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Mod`eles de populations

O ato de ler é uma atividade complexa que implica a conjugação de diferentes competências (Carvalho, 2011). A leitura é uma atividade cognitiva que utiliza as capacidades de identificação das palavras tanto a nível de ortografia, atribuindo-lhe um significado, como a nível da atribuição da pronúncia. É um processo que se interrelaciona com a linguagem e dela depende (Rebelo, 1993). Para a investigação da temática em estudo será adotada a definição de leitura proposta no Currículo Nacional do Ensino Básico: “Entende-se por leitura o processo interativo entre o leitor e o texto, em que o primeiro reconstrói o significado do segundo. Esta competência implica a capacidade de descodificar cadeias grafemáticas e delas extrair informação e construir conhecimento” (Ministério da Educação, 2001:32).

Rebelo (1993) procurou na sua revisão sistemática definir o ato de ler e propõe a definição de Gollash, em 1982, apontando o ato de ler como um processo ativo de receção da linguagem. A linguagem corresponde a um sistema de símbolos que permite a comunicação entre espécies, através da expressão e comunicação de ideais ou sentimentos. Esta pode ser decomposta em duas formas essenciais à comunicação: a verbal (oral) ou falada e a escrita. A escrita, por sua vez, é o processo de codificação da linguagem por meio de sinais convencionais (Rebelo, 1993). O uso da linguagem escrita é uma aquisição humana recente que data de acerca de 5.000 anos, sendo que ainda existem culturas nas quais a linguagem escrita não é utilizada (Cruz, 2007).

As unidades elementares da linguagem são os fonemas e os grafemas. De acordo com Cruz (2007), os fonemas correspondem à representação oral dos sons e podem corresponder a uma ou mais letras (exemplo: [s], [ch] e [lh]) e os grafemas correspondem à representação escrita dos mesmos (exemplo: «c», «h» e «m»). A palavra “chocalho”, por exemplo, apresenta seis fonemas, oito letras e seis grafemas.

Outros aspetos importantes na análise das diferentes letras num sistema irregular como o português e que tem interligações com o campo percetivo e

fónico relacionam-se com (Cruz, 2007):

(1) As versões de uma mesma letra em maiúscula e minúscula, representando um mesmo fonema;

(2) Letras pouco distintas que representam fonemas diferentes, como é o caso das letras: «b» e «d» ou «E» e «F»;

(3) Letras que podem ter sons diferentes em diferentes palavras, como é o caso da letra «a» nas palavras “pai”, “pano” e “panda”. (4) Fonemas que são representados por mais de uma letra, como é

o caso dos dígrafos /nh/, /ch/ e /lh/.

Por sua vez, as unidades elementares da linguagem são os morfemas que são portadores de significado como palavras gramaticais, artigos, preposições, entre outros. As palavras são consideradas os elementos mais complexos da linguagem formando o seu conjunto o léxico ou dicionário de cada língua (Rebelo, 1993).

Dada a relação existente entre a linguagem e o processo de leitura é relevante aprofundar o desenvolvimento das competências de linguagem adquiridas pela criança ao longo do seu processo de desenvolvimento. O desenvolvimento da linguagem é efetuado por fases, acompanhando o crescimento da criança. Neste âmbito, diversos estadios, propostos por

Rebelo (1993), serão referidos de forma resumida: período pré-verbal dos 0-12 meses de idade, período verbal básico dos 1-5 anos de idade e desenvolvimento linguístico após os cinco anos (Quadro 1).

Quadro 1 – Estadios de desenvolvimento das competências de linguagem (adaptado de Rebelo, 1993)

Período pré-verbal (0-12 meses de idade)

• Fase de pré-elocução que se manifesta pela emissão de sons não identificáveis com palavras.

• Elementos fundamentais: aprendizagem auditiva, desenvolvimento cognitivo e desenvolvimento social.

Período verbal básico (1-5 anos de idade)

• Distinção de sons do falar e do não-falar.

• Utilização de padrão de elocução e de acentuação.

• Vocabulário reduzido (cerca de 50 palavras) começa a aumentar, atingindo as 400 ou mais palavras entre os 2/3 anos.

• Utilização de frases com palavras múltiplas. • Aptidão fonológica aumenta.

Desenvolvimento linguístico (após os cinco anos)

• Vocabulário excede as 1.000 palavras aos 3 anos, aproxima-se das 2.000 aos 4 anos e das 2.600 aos 6 anos.

• Construção complexa de frases.

Quando a criança ingressa no ensino formal já adquiriu as competências básicas de linguagem. O seu desenvolvimento linguístico começa nesta fase a interligar-se com a aprendizagem da leitura, devendo esta já estar consolidada aos 7 anos. No caso da escrita, a aprendizagem inicia-se por volta dos 6 anos de idade (Rebelo, 1993).

No entanto, existem diferentes sistemas de escrita que se regem por diferentes convenções utilizadas em cada língua particular. A essas convenções dá-se o nome de ortografia (Ferrand, 2007). A utilização da linguagem rege-se por convenções de tipo auditivo-verbal e de tipo visual. As primeiras correspondem ao conjunto de fonemas característicos da língua e as segundas aos sinais gráficos do sistema de escrita utilizados para representação da linguagem oral (Rebelo, 1993). A ortografia corresponde, neste âmbito, à correspondência entre as duas convenções. De acordo com Ferrand (2007), as letras correspondem às unidades básicas da leitura e é através da aprendizagem da leitura que o cérebro começa a descodificar os traços visuais pertinentes para a leitura.

(símbolos), ideográfico, logográfico, silábico e alfabético. Este estudo de investigação dedicar-se-á, em particular, ao estudo do sistema alfabético português que apresenta um número finito de letras (26 letras: A – B – C – D – E – F – G – H – I – J – K – L – M – N – O – P – Q – R – S – T – U – V – W – X – Y – Z). Neste âmbito, importa realçar o papel da forma global das palavras. A combinação de letras do alfabeto ou de grupos de letras corresponderá a diferentes fonemas que permitirão a construção de diferentes palavras e, por sua vez, a sua organização em frases com sentidos diferentes.

Como será que se descodifica a informação a ler? De acordo com Ferrand (2007), a leitura de caracteres implica a utilização de módulos ou níveis que se coordenam entre si: módulo visual, ortográfico, fonológico, morfológico e semântico (Figura 1). Nível semântico Nível Morfológico supralexical Nível ortográfico lexical Nível fonológico lexical Nível ortográfico pré-lexical Nível fonológico pré-lexical Traços visuais

Entrada visual Entrada auditiva

Traços acústicos Nível semântico Nível Morfológico supralexical Nível ortográfico lexical Nível fonológico lexical Nível ortográfico pré-lexical Nível fonológico pré-lexical Traços visuais

Entrada visual Entrada auditiva

Traços acústicos

A leitura decorre, assim, de processos de nível inferior e superior. A descodificação gráfico-fonética com reconhecimento visual de sílabas e palavras é acompanhada de processos interativos de conhecimento da língua, familiaridade com o tema e contexto (Esteves, 2008). O processo de descodificação permite a extração da informação contida nas palavras com recurso à ativação do léxico mental (Cruz, 2007). No entanto, para ler um texto é necessário mobilizar áreas cerebrais diferentes (occipitais, temporais, parietais e frontais) para conseguir: reconhecer visualmente as palavras, aceder ao léxico mental, recuperar o sentido da palavra, enquadrá-lo no contexto da frase e pronunciar essa mesma palavra (Ferrand, 2007).

O hemisfério esquerdo é aquele que controla as funções essenciais para a aprendizagem inicial da leitura, permitindo o acesso ao léxico pela via fonológica e o hemisfério direito está associado à via visual ou léxica e as suas funções são mais relevantes numa etapa posterior à aprendizagem

(Rebelo, 1993; Cruz, 2007). O hemisfério esquerdo está associado à linguagem e é constituído por três sistemas essenciais à leitura: a área de Broca (gírus frontal inferior), a região parieto-temporal e a região occipito-temporal (área da visão da forma das palavras). Neste âmbito, a leitura pode ser classificada em 5 etapas ou processos, de acordo com Fonseca (1999):

(1) Descodificação de letras e palavras através da visão (córtex visual) e da categorização da letra ao seu som correspondente;

(2) Identificação visuo-auditiva na área de associação visual; (3) Correspondência grafema-fonema;

(4) Integração visuo-fonética;

(5) Significação e compreensão com recurso ao léxico.

A automatização do processo de descodificação e reconhecimento das letras (envolve os módulos percetivo e léxico) é essencial para aceder à compreensão do texto (envolve os módulos sintático e semântico), porque se existirem bloqueios neste processo de nível inferior será difícil chegar a níveis superiores de entendimento da mensagem veiculada num texto (Cruz, 2007).