CHAPITRE 3. SIMULATION DU THYPTU ET DES DIFFERENTES CHARGES
3.1. Modèle du ThyPTU
No Espírito Santo existem 12 aldeias indígenas, situadas no norte do estado, no município de Aracruz, onde encontram-se predominantemente as etnias Tupinikim e Guarani. Os Tupinikim ocupam maior parte do território geográfico com nove aldeias: Caieiras Velhas, Pau Brasil, Comboios, Irajá, Areal, Amarelos, Córrego do Ouro, Novo Brasil e Olho D’agua. Os Guarani possuem três aldeias: Piraqueaçu, Boa Esperança, Três Palmeiras.
No percurso desta pesquisa de mestrado houve investimentos de encontros apenas com alguns membros da comunidade Guarani de Boa Esperança; com as comunidades Tupinikim de Caieiras Velhas e Comboios, sendo possível maior inserção e aproximação com estas comunidades Tupinikim. Outros alunos e membros participantes da pesquisa “Guarda Chuva” realizaram também atividades com demais aldeias.
Em março de 2017 são iniciadas as atividades do mestrado. A partir daí a aproximação com a pesquisa se desenvolve por meio de grupo de estudos e compartilhamento das experiências de outros colegas, alunos da graduação do curso de Psicologia-Ufes, do PPGPSI e com professor Fábio Hebert13 que já tinham vínculos e amizades com as comunidades indígenas.
No primeiro semestre do referido ano, no Campus de Goiabeiras da UFES, acontece um seminário de apresentação de práticas educativas, a partir de atividades desenvolvidas com os alunos de ensino fundamental das escolas indígenas nas aldeias de Aracruz/ES. Esse seminário foi fomentado pela Licenciatura Intercultural Indígena (PROLIND/UFES)14, criando visibilidade desses grupos étnicos na universidade, atraindo muitas pessoas para assistir, participar das conversas e apresentações das atividades desenvolvidas, das danças ali realizadas e ouvir as experiências de práticas da educação indígena.
A partir do mês de maio ocorreu também os primeiros contatos no município de Aracruz-ES, que serão com os Guarani, alunos do PROLIND e alguns de seus familiares. A aproximação com os Guarani foi breve e incipiente, mas houve momentos marcantes como a realização de uma roda de conversa no Campus de Goiabeiras/Ufes com o professor Mauro
13 O professor Fábio Hebert, coordenador desta pesquisa, junto aos alunos indígenas e não-indígenas vêm
desenvolvendo, de modo mais direto, debates e aproximações em torno das discussões que envolvem as políticas de saúde indígena e suas interlocuções com os saberes tradicionais.
14 Licenciatura Intercultural Indígena, oferecido pela Universidade Federal do Espírito Santo. Este curso iniciou
em julho de 2015. Alguns estudantes do PROLIND são docentes nas escolas indígenas, mas nem todos os estudantes.
Guarani, diretor de uma das escolas Guarani de ensino fundamental, em que contou a história do seu povo e o processo de implantação da Educação Indígena no território no município de Aracruz. Outro momento relevante com o Povo Guarani que estão situados neste estado, foi o “I Encontro Saúde e Saberes Tradicionais Guarani do ES, organizado a partir da pesquisa guarda-chuva junto com a comunidade guarani, e realizado na Escola Municipal Pluridocente Indígena da Aldeia de Três Palmeiras em agosto de 2017.
Ainda que as aproximações iniciais tenham se dado com os Guarani, o encontro com o povo Tupinikim alcançou maior consistência ao longo do tempo. A partir de julho de 2017, junto com outros colegas, acolho a proposta de frequentar semanalmente a Aldeia Tupinikim de Caieiras Velhas inicialmente através da Unidade Básica de Saúde Indígena.
É importante ressaltar que a presença de não indígenas nas Aldeias, tais como, os alunos do mestrado e da graduação em psicologia da UFES, é fruto de relações de confiança que vem sendo construídas desde 2015, a partir da inserção de professores, vinculados ao PPGPSI e ao curso de Psicologia/Ufes, ao Programa Saberes Indígenas na Escola e ao PROLIND.
Situar, mesmo que de maneira sucinta, essas relações que marcam esse processo de aproximação com o território indígena, mostra que a construção da pesquisa se dá de forma coletiva e processual. Estar na Aldeia se conecta aos investimentos de tempo e disponibilidade que outras pessoas desempenharam, pois, uma das questões que atravessaram o caminhar desta pesquisa foram os desafios que permeiam os modos de habitar esse território existencial, tendo como diretriz a construção de relações que contribuam para a formação de experiências compartilhadas conectadas à tradição e memórias desses povos.
Habitar um território existencial trata-se de uma pista da pesquisa cartográfica, em que o processo de conhecer se produz à medida que nos implicamos, nos comprometemos e passamos a compor a produção do mundo, não fazendo oposição entre teoria e prática, pesquisar e intervir, produção de conhecimento e produção de realidade. Por isso, habitar um território existencial é cultivar relações com o campo de pesquisa num movimento de coemergência e inseparabilidade entre sujeito e objeto de pesquisa (ALVAREZ, PASSOS, 2015).
O território existencial é, mais que uma realidade física ou geográfica, uma realidade processual, passageira, qualitativa, relacional, constituída nas relações de forças de maneira não pré-existente, mas produzida com sentidos e modos de expressão próprios. Dessa forma,
o território é fluido, mutável, composto por relações diversas, sendo difícil medi-lo ou controlá-lo, pois na sua multiplicidade de relações e sensações, não pode ser representado, mas sim experimentado, sentido. Dispondo de engajamento, cultiva-se relações com o campo de pesquisa, colocando-se numa posição de lateralidade, como aprendiz, exercitando uma disponibilidade à experiência e receptividade, numa dedicação aberta e atenta ao encontro e ao que se passa (ALVAREZ, PASSOS, 2015).
Assim, habitar um território exigiu uma atenção desfocada, atenta ao que desconhecemos, “por isso a ocupação de um território numa pesquisa não pode ser iniciada com um problema fechado, sabendo de antemão o que se busca” (ALVAREZ, PASSOS, 2015, p. 138). Esse fechamento dificulta o encontro com a alteridade, pois ficamos presos em confirmar o que já sabemos ou apenas no que nos interessa, não conseguindo desconstruir lógicas e racionalidades, não nos transformando com o campo, desse modo, criamos condições de distanciamento e passividade. A abertura, por sua vez, é um processo de receptividade que nos torna ativos no processo de pesquisa, deixando-nos mover por curiosidades e estranhamentos, e por isso, nos lançando “a perder tempo [ou gerar tempo] com o cultivo de uma experiência” (ALVAREZ, PASSOS, 2015, p.138).
A partir dessas perspectivas, na Unidade Básica de Saúde Indígena (UBSI) de Caieiras Velhas, junto com a enfermeira Tupinikim foi possível percorrer o território de abrangência desta UBSI, acompanhando-a nas atividades de vacinação e de visitas aos pacientes idosos, mulheres com gravidez de riscos e pessoas com doenças crônicas.
Fruto dessa entrada no território junto com a equipe dessa UBSI, composta por técnicos de enfermagem, Enfermeira, Agentes Comunitários de Saúde, Médicos, Assistente Social, Farmacêutico, Psicólogo, Dentista e com outros membros da pesquisa, foi realizada uma roda de conversa com esses profissionais abordando o tema do suicídio; pois esta atividade compunha as ações que envolviam a Campanha Setembro Amarelo. No mês seguinte, outra roda de conversa foi gerada nas dependências da UBSI, no bojo das atividades que abarcavam a Campanha do Outubro Rosa, mas dessa vez, a roda de conversa foi desenvolvida com as mulheres indígenas do território.
Nessa relação com a UBSI realizamos também aproximações com a creche indígena situada em Caieiras Velhas, através de atividades de interlocução e integração entre esses dois serviços.
As andanças com a enfermeira Tupinikim geraram confiança para circularmos na aldeia, permitindo conhecer os moradores e o território geográfico. Tornando possível, posteriormente, desenvolver visitas à comunidade independentemente da presença dela, que naquele momento tornara-se co-parceira no processo do pesquisar, da mesma maneira que em alguma medida tornamo-nos co-trabalhadores no exercício da saúde com ela.
No período que frequentamos regularmente a UBSI, nos encontramos com uma assistente social Tupinikim, a partir e com ela criamos aproximações com o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) Indígena. A equipe desse serviço sempre se mostrou aberta e interessada em contribuir com a pesquisa, oferecendo-nos acolhimento e disponibilidade para participarmos nas e com as atividades que este serviço desenvolve. A assistente social Tupinikim contribuiu também para fazermos novas interlocuções com o território, como por exemplo, comunicando-nos agendas dos eventos culturais titulados por “Noite Cultural”.
Ainda na aldeia de Caieiras Velhas, mediante as relações via serviços de saúde e de assistência social, formaram-se relações de amizade com as anciãs Tupinikim e uma cozinheira Tupinikim. No entanto, esses vínculos logo ficaram descolados das relações com os serviços.
No final do semestre de 2017, tivemos a oportunidade de passar um final de semana na Aldeia de Comboios, na casa do Cacique. Nessa ocasião conhecemos vários amigos, parentes e vizinhos desta liderança. Nesse contexto iniciou-se uma amizade, a partir dela, gerou-se forte relação com uma família, à medida, que passei a frequentar a casa de uma professora das escolas indígenas.
Os percursos que envolveram o trabalho de campo foram acompanhados pelo exercício de escrever o diário de pesquisa. Este se tornou um instrumento importante para registrar os encontros, acontecimentos e criar uma atenção para o que eles produziam, construindo visibilidade para os efeitos.
O exercício de escrita foi um dispositivo que contribui para olhar e colher os acontecimentos, abrindo possibilidades para colocarmos em análises as práticas que estávamos realizando, permitindo perceber as relações de forças, analisar as implicações15, e
15Análise de Implicação é uma noção advinda do campo da Análise Institucional francesa, especialmente da
Socioanálise, com Renè Lorrau e Georges Lapassade, e se refere ao conjunto de relações entre os “atores” em jogo e as instituições (lógicas político-sociais construídas historicamente). São essas relações que necessitam de serem postas em análise. “(...). Quando falamos em implicação em uma pesquisa, nos referimos ao conjunto de
ainda, criar certa atenção para as práticas que podem ser reinventadas, reconstruídas, a partir de relações que ampliem processos criativos e potencializadores de vida.
Portanto, o diário de pesquisa constitui uma ferramenta indispensável nesta caminhada, sendo um instrumento de intervenção, à medida que produziu reflexões da própria prática, movimentando análises e percepções do vivido, buscando dar visibilidade às relações de poder, o não dito, bem como, evidenciando o pressuposto de não neutralidade do pesquisador no processo de pesquisa, à medida que situa o seu local de enunciação e contextos que envolve o pesquisador e as condições de pesquisa, além de fazermo-nos perceber que ao pesquisar produzimos intervenção no mundo, produzimos realidades (PEZZATO; L’ABBATE, 2011).
Mesmo com um extenso diário de pesquisa, fruto das visitas às aldeias, nesse texto de dissertação apresento alguns dos acontecimentos que potencializam análises em torno de questões de pesquisa e produção epistemológica, movidas pela problematização de “como construir uma pesquisa contra colonizadora na relação com os povos indígenas”. Assim, sigo numa caminhada empenhada em realizar exercícios de descolonização do pensamento e da vida.
condições da pesquisa (...)”. Considerando que “as implicações políticas e libidinais e, é claro, materiais (financeiras) são uma realidade no ato científico”(LOURAU, 1993, p. 16-17). Analisar as implicações, portanto, não se confunde com avaliação de “engajamento”, mas trata-se de pôr em questão as relações que o pesquisador mantém com os estabelecimentos, com a produção de saber, com as instituições que atravessam o gesto de pesquisar, com os humanos e não-humanos com os quais se pesquisa.
Capítulo segundo
2 MEMÓRIA COMO LÓCUS DE PESQUISA
Este capítulo apresenta um despertar com as memórias indígenas. Através delas foi possível reposicionar a ideia de o campo de pesquisa ser estrito ao território das aldeias indígenas ou de ser apenas entre aqueles que declaram pertencimento étnico. Num breve encontro com a história do Espírito Santo sinalizo processos de invisibilização dos povos indígenas na história deste estado e das vidas que nele habitam, sublinhando sua formação social e histórica constituída na relação com os povos que viviam nessa terra antes da colonização. Com o auxílio do processo de pesquisa e dos aspectos históricos de nossa formação é possível sustentar a intuição de que o lócus de pesquisa são as memórias. Através delas, colocamos em movimento exercícios de aprendizagens de cultivos das memórias que nos constituem e de uma ecologia de saberes feita em encontros.