faziam infusão, faziam chá e ficavam bem. (Mãe de Santo Ilsa Carla Farias, junho de 2018)

Os Pretos Velhos geralmente se apresentam na figura da pessoa idosa, encurvada pelo peso da idade, que precisa de uma bengala para se apoiar e faz a caridade sentada num banquinho, pois cansa de ficar muito em pé. Algumas delas podem trazer no espírito as sequelas que ficaram do tempo da escravidão, como marcas físicas e falta de membros decorrentes dos castigos que sofriam.

A vibração de Preto Velho é muito diferente, só quem pode te dizer é o povo que gira, é uma dor nas costas, mas boa. Tu sente que é uma força bem maior, porque geralmente são entidades velhas, bem velhinhas, tu sente o peso, não sei te explicar, mas é o melhor povo que tem. Porque eu acho que é um povo assim, pra gente que é carne, se tu tem uma dúvida já te tira a dúvida na hora, porque tem gente que vem com o pé torto, tem gente que não tem uma perna, aí tu vê pessoa trabalhando uma duas horas com a perna assim, aí tu pergunta, tu não fica uma hora com a perna assim que começa a te cansar. (Mãe de Santo Ilsa Carla Farias, junho de 2018)

É justamente o papel da ancestralidade personificada na figura do Preto Velho que lhe dá o poder sobre as palavras, as quais são passadas através da oralidade, em histórias de vida e de resistência no “tempo da escravidão” contadas durante a doutrina nas terreiras.

Compreendendo, portanto, os Pretos e Pretas Velhas como os ancestrais afro-centrados que continuam vindo ao mundo físico através da incorporação, que por meio de seus cuidados seguem personificando a resistência de seu povo que hoje luta contra as mazelas cotidianas da vida na periferia, e ainda, com sua doutrina atuam na preservação das memórias, seja da África ou do cativeiro, e na transmissão das crenças e saberes afro-diaspóricos para os mais novos, levanto a seguinte questão: por que nós arqueólogos não podemos ouvi-los se

154 estamos constantemente em busca de lugares que preservam seus fundamentos religiosos?

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