4.2 Modélisation dynamique du véhicule et des freins
4.2.1 Modélisation longitudinale du bus
Nesta subseção, especificamente, utilizo como referência teórica o autor Boaventura de Souza Santos, em continuidade às concepções vinculativas à subseção anterior.
De acordo com Santos (2005, p. 175), “[...] a Extensão Universitária deve ser concebida de modo alternativo ao capitalismo global [...]”, atribuindo-se às universidades “[...] uma participação ativa na construção da coesão social, no aprofundamento da democracia, na luta contra a exclusão social e a degradação ambiental, na defesa da diversidade cultural”. Ainda, segundo o mesmo autor:
As atividades de extensão devem ter como objetivo prioritário, sufragado democraticamente no interior da universidade, o apoio solidário na resolução dos problemas da exclusão e da discriminação sociais e de tal modo que nele se dê voz aos grupos excluídos e discriminados.
Para atender a essa nova demanda social, Santos (2005, p. 176/177) apresenta o conceito de ecologia de saberes que consiste na promoção de diálogos entre o saber científico ou humanístico - produzido pela universidade – e os saberes leigos e populares – que estão presentes na sociedade. Nas palavras do autor:
A ecologia de saberes, é por assim dizer, uma forma de extensão ao contrário, de fora da universidade para dentro da universidade. Consiste na promoção de diálogos entre o saber científico ou humanístico, que a universidade produz, e saberes leigos, populares, tradicionais, urbanos, camponeses, provindos de culturas não ocidentais (indígenas, de origem africana, oriental, etc.) que circulam na sociedade.
O paradigma da modernidade caracteriza-se pelo predomínio do pensamento científico ocidental e pela intolerância a culturas consideradas “[...] subdesenvolvidas [...]". Este tipo de pensamento é constituído e representado pelo Direito e pela ciência moderna, de modo que os conhecimentos populares permanecem invisíveis e se prestam à inquirição científica, na melhor das hipóteses. Constitui-se em uma forma de “[...] injustiça cognitiva global [...]”, que só pode ser superada por um “novo pensamento pós-abissal”. (SANTOS, 2007, p. 3).
O reconhecimento deste tipo de pensamento constitui-se em uma condição necessária para que se possa ultrapassá-lo. Nesse sentido, faz-se necessário situar- se em uma nova perspectiva epistemológica, de forma que se possa enfrentar:
[...] a monocultura da ciência moderna com uma ecologia de saberes. É uma ecologia, porque se baseia no reconhecimento da pluralidade de conhecimentos heterogêneos [...] em interações sustentáveis e dinâmicas entre eles sem comprometer a sua autonomia. A ecologia de saberes baseia-se na ideia de que o conhecimento é interconhecimento. (SANTOS, 2007, p. 13-14).
A Extensão Universitária, a partir dessa nova concepção epistemológica que reconhece a incomensurabilidade do conhecimento nas mais diferentes culturas, passa a reconhecer os conhecimentos da comunidade, oferecendo à Universidade esses saberes, com a finalidade de entrecruzamento de conhecimentos e preconceitos, de heterogeneidade, de interdependência, e de aprendizagem e equacionamento.
Para tanto é necessário ir além para abandonar as antigas formas e conceitos da mera prestação de serviços à comunidade, compreendida esta como uma instância destituída de conhecimentos, crenças, concepções e saberes válidos e valiosos. Também se faz necessário evitar que a Extensão seja direcionada e priorizada às atividades rentáveis (SANTOS, 2011), caracterizadora de indevida apropriação, não raras vezes por pequenos grupos, do público pelo privado.
Outra concepção fundamental vinculativa entre ecologia de saberes e a Extensão Universitária diz respeito ao incremento das ações extensionistas nas diferentes políticas públicas, a exemplo da Política Nacional de Extensão Universitária, junto aos grupos sociais populares, comunidades locais, movimentos sociais, organizações da sociedade civil, governos em suas diversas instâncias, não excluído o setor privado, com o principal objetivo de prestar solidariamente o apoio na resolução dos problemas de disseminação e exclusão sociais, de forma a dar voz aos grupos discriminados e excluídos, alguns seculares como os negros e os indígenas, outros recentes como os imigrantes indocumentados e refugiados. (SANTOS, 2011).
Essa prática reflexiva de atuar da Extensão vincula-se também ao conceito essencial para a ecologia de saberes que é o da co-presença radical, isto é, o reconhecimento de que os agentes e suas práticas se reconhecem não só na simultaneidade, mas sobretudo na contemporaneidade. Significa dizer que os agentes e suas práticas - no caso, as da Extensão - se reconhecem na contemporaneidade igualitária. (SANTOS, 2011).
Não menos importante para a mudança de paradigma na relação entre ecologia de saberes e Extensão Universitária, é que a Universidade foi o locus onde mais se aprofundou e praticou o paradigma científico da modernidade e, portanto, do epistemicídio. Com efeito, a Universidade consolidou-se sobre o paradigma de uma epistemologia geral, da ciência como critério único e exclusivo de conhecimento e de validade da verdade. (SANTOS, 2011).
Assim, se a Extensão Universitária resgata – interconhecendo - toda a inesgotável diversidade da experiência do mundo e reconhece a existência de incomensuráveis formas de conhecimento para além do científico, ao tempo que renuncia a uma epistemologia geral, também constrói outra, negativa, ou seja, uma epistemologia geral da impossibilidade de uma epistemologia geral. (SANTOS, 2011).
A ecologia de saberes não concebe o conhecimento abstratamente, mas antes como práticas de conhecimento que possibilitam intervenções no mundo real. É a partir dessa compreensão, mediada pelas ações extensionistas que, ao propor por meio da pesquisa a inclusão dos imigrantes indocumentados e refugiados na Política Nacional de Extensão Universitária, surge uma nova riqueza cognitiva de que a Universidade pode beneficiar-se profundamente.
Enriquecida pelo acolhimento e pelo desvelar de novas realidades e pela integração de saberes originários de ambos os lados é que se erige, de fato, uma verdadeira revolução epistemológica de fora para dentro da Universidade. Esta não mais passa a contribuir para a marginalização e destruição de conhecimentos outros que não os científicos, nem mesmo para reproduzir a injustiça social pela injustiça cognitiva de forma a beneficiar não só aos refugiados e imigrantes indocumentados, mas igualmente e sobretudo a si própria. (SANTOS, 2011).
Reforçando o intrínseco relacionamento entre a ecologia de saberes e a proposta de pesquisa apresentada, outro exemplo a destacar refere-se aos conceitos de regresso ao colonial e regresso do colonizador, onde o imigrante e o refugiado são diretamente identificados como uma ameaçadora presença nas sociedades metropolitanas.
Para além dessas situações, é possível tomar ainda como referencial nas relações com o projeto de pesquisa o conceito explicitado acerca da responsabilidade social da Universidade, uma vez que a mesma necessita legitimar- se, por meio de vínculos mais transparentes perante a própria sociedade. Esta
legitimação decorre não só da perda de hegemonia na formação das elites, mas também da perda da exclusividade na produção do conhecimento privilegiado.
Para recuperar esta legitimidade e evitar a irrelevância político-social a Universidade deve assumir formas mais densas de responsabilidade social, aceitando os desafios de assumir as demandas originadas, sobretudo, dos grupos excluídos. Essa reorientação solidária e responsável da relação dialética Universidade-sociedade é o que orienta para uma verdadeira gestão de responsabilidade social.