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CHAPITRE 1 REVUE CRITIQUE DE LA LITTÉRATURE

1.3 Méthodes numériques de modélisation

1.3.2 Modèles numériques

O que vem a ser a “poética do corpo não-verbal: um olhar para a comicidade”? Talvez pudéssemos resumir a resposta para essa questão usando a seguinte definição: é a capacidade, desenvolvida pelo ator cômico, de fazer rir em cena a partir de ações tão eloquentes que não necessitariam do uso da palavra falada.

Então, porque desenvolver uma dissertação sobre este assunto, que se sintetiza numa frase?

Porque se trata de uma questão bem mais profunda do que aparenta ser. Pode parecer um processo simples, mas requer um aprofundamento nas suas questões mais singulares. O riso como um fenômeno humano é, sobretudo, uma das formas de manifestação do sujeito, este sujeito que é singular e ao mesmo tempo plural, que é corpo, o corpo-trajeto, o corpo-memória, o corpo-inteligência, que vai se construindo junto ao/no tempo e ao/no espaço.

Falamos do sujeito que é o que é e, sendo, já significa. Olhamos para o corpo com uma visão que vai para além da matéria, uma visão que consegue captar e compreender o sujeito como um processo, um ser que é individual e também coletivo, não de modo dualista, como se fazia na Antiguidade em relação ao corpo e a alma, mas numa totalidade que se complexifica na medida em que vai transformando suas experiências de vida em corporeidade.

E não limitemos o nosso entendimento de corporeidade apenas aos movimentos, gestos e atitudes, porque o corpo vai para além disso também. E a corporeidade, sendo a manifestação das experiências vividas pelo corpo, também comunga das suas múltiplas possibilidades de “ser” e “existir”.

Ser um corpo é ser a manifestação do humano. É a carne que corporifica o sujeito e o sujeito vai, por meio dessa carnalidade, tecendo no mundo as relações que lhe constroem. Somos o nosso corpo e nele desenvolvemos o fluxo da vida, é pelo corpo que existimos. Ser corpo é uma condição do sujeito, cujas experiências o fazem estar ligado ao mundo e nele “ser”, “existir” e “significar”.

Merleau-Ponty, a partir do seu estudo fenomenológico acerca do corpo, nos ajudou, ao longo desta pesquisa, a refletir sobre a mediação que estabelecemos

entre nós e o mundo, entendendo o sujeito encarnado como um lugar de significações, um corpo-próprio que se organiza como uma estrutura simbólica interligada, uma escritura de histórias vivas e vividas, uma complexidade que age no meio e por esse meio é influenciada.

Na relatividade do tempo e do espaço, a percepção de mundo de cada pessoa também se torna relativa, considerando que as experiências vividas de cada um é particular e intransferível. No contexto do Teatro, ter a consciência de si como sujeito é de fundamental importância para o desenvolvimento das capacidades criativas e estéticas do artista. As memórias, que são o corpo, alimentam a cena dos palcos, a cena da vida, a cena da existência humana.

Esse corpo uno e diverso ao mesmo tempo é aquele que pulsa com a vida. Por isso ele não se separa num dualismo, mas integra em si as partes opostas e complementares de um todo. O corpo, como um sistema de significados, se configura como “presença”, como escrita viva, articulada entre seus significantes e significados. É o “nó de significações vivas”, do qual nos fala Merleau-Ponty (2011, p.210). E são estas significações que, atreladas as intencionalidades do sujeito, fazem do corpo um conjunto de possibilidades de expressão não-verbal.

E dentre tantos predicados do corpo, direcionamos o nosso olhar para este: a sua capacidade de expressão, cujo uso da palavra é minimizado, dando relevo às características mais peculiares da expressão não-verbal. Analisar os aspectos não- verbais do corpo é adentrar num labirinto com muitas portas, todas elas dando acesso à múltiplas de possibilidades. E aqui, para este estudo, a que escolhemos foi a do corpo em ação na cena. Interessou-nos olhar para a arte do ator em sua perspectiva corporal, o ator agindo no tempo e no espaço e, nesse agir, empenhando o seu “ser”, o seu “existir”, a sua “humanidade”.

Olhamos para o corpo que “diz”, o corpo que comunica mesmo sem a palavra falada. Olhamos para o corpo que, em suas idiossincrasias, não se contenta em falar apenas com as palavras em voz, mas também com o silêncio, com o olhar, com a atitude.

Recorrentemente temos falado acerca do “corpo-objeto”, do “corpo-sujeito”, do “corpo-trajeto”, mas penso que também poderíamos, aqui, falar sobre um “corpo- espelho”, porque também nos reconhecemos no corpo do outro como um reflexo de nós mesmos. Sabemos do que o outro nos fala, ainda que sem usar as palavras,

porque encontramos conexões entre nossas experiências de vida com o que o outro está expressando.

A cena contemporânea vem abrindo espaço para que possamos repensar as relações entre o texto e o sujeito. Hoje, podemos pensar o corpo-próprio, também, como uma construção dramatúrgica. O entendimento de texto para o Teatro, desde o final do século XIX, vem sendo repensado, sobretudo considerando a possibilidade de uma escrita própria do corpo.

Às vezes olhamos para alguém e, de imediato, fazemos uma leitura prévia da pessoa, porque nela pode haver um texto implícito, não-verbal. Essa é a expressão singular de cada um que, “sendo”, já significa, já se expressa, ainda que em silêncio. Não falamos de um silêncio que é vazio, mas um silêncio que é preenchido pela presença do sujeito, um silêncio que revela, um silêncio expressivo. Já o texto falado, tem o seu lugar na cena contemporânea, mas, na perspectiva de uma poética do não-verbal, ele dá lugar às interações simbólicas do corpo.

Entendemos que a arte está para além das definições, mas é possível pensá- la como o pulsar da vida e estar vivo é ser um corpo. É do corpo que nasce a Arte. Por mais que a natureza seja maravilhosa, é a interação do sujeito com seus elementos que permite o processo de criação artística. A presença humana é o fator principal. O corpo é inteligência, que pode criar a partir de elementos externos a ele, mas, sobretudo, a partir dele mesmo, das múltiplas formas de expressão da corporeidade.

Expressar-se de forma eloquente a partir de um vocabulário corporal e não necessariamente verbal, está relacionado com um potencial característico do corpo: a capacidade de ser, também, uma dramaturgia. As relações entre os sujeitos nem sempre estão baseadas em atitudes verbais. Às vezes um olhar fala mais do que muitas palavras. Conflitos, histórias, enredos, tudo pode ser dito no corpo, como a expressão de uma teia de significados.

Neste sentido, podemos dizer que o corpo rompe com as barreiras da língua, da cultura, daquilo que, porventura, dependa da palavra falada para existir. Isso porque o corpo, por meio das suas experiências vividas, tem sua autonomia de expressão, ele basta-se como poética de si mesmo.

No contexto do Teatro, entender esta poética de si mesmo pode ser um caminho importante a se considerar, de possível exploração criativa. É como se, na

escrita da nossa dramaturgia corporal, pudéssemos escolher os elementos que comporiam o nosso texto, estando estes elementos em nós mesmos.

Para um Teatro que minimiza o uso da palavra falada, se faz importante que o ator observe, em si mesmo, quais relações ele estabelece diante de atitudes não- verbais em seu cotidiano. Isto pode ajudá-lo a entender/escolher melhor quais os aspectos da sua corporeidade ele deseja usar como elemento inspirador de sua expressão artística. Os gestos, os olhares, o tônus muscular, as posturas, os tempos cênicos... Tudo está inscrito em nós. Tudo é corpo.

Quando há uma escolha da forma de expressão, alinhada com uma proposta estética, podemos dizer que o corpo passa a assumir uma qualidade de “corpo cênico”, que se efetiva com a presença do público. Aqui, em específico, optamos por pesquisar e discutir a cena que tem como base a minimização da palavra falada e a utilização do “corpo em ação” como principal elemento expressivo, tendo ainda em vista a relação dessa proposta com a comicidade em cena.

Deste modo, pensando nas múltiplas dimensões simbólicas do sujeito e me incluindo neste pensamento enquanto pesquisador, ator e, sobretudo, sujeito encarnado que sou, coloco neste estudo, também, as minhas experiências de vida, com o objetivo de enriquecer a pesquisa com relatos reais de vida e estabelecer um diálogo direto com o nosso objeto de estudo.

Reforçamos que, minha experiência como ator com a cena cômica me chamou a atenção para a capacidade do sujeito de fazer rir em cena. Assim, estudando as qualidades expressivas do corpo e os seus dispositivos de promoção do riso sem o uso necessário da palavra falada, percebi que, apesar de ser uma proposta estética já há muito usada em todo o mundo, buscar compreender a “poética do corpo não-verbal” com um olhar direcionado para a comicidade, se configuraria como um importante objeto de estudo.

O riso como um fenômeno humano, é um elemento que vem sendo explorado no Teatro há muito tempo. Aqui, nesta pesquisa, nos debruçamos sobre apenas uma das possibilidades da cena cômica. O riso, fenômeno tão bem discutido por Henri Bergson (1980), pode ter múltiplas dimensões, porque está sempre ligado ao humano, ao sujeito encarnado.

É possível que, no corpo plural do ator, ele possa “garimpar” os elementos cômicos para a cena. Por meio da relação entre a vida e a técnica, o riso pode se

manifestar no artista, não necessariamente como um sujeito que ri, mas como aquele que provoca o riso.

Enquanto espectador de teatro, pude assistir diversos trabalhos muito bem elaborados a partir da poética de um corpo não-verbal, cuja proposta da encenação era a comicidade. Estas experiências me serviram como referências, também, em minha trajetória como artista e pesquisador, porque pude perceber, assistindo a esses espetáculos, que o riso é uma possibilidade que independe da palavra falada, do personagem criado ou qualquer outro elemento que seja externo ao corpo.

Portanto, nos interessa entender o corpo, também, como uma potência para o risível, um corpo que vai mais longe do que os limites da palavra dita. Interessa-nos o corpo que pulsa com a vida e nos faz rir dela. Ainda que nada fale, o corpo tudo diz, porque ele não é simples, nem complexo, ele apenas “é”.

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