Chapitre 2 : Matériau et méthodes
2.2 Matériau
2.2.2 Comportement en mode écoulement
2.2.2.1 Elasto-viscoplasticité
2.2.2.1.1 Modélisation
As primeiras atividades de observação e levantamento de dados na pesquisa, começam com as visitas à feirinha de madrugada do Brás, as quais tem seu inicio em junho de 2016. Antes de começar com os relatos e descrição da minha experiência é pertinente contextualizar essas formas de comercio popular dentro do contexto urbano da cidade de São Paulo.
A feirinha de madrugada do Brás, junto as outras feiras e galerias de comercio da rua 25 de Março e Santa Ifigênia fazem parte dos mercados populares que caracterizam a dinâmica urbana do centro de São Paulo. Entende-se por mercado ou comercio popular, os espaços de compras que tem como principais características a aglomeração de pequenas lojas dentro de shoppings, grande concentração de comerciantes ambulantes nas calçadas das ruas com maior atividade e compra e venda de produtos oferecidos a baixo custo (FREIRE, 2014).
Desde os primeiros momentos do processo de urbanização da cidade de São Paulo, a região da rua 25 de março albergou as primeiras feiras populares da cidade na qual se comercializavam produtos vindos da região portuária de Santos. No final do século XIX com a construção do primeiro mercado da cidade, a região se consolidaria como um ponto importante de comercio popular. De acordo com Freire, o centro da cidade atraiu comerciantes vindos de diversos lugares dentro e fora do Brasil:
Imigrantes árabes, sobretudo sírios e libaneses instalaram-se no local, que serviria de base para a atividade dos mascates. No entanto, tais
migrantes consolidaram-se nesses espaços com as lojas de armarinhos e a distribuição de tecidos produzidos localmente, sobretudo a partir da década de 1930, com o maior desenvolvimento da indústria têxtil nacional (op. cit. p.42).
A partir da década dos anos 1960 levou-se a cabo o processo de degradação do centro da cidade, uma vez que as grandes empresas, na procura de melhores condiciones urbanas e infraestrutura mais moderna para estabelecer suas sedes, deslocaram-se do dentro às regiões da Avenida Paulista e Faria Lima, atuais polos financeiros de São Paulo. Décadas mais tarde, a partir de um estudo realizado pela Secretaria Municipal de Planejamento, mostrou-se que mais do 50% dos projetos de médio e grande porte – isto é, centros comerciais e shoppings, supermercados e centros empresariais- localizavam- se nas regiões do denominado centro expandido, como a Marginal Pinheiros, Vila Olímpia e na Berrini. Essas regiões estariam destinadas basicamente às elites financeiras e moradores mais ricos, resultando em uma revalorização da área devido aos numerosos e modernos projetos urbanísticos, com aportes de investimentos publico e privado (FRÚGOLI, 2000). Desse modo, a expansão da centralidade urbana de São Paulo levou a processos de concentração de renda, poder e gasto publico favorecendo só as classes dominantes, agudizando a segregação e exclusão dos grupos sociais menos favorecidos com os projetos de expulsão das classes populares de zonas determinadas.
Assim, com o distanciamento das grandes empresas e elites da região central, o centro de São Paulo pouco a pouco iria se consolidando como uma área de comercio destinada à população de menor renda. Dentro desse processo de popularização do centro é notória a grande concentração de camelos espalhados em diversas ruas e nas avenidas principais da régio da 25, santa Ifigênia e Brás.
O Brás, região na qual acontece a feirinha de madrugada, principal foco na presente pesquisa, constitui desde começos do século XX uma importante área de indústria têxtil e centro de produção e distribuição de prendas de vestir. o bairro foi ao mesmo tempo lugar onde se assentavam os migrantes chegados em São Paulo, tanto para trabalhar na indústria quanto para morar. Foi a partir dos anos 1980 com o chamado “processo de reestruturação produtiva” de São Paulo que muitas indústrias dedicadas à área de confeições deixaram a cidade e se deslocaram em direção ao nordeste. “as empresas que ficaram diminuíram o tamanho de suas plantas e passaram a terceirizar a costura, etapa mais intensiva em mão de obra” (FREIRE, 2014:45). Assim, o Brás começa a adquirir uma cara mais de comercio do que de indústria ao albergar
grande quantidade de postos de venda e lojas que ao mesmo tempo funcionavam como pequenas fabricas e oficinas de costura. Além das lojas e oficinas de costura, começaram a se instalar na região do Largo da Concordia, situada à frente da estação de trem do Brás, centenas de imigrantes nordestinos dedicados á venda ambulante de produtos do Nordeste.
Atualmente, o centro da cidade constitui um importante circuito dentro da economia urbana de São Paulo, sendo também um polo significativo do que o autor denomina “turismo de sacoleiros”, ao receber diariamente milhares de revendedores atacadistas chegados tanto de São Paulo capital como de outros estados e regiões do país. o perfil das pessoas que frequentam esses comércios populares é muito variado, sendo que a maior parte são pequenos comerciantes donos de lojas pequenas, ou comerciantes ambulantes que operam em outras regiões. O lugar de procedência desses compradores atacadistas é tanto da periferia e outras regiões da cidade, como dos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Santa Catarina entre outros. Existe também a presença de empresas que oferecem serviços tanto de transporte em ônibus, alguns com café de manha incluso, como também de hospedagem em pousadas para facilitar a chegada e permanência das pessoas tanto nas galerias quanto nas feiras da madrugada.
A crescente expansão de galerias e demais formas de comércios populares produz também uma reestruturação urbana do centro da cidade. Ao ser o centro um polo importante de distribuição e circulação de mercadorias, os mercados populares nele assentados tornaram-se “grandes centros atacadistas e espaços altamente valorizados, multiplicando as disputas pela ocupação dos espaços e conflitos com as autoridades publicas” (op. cit. p.16).
Figura 4: Camelos da Feirinha da Madrugada do Brás no quinto dia de protestos contra a “Operação de combate aos camelos” em outubro de 2011
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/998768-protesto-de-ambulantes-interdita-via-na-regiao- central-de-sp.shtml
É relevante mencionar as constantes ameaças e perseguição policial aos comerciantes ambulantes que pude constatar nas visitas na feirinha e a partir dos depoimentos dos entrevistados. Outras questões importantes surgidas nas narrativas foram o pagamento semanal e obrigatório por parte dos vendedores ambulantes a grupos de policias em retiro a cambio de um serviço de “segurança”, e o aluguel e venda de espaços na rua, a qual os camelos denominam de ponto, as quais são pequenas áreas do pavimento demarcadas com giz e estão delimitados e administrados por grupos armados que os imigrantes denominam de matones ou malandros.
Esses mercados populares tem a sua vez uma grande presencia de imigrantes geralmente vindos de países de américa do Sul como peruanos, bolivianos, paraguaios e equatorianos, os quais encontram no comercio ambulante dentro das feirinhas um médio de subsistência na sua chegada ao Brasil. Em casos específicos como o dos bolivianos, o fato de estar trabalhando como camelos nas feirinhas populares, constitui um processo de ruptura da relação de dependência dos costureiros nas oficinas de costura em relação aos seus patrões, bolivianos ou coreanos, proprietários da matéria prima e do produto final que é comercializado em distintas lojas da cidade (SILVA, 2005). Uma vez que
esses imigrantes já dominam o processo de produção das peças, isto é, compra da matéria prima, confecção e empacotamento, eles conseguem vender por conta própria a mercadoria feita por eles mesmos na feirinha de madrugada do Bras.
A partir de dados levantados de outros estudos sobre imigrantes no mercado de trabalho em São Paulo assim como entrevistas feitas a peruanos e imigrantes de outras nacionalidades é que se obteve informação que eram nas feirinhas de madruga, tanto a que acontece na Rua 25 de Março quanto a da região do Brás, lugares onde a maior parte de comerciantes peruanos se encontravam trabalhando comercializando diversos produtos na rua.
A minha experiência na feirinha de madrugada se deu na noite do 2 de junho de 2016 e foi possível graças ao apoio e disposição de Jandy, a primeira entrevistada nessa pesquisa e grande colaboradora.
Umas semanas antes do encontro escrevi a Jandy uma mensagem contando-lhe sobre minha vontade de conhecer a feirinha de madrugada, lugar do qual já tinha ouvido falar muito por outras pessoas e por ela mesma. Perguntei para Jandy sobre a possibilidade de ir juntas na feirinha e acompanha-la nas suas vendas, já que devido aos horários – um dia de feirinha vai desde as 2 até as 9 da manha – era difícil para mim a questão do transporte publico saindo de Butantã até o Brás nesse horário de madrugada. Jandy se mostrou imediatamente muito emocionada e alegre pelo meu interesse em conhecer a feirinha e acompanha-la e me ofereceu a possibilidade de dormir na sua casa e sair juntas na madrugada seguinte com destino a seu lugar de trabalho. Conforme o combinado, semanas depois sai do Crusp destino estação da Luz, levando o endereço de Jandy em um papel assim como varias indicações de cuidado por parte de meus companheiros de casa.
Era aproximadamente as 10 da noite quando sai da Estação da Luz e andei até a casa de Jandy, na Rua Mauá, do outro lado da passarela. Musica brega, luzes de muitas cores e pessoas festejando lhe davam um tom mais cálido a aquela noite fria e chuvosa do outono paulistano. Andando mais um pouco e atravessando a passarela de pedestres estava Jandy esperando-me. Entramos na sua casa, um imóvel improvisado com paredes de madeira que separavam dois ambientes pequenos um do outro. O espaço maior era usado como uma pequena oficina onde Jandy tinha suas maquinas de costura. No momento da minha chegada, Jandy se encontrava costurando roupa de criança que venderia na madrugada seguinte na feirinha. Reparei também que estava gripada e com o rosto muito cansado, mesmo assim me recebeu muito contenta e começou a mostrar-
me os espaços do seu apartamento, com muito entusiasmo começou a mostrar-me suas maquinas de costura, explicar-me para que servia cada uma e quanto lhe tinha costado consegui-las.
Antes de dormir, tomamos um pouco de café, na mesma mesa onde estava trabalhando, conversamos um pouco sobre sua família, sobre o Peru e as comidas de lá. deixamos toda a mercadoria pronta em sacolas grandes e as colocamos no carrinho que usa diariamente para levar os pacotes de roupa até a feirinha.
Essas três horas de descanso, dormindo em um lugar desconhecido, já deitada no colchão e com todas as luzes apagadas, foram de muita ansiedade para mim e ao mesmo tempo de muita expectativa por conhecer e descobrir o que veria algumas horas depois. A alarme soou as duas da manha. Para mim foi um martírio, para ela sua rotina. Era obviamente ainda de noite quando nos levantamos, senti que não havia conseguido descansar nada. Percebi esse dia que cansaço, sono e frio era o que caracterizava o cotidiano dos trabalhadores comerciantes nesses horários. Jandy e eu começamos a nos arrumar para sair, nos colocamos roupa bem abrigada, pois ela me sugeriu que a madrugada seria muito fria e devia de me abrigar. Saímos sem comer nada e lhe perguntei se pegaríamos algum carro para levar as coisas até o Brás, com o que me respondeu que não, que ela sempre ia caminhando arrastrando seu carrinho com a mercadoria e que, só tomava um taxi na volta já que devido a que voltava com tudo o dinheiro das vendas era melhor evitar assaltos frequentes que acontecem no caminho de volta a casa. Ademais, me falou que é melhor voltar de carro já que, pela dinâmica, acabam todos muito cansados e sem ânimo para andar transportando carga.
Foi assim que saímos da sua casa sentido Brás andando pela pista e arrastrando o pesado carrinho repleto de mercadoria de um lado eu e do outro ela. Nessa mesma rua e nas seguintes observei varias outras pessoas, inclusive famílias inteiras, saindo das suas casas com seus carrinhos levando a mercadoria para a mesma feirinha onde nos dirigíamos. Eu lhe perguntei Jandy por essas pessoas e ela me comentou que tem muitos outros comerciantes da feirinha morando perto dai, inclusive quase todos seus vizinhos eram comerciantes dessa feirinha e diariamente todos saem das suas casas nos mesmos horários de madrugada, cada um levando o seu carrinho, o que Jandy acrescentou que devido a isso é muito mais seguro para todos, já que ao ser varias pessoas evitam tentativas de assaltos e roubos que acontecem normalmente na região.
Assim, aproximando-nos às ruas onde se leva a cabo a feirinha, já podia se perceber a intensa atividade nessas áreas em plena madrugada. Multidão de vendedores
chegando por todas as vias com sua mercadoria, os donos e encarregados das lojas de boxes abrindo e deixando pronto todo para a chegada dos compradores, os ambulantes de comida chegando apressados para conseguir instalar-se em algum lugar, vendedores de CDs de música chegando mostrando seu produto mais na moda a traves dos aparelhos de som com alto volumem.
Chegando à rua onde Jandy tinha seu ponto, comecei a notar grande presença de vendedores ambulantes de outros países, montando do mesmo modo suas bancas de venda, as quais eram basicamente umas mesas de madeira onde colocavam as peças de roupa, os manequins, algumas lâmpadas para alumbrar. Notei de imediato que a maioria de ambulantes peruanos e bolivianos se posicionavam na mesma rua, como si na feirinha diversas regiões estivessem destinadas para determinados grupos. Na rua onde eu fiquei acompanhando a Jandy, tive a oportunidade de conhecer outros comerciantes, principalmente da Bolívia, geralmente mulheres jovens e senhoras maiores cobertas com cobertores devido ao frio da madrugada e que, da mesma maneira que Jandy, comercializavam roupas de diversos modelos.
Aquele dia conheci duas pessoas que participariam na pesquisa meses depois: Cesar e Sara. Ambos me foram apresentados por Jandy, primeiramente porque Sara é sua sobrinha e Jandy já tinha comentado que tinha vários parentes peruanos que vendiam roupa na mesma feirinha só que algumas ruas de distancia. Cesar também foi apresentado por Jandy, no momento que chegou vendendo bebidas quentes de cereais peruanos. Cesar é um vendedor de comida conhecido por quase todos os ambulantes latino-americanos da feirinha devido a que é o único que vende café de manhas típicos da sua região em horas de madrugada.
Em um momento da madrugada passou um imigrante colombiano com um casaco muito grande, encarregado de fazer uma cobrança de dinheiro a vários imigrantes. Jandy me comentou que aquele rapaz realizava a função de prestamista, atividade praticada por muitos jovens imigrantes colombianos em São Paulo. No caso de Jandy, ela acudiu a esse rapaz colombiano porque precisava de dinheiro para comprar uma maquina de costura, assim como de certo capital para começar a comprar sua primeira mercadoria. Esses jovens passam semanalmente cobrando de banca em banca aos ambulantes aos quais emprestaram dinheiro, sendo que são os peruanos, bolivianos, paraguaios e equatorianos os clientes principais. Quando perguntei a Jandy por aquele rapaz que se aproximou ao seu ponto com um olhar serio, ela me respondeu que era o prestamista, e que sempre os prestamistas eram colombianos que também
trabalhavam na feirinha, mas em outra situação, “nunca para vender, só para cobrar”, e acrescentou que aqueles jovens trabalham para um prestamista maior, um capitalista dono de todo o dinheiro, também colombiano.
Andando pela feirinha de madrugada, pude reconhecer também grupos de diversas nacionalidades e geralmente sociabilizando só entre eles, tal o caso dos comerciantes equatorianos, facilmente reconhecidos pelos seus traços físicos e sua cabeleira comprida, vendendo pequenos acessórios geralmente sobre um tecido posto na pista. Outro grupo que consegui identificar foram os indianos, falando a língua deles e agrupados ao redor de alguns panos sobre o qual colocavam sua mercadoria. Aos chineses nunca se lhes encontra vendendo na rua, sempre são os proprietários de grandes lojas no Brás e geralmente, contratam funcionários brasileiros para trabalhar para eles.