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1. Modélisation

1.4. Modélisation des adventices

Estes princípios absolutos da razão, que não dependem de condições e de circunstâncias, são descritos pelo filósofo açoriano como luzes e axiomas que guiam o homem na aplicação do cálculo e de todos os conhecimentos huma- nos que pretendam a verdade. Claro que podemos identificar nesta argumen- tação uma certa semelhança com a posição de Santo Agostinho para quem a verdade não se encontrava no conhecimento sensível mutável e precário, mas

149 Ibidem, p. 16. 150 Ibidem, p. 224. 151 Cf. ibidem, p. 225. 152 Cf. ibidem, p. 237. 153 Cf. ibidem, p. 238. 154 Cf. ibidem, p. 241. 155 Cf. Loc. cit.

66 A Metafísica Pluralista Deísta e Teísta da Criação, Queda e Redenção na intimidade da consciência onde surgem princípios imutáveis e necessários superiores à natureza da alma.

Ao contrário da teoria platónica da preexistência das almas e das ideias inatas, considera Santo Agostinho que dada a sua necessidade e imutabilida- de, estas ideias de unidade, verdade, perfeição, bondade e infinito, não po- dem ter o seu fundamento na alma humana, mas sim na mente divina, que é realidade imutável e Verdade absoluta. A alma conhece as verdades imutáveis por meio de uma iluminação divina, porque embora a parte inferior esteja em contacto com o corpo (mundo sensível), a sua parte superior que é espi- ritual está em contacto com Deus e esta vizinhança explica que a iluminação esteja em consonância com a natureza humana. Quando Joaquim Maria da Silva usa a expressão «de certo modo innata, porque não é adquirida» não se está a referir ao sentido platónico da pré-existência, mas a este sentido augustiniano de iluminação divina, de que Descartes se viria a apropriar, não no sentido de um fenómeno milagroso ou esotérico, mas no sentido de conceber que alguns conhecimentos do homem vêm diretamente de Deus por meio da luz da razão e são necessariamente verdade, porque Deus não é ignorante ou impotente:

Ora no rapido exame, que fizemos da diversa origem dos nossos conhecimentos, vimos que ha alguns (os absolutos) que, sendo uni- versais no seu alcance, o são também na sua força e se dão em todos os homens, sendo como uma luz que alumia a todo o homem, que vem a este mundo.156

Para Agostinho de Hipona, na alma existe a razão inferior, que tem como objeto as ciências, isto é, o conhecimento das realidades mutáveis e sensíveis com o fim de obviar às necessidades básicas, e a razão superior, que tem como objeto o conhecimento inteligível das ideias e é nesta que se dá a ilu- minação acerca da verdade. A mente usa os sentidos como intérpretes para conhecer as realidades sensíveis, mas as realidades inteligíveis e espirituais são conhecidas pela consulta da Verdade interior157. Esta noção da capaci-

dade humana para conhecer a verdade é traduzida por Joaquim Maria da Silva pela afirmação de que o absoluto real e objetivo de Deus, que guia no conhecimento o no agir, é descoberto pela razão nos seus princípios e leis158.

Se a alma alguma vez se engana não é por defeito da Verdade consultada, mas pelo modo com que cada um é capaz de a receber em função da boa ou má vontade. Deste modo, St.º Agostinho colocou o mundo das ideias platónicas no espírito divino, fazendo das essências ideais, existentes por si,

156 Ibidem, p. 28.

157 Cf. St.º Agostinho, O Mestre, cap. XIV, trad. de António Soares Pinheiro, Porto, Porto Edi-

tora 1995, pp. 97-99.

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Redenção e Escatologia. Estudos de Filosofia, Religião, Literatura e Arte na Cultura Portuguesa conteúdos lógicos da razão divina, isto é, pensamento de Deus. A verdade já não está fundada num reino de realidades supra-sensíveis, num mundo espiritual objetivo (como em Platão), mas numa consciência, num sujeito do pensamento, que não é concreto e individual, mas um sujeito superior transcendente (Deus). Como diz Maria da Silva, os princípios de bem, de direito, de belo, de unidade, de igualdade, de não contradição que intuímos na razão são infinitos na sua duração e intensidade e são qualidades da causa das causas que é Deus que é o sumo bem, a suma justiça, a suma beleza e a suma unidade sem contradição: «as intuições, que temos, do bem, do direito, do bello, da unidade, da egualdade e do principio de contradição são ideas dos atributos de Deus»159.

Mas como é que estas intuições se dão na razão? Por iluminação como em Santo Agostinho, por participação conatural ou por infusão emanativa? Discordando das teses que definem a razão como o próprio Deus presen- te em todos os homens, Joaquim Maria da Silva afirma que a razão não é impessoal, é a razão de cada ser cognoscente que procura conhecer o ob- jeto fora dele, onde se incluem os princípios absolutos160. Mas admite ter

dificuldade em responder se esse conhecimento se dá através de uma visão imediata dos atributos divinos no momento da criação do homem por uma instantânea comunicação sobrenatural, que ficariam esquecidos e só mais tarde recordados com o desenvolvimento psicológico da pessoa, ou se esses conhecimentos são dados ao homem por Deus com a razão através de uma revelação contínua que lhe permite avaliar os seus outros conhecimentos e destes chegar progressivamente à verdade161.

No entanto, pelo facto de a filosofia ignorar de que forma o homem ad- quire estes conhecimentos na razão não podemos dizer que não são indis- cutíveis: «(…) parece-nos que este é d’aquelles segredos que Deus guardou para si ou para espíritos d’ordem superior ao homem e que este nunca poderá descobrir, porque a philosophia não chega aonde não há factos sobre que raciocinar e a que aplicar os princípios racionais»162. Negar estes princípios

racionais absolutos seria negar a existência de Deus e a revelação.

5.2.5. A intuição do princípio absoluto de Deus, pela iluminação da