3.2 R´ealisation de gradients de concentration dans des canaux arrondis
3.2.2 Mod´elisation du r´egime `a temps court : sous r´egime ind´ependant de
“A história de que são todos filhos de Deus é a maior mentira de todos os tempos. Tem sentido um filho de Deus viver na condição de mendigo? Não há como aceitar esse fato!” Edir Macedo
“É possível viver uma vida abundante quando se é fiel a Deus. Essa fidelidade exige reconhecimento, contentamento e correta aplicação dos bens recebidos de Deus.” R.R. Soares
A teologia da prosperidade (TP) tem sido identificada como a variável mais determi- nante desse tipo de pentecostalismo. Em termos classificatórios, Mariano a coloca como ele- mento distintivo desse grupo religioso. Sua lógica perpassa tanto o campo da religião quanto do mercado, devendo sua origem teológica principalmente ao seu caráter veterotestamentário. Muito tem se discutido acerca da teologia da prosperidade tanto no meio acadêmico quanto na mídia, resultado da sua lógica religiosa e financeira. Aos olhos da academia, tem chamado a atenção dos pesquisadores a doação voluntária de bens e dinheiro por parte dos fiéis; por parte da mídia, as denúncias de charlatanismo avolumaram-se as últimas décadas, com manchetes sobre o apelo financeiro feito aos fiéis pelos pastores e suas tentativas de “engana- ção”. Não é de se admirar que a denominação mais mencionada neste processo tem sido a IURD, segmento pentecostal que revoluciona o campo religioso brasileiro.
Apesar dessas questões mais aparentes, a TP está relacionada a questões mais profundas que dizem respeito ao domínio próprio do sagrado. Parte-se do enfoque de que a TP faz parte de uma visão de mundo, uma visão da cultura, que insere uma interpretação alternativa à relação do indivíduo principalmente com a vida material, dando-lhe um significado simbólico que con- trasta, ao mesmo tempo que se relaciona, com a lógica capitalista. Há uma via de mão dupla na TP com a linguagem dominante do capitalismo que está ligada, em termos gerais, à sua inter- pretação sagrada da realidade. A segurança financeira e as formas de absorver recursos foi de- terminante para a autonomia das denominações pentecostais e seu crescimento. Leonard já ha- via reconhecido o dízimo como uma prática necessária para a independência das igrejas protes- tantes independes em processo de nacionalização face às igrejas estrangeiras (LEONARD, 2002 p. 285-287).
A TP está ligada a uma interpretação específica da Bíblia; conjuga-se, em tese, à lógica veterotestamentária dominante no pentecostalismo de terceira onda. A TP deve ser entendida, em termos teológicos, como parte de uma aliança do homem com Deus, que para selar a união com seu povo determina uma contrapartida de cada fiel. A partir dessa contrapartida, que é
principalmente a doação de bens e dinheiro, a aliança é selada e a soberania de Deus pode ser efetivada na vida daquele que passou a fazer parte da sua aliança. Mas antes de discutir a justi- ficação bíblica da TP, é importante mencionar sua origem, já que não é uma visão de mundo inaugurada pelo pentecostalismo brasileiro, mas importada, tendo uma origem difusa, já que herda uma visão de mundo amalgamada a partir de diversas ideias teosóficas, holísticas e reli- giosas.
Campos afirma que a gênese da TP pode ser encontrada nos Estados Unidos a partir de um movimento de ideias que surgem no século XIX e que desembocam nos discursos dos pre- gadores televisivos nesse país na segunda metade do século XX. Segundo ele, “Todos esses movimentos trabalham o pressuposto de que as forças mentais e espirituais estão à disposição do homem para realizar curas e resolver problemas” (CAMPOS, 1999, p. 365). Soma-se a isso a influência da percepção, principalmente terapêutica, do controle da vida pela mente, ideia que desembocou na elaboração da confissão positiva ou pensamento positivo, doutrina de ideias que afirma que a confissão traz a posse. Todo esse caldeirão de pensamentos convencionou-se chamar de Nova Era. As implicações desse fenômeno para o campo pentecostal serão analisa- das no capítulo seguinte, uma vez que sua complexidade exige um tratamento a parte.
Importa por hora destacar as explicações teológicas da TP, a fim de compreender a visão de mundo dos especialistas religiosos implicada na exegese que realizam em torno dessa ques- tão. Toma-se mais uma vez a IURD como exemplo, já que tem sido a denominação mais ex- pressiva em relação a essa prática. Objetiva-se, com esse ponto de partida, salientar a visão religiosa em torno da cultura que subjaz a TP.
A origem bíblica da TP é dada pela IURD como predominantemente veterotestamentária. Nos principais livros em que tratam do problema, pode-se ver o uso expressivo de citações do Antigo Testamento, ressaltando a hipótese mencionada anteriormente. A lógica da TP está li- gada em linhas gerais à lógica da aliança de Deus com o povo de Israel. Há uma reprodução dessa aliança feita pela IURD, fenômeno que é principalmente expresso nos rituais propiciató- rios dentro dos templos.
O Senhor prometeu a Moisés, representante dos filhos de Israel, que todos os locais onde seus pés pisassem seriam de propriedade dele. Na prática isso sig- nificava que os limites da conquista dos filhos de Israel dependiam deles mes- mos. Quanto mais andassem, maiores seriam os termos de sua prosperidade (MACEDO, 2008, p. 26).
Deus não precisa de dízimos nem de ofertas. Porém, quando o fiel tira do bolso os primeiros dez por cento, ou seja, a primeira décima parte de toda a sua renda, e os deixa no altar de Deus, obviamente ele está admitindo a soberania
divina de forma prática e incontestável. O dízimo relaciona o fiel com o Altís- simo, a exemplo da experiência de Moisés quando se aproximou da sarça ar- dente. Naquela oportunidade, Deus o mandou tirar as sandálias dos pés porque o lugar que estava era terra santa (MACEDO, 2008, p. 28-29).
Muitos séculos antes de Moisés receber as Leis de Deus e os seus mandamen- tos, Abraão já honrava o Senhor pagando o dízimo. Quer dizer, a lei sobre o dízimo existia antes da criação de Israel. O segundo filho de Adão, Abel, já o pagava. A princípio, o dízimo é o elo entre a criatura e o Criador, entre os mundos físico e espiritual. É a expressão de fé materializada no Autor da Vida (MACEDO, 2008, p. 37)
(…) Quando a pessoa vive no território do diabo, Deus não tem como defendê- la. O Senhor só tem direto de livrar a pessoa quando ela, por livre e espontânea vontade, decide se transferir para o seu território! Só então o Senhor dos Exér- citos entra em ação e a lira do devorador e da sua maldição. Mas, enquanto estiver na condição e ladrão, ou no território do devorador, terá seu futuro comprometido pela maldição (MACEDO, 2008, p. 60).
“Crer é muito mais do que acreditar”, afirma Edir Macedo (2008, p. 23). As passagens acima mostram como a TP está alicerçada em uma exegese bíblica que coloca o indivíduo como sócio de Deus, usando as palavras do Bispo Macedo. A teodiceia implícita é a da história de um povo eleito que a partir de um pacto com Deus foi compelido a ofertar e dizimar continuamente como símbolo da aliança com o criador, caso queira partilhar da sua proteção. Case aceite os termos do pacto, as promessas feitas por Deus aos patriarcas e profetas tornam-se coextensivas ao fiel. A principal parte do pacto diz respeito ao sacrifício da doação de bens materiais. A fé em si não basta se não for colocada em prática. Se os termos do pacto não forem aceitos, o indivíduo não permanece protegido por Deus, estando a mercê das artimanhas do Diabo.
É preciso trazer os dízimos e as ofertas ao altar do Senhor. O altar da IURD representa o altar do Antigo Testamento, principalmente do templo de Salomão. Essa analogia já foi co- mentada anteriormente. As doações a Deus, nessa ótica, devem ocorrer no templo. Até mesmo as doações virtuais e os depósitos bancários, formas de doação aceitas por muitas denominações, utilizam a metáfora do templo em sua prática: “Ajude a Igreja”. A doação para a obra de Deus, portanto, passa sempre pela doação a uma igreja. Ressalta-se que a identificação de igreja como templo se deve principalmente a Calvino, ensejando a uma interpretação da igreja como insti- tuição por parte do pentecostalismo, ou seja, igreja e templo tornam-se sinônimos.
A força centrípeta desse tipo de pentecostalismo alinha-se também a outro aspecto: as- segurar e motivar a doação financeira no templo, lugar em que há mais liberdade expressiva para a exigência de dízimos e ofertas dentro do espaço litúrgico. Fazer com que o fiel visite o templo, com que ele se torne um membro fiel, permite a igreja um controle e uma doação a
longo prazo de dinheiro. Obviamente que essa doação não é automática e passa pelo crivo dos doadores, mas amplia os limites da eficácia do discurso dos agentes sacerdotais.
Não podemos considerar que a teologia da prosperidade, uma designação muito mais acadêmica do que nativa aos membros das denominações pentecostais, é encontrada apenas no pentecostalismo de terceira onda, bem como o exorcismo e a cura divina. A prosperidade, a princípio, é um tema recorrente na Bíblia. A interpretação que conduziu grupos pentecostais a uma leitura pragmática do seu significado foi o que resultou na diferenciação do complexo de denominações do espectro pentecostal de terceira onda91. A prosperidade entendida como pros- peridade material foi a leitura realizada pelos especialistas religiosos desse tipo de pentecosta- lismo, encontrando eco em uma população com problemas existenciais e materiais profundos – não podemos afirmar que a busca por esse tipo de explicação da realidade é motivada apenas pela procura de benefícios econômicos. Na verdade, os benefícios materiais são apenas prova de uma expressão maior: da soberania de Deus. Devemos admitir que no pentecostalismo de terceira onda o sagrado se manifesta de forma alternativa ao pentecostalismo tradicional, sem, no entanto, deixar de representar o fenômeno numinoso. A busca por satisfação material re- veste-se de uma aura sagrada, o dinheiro perde seu significado profano, tornando-se uma forma de benção. A TP sintetiza em seu seio um dos maiores sacrifícios e talvez o mais difícil na sociedade capitalista moderna: a entrega financeira de forma voluntária à Igreja.
Neste ponto, trato como traço fundamental da visão de mundo embutida na TP a sua noção de sacrifício. Essa noção apresenta-se também como fundamental para a compreensão de sua teologia. Em sua máxima, A IURD afirma que Jesus foi o dízimo vivo entregue a Deus, sacrificado como a maior oferta que Deus poderia receber em nome da humanidade. Para honrar sua morte, é preciso que o fiel também realize sacrifícios, dizimando e ofertando para Deus. Este é o maior dos sacrifícios. Envolve, nessa ótica, doar aquilo que na cultura capitalista é o símbolo da felicidade, o dinheiro. Com esse sacrifício espera-se que Deus retribua o fiel com mais riquezas, já que Deus, após a realização desse ritual propiciatório, vê-se na obrigação de tal tarefa. Ou seja, o sacrifício exige não apenas a renúncia da lógica simbólica capitalista como também a reforça, dando-lhe um significado sagrado. Alia-se ainda a uma forma narcisística de subjetivação cultuada na segunda metade do século XX, marcada pela afirmação e pelo cuidado de si que toma corpo com o capitalismo globalizado (ESPERANDIO, 2006).
91 É comum que dentro da lógica do campo religioso algumas denominações neguem a crença na TP. O Apóstolo Valdemiro, por exemplo, não a assume formalmente, provavelmente por causa dessa disputa interna, mas tal me- canismo pode ser visualizado nas práticas da Mundial a partir das suas campanhas, conforme nos mostra Rodrigues (2014).
É preciso ressaltar que o diálogo com a cultura capitalista ocorre principalmente a partir do novo significado dado à prosperidade financeira e à causa da felicidade. A prosperidade pode ser vista como sinônimo de felicidade no sentido dados pelos fisiocratas e liberais do século XVIII, gênese da ideologia moderna do capitalismo. O dinheiro se torna, assim, a forma mun- dana disponível para abençoar o crente. No tempo de Moisés a forma encontrada por Deus para abençoar seu povo foi com o envio de mantimentos no deserto, já que a necessidade primordial era a alimentação. Na era moderna, o dinheiro, mediador universal, torna-se a solução dos pro- blemas. Para Macedo (2004, p. 45):
O sacrifício inclui o ato de renunciar voluntariamente a alguma coisa, em troca de outra muito mais valiosa. É a menor distância entre o querer e o realizar e inclui a troca. Muitos que se dizem cristãos ou religiosos evitam falar desse assunto, mas a grande verdade é que na relação entre o ser humano e Deus está sempre presente o dar e o receber. Ele é o cumprimento da palavra profé- tica de Deus para Adão.
Referindo-se ao sacrifício adâmico92, Macedo acrescenta que desde a queda todas as conquistas na vida devem ser resultado de algum sacrifício. Mas o sacrifício exige como seu maior requisito uma fé racional, ou seja, uma certeza de que mesmo diante das dificuldades, Deus fará o que prometeu. Desta forma, o fiel deve ter a certeza do que deseja e a convicção de que Deus receberá e retribuirá seu sacrifício. Quanto maior o sacrifício, maior a recompensa, de acordo com a lei natural expressa pela lógica da reciprocidade93.
Somente o sacrifício conduz à vitória. O sacrifício simboliza, aliás, a luta contra o diabo. As duas opções da cultura estão postas nessa dualidade: a vida com Deus ou a vida com o diabo. Vencer o mal é se aproximar de Deus, e para vencer o mal é preciso colocar a fé em ação. Há, portanto, apenas duas formas de se viver que devem ser vistas como as duas únicas opções da vida no mundo. A TP está atrelada à mediação entre essas duas opções.
92 Cf. Gn 3:19a, “Com o suor do seu rosto você comerá o seu pão, até que volte à terra”.
93 Podemos aplicar para o entendimento desse processo a teoria formulada por Mauss sobre a dádiva de dar, receber e retribuir (MAUSS, 2003). Sugestivo também aqui é a contribuição de Bourdieu para a compreensão desse fenô- meno, afirmando que o que importa nesse processo é o tempo entre o dar e o receber, uma vez que o recalque promovido por esse processo conduziria a uma ilusão (illusio) do seu verdadeiro significado que é ao mesmo tempo reconhecido e negado. Reconhecido, pois a generosidade da troca é dado como uma virtude e é um ato consciente; desconhecido porque a reciprocidade representa uma dominação simbólica que institui obrigações que se incorporam simbolicamente nos indivíduos (Cf. BOURDIEU, 1996). No sacrifício financeiro da IURD, dar, contribuir, ou seja, sacrificar, conduz o fiel a uma expectativa e, portanto, se inscreve na ordem temporal. O ato de generosidade, na verdade, segue aqui o princípio da obrigação retributiva, em que Deus torna-se obrigado a de- volver ao fiel sua justa medida. Apenas o que pode interromper a lógica natural desse processo é a falta de fé, principal dispositivo mediador dessa reciprocidade e, usando a teoria bourdiana, elemento dominante de controle das incertezas, uma vez que passa pelo crivo da instituição.