CHAPITRE IV SIMULATION ET RESULTATS
IV.2. Modèle de réseau WLAN simple
Os estudos sobre o agendamento demonstram que a mídia, ao selecionar determinados assuntos e ignorar outros, define os temas, os acontecimentos e os atores que terão relevância para a construção da narrativa noticiosa. Ao enfatizar determinados acontecimentos (e atores) em detrimento de outros, o campo jornalístico também estabelece uma escala de proeminência não apenas definindo atributos e orientando a percepção pública sobre determinados temas, mas também determinando como esses assuntos serão transmitidos, o que provoca efeitos na interpretação desses acontecimentos. A seleção dos atributos dominantes e dos atributos secundários no corpo de uma notícia constituem elementos centrais da estrutura narrativa e configuram a imagem do objeto descrito pela matéria (AZEVEDO, 2004, p. 57).
Quando analisamos a relação entre mídia e política é necessário considerar diversas variáveis dessa interação. Uma dessas variáveis tem como base os estudos sobre os enquadramentos (framing) aplicados pelos jornalistas para o relato noticioso. Nos estudos sobre a teoria da agenda-setting, os enquadramentos ampliam a reflexão para além da transferência de saliência de um objeto da agenda da mídia para a agenda do público, avançando sobre as análises dos atributos específicos que esses objetos enfatizados pela mídia vão receber, impactando na forma como o público vai compreender a mensagem. Em seus estudos sobre a teoria do agendamento da mídia, McCombs (2009) ressalta que o agendamento de atributos “foca na habilidade da mídia de influenciar como nós capturamos os objetos” (McCOMBS, 2009, p. 140). Nesse sentido, as reflexões teóricas sobre o enquadramento da
notícia, chamam a atenção para as “perspectivas dominantes” das representações construídas pela
mídia ao promoverem um aspecto específico do objeto, permitindo, assim, uma interpretação orientada sobre o item descrito na notícia.
Neste capítulo, o centro da análise estará voltado para o agendamento dos atributos, a partir da aplicação do conceito de enquadramento da notícia, definido como a ideia central que “organiza o conteúdo noticioso que por sua vez fornece um contexto e sugere sobre o que o assunto trata através do uso de seleção, ênfase, exclusão e elaboração” (McCOMBS, 2009, p. 137, grifo no original):
Enquadrar é selecionar algum aspecto de uma realidade percebida e torná-lo mais saliente num texto comunicativo de tal forma a promover uma definição de um problema particular, interpretação causal, avaliação moral e/ou uma recomendação de tratamento para o item descrito (ENTMAN apud McCOMBS, 2009, p. 137).
A partir desse conceito, é possível perceber o impacto do campo jornalístico no mundo político, por exemplo, quando compreendemos que não há neutralidade na notícia, uma vez que ela é uma realidade construída a partir de um conjunto de enquadramentos (ou da seleção de aspectos de um acontecimento) que podem orientar o entendimento sobre os eventos da vida contemporânea.
Tanto o agendamento de atributos como os enquadramentos chamam a atenção para a perspectiva dos agentes do campo jornalístico e de como eles “fotografam” os assuntos. Isso permite compreender os efeitos da mídia na construção da realidade social a partir do conteúdo
da mensagem. Os atributos selecionados para compor um registro noticioso criam “rótulos” para
facilitar a compreensão do público em geral, o que contribui para qualificar o objeto em determinados padrões descritivos. Nesse sentido, o papel dos enquadramentos é o de
organizar o pensamento, criar um padrão [...] com poder para estruturar o pensamento, para formar o que nós pensamos sobre os temas públicos, os candidatos políticos ou outros objetos das notícias (REESE; GANDY; GRANT apud McCOMBS, 2009, p. 140).
Quando um atributo particular é enfatizado na agenda da mídia, o impacto dessa saliência para o público ocorre a partir de dois elementos: os argumentos apresentados e o impacto desse atributo nos aspectos cognitivos, afetivos ou morais dos indivíduos, que pode influenciar as preferências e as opiniões de forma diferenciada. É o caso, por exemplo, da abordagem da temática do aborto no noticiário político durante a campanha eleitoral em 2010. A ênfase nesse tema, associado a atributos vinculados aos candidatos, pode ter produzido diferentes reações no eleitorado religioso. Ou seja, uma forma particular de enquadrar um tópico no noticiário pode resultar em consequências, em posições e adesões distintas para públicos específicos (McCOMBS, 2009, p. 149). Enquadramento enquanto saliência de atributos pode ser encontrado em títulos e reportagens. Tomemos como exemplo alguns títulos e reportagens publicados pela Folha de
S.Paulo durante a campanha eleitoral de 2010 alguns dias antes da votação em primeiro turno, já
com a temática do aborto em destaque na agenda jornalística. O jornal publicou um texto com o seguinte título: “Dilma afirma que não mudou sua posição sobre aborto”. O texto diz que a
candidata “petista reafirma ser contra a prática, apesar de ter defendido a descriminalização em 2007, e promete não mudar a lei” (DILMA, 2010g, p. Especial 10).
No dia seguinte, o mesmo jornal destaca em abertura de página que a candidata petista batizou o neto no Rio Grande do Sul “após crítica de religiosos”, sugerindo uma escolha estratégica para a data, embora o texto informe que “petista diz que escolha foi de sua filha e de seu genro” (ROCHA, 2010, p. Especial 8). Na mesma página, outra reportagem informa que “petista perde votos entre eleitores evangélicos, segundo o IBOPE”, informando no lead que a petista perdeu votos particularmente entre eleitores evangélicos durante o mês de setembro, sendo que, no mesmo período, “sua rejeição nessa parcela do eleitorado aumentou mais de 50%” (MACHADO, 2010, p. Especial 8). No mesmo texto, nos últimos parágrafos, há um alerta do já falecido professor e pesquisador Flávio Pierucci de que “é preciso ter cuidado ao afirmar que se trata de ‘voto evangélico’”, uma vez que ele “e outros pesquisadores ouvidos pela Folha dizem que religião nunca foi uma variável importante para o eleitor”.
Dois aspectos são importantes nesses registros. O primeiro trata sobre os contrapontos tradicionais que adéquam o texto aos valores de “imparcialidade e objetividade” do jornalismo, suportes teóricos frágeis diante de um paradigma já em declínio nos estudos da relação entre mídia e política, ainda que mantenham seu valor normativo (PORTO, 2004, p. 75). Porém, no segundo aspecto, quando se aplica o conceito de enquadramento é possível compreender por que as notícias não são neutras. O título e o lead do primeiro texto salientam e enfatizam atributos específicos associados à candidata Dilma Rousseff (PT) e à temática do aborto: ela mudou de posição sobre o tema. A ênfase em tais predicados sugere uma interpretação negativa para seus posicionamentos. Já o segundo título sugere uma ação “oportunista” da candidata, supondo que o batizado do neto tenha sido premeditado para “reagir” às críticas de religiosos. E, por fim, o terceiro título indica que a candidata petista está perdendo apoio no eleitorado evangélico, a partir de levantamento de instituto de pesquisa.
[...] certos atributos particulares de um tema podem ser argumentos marcantes para certos grupos sociais. Em outras palavras, uma forma particular de enquadrar um tópico no noticiário pode resultar em consequências altamente estratificadas no público. [...] A convergência do agendamento dos atributos com o conceito de enquadramento oferece novos entendimentos sobre a influência mantida por vários padrões de atributos encontrados nas notícias e como o público pensa sobre temas públicos (McCOMBS, 2009, p. 149, grifo da autora).
Para finalizar essa sequência de exemplos sobre enquadramentos da notícia e os atributos conferidos aos candidatos à Presidência nesses textos, no dia 3 de outubro, a Folha publicou opiniões do candidato José Serra (PSDB). As declarações do tucano foram retiradas “de uma entrevista a um portal de militantes tucanos”, conforme o texto noticioso informa. Antes de expor as declarações do candidato em aspas, o texto jornalístico “lembra” que a temática do aborto “ganhou força na última semana de campanha e levou a candidata petista, após perceber potencial de danos eleitorais, a negar que seja a favor da legalização do aborto”. Em seguida, a mensagem selecionada para compor a fala do candidato tucano:
Dilma deu entrevistas no passado dizendo que era a favor do aborto, e depois começou a escorregar. O mais grave não é a posição em si, mas a ambiguidade (PARA SERRA, 2010, p. Especial 7).
O texto destacou, ainda, afirmação do tucano de ter tido sempre a mesma posição sobre o aborto, embora a matéria não explicite qual seja.
Essa série de registros mostra a diferença de tratamento e a construção de enquadramentos negativos que a temática permitiu construir em torno da imagem da candidata Dilma Rousseff (PT), enfatizando suas fragilidades ao ser confrontada com posicionamentos anteriores que permitiram explorar uma suposta mudança de posição sobre o aborto. Tais mecanismos de construção da notícia definiram um sentido para esse noticiário:
Os enquadramentos da mídia [...] organizam o mundo tanto para os jornalistas que escrevem relatos sobre ele, como também, em um grau importante, para nós que recorremos às suas notícias. Enquadramentos da mídia são padrões persistentes de cognição, interpretação e apresentação, de seleção, ênfase e exclusão, através dos quais os manipuladores de símbolos organizam o discurso, seja verbal ou visual, de forma rotineira (GITLIN apud PORTO, 2004, p. 80).
Neste capítulo vamos analisar os mecanismos que estruturaram os enquadramentos da mídia, ou seja, a “ideia central organizadora” que deu significado à narrativa sobre o aborto nas eleições presidenciais de 2010 e a competição entre os agentes do campo político, religioso e da mídia, que contribuíram para a definição do aborto como temática estratégica da cobertura jornalística no segundo turno. No capítulo anterior identificamos que o aborto não foi o centro do
noticiário político durante o primeiro turno. Porém, na reta final da eleição, ainda em setembro, há um rearranjo editorial que determina uma nova fase na cobertura noticiosa.