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Utilitarismo é a corrente ética baseada na extensão do princípio da igual consideração de interesses. O utilitarismo pode ser universal, benestarista, consequencialista e agregativo: a) Utilitarismo é universal porque leva em

62 FELIPE, Sônia T. Liberdade e autonomia prática: fundamentação ética da proteção constitucional

dos animais. In MOLINARO, Carlos Alberto; SARLET, Ingo Wolfgang. [et. al] (orgs.) A dignidade da

vida e os direitos fundamentais para além dos humanos: uma discussão necessária. Belo Horizonte:

Fórum, 2008. p. 55-83. p. 82.

63 RYDER, Richard. Animal revolution. Op. cit. p. 10.

64 OST, François. A natureza à margem da lei: a ecologia à prova do direito. Lisboa, Instituto Piaget,

1995. p. 244.

65 SINGER, Peter. Ética Prática. Op. cit. p. 65-66. 66 SINGER, Peter. Ética Prática. Op. cit. p. 66.

67 Como a regra de ouro da ética: “não devamos fazer com o outro aquilo que não queremos que nos façam na mesma situação” ou mesmo na tradição judaico-cristã: ”Amai o vosso próximo como a vós mesmos”. FELIPE, Sônia. Fundamentação ética dos direitos animais.O legado de Humphry Primatt.

consideração todos os interesses daqueles envolvidos e afetados pela ação, sendo indiferente questões relacionadas a nacionalidade, gênero, raça ou outros pensamentos moralmente irrelevantes; b) Utilitarismo pode ser benestarista porque define o que é eticamente “bom” em termos do bem estar das pessoas, ou seja, de acordo com o interesse das pessoas; c) Utilitarismo pode ser conseqüencialista porque avalia se condutas são corretas ou incorretas de acordo com suas conseqüências, ou seja, o grau de satisfação de interesse de cada conduta, e; d) Utilitarismo pode ser agregativo porque acrescenta ao resultado o interesse de todos aqueles afetados pela ação. Para se chegar a uma decisão, é necessário balancear a intensidade, duração e quantidade de interesse e seus possíveis resultados68.

O que a sistematização acima quer demonstrar é que os interesses de cada ser afetado por uma ação devem ser levados em conta e receber o mesmo peso que os interesses semelhantes de qualquer outro ser69. O elemento básico é considerar

os interesses de um ser, sejam quais forem eles, não importando de quem sejam: negros ou brancos, do sexo masculino ou feminino, humanos e não-humanos70.

Jeremy Bentham (1748-1832), em 1789 escreve, na Inglaterra, An

Introduction to the Principles of Morals and Legislation (“Uma introdução aos

princípios da moral e da legislação”)71, no qual defende a idéia de que a ética não

será refinada o bastante enquanto o ser humano não estender a aplicação do

princípio da igualdade na consideração moral, a todos os seres dotados de

sensibilidade, capazes de sofrer72. Bentham aponta a capacidade de sofrer como a

característica vital que confere a um ser o direito a igual consideração:

Chegará o dia em que o restante da criação animal venha a adquirir os direitos que nunca poderiam ter sido negados aos animais, a não ser pela mão da tirania. Os franceses já descobriram que a cor negra da pele não é razão para que um ser humano seja irremediavelmente abandonado aos caprichos do torturador. Haverá o dia que se reconheça que o número de pernas, a vilosidade [villosity] da pele ou a terminação do osso sacro são razões igualmente insuficientes para abandonar um ser senciente ao mesmo destino. O que mais deveria traçar a linha intransponível? A

68 Esquematização retirada do texto de: MATHENY, Gaverick. Utilitarianism and animals. Op. cit.. p.

14-15.

69 SINGER, Peter. Libertação Animal. Op. cit. p. 06.

70 SINGER, Peter. All animals are equal. In . In SINGER, Peter. In Defense of animals. The second

wave. Oxford: Blackwell, 2006. p. 151.

71 BENTHAM, Jeremy. An Introduction to the Principles of Morals and Legislation. In two volumes.

London: W. Pickering, Linconln´s inn fields and E. Wilson, Royal Exchange, 1823. Primeira edição impressa em 1780 e publicada em 1789.

72 FELIPE, Sônia T. Fundamentação ética dos direitos morais. O legado de Humphry Primatt. Op. cit.

faculdade da razão, ou, talvez, a capacidade do discurso? Mas um cavalo ou um cão adultos são incomparavelmente mais racionais e comunicativos de que um bebê de um dia, uma semana, ou até mesmo de um mês. Supondo, porém, que as coisas não fossem assim, que importância teria tal fato? A questão não é: eles podem raciocinar?, nem, eles podem falar?, mas, sim: eles podem sofrer?73

Bentham se transformaria no principal representante do utilitarismo filosófico ao defender que a capacidade de sofrer ou de sentir prazer seria um pré-requisito para se ter algum interesse, ou seja, para se ter consideração moral74. A capacidade

de sofrer e de sentir prazer apenas é encontrada em seres sencientes75, os quais

possuem pelo menos uma forma de interesse – o interesse de não sofrer76.

De acordo com esta explicação, os seres sencientes seriam todos aqueles que cumprem com essa condição mínima, qual seja, capacidade de sentir dor e de buscar o prazer. Esta condição daria a todos os seres, sejam humanos ou não- humanos, a aptidão de ter seus interesses considerados igualmente77.

[...] Se um ser sofre, não pode haver nenhuma justificativa de ordem moral para nos recusarmos a levar esse sofrimento em consideração. Seja qual for a natureza do ser, o princípio de igualdade exige que o sofrimento seja levado em conta em termos de igualdade com o sofrimento semelhante – até onde possamos fazer comparações aproximadas – de qualquer outro ser. Quando um ser não for capaz de sofrer, nem de sentir alegria ou felicidade, não haverá nada a ser levado em consideração. É por esse motivo que o limite de sensibilidade é o único limite defensável da preocupação com os interesses alheios. Demarcar esse limite através de uma característica, como a inteligência ou a racionalidade, equivaleria a demarcá-la de modo arbitrário. Por que não escolher alguma outra característica, como, por exemplo, a cor da pele?78

Nazistas violaram o princípio da igualdade ao afirmar que apenas os alemães seriam dignos de importância moral. Os racistas fazem o mesmo ao pensar que apenas os valores da raça deles merecem consideração moral. No mesmo sentido, pensa o especista. Eles não admitem que a dor de um animal não-humano é tão intensa quanto a dor sentida por seres humanos79.

Embora tanto Bentham quanto Singer falem sobre “direitos”, como visto nos enunciados acima, é importante esclarecer uma dúvida. Ambos os autores

73 BENTHAM, Jeremy. An Introduction to the Principles of Morals and Legislation. Op. cit. p. 235-236.

(tradução nossa)

74 SINGER, Peter. Libertação Animal. Op. cit.. p. 09.

75 BENTHAM, Jeremy. An Introduction to the Principles of Morals and Legislation. Op. cit. p. 235-236. 76 SINGER, Peter. Libertação Animal. Op. cit.. p. 09.

77 MATHENY, Gaverick. Utilitarianism and animals. Op. cit. p. 17. 78 SINGER, Peter. All animals are equal. Op. cit. p. 154.

trabalham com o conceito de igualdade ao invés do de direitos. Para Peter Singer, a argumentação sobre direitos é irrelevante para o movimento de libertação animal. Segundo ele, a linguagem dos direitos é absolutamente desnecessária para o argumento a favor de uma mudança radical de atitude em favor dos animais80. Por

meio de uma comparação, Singer afirma que a linguagem dos direitos serve como um slogan político tanto para seres humanos como para os demais animais. Ao existir um conflito de interesses o que poderá ser eficaz é o balanceamento da quantidade de prazer e sofrimento daqueles envolvidos, o que nós chamamos de princípio da igual consideração de interesses81.