Chapitre IV. : Résultats et Discussions
IV.4. Étude du transfert de matière
IV.4.3. Modélisation de SVE/Venting
“Não gosto das palavras fatigadas de informar. [...] Porque eu não sou da informática: eu sou da invencionática.” (Manoel de Barros)
Neste capítulo, apresentamos o repertorio conceitual da producao da existência, baseada no pensamento em Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) de Álvaro Vieira Pinto e de Paulo Freire, como proposta de fundamentacao teorica em estudos em Interacao Humano- Computador (IHC) para compreender “usuários” como seres humanos que produzem suas existências por meio de tecnologias computacionais.
O capítulo inicia com um panorama historico dos fundamentos teoricos dos estudos em IHC e suas relacões disciplinares. É apresentada uma diversidade de concepcões de “usuário” em IHC, por diferentes matrizes teoricas e como elas explicam a relacao entre pessoas e de pessoas com artefatos computacionais. Observamos algumas limitacões dessas compreensões, já indicadas pela literatura em IHC, e indicamos a abordagem dialético-existencial como alternativa teorica para compreender como a existência humana se interliga com o uso e a producao de artefatos computacionais. Buscamos problematizar o conceito de ser humano, subjacente à ideia de “usuário”, a partir do pensamento em CTS de Vieira Pinto e de contribuicões de Paulo Freire. A partir disso, delineamos o repertorio conceitual em torno da “producao da existência”, a partir de três eixos: existência, relacões entre consciência e realidade e o desenvolvimento e alienacao da existência. Consideramos que essa concepcao ontologica do ser humano exige reconhecer “usuários” como existentes sociais, situados, de práxis, e em transformacao. Isso implica tomar “usuários” como pessoas que produzem, agem e se constituem por e com tecnologias. Seres que possuem como essência a necessidade de produzir sua propria existência. Por sua vez, tecnologias sao vitais para os modos como podem construir para si mesmos a elaboracao de seus mundos, mesmo que a pessoa se encontra alienada das técnicas e espacos projetuais socialmente propícios para conduzir para seu proprio desenvolvimento.
2.1 Fundamentos teóricos em IHC: traços históricos e relações disciplinares
Interacao Humano-Computador (IHC)27 é uma denominacao oferecida a estudos28 da relacao
entre pessoas e tecnologias, que, historicamente, tem privilegiado a análise, a avaliacao e o projeto da interacao entre pessoas, mediada por artefatos computacionais.
Nas últimas décadas, os estudos em IHC têm se formado como teoricamente diversos (CARROLL, 2003; ROGERS, 2004, 2012), com uma variedade de abordagens teoricas (KUUTTI; BANNON, 2014) e com relacões disciplinares heterogêneas (MERKLE, 2002). Para Yvonne Rogers (2012), esse ecletismo do escopo teorico nas pesquisas em IHC tem contribuído à pesquisa na área, oferecendo novas formas de se conceitualizar os diferentes fenômenos emergentes associados às tecnologias computacionais
A busca de novos fundamentos teoricos têm um papel fundamental para o desenvolvimento do conhecimento da IHC. Teorias sao estruturas conceituais que permitem a interpretacao sistemática da realidade29. Segundo Yvonne Rogers (2012), teorias partem de um nível mais
abstrato, permitem a compreensao e generalizacao de fenômenos específicos, e auxiliam pesquisadores e pesquisadoras a dar sentido e descrever o mundo. Por serem alicerces de disciplinas e programas de pesquisa, teorias sao fundamentais para direcionar compreensões e
27 Utilizamos a denominacao “Interacao Humano-Computador” como representante de um grande conjunto de estudos, mesmo que estejam inseridos sob outras denominacões. Por exemplo, Ann Light (2010) aborda IHC e Design de Interacao em conjunto, por possuírem métodos e comprometimentos similares. Por sua vez, Carroll (2013) entende que IHC é o nome de uma “comunidade de comunidades”. Nesse sentido, Merkle (2001), quando se refere a IHC, engloba também estudos em Fatores Humanos, Engenharia Cognitiva, Ergonomia Cognitiva, CSCW, Groupware, Semiotica Computacional, Comunicacao mediada por Computador e outros. Essa abordagem abrangente, utilizada também por Grudin (2012), é útil para identificar transformacões do campo, mesmo com o surgimento de novas denominacões (e, consequentemente, outros interesses de pesquisa). Utilizamos esse mesmo procedimento, incluindo nessa denominacao os estudos em Design de Interacao e Experiência do Usuário, distinguindo-as apenas quando necessário.
28 A identificacao de IHC como “campo” ou “disciplina” é problemática e controversa. Preferimos o termo “estudos em IHC”. Mesmo autores que utilizam a denominacao “disciplina”, como Cooper e Bowers (1995), retificam que “disciplina” nao é um rotulo definitivo para a IHC, mas uma forma de designacao provisoria para um processo instável, no qual "a constituicao, ordenacao e regulacao de um domínio existe em uma relacao de apoio mútuo com a tentativa de fundar um discurso legítimo em que esse domínio é descrito." (COOPER; BOWERS, 1995, p. 5) Traducao nossa do trecho em inglês:“'the constitution, ordering and regulation of a domain exists in a mutually supportive relation with the
attempt to found a legitimate discourse in which that domain is described.”)
29 Sobre a questao da teoria, temos que: “Em situacões diárias, o termo teoria é, geralmente, usado para designar uma crenca ou uma idéia. Teoria é também um termo popularmente usado para denominar o oposto da prática. [...] O termo teoria tem também uma outra conotacao a qual designa a teoria como sendo um componente do conhecimento científico. Dentro desta concepcao, teoria é caracterizada pela sua construcao, a qual requer o uso de um método proprio. [...] Inúmeras definicões do termo teoria sao encontradas na literatura. Para CHINN & JACOBS teoria é uma abstracao sistematizada da realidade. Teoria tem sido também definida como sendo um conjunto de representacões simbolicas de: a) relacões observadas e/ou inferidas entre eventos, b) estruturas pressupostas que fundamentam essas relacões e c) descricões básicas que têm a finalidade de explicar eventos na ausência de manifestacões empíricas das relacões entre eventos. Segundo KERLINGER teoria "é um conjunto de conceitos, definicões, e proposicões que apresentam uma visao sistemática de fenômenos através da especificacao das relacões entre os conceitos..." (p. 9). O objetivo da teoria, segundo KERLINGER, é descrever, explicar, predizer e controlar fenômenos. Entretanto, nem todas as teorias têm estas quatro funcões. Existem teorias, por exemplo, que apenas descrevem; outras descrevem e explicam um fenômeno e outras, além destas funcões, predizem e/ou controlam o fenômeno. Para melhor compreensao do termo teoria, torna-se necessário definir cada elemento que compõe a teoria, o que será apresentado a seguir.” (TRENTINI, 1987, p. 135–136)
a orientar novas práticas de pesquisa (ROGERS, 2012).
A introducao de novas teorias em IHC tem uma relacao direta com as relacões interdisciplinares estabelecidos pelos estudos da IHC com outras áreas. Ao se analisar o desenvolvimento historico das trajetorias da pesquisa em IHC, em suas relacões com outras áreas do conhecimento, percebe-se que as relacões disciplinares entre áreas vao se constituindo a partir de processos de cooperacões, disputas e rupturas, representando interesses em negociacao. Abordamos algumas destas a seguir30, alertando para que as
trajetorias dos estudos em IHC nao sejam lidas como um “progresso” linear e acumulativo de conhecimentos, mas narradas como processos múltiplos e conflituosos31.
Em seu estudo sobre as raízes historico-culturais da IHC, Luiz Ernesto Merkle (2001) lembra que precursores da área, nos anos 196032, como Douglas Engelbart, desenvolviam pesquisas
com interesses interdisciplinares, explorando facetas diversas do fenômeno do interagir computacional, buscando explicá-las como fatores para o desenvolvimento humano33:
Durante os anos 60, por exemplo, os precursores da IHC, tinham interesses altamente interdisciplinares e exploravam uma ampla gama de fenômenos [...] Douglas C. Engelbart, que desenvolveu o dispositivo de entrada conhecido como “mouse”, também estava explorando diferentes disciplinas na busca por fundamentos teoricos. Em 1962, Engelbart escreveu um relatorio no qual ele discutiu a estrutura conceitual de um projeto com o objetivo de aumentar o intelecto humano. O marco conceitual proposto por ele consistia em Humanos, Linguagem, Artefatos, Metodologia e Treinamento (H-LAM / T) e foi fundamentado em muitas disciplinas. [...] Engelbart estava literalmente “nadando contra a maré”. Engelbart relatou que ele, na época, nao havia entendido a dinâmica que levou ao desaparecimento do grupo. Mais tarde, ele percebeu que estava “razoavelmente claro para ele que nao é culpa do mercado se alguém falha em tentar vender algo para o qual nao está pronto” [...] Engelbart estava tentando alargar a amplitude da Informática durante um período em que havia fortes forcas de estreitamento focadas no artefato a ser produzido. (MERKLE, 2002, p. 54–56) 34
30 Nao temos como objetivo narrar a(s) historia(s) dos estudos IHC de forma exaustiva, nao sendo esse o escopo desta tese. Assim, apresentamos uma interpretacao suficiente para nossos interesses de pesquisa. Enfatizamos algumas relacões interdisciplinares, que entendemos permitir visualizar a contribuicao de perspectivas críticas à IHC, tal como a que desejamos propor nesta tese, e nao seguimos periodizacões das teorias em IHC, tais como as de: ondas, paradigmas, faces ou fases (MERKLE; AMARAL, 2013).
31 Essa recomendacao é presente na abordagem de Harisson, Sengers e Tatar (2011), que, baseados nas ideias da estrutura das revolucões científicas de Kuhn, entendem que a Ciência nao é uma gradual acumulacao de fatos sucessivos, mas de conhecimentos que, por vezes, se sobrepõem e reconfiguram ideias, alterando a natureza do que sao considerados fatos. 32 Assim como outros pesquisadores, tais como Ivan Sutherland, Ted Nelson e Vannevar Bush, por exemplo.
33 Nesse período, nao havia ainda uma denominacao consolidada para os campos de pesquisa, em torno do computador, tais como “Informática” ou “Ciências da Computacao”, tampouco “Interacao Humano-Computador” e “Design de Interacao”, que so iriam comecar a se estabelecer em anos posteriores. Merkle (2002, p. 54) pontua a dificuldade de encaixar os trabalhos desses “pioneiros” nesses campos, que nao existiam naquela época, e aponta alguns termos que já eram utilizados, como “simbiose homem-computador” e relacões entre “homem e máquina”.
34 Traducao nossa do trecho em inglês: “During the sixties, for example, precursors of HCI, had highly interdisciplinary
interests and explored a wide range of phenomena [...] Douglas C. Engelbart, who developed the input device known as the “mouse”, was also exploring different disciplines in the search for theoretical foundations. In 1962, Engelbart wrote a report in which he discussed the conceptual framework of a project aiming to augment the human intellect. The conceptual framework proposed by him consisted of Humans, Language, Artifacts, Methodology, and Training (H-
Entretanto, segundo Merkle (2001), os estudos em IHC quase “desaparecem” nos anos 197035.
A comunidade via-se desconfortável com a pluralidade disciplinar de seus anos iniciais, assumindo que os estudos nao possuíam identidade, eram teoricamente difusos e sem reconhecimento acadêmico. Nos anos 1970, a pesquisa em IHC centraliza suas relacões disciplinares36. Para buscar reconhecimento acadêmico, os estudos da área estreitavam seus
interesses de pesquisa, com enfoque predominantemente em métodos matemáticos e de experimentos controlados. Até o início dos anos 1980, a IHC desenvolve-se tendo como principais bases a Psicologia Cognitiva e as Ciências da Computacao, conduzindo a análise das interacões por modelos de processamento de informacao e experimentos em laboratorio, com ênfase nos processos cognitivos de indivíduos.37
A partir da metade dos anos 1980, o estudo da questao cognitiva do ser humano recebe ênfase, e consolida-se entre os pressupostos de pesquisa em IHC. Um exemplo dessa abordagem encontra-se na Engenharia Cognitiva (NORMAN, 1986) pela ideia de que o sistema cognitivo humano poderia ser modelado como uma máquina computacional. Entretanto, esse viés recebe críticas, por exemplo, por abstrair outras dimensões do ser humano – como o corpo, o contexto e as relacões sociais – ao focar apenas na cognicao mental de indivíduos isolados. Recebem repercussao alguns trabalhos críticos da tradicao de estudos cognitivos, que buscam aproximar a IHC de perspectivas críticas de outras disciplinas, defendendo a necessidade de perspectivas múltiplas para a compreensao dos fenômenos que envolvem pessoas em interacao com computadores. Como exemplo, temos o trabalho de Winograd e Flores (1987), que aproxima perspectivas em Biologia, Linguística e Filosofia (em particular, da fenomenologia-existencial) para o debate crítico do design de sistemas computacionais; da Acao Situada, de Lucy Suchman (1987), que aproxima debates
LAM/T) and was grounded in many disciplines. [...] Engelbart was literally “swimming against the tide”. Engelbart related that he, at the time, had not understood the dynamics that led to the group vanishing. Later on, he realized that it was “fairly clear to [him] that it isn’t the market’s fault if someone fails in trying to sell it something that it isn’t ready for” [...] Engelbart was attempting to enlarge the breadth of Informatics during a period in which there were strong narrowing forces focused on the artifact to be produced.” (MERKLE, 2002, p. 54-56)
35 Pelo menos quando se considera apenas a historiografia eurocentrada da IHC. Se considerarmos a producao de outros países, como os latinoamericanos, dentro das temáticas exploradas por IHC, Computacao e o projeto de sistemas computacionais, temos casos baseados em propostas multidisciplinares, ambos do início da década de 1970. O primeiro exemplo é o Cybersyn (MEDINA, 2011), acrônimo de 'Cybernetics' e 'Synergy', proposta chilena de sistema cibernético que buscava introduzir computadores como uma mediacao entre governo e indivíduos, planificando a producao, de acordo com as demandas sociais. Outro exemplo e do manuscrito sobre cibernética, O Conceito de Tecnologia, do pensador brasileiro Álvaro Vieira Pinto (2005), que entende computadores como mediacões do desenvolvimento humano e da producao social da existência das nacões.
36 Essa estratégia seguiu um padrao conduzido pela Informática: reduzir o fôlego disciplinar dos estudos emergentes, buscando, com isso, conseguir sua legitimacao (MERKLE, 2002).
37 Um exemplo é o Model Human Processor, do trabalho de Card, Moran e Newell (1983), The Psycology of Human-
Computer Interaction, cujo título, inclusive, inclui a denominacao (Human-Computer Interaction, em inglês) da sigla
em Sociologia (em particular, da etnometodologia) para problematizar os espacos projetuais de artefatos computacionais; e do estudo de Pelle Ehn (1988), com sua proposta de Design Participativo pela perspectiva, denominada Work-Oriented Design of Computer Artifacts, que aproxima a IHC à filosofia, da sociologia e economia-política. Entre o final da década de 1980 e o início dos anos 1990, novas orientacões teoricas pos-cognitivistas sao propostas (KAPTELININ; NARDI, 2012b), como a pesquisa em IHC, com base na Psicologia historico-cultural, pela Teoria da Atividade (BØDKER, 1989, 1991; KAPTELININ; KUUTTI; BANNON, 1995; NARDI, 1995).
Entre essas abordagens, nota-se uma preocupacao em torno dos contextos de uso de artefatos computacionais, questao que orienta estudos em IHC para a consideracao do uso de computadores enquanto fenômeno compartilhado socialmente, motivado pela introducao de computadores em contextos organizacionais e de trabalho, como empresas e instituicões. Também é marcante o interesse em expandir os estudos em IHC do indivíduo para grupos sociais e novas perspectivas da relacao entre pessoas e artefatos, que consideram questões como as de linguagem e de significados. A propria Psicologia Cognitiva, posteriormente, oferece proposicões para essas questões (ROGERS, 2012), considerando a corporeidade dos artefatos pela abordagem da Cognicao Externa (SCAIFE; ROGERS, 1996) e dos ecossistemas sociais, pela proposta da Cognicao Distribuída (HUTCHINS, 1995).
A partir da segunda metade dos anos 1990, teremos uma busca pela formacao de uma comunidade de IHC no Brasil (DE SOUZA et al., 2008; MERKLE et al., 1997) 38. Essa
comunidade terá origem a partir de debates por e-mail e listas de discussao, na organizacao de eventos de IHC, nos anos de 1998 e 1999, e no interesse de formar um capítulo local da SIGCHI. Inicialmente, a comunidade desenvolve-se sobretudo em torno da organizacao de eventos sobre IHC. A comunidade brasileira irá se desenvolver prioritariamente em torno de fundamentos provenientes de Linguística e da Semiotica, por exemplo.
Entretanto, enquanto a comunidade brasileira comeca a se formar, buscando legitimidade no cenário internacional, os debates em IHC, nos países europeus e norte-americanos, desenvolvem-se em torno de outros interesses. Como exemplo, principalmente a partir dos anos 1990, a IHC europeia e norte-americana reorientará suas preocupacões, da teoria, para o 38 Merkle et al (1997) apresentam a historia das tecnologias computacionais no Brasil, em três fases: 1) a época dos
mainframes, mantidos por grandes corporacões e instituicões governamentais, nas décadas de 1960 e 1970; 2) as
restricões aos mercados para protecao da indústria nacional, nos anos 1980, com leis de taxacao para importacao de computadores; 3) abertura do mercado, nos anos 1990, ocasionando o encerramento das atividades de indústrias nacionais, que nao conseguiam competir com o mercado estrangeiro, e crescimento de importacao de computadores. Somente depois a IHC vem a se estabelecer como área no Brasil.
projeto de artefatos, visando dar conta do acréscimo de producao e uso de artefatos computacionais, em particular, de interfaces de web e de softwares tanto pessoais quanto para trabalho. Assim, temos o surgimento da Usabilidade, perspectiva mais pragmática, voltada à avaliacao e recomendacões ao projeto de interacões com computadores. Outro caso é a aproximacao da IHC ao Design (WINOGRAD, 1996), que se configura sob a denominacao da área denominada como “Design de Interacao” (LÖWGREN; STOLTERMAN, 2004), que oferece ênfase mais em técnicas de projeto de artefato do que na análise e modelagem teorica destes. E, posteriormente, a criacao da Experiência do Usuário (UX), área ligada ao Design, mas também à Comunicacao e ao Marketing, buscando adequar dispositivos com foco em valores subjetivos de consumidores, diante da saturacao de opcões de produtos com funcionalidades similares, disponíveis no mercado de tecnologias digitais.
Ao longo dos anos 1990, a investigacao teorica continua voltando-se para a investigacao a partir de fundamentos heterogêneos39. Yvone Rogers (2012) constata que o crescente escopo
teorico da IHC encontrou, no ecletismo interdisciplinar, uma estratégia para dar conta da diversidade emergente dos fenômenos relacionados à interacao com computadores, que comecam a surgir com o crescimento de uso de computador em diferentes cenários. Entretanto, a percepcao das comunidades de IHC sobre essa multiplicidade nao foi unívoca. Um panorama dessas incertezas foi levantado por Merkle (2001):
Em suma, a diversidade disciplinar na IHC tem sido qualificada como "altamente controversa" (Preece e Keller, 1990, p. 67), como tendendo aos centros de campos estabelecidos, e nao às bordas (Marchionini e Sibert, 1991, p. 26), como "tendo um rico espaco de topicos, alguns no centro e outros na periferia" (Hewett et al., 1992, p. 7), como "em perigo de serem absorvidos numa única disciplina" (Hewett et al., 1992, p. 79), como sendo "um guarda-chuva solto ou algo novo" (Bannon, 1992a), como sendo do interesse de muitos departamentos entre universidades (Strong et al., 1994, p. 16), como “estando sob o risco de fracionalizacao” (Gasen, 1996, pp. 25- 26) e, finalmente, como "tendo uma forma saudável de pluralismo" (Rogers et al., 1994, p. 29). (MERKLE, 2002, p. 60, traducao nossa)40
Posteriormente, a diversidade de fundamentos em IHC foi gradualmente sendo entendida como uma de suas vantagens, sendo, inclusive, o discurso de interdisciplinaridade incorporado como uma necessidade, ou, ainda, uma “constante” dos estudos em IHC.
39 A pesquisa sobre a historia das teorias em IHC, realizada por Yvonne Rogers (2012), mapeia o desenvolvimento desse pluralismo teorico em IHC, descrevendo dezenas de teorias já propostas.
40 Traducao nossa do trecho em inglês: “In short, disciplinary diversity in HCI has been qualified as “highly
controversial” (Preece and Keller, 1990, p 67), as tending to the centers of established fields, not the edges (Marchionini and Sibert, 1991, p 26), as “having a rich space of topics, some at the center, some at the periphery” (Hewett et al., 1992, p 7), as “in danger of being absorbed in a single discipline” (Hewett et al., 1992, p 79), as “being a loose umbrella or something new” (Bannon, 1992a), as being in the interest of many departments across universities (Strong et al., 1994, p 16), as “being under the risk of fractionalization” (Gasen, 1996, pp 25-26), and finally, as “having a healthy form of pluralism” (Rogers et al., 1994, p 29).” (MERKLE, 2002, p. 60)
2.1.1 Concepções de “usuário” nos fundamentos teóricos em IHC
Os diferentes fundamentos teoricos em IHC, elaborados pelas suas comunidades de pesquisa e projeto, têm oferecido diferentes interpretacões e concepcões sobre como o ser humano interage com e por sistemas computacionais (KUUTTI, 2001). Pessoas usando sistemas computacionais – os chamados “usuários” – nao possuem uma representacao unívoca, e o modo como sao conceituados depende dos pressupostos teoricos aplicados nos estudos que os caracterizam. Cooper e Bowers (1995) comentam que, nos primordios da pesquisa em IHC, a conceituacao de “usuários” privilegiou a fundamentacao teorica sobre “usuários” tendo como base as Ciências Cognitivas e a Psicologia Cognitiva. Na época, a representacao de “usuários” em modelos, teorias e conceitos de IHC tendia a elaborar representacões cognitivas dos “usuários”, explicando o 'funcionamento' de “usuários” e de computadores a partir de um mesmo modelo, no qual ambos eram tomados como sistemas de troca de informacões.
Além das representacões de “usuários” com base em teorias cognitivas, ao longo da historia da IHC, foram propostas uma série de concepcões de “usuários”, de modo que pode-se dizer que existem tantas concepcões quanto existem teorias, abordagens, metodologias e discursos. De fato, cada pessoa envolvida em análise e projeto de artefatos computacionais elabora uma concepcao de “usuário”. Nesta subsecao, apresentamos um panorama de concepcões sobre utentes em IHC. Nao pretendemos construir uma listagem exaustiva das abordagens, mas mostrar a diversidade de teorias (e algumas de suas problemáticas), que levaram e levam