relação?
O conceito de transferência teve vários desdobramentos desde sua cunhagem por Freud, que o caracterizou como a forma repetida que o sujeito estabelece a cada aproximação que faz de um novo objeto, repetindo sua forma estereotipada de conduzir-se na vida erótica e, nessa repetição, conta com uma ação combinada entre sua disposição inata e as influências que o marcaram durante os primeiros anos de vida (Freud [1912] 1996).
Esse conceito ainda traz como questão importante dois pontos fundamentais e, por vezes, antagônicos, que devem ser desenvolvidos nesta seção: a resistência e a realidade inconsciente (Lacan, 1986; Lacan, 1998a).
Na tentativa de articulação entre esses dois termos, tanto Freud como Lacan encontraram a resistência ao trabalho de transferência nos fenômenos de repetição e, num primeiro momento, a tentativa de dissolver tal impasse foi incluir a repetição como fenômeno tratável pela transferência (Soler, 2013).
Ainda, tem-se que a transferência é caracterizada como a experiência de uma análise e, nesse sentido, trata-se de uma experiência de travessia, como uma situação experimentada pelo sujeito enquanto lugar de provação e de demonstração de sua verdade, causa do desejo (Soler, 2013).
Nesse sentido, o que se atravessa é a fantasia, ponto de nodulação, que antecipa, pela imagem, uma certa unidade de corpo e ser (Lacan, 1998b). Assim, a transferência configura-se como um campo que se abre para dimensionar a realidade do inconsciente (Lacan, 1998a).
É nesse campo, aberto a partir do fator de torção, reconhecido por meio da circulação da pulsão entre a alienação e a separação do sujeito, que a transferência configura-se na dimensão de um trabalho que se estabelece entre analista e analisante (Lacan, 1998a).
Ela ultrapassa o trabalho de associação significante e empenha esforço de outra ordem, quando tenta recobrir, por meio da significação metafórica, o que resta de insondável na diferença sexual (Lacan, 1998a; Jorge, Ferreira, 2005).
Nesse momento, o Outro da linguagem marca-se como insuficiente, posto que a questão da diferença sexual se coloca sempre como corte para a cadeia significante. Isso traz como consequência que o Outro (lugar da lei significante, articulada pela linguagem - inconsciente) também é enganado, e torna-se barrado a todo saber sobre o sexo, tal como o sujeito o é (Lacan, 1998a).
“Isso indica que a causa do inconsciente – e vocês bem veem que aqui o termo causa deve ser tomado em sua função de ambiguidade, causa a ser sustentada, mas também função da causa no nível inconsciente – essa causa deve ser fundamentalmente concebida como a causa perdida. E é a única chance que temos de ganhá-la” (Lacan, 1998a:123).
Mas o sujeito nada pode conhecer sobre o engano do Outro, posto que sua falta o aliena e produz um saber que não comporta o menor conhecimento da dimensão do corte que o conformara a partir do bordado pulsional a um dos sexos (Lacan, 1998b).
É pelo profundo desconhecimento que tem da diferença sexual que esse sujeito produz então uma demanda de amor dirigida ao Outro (da linguagem), supondo que ele, por ordenar a cadeia significante, tem o saber que lhe falta, sem reconhecer que sua fratura não se dá no nível significante (simbólico), mas sim no real da experiência (Lacan, 1992b; Lacan, 1998b).
Assim, o sujeito supõe que o Outro sabe o que lhe falta, e essa é a mola do amor que impulsiona os primeiros tempos da relação analítica, e faz com que esse sujeito se renda à fala.
Nesse sentido, o amor configura-se como demanda, condição inerente ao amante, mas essa demanda não é qualquer uma, ela deve supor um saber por parte do Outro, e é nesse momento que se vê a abertura da relação transferencial, configurada com a participação do analista no sintoma do paciente, por meio da demanda (Nasio, 1993).
Para ilustrar o que Nasio (1993) aponta, pode-se tomar o comentário que Lacan faz do Banquete, de Platão, posto que, no movimento dessa homenagem de Platão ao amor, a questão do amor de transferência está colocada em relação à suposição de um saber (Bernardes, 2003).
Nesse Banquete, cada personagem faz um elogio ao amor, de forma idealizada, mascara-se a virulência que a transferência impõe à demanda de amor, que sempre é demanda de saber (Lacan, 1992b; Lacan, 1998b).
Assim o amor é delimitado por cada personagem por uma visada, que de acordo com Lacan (1992b), se desenvolve nos seguintes termos:
Fedro, ao falar de amor, fala de teologia (dimensão do amor cristão); Pausânias aponta que o amor não é único, mas sim uma escolha
capitalizada de investimento em um objeto (dimensão da posse do objeto amado);
Erixímaco propõe que o amor encontra-se como harmonia do ser, o encontro com o que é bom (dimensão médico-terapêutica do amor); Aristófanes, para quem o amor é bufo, um chiste que preenche o
insondável da partilha do gozo sexual (dimensão cômica e derrisória do amor);
Agatão desenvolve o amor trágico e que exagera nas tintas de seu discurso, por ser afetado por ele, quando tenta mascarar a dimensão mortal do amor.
Essa saudação cordial do amor vai se desenrolando até a chegada de Alcebíades, que invade a cena e muda completamente seu tom, pois o que se passa entre ele e Socrátes traz a questão real (Bernardes, 2003).
Alcebíades põe o amor em ato, demanda de Socrátes seu saber, por colocar-se como sujeito do desejo, supõe que o Outro tenha o agalma, entendido como objeto precioso que comporta a ilusão de resposta à inquietação que a falta provoca. Assim, quem demanda tal objeto coloca-se em uma relação de submissão para com aquele que o possui. Vê-se, nesse jogo, uma subversão, uma vez que aquele que pede, por ver no Outro o objeto precioso (agalma), se submete aos ditos dele, na esperança de também o possuir, a demanda carrega a submissão pela qual o sujeito acredita que cativará o objeto faltante (Lacan, 1992b; Lacan, 1998b).
É por esse movimento que o sujeito se submete ao Outro da linguagem, e a tantos Outros que acenarem a ele com o traço do agalma. No discurso inicial de uma análise, essa constatação aponta para a condição de uma intersubjetividade, pois a expressão do sujeito suposto saber, não aponta unicamente a ilusão de que o analista, a quem o paciente pede que resolva seu sintoma, tenha um saber a respeito dele. Para o paciente, por demandar amor, coloca o Outro, também, como participante da origem de seu sofrimento, ou
qualquer acontecimento inesperado que lhe aconteça e que mostre, mesmo que discretamente, a premência do inconsciente (Nasio, 1993; Bernardes, 2003).
Mas essa relação que coloca o outro semelhante na condição de Outro (como sujeito suposto saber) não deve sustentar-se por muito tempo, pois ela, por convocar o saber, traz consigo um meio de gozo, e por tal via todas as identificações imaginárias de agressividade podem ser disparadas (Lacan, 1998m), uma vez que esse amor não convoca a diferença sob a forma do impossível, mas sim a semelhança pela suposição ao saber, pelo qual o sujeito alcança suas fantasias mais primitivas (Lacan, 1998m; Lacan, 1992a).
Nesse momento da incursão sobre a transferência, já é possível tecer considerações sobre sua contribuição ao processo de enfermagem.
Os textos de enfermagem que tomam o processo de cuidar da enfermagem em saúde mental apontam que a relação interpessoal terapêutica é o estofo para o cuidado, e que ela passa de forma transversal em todas as etapas do processo, como mostra a revisão integrativa conduzida como parte desta tese (Garcia, Freitas, Lamas, Toledo, 2017).
Como já foi dito na seção anterior, porém, esse processo é delimitado classicamente a partir de perspectivas que se encaixam no modelo de cuidados em que o desenvolvimento de diagnósticos de enfermagem são afirmativos (Morrison, 1992; Jesus et al., 2010; Mattos, 2011).
Assim, esse modelo, visto a partir da construção da relação transferencial, mostra um ponto importante a destacar, pois mesmo que o paciente participe de forma ativa na elaboração das ações de cuidado a ele proposto, ele permanecerá na condição de um demandante, um escravo do saber que o Outro (linguagem – que, nesse caso, será ocupado pelo enfermeiro), tem por suposição.
Se, nessa lógica, o paciente acata os cuidados, não é por saber que esses o farão melhorar, mas sim porque recolherá da afirmação vinda do enfermeiro o agalma. Dessa forma, sua rendição ao saber do Outro, posto como sujeito suposto saber, o colocará em um dilema: colocar-se alienado ao saber do Outro, que convocará o véu que tampona sua implicação à falta que o funda e causa seu sofrimento, ou resistir a esse chamado para responsabilizar-se por seu sintoma.
O problema é que, ao resistir à própria demanda de amor, não se colocando na sintonia do Outro, remetido ao suposto saber e, porque o
enfermeiro, ao propor ações de enfermagem que sejam assertivas também mantém-se na ilusão de que realmente está na condição do suposto saber, a leitura que resta fazer do comportamento do paciente é o da não adesão à terapêutica.
Assim, enfermeiro e paciente mantêm-se em uma relação relativamente estável, até que a primeira implicação subjetiva do paciente mostre que a harmonia não cabe em qualquer relação entre dois sujeitos. A partir daí, trava- se a disputa pelo saber, na qual a possibilidade de quebra do vínculo de confiança entre eles se faz presente e a não continuidade do cuidado torna-se ameaça constante.
É claro que aqueles enfermeiros que apoiam o processo de enfermagem em perspectivas que a pessoa do paciente é considerada, a despeito da determinação inconsciente, fazem o seu trabalho a partir de outras balizas teóricas. Esse trabalho não tem a intenção de avaliá-las, mas vale a constatação de que a dificuldade de manter-se a relação enfermeiro/paciente é presente no cotidiano dos enfermeiros (Bliss et al., 2017).
Neste sentido, a perspectiva teórica apontada neste estudo pode ajudar a trazer algumas questões acerca dessa dificuldade, mas, para isso, tem-se que avançar sobre a forma como essa relação pode convocar o impossível, o que será articulado ao cuidado no tempo como lógica do um (Kurimoto, 2013).
Para retirar-se desse delicado ponto, em que a transferência torna-se demanda de amor dirigida ao Outro, configurando sujeito suposto saber, essencial à relação de transferência, mas que se perdurar pode não ser profícua na direção do tratamento, Lacan apresenta a figura do ponto de estofo (Bernardes, 2003).
Será necessário contemplá-la em sua forma mais complexa, chamada grafo do desejo (Figura 2), porque, nessa apresentação, ela permite localizar o ponto em que a transferência é operada a partir da escuta, ou seja, na dimensão além do significante (Lacan, 1998b).
Assim, a relação de transferência torna-se a ferramenta de pontuação, que organiza a temporalidade e a lógica do inconsciente (Lacan, 1998b).
Esse além, será apontado a partir de outro conceito: a repetição. Como já foi dito, a repetição configura-se como encontro faltoso, e será diferenciada da transferência a partir do Seminário 11, de Lacan. Nesse mesmo Seminário, a
transferência sofrerá uma modificação teórica importante, na medida em que seu cerne será deslocado da concepção do sujeito suposto saber, para a afânise do sujeito, articulada ao registro do real e ao percurso pulsional que marca a superfície corporal (Lacan, 1998a).
A repetição é delimitada como aquilo que não cessa de aparecer, quase como que desafiando a razão, está lá no discurso do sujeito, como uma conjectura impossível (Soler, 2013).
Ela é um encontro com a falta de encontro entre os significantes, é isso que o sujeito vê emergir diante dele. Nesse acontecimento da realidade experimentada por ele, o real se plasma, como refratário ao pensamento (Lacan, 1998a). Dessa forma, como não se pode pensá-lo, também não será possível prever ou antecipar encontros com ele, “é como se no acaso, o acidente da realidade, fizesse metáfora do real” (Soler, 2013:43).
A repetição se dá na estrutura psíquica, quando nela se encontra um elemento de impossível, o que pode ser considerado sua base. Na estrutura significante, que é o inconsciente, acompanhando o passo de Freud, em seu texto da interpretação dos sonhos, observa-se como o desejo se situa, uma vez que as formações do inconsciente delimitam a sua realização (Lacan, 1992a).
Em um segundo tempo, entretanto, no mesmo movimento que permite situar o desejo pelo significante, há a repetição, definida como gozo e, acompanhando a letra de Lacan (1992a), vê-se que nela há a busca pelo gozo, inclusive o que interessa para uma análise será justamente pontuar para o sujeito a dialética do gozo, pois é a partir disso que ele produz o núcleo do seu sintoma. Assim, a repetição se funda no gozo, que é uma resposta articulada no sintoma ao impossível de simbolizar da experiência humana, diante do acidente da realidade (Lacan, 1992a; Soler, 2013).
Essa resposta está articulada ao “objeto a”, pois esse é o objeto causa de desejo, e o que ele vem considerar é sua condição de tentar tamponar o real, que é a ruptura de sentido na cadeia significante, onde falha a representação do sujeito pela cadeia. Porém, nessa operação de repetição que convoca o gozo para a cena psíquica do sujeito, a satisfação não se encerra, porque “na própria repetição há desperdício de gozo” (Lacan, 1992a:48).
Assim, a repetição, quando encontrada no fio do discurso do sujeito, como tropeço ou falha, permite a identificação do gozo, mas não se deve priorizar o
que ele oferece enquanto gozo no nível da resposta (busca de satisfação que estabiliza a estrutura significante-inconsciente), mais sim extrair dele seu desperdício, no qual se delimita o traço unário (Lacan, 1992a).
Esse traço é o que interessa, pois ele tem a origem da própria articulação da cadeia significante, enquanto produção de saber, por ser caracterizado como a cifra da diferença, marca do impossível de simbolizar, que tem duas características: não ter sentido e não representar nada, ele somente impulsiona o deslizamento da cadeia para a produção do saber (S2) (Lacan, 1992a; Soler,
2013).
Pelo desperdício de gozo (perda de gozo), mantém na repetição a abertura da própria estruturação do sujeito do inconsciente e, por esse ponto, salienta-se que a repetição convoca um novo, assim “repetir não é encontrar a mesma coisa” (Soler, 2013:57)
É nessa abertura que a transferência irá se alojar, como o campo de torção originário do movimento da pulsão em seu vértice de separação e, assim, configura-se como “a atualização da realidade do inconsciente” em ato na relação analítica (Lacan, 1998a:139).
Dessa forma, a transferência desloca-se de sua definição como demanda de amor, por considerar o Outro como sujeito suposto saber e cai no circuito da pulsão, como campo aberto a partir do desaparecimento (afânise) do sujeito, no momento que entre os significantes sobra um resto (objeto a) sem significação (Lacan, 1998a).
A transferência, então, organiza-se enquanto campo diante do “objeto a”, assim a pontuação feita a partir dela, em um manejo analítico, deve contar com essa ruptura essencial do sujeito em sua visada no nível do impossível (real).
Isso implica em uma nova posição terapêutica, pois se antes a transferência era endereçada ao sujeito suposto saber, logo a sua cadeia significante, a posição que o analista tinha junto ao paciente, era a de produzir uma relação intersubjetiva (Lacan, 1998c).
Agora, com a transferência aberta a partir do “objeto a”, localizado no circuito da pulsão, ou seja, a partir do não realizado na cadeia significante, não haverá relação de suposição de saber possível para abrir a realidade inconsciente (transferência), posto que o que poderá abri-la será a própria inserção do objeto faltoso (objeto a). Assim, o analista deve permanecer na
condição de objeto diante do paciente, para que dele o paciente faça uso nos circuitos pulsionais e para com ele imprimir a repetição na experiência analítica. Será assim que o analista conseguirá fazer sua pontuação, não na cadeia significante, mas onde ela falhou em sua tentativa de produzir saber (sentido) à existência do paciente.
A consequência mais radical desse deslocamento é que, a partir desse momento, na obra de Lacan, vê-se nascer a defesa que a relação sexual não existe, como aforismo, que, tomado em sentido metafórico, aponta para a impossibilidade de se constituir com outro sujeito uma relação em que exista complementaridade de sentido (intersubjetividade), entendimento do sofrimento entre os dois situados em qualquer relação (Jorge, Ferreira, 2005).
Assim, pode-se retomar a dificuldade que surge para o enfermeiro quando se mantém em relação junto ao paciente, pois manter-se em relação é contar com uma lógica em que entre um e outro haverá entendimento, haverá possibilidade de encontro nos sentidos e na experiência de vida.
Mas não é isso que acontece em uma relação, nela, na perspectiva defendida até aqui, há outra coisa, o desencontro, o impossível de partilhar, posto que cada sujeito tem seu tempo.
Esse tempo, aqui delimitado, é aquele da abertura da transferência (abertura da realidade inconsciente), a partir da separação do sujeito de seus significantes, por ser indicado por meio do encontro faltoso e que, por isso, traz o sintoma em forma de gozo para a estabilização da estrutura (Lacan, 1992a).
Assim, o tempo será marcado como tempo de abertura, quando o enfermeiro colocar-se tal como um analista em uma relação de disparidade junto ao paciente, o que se poderia chamar de uma relação/não-relação, para manter- se na lógica inconsciente do todo e parte.
Essa relação, então, comportará o tempo como lógica do um, apontado por Kurimoto (2013). A lógica que convoca para a cena da relação um sujeito, porque o enfermeiro será objeto.
Nessa concepção, a contagem de tempo também será diferente, porque o enfermeiro não poderá contar a temporalidade cronológica, mas sim uma outra, que é a lógica.
Essa pontuação do tempo se dá a partir da abertura e fechamento da transferência, cuja abertura é a fenda que o sujeito coloca em sua linha de
discurso, com um engano, um sintoma, um esquecimento que quebra a narrativa de sua vida e mostra mais do que a própria história que ele quer contar, posto que toda história é feita para mascarar o traço unário que funda esse sujeito, enquanto subjetividade.
Kurimoto (2013) chama esse tempo do um, ao qual se delimita, aqui, como o um do traço unário, de tempo de trabalho.
Mas de que trabalho se trata? Do trabalho do inconsciente, ou seja, do trabalho que o sujeito se coloca, ao deparar-se com o traço unário (em um instante que olha para a ruptura), que convoca à repetição em um tempo lógico de abertura do inconsciente, para depois seguir um trabalho de elaboração, ao qual ele usa sua narrativa para dimensionar o que viu de um encontro faltoso (tempo para compreender) e ao que compreende, fecha-se a abertura inconsciente com um ato, tentativa de conclusão pela elaboração (momento de concluir) que, como vimos, sempre deixará um resto, pelo qual o sujeito novamente defronta-se com o seu impossível (Lacan, 1998f).
Por essa via, em que a relação é impossível, o enfermeiro facultado à posição de objeto, tem melhores condições de suportar o tempo do paciente, posto que esse tempo é um tempo de trabalho inconsciente, marcado entre dois instantes fugidios, instante de olhar e momento de concluir.
A pontuação pela transferência colabora em fazer desses dois instantes a marca do cuidado, pois ao paciente cabe resistir a se voltar para essas duas marcas temporais que convocam à ruptura, permanecendo a maior parte do tempo em um discurso vazio em que a narrativa da vida decorre numa tentativa de camuflar ao que o sintoma e sofrimento responde.
Assim, fiar-se na transferência e manter-se em uma relação/não-relação, na qual a expectativa de cura não deve entrar, aliás, nenhuma expectaria deve entrar, porque delimitar a condição de quem cuida como sujeito suposto saber, o que oblitera a via de abertura para o objeto causa do desejo e dificulta o reconhecimento da causa do sintoma do paciente.
O enfermeiro, nessa condição de condutor, só conduz se não for sujeito, mas objeto que causará desejo ao paciente. E esse desejo, que o paciente porta, é inerente a ele, posto que é sujeito inconsciente. Assim, o enfermeiro deixa o paciente trabalhar, suporta o seu trabalho, constrói um espaço para que ele trabalhe por seu lado, e assim a construção de um cuidado ético é possível.
Nesse sentido, a relação/não-relação inclui um cuidado em que o profissional nunca portará os meios de satisfação plena do sujeito, não terá dimensão do que o alivia, portanto, qualquer tentativa de aconselhamento será inútil (Kurimoto, 2013). Ou, ainda, será atraso no trabalho de elaboração do paciente, por ele tentar se identificar aos mandamentos do enfermeiro, posto que ele, como sujeito, demanda que o outro seja para ele o veículo que possa manter-se na resistência ao que o inconsciente causa.
A posição delimitada, aqui, não implica diretamente em uma das fases do processo de enfermagem, mas concorda com os autores que delimitam a relação enfermeiro/paciente como esteio do processo de cuidar, fundamental a ele em todos os momentos, transversal ao processo (Morrison, 1992; Campos, 2000; Mcsherry, 2013; Evans, 2007; Irving, 1979; Peplau, 1952; Kantorski et al, 2004; Vilela, Scatena, 2004; Scanlon, 2006; Furegato, Scatena, Hespanholo, Roncolato, 2001).
Porém, a proposta aqui delimita outra ética para a relação, a ética pautada