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1.4 Nouvelle Physique aupres de HERA polarise

2.1.2 Modeles d'energie noire

Os achados indicaram a coexistência de sentidos tradicionais e de novos sentidos e praticas sociais de gênero nas experiências dos casais entrevistados. Na ocasião das entrevistas, com exceção de Colombina, todas as mulheres entrevistadas trabalhavam fora de casa. Colombina fez a opção de passar um tempo sem um emprego fixo, para estar disponível para cuidar dos problemas de saúde do filho. Ainda assim, o dinheiro que recebia de uma bolsa do governo e da venda de cosméticos e bijuterias superava a renda do marido, sendo a principal entrada para o pagamento das despesas da casa. Helena acabou assumindo a responsabilidade de tocar o negócio da família, já que os transtornos gerados pelo alcoolismo de Estácio limitavam a atuação deste no trabalho. Maria Rosa e Nenê assumiram o papel de provedoras do lar.

Cabe ressaltar o movimento de não conformidade das mulheres diante das restrições e imposições de seus parceiros; seus posicionamentos diante das exigências dos

parceiros quanto à sua atuação como mães e esposas; seu enfrentamento ativo das violências diárias. Uma escuta cuidadosa permite fugir da tendência clássica de vitimizá- las apenas. Nenê enfrentou Lineu para trabalhar; Bárbara não se conforma com a indiferença e o abuso de direitos por parte de Oliver; Colombina briga, reivindicando sua liberdade e o direito de manter o contato com o mundo público; Helena pára de se preocupar com a reação de Estácio, conclui a faculdade, tira carteira de motorista e continua a cumprimentar seus amigos de faculdade. Maria Rosa sustenta a família, paga as dívidas do marido, mas não se sente empoderada; revela-se frágil demais para reagir às humilhações e inferiorizações do marido. Mantém a relação por valorizar o status de mulher casada e mãe. Mesmo vivendo essa ambigüidade ela não deixa de lamentar a perda da autonomia e da vida bem sucedida de solteira. O fato de lidarem com a presença cotidiana de conflitos conjugais per si atesta a resistência destas mulheres.

O descontentamento e o sofrimento das mulheres insinuam o quanto sentem o peso e o desgaste existentes no exercício dos papéis estereotipados comumente designados ao feminino nos cenários conjugal e familiar. Expressam, mesmo que não tenham consciência disso, a não conformidade e o questionamento dos sentidos tradicionais de gênero. Bárbara e Helena referem-se aos parceiros como machistas. Todas questionam o mando masculino e verdades suspeitas que convencionam que homens podem ter mais direitos, inclusive, o de dispor sobre os direitos de suas mulheres. Elas também querem decidir, participar, conviver com outros, ir e vir, ser donas de seus corpos e de sua liberdade.

Outro indício de ruptura com os sentidos tradicionais de gênero aparece nas expectativas que nutrem em relação aos parceiros. Embora cobrem um bom desempenho deles no papel de chefes da família e de provedores, desejam e cobram que sejam companheiros; sensíveis; românticos; bons pais; companhias agradáveis com as quais possam curtir a vida. As mulheres querem também que eles priorizem e dediquem mais tempo a elas e à família. Velhos e novos modelos de masculinidade aparecem entrelaçados nos discursos das mulheres.

Estes achados vão ao encontro de resultados de estudos que identificaram, nos posicionamentos das mulheres, o movimento de ruptura, resistência e enfretamento das subordinações impostas por papéis sociais, moldes identitários e por relações demarcadas pelos estereótipos de gênero (Azerêdo, 2004;Cortez & Souza, 2008; Pondaag, 2003; Saffioti, 2002). A não conformidade com os estereótipos femininos, a postura ativa e de enfrentamento por mudanças em suas relações, suas “insubordinações” (Cortez & Souza, 2008) são indícios do empoderamento das mulheres participantes da pesquisa. As transformações introduzidas no tecido social pelos movimentos feministas e por novas

práticas sociais, como a inserção das mulheres em espaços ditos masculinos, entre outros fatores, contribuíram para tal.

Se nas mulheres este movimento de ruptura foi visível, nos homens foi quase inexistente. Suas narrativas precipitam resistências e boicotes às mudanças de gênero. Alguns afirmaram dividir as tarefas domésticas, o que foi mais característico dos discursos de Lineu, Arlequim e Oliver. O último se ocupava dos cuidados dos filhos. Entretanto, a busca por mudanças nos papéis e nos padrões relacionais por parte das mulheres, como o fato de terem um emprego e de adquirirem certa autonomia dos parceiros, parece ser conotada pelos homens com ressentimento, insegurança e como algo a ser suprimido.

Esse processo fica evidente nas queixas dos participantes de que as mulheres desobedecem, não pedem autorização para sair, não dão satisfação de tudo o que fazem, tomam decisões sozinhas ou que mudaram depois que começaram a trabalhar fora de casa ou que compraram um carro. Tais fatos são significados como algo que fez as parceiras ficarem diferentes, agindo como se fossem superiores. Note-se o quanto sinais do poder, alteridade e da atividade destas mulheres são tomadas como ameaça.

Estes achados corroboram estudos que apontam o quanto expressões do poder feminino se consolidam como ameaças às masculinidades (Cortez e Souza, 2008; Welzer- Lang, 2001; Wood, 2004). Mudanças nas concepções e práticas de gênero, introduzidas pelas parceiras, tocam diretamente na distribuição de poderes na arena conjugal. Ademais, para as próprias mulheres, seu empoderamento é ameaçador, pois pode representar alternativa para o rompimento da relação ou para uma busca de mudanças relacionais, que podem gerar conflitos. Há razões, portanto, para que suas percepções e seu empoderamento sejam relativizados por si mesmas e pelos parceiros.

A naturalização dos estereótipos de gênero é tão significativa que os relatos dos homens participantes da pesquisa que cuidam dos filhos e desempenham afazeres domésticos, surgem associados a acusações de que suas mulheres falham como esposas, mães e donas de casa. Daí Oliver não julga normal os filhos perguntarem a ele o que tem para o almoço. Quando narraram seu envolvimento nos afazeres domésticos, eles expressaram orgulho por serem homens bons, ao estarem assumindo tarefas que deveriam ser desempenhadas pelas parceiras. Ficou claro que eles se sentiam como se fossem exceção. Ademais, eles usavam com freqüência o verbo “ajudar”, o que sugere que tais tarefas são mesmo femininas.

Os achados revelaram que as resistências a novos sentidos e práticas do gênero são mais presentes nos discursos masculinos. Corroboraram pesquisas que indicam que, nos sistemas conjugais violentos, as mulheres buscam mudar as condições de subordinação e

os estereótipos de gênero, enquanto os homens tentam mantê-los (Connell, 1995; Cortez & Souza, 2008).

Ainda que estivesse mais presente nas entrevistas dos homens, o aprisionamento a sentidos e práticas tradicionais de gênero não foi exclusividade do universo masculino. Foi visível, nos discursos dos homens e das mulheres participantes, o que podemos nomear como desejo do estereótipo. Quando mudanças de gênero se insinuam nas conjugalidades, surpreendentemente emergem imagens arcaicas do feminino e do masculino pelas quais os entrevistados anseiam.

Por um lado, as mulheres falaram de um esgotamento e de estarem no limite pelo acúmulo de responsabilidades relacionadas aos papéis tradicionais de esposa, de mães aliados ao de profissionais. O peso da múltipla jornada ficou evidente. Por outro lado, elas revelaram um desejo de encarnar estes papéis tradicionais, de ter o que “toda mulher sonha” (Bárbara). Mostraram, inclusive, sentirem-se culpadas quando algo não vai bem no desempenho destes. As mulheres têm consciência de que não é fácil desempenhar os papéis femininos tradicionais. Sabem que os sentidos tradicionais de gênero se impõem e restringem suas identidades e suas relações, entretanto essa consciência não as impede de incorporá-los em suas experiências.

A forma como as mulheres perceberam e se posicionaram diante de novos sentidos e práticas que se insinuam na vida conjugal e familiar evidenciou o apego aos estereótipos de gênero. Assim como os homens, elas também demonstraram sentir incomodadas quando práticas sociais de gênero fogem do estereótipo. Há uma expectativa de que os parceiros demonstrem força e comando na vida familiar, o que faz, por exemplo, Helena ver Estácio como fraco. Pelo fato de ser a provedora da casa, Nenê disse que os papéis de esposa e marido, na casa dela, são atuados “ao avesso”. Quer dizer, o normal, natural, seria o homem ser o provedor. Nas interações conjugais nas quais as mulheres são as provedoras da casa, essa expectativa ficou evidente. O fato do parceiro dar pouca ou nenhuma assistência financeira foi visto como uma falha masculina. Quando não dependem deles, as mulheres disseram não entender por que mantém o vínculo.

As mulheres pareceram pouco confortáveis no papel de provedoras. Foram freqüentes as queixas quando usam o dinheiro nas despesas domésticas. Um aspecto chamou a atenção: assumir esta condição não coloca as mulheres em uma posição de poder na relação. Assim Nenê se mata para pagar as despesas de casa, enquanto Lineu junta dinheiro e constrói um patrimônio sem fazê-la participar disso. Maria Rosa faz o mesmo, enquanto Campos, desempregado, se gaba e se diz empresário, subestimando e humilhando a esposa.

A autonomia financeira parece dar lugar para novas formas de subjugação das mulheres: a exploração, o deboche, a violência patrimonial. A independência, financeira da mulher apareceu como elemento ameaçador das identidades masculinas - ela mobiliza os homens a utilizarem mecanismos que as afetem, abalem sua auto-estima, fazendo-as sentirem-se incompetentes e incapazes. Foi comum os homens participantes acusarem as parceiras de falhas nos papéis de mãe, esposa e dona de casa, o que agravava a culpa que elas já sentiam por trabalhar fora de casa. Deste modo, o trabalho profissional das mulheres é significado como falha e é desqualificado. Neste jogo paradoxal, elas acabam não se sentindo empoderadas. Aliás, isso confirma o que Amâncio (2001) advoga: é difícil, para as mulheres, assumirem a posição de poder. A independência financeira é condição necessária, mas não suficiente para a autonomia e o empoderamento das mulheres.

A pesquisa permitiu constatar mudanças no tocante ao gênero que impõem aos casais entrevistados negociações conjugais inusitadas, como discutido por Alvim & Souza (2005). Paradoxalmente confirmou a tendência característica de famílias com histórico de violência, apontada por alguns estudos (Corsi, Pondaag, 2003; Ravazzola): a de reiteração dos sentidos tradicionais de gênero, de preservação de expectativas relacionadas aos papéis femininos e masculinos convencionais e de uma estruturação hierárquica. Os sentidos do gênero, para os participantes, oscilam entre a tradição e a mudança. Isso permitiu visualizar que estamos vivendo um momento histórico de “transição de gênero”, como denominado por Dantas-Berger e Giffin (2005).

Foi possível perceber a existência de uma tensão na coexistência de sentidos tradicionais e novas configurações e práticas sociais de gênero. Poderia ser razoável acreditar que novas configurações de gênero seriam positivas para as interações conjugais. Mas o que se observou é que, coexistindo com sentidos arcaicos típicos dos contextos conjugais caracterizados pela violência (Corsi, 1999; Goldner e cols., 1990; Ravazzola, 1997), tais configurações não são sempre positivas para a conjugalidade. Contribuem para a ocorrência de conflitos, pois é como se os atores estivessem comparando o vivenciado com a matriz tradicional de gênero (Rubin, 1975) que, surpreendentemente, ainda marca sua orientação no tocante ao sistema sexo/gênero. Neste momento de transição representacional, foi possível observar que as mudanças nos sentidos e práticas de gênero geram conflitos que, por sua vez, podem resultar em violência (Cortez & Souza, 2008; Pondaag, 2003).

Concepções tradicionais de gênero mostraram sua força: foi possível perceber o quanto a presença dessas concepções boicota novas significações e práticas dos homens e mulheres participantes do estudo no cenário conjugal. Por vezes, a impressão é que as

mudanças nos sentidos de gênero não acompanham o ritmo das transformações nas práticas sociais, descompasso que é razão para os conflitos na vida a dois. Outras vezes, é como se mudanças nas práticas funcionassem apenas como novas roupagens para sentidos históricos de gênero, que permanecessem intactos nas formas como restringem modos de ser, papéis e interações entre homens e mulheres.

Os achados desta pesquisa corroboram, portanto, estudos que apontam para a relação entre violência conjugal e concepções tradicionais de gênero (Hirigoyen, 2006; Pondaag, 2003; Ravazzola, 1997) e que mostram que os sentidos atribuídos aos papéis de gênero nao mudaram tanto como se possa imaginar (Alvim & Souza, 2004; Dantas- Berger & Giffin, 2005). A presença de tais concepções favorece a produção da violência na conjugalidade, bem como serve para justificá-la e legitimá-la.

Foi notório o quanto o uso da violência, para os homens, aparece como uma forma de preservar poder e a própria masculinidade, como mostram Cortez & Souza (2008), autor de homofobia e viol contra mulhere, Wood (2004). Para estes, a possibilidade de fazer uso dela é significada não só como direito, mas como dever; como atitude respaldada socialmente. A crença de que é justo e natural impor-se às parceiras, controlá-las, convertê- las em objeto (Chauí,1985) respalda e justifica a perversidade da violência perpetrada.

Para as mulheres, o uso da violência é instrumento para conquistar poder, para se fazer ouvir. Serve também para provocar, lavar a alma, se vingar e exigir que suas demandas silenciadas e negadas sejam colocadas em foco. É tentativa de espelhar para o outro o sofrimento vivido pelas violências impetradas e minimizadas. É, sobretudo, um recurso para buscar sair da condição de coisa, de objeto do discurso, para preservar e ressignificar suas identidades. Os achados permitem questionar estudos que apontam que mulheres agridem apenas em autodefesa. Melhor ainda, permitem qualificar os sentidos dessa autodefesa.

Ficou claro que o sistema sexo/gênero (Rubin, 1975), oprime tanto homens quanto mulheres. Foi notório o quanto os casais participantes estão presos a papéis de gênero tradicionais. Cabe colocar então a questão: será que o processo de tolhimento de novas possibilidades de ser e de se relacionar, não constitui uma violência muito dura que se impõe sobre cada um dos participantes? Foi visível o sofrimento decorrente do exercício dos papéis tradicionais de gênero para ambos os sexos. Para as mulheres, isso mostrou-se ainda mais grave, pois concepções tradicionais implicam, muitas vezes, na privação de suas escolhas, no controle e na sua negação como sujeitos por parte dos parceiros. Se alguns destes chegam a se dar conta do peso dos estereótipos de gênero, há razões para

argumentar que esta violência sutil é pouco nomeada como tal. É que as prescrições de gênero são naturalizadas.

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