A música possui um papel central neste trabalho, pois ela faz parte da escolha de graduação dos acadêmicos entrevistados. Da mesma forma, entre os diversos objetos culturais, a música adquire destaque, já que, além da capacidade de emocionar as pessoas, ela pode, com facilidade, ser comercializada, principalmente devido à criação e desenvolvimentos dos suportes tecnológicos atuais. A música ocupa os mais variados lugares com um poder de inserção nas diversas produções artísticas, como o cinema, o teatro, as artes visuais e a dança, além de estar de forma contundente na vida das pessoas: nas festas populares, nas celebrações religiosas, nas TVs, na internet, nos celulares, nas campanhas de marketing entre outros.
Igualmente, a música, na sociedade contemporânea, parece ter um poder de comunicação de fundamental relevância, de tal modo que, enquanto objeto cultural destaca-se das outras modalidades artísticas. É produzida tanto nas instituições, como igrejas, universidades, escolas, quanto nas comunidades tradicionais, nas festas populares, nos movimentos políticos e sociais. Ela é impressa tanto na linguagem dos grandes compositores mundiais, quanto nas canções anônimas e populares. Além disso, é fator importante na
economia, seja como produto a ser vendido, seja como elemento essencial para vender produtos.
Dentro do conjunto cultural contemporâneo, a música merece destaque, não apenas por suas qualidades expressivas, mas, sobretudo, pela sua presença constante nos mais variados contextos. Isso porque é marcada por sua natureza fugidia, sua apresentação se dá no tempo, sem nenhuma palpabilidade, mas guarda em si uma imensa capacidade de interagir com as emoções humanas.
É preciso lembrar que antes das condições técnicas que temos hoje, a experiência estética musical só era possível “ao vivo” e sua preservação acontecia apenas devido ao registro das partituras e pelos relatos de outros. Nessas condições, as apresentações artísticas se perdiam no tempo e nas lembranças. Entretanto, atualmente a apreciação musical é possível em diversos espaços e tempos, pode ser preservada pelos inúmeros aparelhos modernos que tem a capacidade de armazenar e reproduzir sons (discos, cds, gravadores, pendrives, computadores, internet, smartphones etc.).
Antes de nos determos sobre as relações econômicas que envolvem o produto cultural música, é preciso refletir sobre o conceito de música. Nessa direção, as várias mudanças históricas e sociais fazem com que seja necessário repensar os conceitos para que eles se tornem mais próximos da realidade. Atualmente, parece não ser possível mais concordar com a definição de que a música seja “a arte de reunir os sons de maneira agradável ao ouvido” (ROUSSEAUL apud CANDÉ, 2001, p.12), já que não é possível determinar uma maneira na qual uma música seja agradável a qualquer exemplar da raça humana, independente de raça ou cultura18. Faz-se inadequado ainda pensar a concepção de que a música se circunscreve apenas
aos sons ditos racionais que entram na hierarquia das chamadas escala. Dessa forma, estaríamos simplesmente descartando as obras produzidas em outros contextos culturais, como da África ou da Índia, que não se utilizam dos sistemas ocidentais19. Com efeito, estaríamos ainda
desprezando toda uma gama de experiências apresentadas na música moderna e contemporânea20.
18 A música religiosa, militar e até mesmo aquelas derivadas das experiências modernas do início do século XX
não tinham como principal objetivo serem agradáveis ao ouvido.
19 Em suma, o sistema musical ocidental é uma escolha mais ou menos aleatória de alguns sons entre aqueles
possíveis. Admite-se que, mesmo sendo uma escolha baseada em princípios racionais, ele abarca uma concepção mais cultural do que universal.
Por outro lado, deve-se chamar a atenção para um aspecto de fundamental importância que é a intencionalidade da composição musical. Nesse sentido, pretendemos compreender a música como um elemento de um sistema de comunicação, no qual se inter- relacionam aqueles que emitem a música e os que a recebem na busca de compreender a mensagem. Assim sendo, a interpretação do sentido comunicativo se estabelece completamente na cultura, em que essa inter-relação acontece. Assim, em consideração a este pensamento, adotaremos a definição, conforme CANDÉ (2001), de que
em suma, a música parece ter sido, até hoje, a ação de agregar sons em função de um projeto comunicável, sem referência a uma realidade exterior. Ou então: a música é a comunicação de um agregado de sons organizados, agregado não significante, mas coletivamente interpretável (CANDÉ, 2001, p.14).
Esse conceito abrange tanto a perspectiva de que a música trata-se da arte de organizar sons, mas também de que essa composição tem uma intencionalidade, que é justamente a de comunicar. O conceito defende ainda que esse aspecto comunicativo não faça referência direta a algo no exterior (por exemplo, a concepção recorrente de que uma melodia representa uma determinada paisagem), mas é interpretável na sociedade na qual essa música surge, ou seja, utilizam-se aspectos sonoros que são reconhecidos e entendidos pelos ouvintes de uma determinada comunidade. Outro aspecto importante é definir que a música é organização de sons e não de notas musicais próprias do sistema musical do ocidente. Isso abre a perspectiva de encarar como música tanto as obras contemporâneas que extrapolam o sistema, quanto àquelas provindas de outras culturas.
A música, no campo da cultura, estabelece-se como aspecto de manifestação do simbólico ligado a uma luta pela hegemonia, na qual interagem, em constantes trocas, a música erudita e a música popular e a música hegemônica. Assim, a música chamada de erudita ou clássica21, refere-se àquela composta pelos músicos considerados como grandes compositores
da humanidade, e que foi cultivada nas classes consideradas mais cultas e abastadas da sociedade. Diz-se, principalmente, da música composta pelos grandes gênios do ocidente que contribuíram para o sistema musical partindo do sistema modal, passando pelo tonal, até a atonalidade do século XX22. Além disso, o termo música erudita já traz um preconceito na
própria nomenclatura, pois nos faz acreditar que esse estilo é composto apenas para pessoas
21 Não se utilizou aqui a expressão “música clássica” por entendermos que esta está mais relacionada aquelas
composta no período clássico compreendido entre 1730 a 1820.
22 Cf. WISNIK, José Miguel. O som e o sentido. Uma outra história das músicas. São Paulo: Companhia das
mais doutas da comunidade. Segue, assim, uma concepção prejudicial, porém comum, de que há uma música para pessoas cultas e outras para as não cultas. Estas últimas, que são a grande maioria, não possuiriam condições de apreciação musical.
Nesses termos, a música popular é normalmente definida como aquela que não é composta pelos considerados eruditos, mas sim pelo povo. Dessa forma, a organização sonora funciona como um suporte comunicacional de fundamental importância para a vida das pessoas e para as práticas sociais, em festas, comemorações, celebrações religiosas e culturais, marcando os momentos da vida das pessoas e das comunidades. Por isso, possuem forte característica étnica, como as músicas afro-brasileiras e indígenas, que apresenta significado profundo, principalmente no seio cultural de onde provém; é a música folclórica, mas não somente ela.
Por fim, a música que impera nos meios de comunicação, comumente chamada de música de massa, que estabelece os padrões culturais da atualidade, chamaremos de música hegemônica, ou seja, aquela criada originalmente para o entretenimento contemporâneo, sem compromisso com o desenvolvimento da sociedade e da cultura, e, por conseguinte, da arte musical. Ao contrário, trata-se de uma música feita para ser lucrativa e facilmente compreendida, que utiliza melodias, harmonias e letras repetitivas com objetivo de enriquecimento econômico.
Nesta reflexão sobre a música, percebe-se que a música está ocupando espaços cada vez maiores. Além das festas e comemorações, em que ela, há muito tempo, faz-se presente, ela está também na casa das pessoas, em seus aparelhos mp3-players, nos smartphones e acompanha os jovens e adultos por todos os lados interligados por meio dos fones de ouvido, além de que as produções artísticas, os programas de TVs, de rádio, de internet têm presença constante da música. Portanto, pode-se cultivar o gosto pela música sem nunca ter presenciado a execução “ao vivo” de um artista ou de uma banda. Praticamente, tudo está ao alcance dos ouvidos sem necessidade de especialistas ou técnicos. Além disso, a experiência musical na atualidade está, em muitos casos, mais relacionada ao aparelho tecnológico usado e suas especificações técnicas, do que os outros aspectos relacionados à performance musical.
Notadamente, a principal questão acerca do consumo de música na atualidade reside no fato de que qualquer tipo de música, independente de seu propósito, tornou-se um produto nas prateleiras das lojas. Não somente a música hegemônica, mas também a popular e a erudita possuem valores precificados pelo mercado e são comercializadas como qualquer outra mercadoria. Assim, a diferença parece residir apenas no fato de que, além do propósito comercial, a música erudita e a popular desejam construir um valor de cultura, enquanto a outra
busca fórmulas de sucesso que já são admitidamente provisórios. Ao se tornar produto, a natureza da música não muda, mas o modo com que ela é tratada na sociedade sofre uma transformação.
Além disso, a música pode aparecer até mesmo como um instrumento de resignação dos próprios sujeitos submetidos às condições desiguais de uma sociedade capitalista. Mas ainda, um produto de entretenimento, que fornece subsídios para suportar a exploração e dominação constante. Ademais, sem a oportunidade de ter tempo livre para apreciar música em shows, concertos e apresentações artísticas, os trabalhadores podem obter aparelhos com essa função. O que é oferecido é a possibilidade de ouvir música em fones de ouvido, enquanto se permanece submetido à lógica exploratória do sistema. Para tanto, Martin- Barbero (2015) esclarece esse processo e suas consequências para as culturas populares, dizendo que o
[...] processo de laicização, o des-encantamento do mundo induzido pela expansão dos novos modos de conhecer e trabalhar, que radicalizam a ruptura entre a cultura da minoria e da maioria [...]. De outro lado, a divisão do trabalho e a estandardização de certos utensílios – cerâmicas, relógios, lençóis – e a organização dos espetáculos por instâncias institucionais vão deixando sem solo a rede de intercambio de que se alimentavam as culturas populares (MARTIN-BARBERO, 2015, p. 108).
Assim, a indústria cultural é prejudicial para as culturas populares. Nessa mesma linha de pensamento, não é de se espantar que a música disseminada pela indústria do entretenimento tenha que ser de fácil compreensão, pois não é qualquer tipo de música que pode ser explorada, uma vez que o foco se estabelece apenas naquelas que podem gerar maior montante de lucro. Fornecendo força de trabalho menos qualificada e mais barata, a oportunidade de ser massa consumidora de seus produtos. Para que tudo funcione, é preciso que a música seja massiva, simples e de fácil acesso. Dentro desse escopo, deve proporcionar diversão e não pensamento e reflexão, isto é,
Terreno por excelência da negação do social, é sem dúvida aquele em que de modo mais forte se demarcam as diferentes formas de relação com a cultura. Fabuloso paradoxo que sendo a música a mais “espiritual” das artes não haja nada como os gostos musicais para afirma a classe e distinguir-se. Eis aí a palavra que em seu jogo semântico articula as duas dimensões da competência cultural: a distinção, feita de diferenças e de distância, conjugando a afirmação secreta do gosto legítimo e estabelecimento de um prestígio que procura a distância irrecuperável para aqueles que não possuem gosto” (MARTIN-BARBERO, 2015, p. 119). (Grifos do autor)
A música marca, portanto, posições de pertencimento e distinções em relação a pessoas e grupos sociais e, desse modo, muitas vezes, evidencia a concepção do distanciamento entre aqueles que se apresentam como possuidores de bom gosto e prestígio e àqueles que, muitas vezes são considerados a grande massa sem cultura e sem pensamento crítico. Diante
disso, um grupo projeta sobre outros seus valores estéticos, não no intuito de compartilhar aquilo que o outro desconhece, mas no intuito de impor seus padrões estéticos como mais elevados, no entanto, no jogo material e simbólico, essa dinâmica não se estabelece como via de mão única.
Por outro lado, é preciso destacar que o aparente conflito entre música erudita e popular coloca-se apenas quando há uma hierarquização indicando que um determinado objeto cultural é colocado como melhor do que o outro, usando, como justificativa, a estética, a origem da obra. Na realidade, o verdadeiro conflito se constitui quando a música é tornada produto e passa a massificar gostos e a ocupar os espaços da música erudita e a música popular. Tal fato faz com que o comércio de produtos culturais substitua manifestações expressivas do desenvolvimento artístico do povo.
Desse modo, a música erudita pode ser colocada em oposição à música hegemônica, na medida em que não aceita a simplificação das composições para serem usadas como objetivo comercial. Ao mesmo tempo, apresenta sua base teórica construída durante séculos de desenvolvimento, como forma de apresentar pontos de análise que possam esclarecer uma visão de produção artística limitada, referindo-se aos produtos disponibilizados pela indústria do entretenimento.
No mesmo sentido, a música popular contrasta com a música hegemônica, pois tem seu território reduzido e sua produção tradicional relacionada àquilo que é antigo e ultrapassado. Ao mesmo tempo, a indústria do entretenimento retira, da cultura popular, elementos e os transformam para serem comercializados, o que faz com que sejam banalizadas e percam seu sentido original. A cultura popular chama a atenção para o povo e para sua produção simbólica, mas está cada vez mais ameaçada, por uma produção comercial que não respeita os sujeitos e suas produções culturais.
A partir desses apontamentos, no próximo capítulo faremos a análise das entrevistas levando em consideração o cenário desenvolvido neste capítulo e as perspectivas reflexivas sobre a identidade e a construção do sujeito.