RENASCENTISTA NA PRODUÇÃO CARTOGRÁFICA
As técnicas e instrumentos que os construtores de mapas utilizaram no período entendido entre 1500 a 1600 resgatam um conhecimento adquirido de séculos anteriores. Contudo, os mapas que estavam associados à chamada “era dos manuscritos”, obtiveram um acréscimo notável em número por toda Europa. Entre 1400 e 1572, estima-se que havia pelo continente, aproximadamente alguns milhares de mapas. Em apenas vinte oito anos de (1472-1600), este número alcançava patamares na casa dos cinco mil mapas (WOODWARD, 2007). Estes mapas foram sendo construídos com propósitos distintos em sua maioria produzidos nos grandes centros econômicos da Europa.
A adoção dos processos de xilogravura e talho doce20 “possibilitou a impressão de um grande número de mapas...”, assim “o aumento da procura de mapas, antes quase inexistentes, fez surgir o cartógrafo, como profissão, e o comércio de mapas, com o aparecimento de editores e negociantes especializados na sua produção e venda” (ADONIAS, 2002 p.37). Entretanto, entende-se que a cartografia não teve esse papel socializador que a autora afirma pelo menos, no período estudado. Os mapas que sobreviveram ao tempo, estão guardados em bibliotecas, sendo considerados produtos raros. Nestes exemplares, apresenta-se uma característica em comum, a riqueza de detalhes iconográficos (pictóricos), muitos decorados com pó de ouro. Naturalmente, há de se destacar que estas obras não foram destinadas a reprodução em larga escala, objetivando difundir e socializar os conhecimentos geográficos com a maior parte da população. Ao invés disto, esses mapas, bem elaborados, objetivavam um público seleto e específico, ou seja, a aristocracia europeia.
Adonias (2002) afirma que o “homem comum teve acesso ao mapa, após a invenção da imprensa móvel”, porém, na Europa daquele tempo, a população era composta basicamente por camponeses, servos do regime feudal que ocupavam a base da pirâmide social. Sem o privilégio à educação, a maior parte da população não era letrada, fator
20 Xilogravura é o processo de gravação na madeira, enquanto Intaglio ou talho
doce é o processo de gravação em placas metálicas, geralmente cobre, também chamado de gravação em metal.
preponderante para o reconhecimento das informações geográficas que os mapas transmitiram. Soma-se a este fato, a questão do alto custo de impressão dos mapas. Portanto, existiu na verdade uma soma de questões que sustentam a tese de que não haviam condições favoráveis para que uma ampla produção cartográfica fosse desenvolvida, salvo, entretanto, os mapas em que haviam o interesse de divulgação, por parte desta aristocracia, como os de orientação religiosa por exemplo. Adonias (2002), no entanto, inverte a ordem dos fatos, o surgimento do comércio de mapas que estimulou o aparecimento, primeiro da imprensa de gravação, depois das casas de edição e, consequentemente de profissionais ligados a essa atividade, não o contrário. O impulso foi seguramente o econômico, da mesma forma que o desenvolvimento de novas tecnologias na navegação oceânica, e a consolidação de uma nova rota comercial com as Índias.
Ademais, cosmógrafos já praticavam a arte de produzir instrumentos, cartas geográficas, cosmográficas e de marear em tempos pretéritos ao renascimento. No entanto, a etimologia das palavras: “cartas” e “mapas” e suas características definidoras é que sofreram modificações com o passar dos tempos.
Para compreender o processo evolutivo das técnicas e instrumentos que foram utilizados na produção cartográfica quinhentista, faz-se necessário contextualizar as ciências que foram desenvolvidas nas universidades no período anterior. A partir do século XI, graças, sobretudo a criação das universidades, a matemática, a geografia e a astronomia dominaram o cenário educacional da Europa. A expansão universitária ocorreu mais acentuadamente após 1400, tendo, no ano de 1500, aproximadamente trinta e nove universidades por todo continente (LINDGREN, 2007).
Havia um interesse das elites dominantes da época, em que membros da Igreja e soberanos, concediam privilégios a quem frequentasse as universidades. Estes indivíduos ascenderiam economicamente, formando uma classe social mais elevada. As principais cátedras, ministradas nestas referidas universidades, eram as Artes Liberais, a Matemática e a Astronomia. A popularidade dos manuais técnicos e científicos ensinavam a matemática (aritmética) para o uso de comerciantes, a geometria para arquitetura e indústria da construção e para os navegadores a astronomia, foram cátedras fundamentais ao amadurecimento científico da Europa (LINDGREN, 2007). A motivação desses estudos partiu, sobretudo, dos membros mais abastados da sociedade Europeia, que habitavam os principais centros de ascensão econômica da Europa, como Florença, Colônia, Londres, Paris
e Brugge. “... dentre estes, havia comerciantes e soberanos, que ansiavam usar esses conhecimentos para proteger as rotas marítimas, além de objetivarem embelezar suas cidades com edifícios e igrejas, ensinando para sua prole, os métodos de cálculo conhecidos e úteis para o intercâmbio de mercadorias e para a arte da navegação”. (LINDGREN, 2007 p.477)
Conforme Woodward (2007), a necessidade de cuidadosa medição, ou seja, das técnicas e instrumentos desenvolvidos para obter com mais precisão ângulos, distâncias e medidas, no incipiente levantamento terrestre, surgiu em parte por conta da carência de empresas ligadas ao comércio, em normatizar as unidades de comprimento e peso. Coordenadas geográficas como a latitude e longitude foram assim, determinadas em trabalhos acadêmicos e não como uma preocupação prática da astronomia. Importa destacar que o cálculo preciso da longitude somente ocorreria a partir da invenção do cronômetro, final do século XVIII, sendo extremamente complexa sua medição nos períodos anteriores (WOODWARD, 2007).
Assim mesmo, o erro posicional no cálculo da latitude foi inferior a 0,4 graus, na medição da linha da costa brasileira quinhentista, como nos apresenta Cintra (2012), fato que desperta o interesse em desvendar os instrumentos e técnicas utilizadas. Para tanto, importa destacar o papel dos principais centros produtores de mapas no continente e sua relação com o emprego das técnicas, instrumentos e manuais.
2.4 OS PRINCIPAIS CENTROS PRODUTORES DE MAPAS