2.2 Exemples d'application
2.2.3 Modèle HEC-RAS
cultural herdado de Bourdieu “são utilizadas no Brasil sem uma prévia contextualização quanto à sua aplicabilidade diante da evidente discrepância social resultante das desigualdades raciais” (Ibidem). Então, cabe contextualizar a noção de Bourdieu.
[...] esbarram na formulação de um modelo, cuja maior preocupação está centrada na redução das desigualdades sociais e econômicas impostas por um padrão excludente em sua natureza. Desse modo, mesmo entre as diversas pedagogias progressistas, as propostas de igualdade social para negros sempre estiveram atreladas às saídas universalistas e, as perspectivas de ascensão social para esse grupo, de modo paradoxal ao que defende as próprias propostas progressistas são vistas como processos individuais (p. 84).
Oliveira (2004) faz um mapeamento da história do negro no ensino superior e denota a importância dessa contextualização. A complexidade é ainda maior quando observamos os dados dessa pesquisa, que apontam para uma maior defasagem desse contingente populacional nos cursos das engenharias, relacionando-se com os achados dessa dissertação. Os dados de Oliveira apontam que, em ambientes tão competitivos, as já históricas dificuldades de origem desigual dos negros é acentuada58.
Os resultados de pesquisa comparativa realizada na UFSC sobre a autoeficácia entre cotistas e não cotistas (SOUZA et al, 2013) apontam para semelhante contexto vivenciado nas pesquisas de Bourdieu, em que os cotistas estariam defasados de privilégio cultural herdado, pelos muitos anos de desigualdade racial e social. No que se refere à autoeficácia da dimensão da interação social:
[...] os estudantes cotistas apresentaram médias significativamente menores do que os não
58 Importante nesse caso, observar com a atenção tabela na página 58 no trabalho de Oliveira. Alguns dados em Martins (2002) também apontam para esta temática.
cotistas. Esse resultado sugere uma maior dificuldade, por parte dos primeiros, em superar os desafios encontrados no estabelecimento de relações interpessoais, como a criação de vínculos de amizade e a busca de ajuda para resolução de problemas no mundo acadêmico; além disso, percebem-se pouco competentes em habilidades sociais. (SOUZA et al, 2013, p. 259)
Nesta lógica, a baixa integração em relação à dimensão interpessoal poderia ser reflexo dos preconceitos existentes aos alunos cotistas. Destaca-se também que: “[...] já que é uma modalidade relativamente nova no ensino superior brasileiro e que gera em muitos contextos preconceito e rejeição aos alunos oriundos deste sistema, tanto por parte de colegas como muitas vezes por parte de professores” (SOUZA et al, 2013, p, 259).
Embora estudos (VELOSO, 2009; QUEIROZ & SANTOS, 2006; MATTOS, 2006) apontem o bom desempenho destes estudantes, este fator pode contribuir para “[...] a criação de um ambiente pouco amistoso e para uma menor disponibilidade destes alunos na busca de apoio e integração social” (Ibidem). Essas análises corroboram as premissas da teoria do privilégio cultural herdado. Uma vez que: “[...] aponta-se aqui um contexto de vulnerabilidade para o desenvolvimento dos estudantes cotistas. É fundamental que as instituições favoreçam a interação e o clima de cooperação entre os alunos, diminuindo o clima de competição que uma parcela das discussões sobre cotas tem fomentado” (Ibidem). Neste caso, fica evidente o impacto do meio sociocultural sobre o desempenho de cotistas e a importância de políticas também de acolhimento desses estudantes de diversas origens.
Acresce-se ao fato de que na UFSC não há tantos negros como na população alvo nas pesquisas de Queiroz & Santos (2006), Veloso (2009) e Mattos (2006), uma vez que estas universidades têm o programa de ações afirmativas há mais tempo ou apresentam público já notoriamente com mais negros59. Supõe-se assim que o estigma negativo de ser cotista negro poderia ser amplificado, uma vez que o apontamento dos cotistas seria facilitado por seu menor número. Os dados do gráfico 11 e a da tabela 101 são exemplos cabais de como ser cotista negro impacta no desempenho até mais do que ser preto ou pardo propriamente dito.
59 Vale relembrar os dados da realidade catarinense, apontados na nota de rodapé 18.
Há, no entanto, contrapontos que podem ser feitos a respeito da reprodutibilidade do privilégio cultural herdado no caso brasileiro. Há pesquisas (BELLO, 2008; PEDROSA ET AL, 2007; DACHS & MAIA, 2006; MAIA ET AL, 2009; VELOSO, 2009; QUEIROZ & SANTOS, 2007, 2010, 2013; MONSMA ET AL, 2013) que mostram que as cotas podem subverter essa ordem reinante. Mas vale frisar que as mesmas estão situadas em locais com diferenças, ou seja, o racismo opera de diferentes formas nas diferentes regiões brasileiras. Também destaca-se a diferença como o mesmo opera nos diferentes centros de ensino e cursos pelas instituições federais de ensino.
Outro resultado da já mencionada pesquisa na UFSC de autoeficácia na formação superior (Souza et al, 2013) aponta que a situação criada pelas cotas geraria efeitos positivos no que se refere à dimensão pessoal e institucional. Nesses resultados:
[...] os estudantes cotistas apresentaram médias significativamente mais altas do que os estudantes não cotistas, sugerindo que estes apresentam um nível maior em características como otimismo, autonomia na tomada de decisões e estabilidade afetiva, além de maior compromisso com a universidade e conhecimento dos serviços oferecidos pela mesma. Esse maior envolvimento com as questões referentes à universidade pode estar relacionado com o fato de terem encontrado maiores dificuldades para a inserção em um curso superior, mas que agora, ao vivenciarem essa experiência, parecem não estar dispostos a desistir e abandonar o que para muitos pode ser a maior chance de mudar sua condição social. A conquista da vaga no ensino superior, para muitos, é a realização de um sonho e uma conquista importante, que implica o estabelecimento de um compromisso com a formação e a universidade, aumentando a motivação para a continuidade dos estudos e a conclusão do curso. Em comparação aos alunos que têm no ensino superior talvez a continuidade “natural” da vida escolar, esse aspecto motivacional e de transformação pessoal e social pode não ser tão evidente. Esse aspecto motivacional pode estar na base dos bons resultados obtidos pelos alunos cotistas em diferentes estudos de comparação com alunos regulares. (p, 259)
Os autores ainda apontam que tal hipótese é amparada por estudos que indicaram que a “motivação para aprender se mostra relacionada a resultados acadêmicos positivos” (Ibidem). Esse otimismo e motivação60 poderiam auxiliar um pouco a superar o privilégio cultural herdado, esse argumento se assemelha ao da tese da resiliência educacional, que aprofundaremos a seguir.
Pesquisa realizada na Unicamp61 (PEDROSA et al, 2007), com metodologia similar à que propomos, demonstrou que estudantes com condições consideradas não associadas ao sucesso acadêmico apresentam características similares, como: pertencimento às camadas familiares socioeconômicas mais baixas; ser formado no ensino médio a partir de sistema público de ensino ou não ter frequentado cursos preparatórios (os cursinhos pré-vestibulares).
Essas caraterísticas socioeconômicas, no modelo de análise da evolução do desempenho acadêmico, apresentaram resultados inspiradores quanto às possibilidades de que oportunidades educacionais recebidas por membros de classes subalternas possam ser percebidas como fontes de crescimento pessoal e profissional. Uma vez que as características citadas:
[…]são características que, em conjunto ou separadamente, indicam algum tipo de resiliência educacional desenvolvido por alunos pertencentes a essas categorias. A expressão resiliência educacional é usado no sentido de que as desvantagens em períodos anteriores de vida foram, de alguma forma, traduzidas para o desempenho educacional mais tarde superior. Mais estudos analíticos serão necessários para se desenvolver plenamente e justificar tal conceito (PEDROSA et al, 2007, p. 13, tradução nossa). Embora a questão racial não estivesse presente no estudo, há de se destacar a tese da resiliência educacional como contraponto interessante. A tese pode ser uma indicação de que medidas como as cotas podem possibilitar melhoras de motivação para estudar. Algumas
60 Como vimos em Jencks (2008), a motivação é central. Mas a resignação desaparece. Não há pessimismo, não há determinismo, é possível superar “defasagens” socioeconômicas. Ao menos no ensino superior, com as ações afirmativas, percebe-se que a luz no fim do túnel para se escapar do ciclo vicioso da reprodutibilidade do privilégio cultural herdado.
observações na análise do trabalho de Bowen & Bok (2004) corroboram essa tese62.
O trabalho de Dachs & Maia (2006) também é indicativo desta hipótese, uma análise da importância deste trabalho é relatada a seguir: “Neste trabalho consegue-se identificar que os estudantes oriundos de escolas públicas apresentam ganho relativo médio superior aos alunos de escolas particulares. Esses resultados serviram como subsídios para adequação da política de ação afirmativa adotada pela Unicamp” (MAIA et al, 2009, p. 646). Corroboram-se tais argumentos em outras pesquisas tais como em Bello (2008) e Queiroz (2013, p.9).
Em relação a estudos de ação afirmativa no Brasil há de se apontar o resultado da pesquisa de Veloso (2009) sobre o desempenho de cotistas na Universidade de Brasília, que também é interessante neste aspecto.
A principal tendência constatada, que encontrou eco em evidências empíricas de outras instituições, foi a ausência de diferenças sistemáticas de rendimento a favor dos não- cotistas, contrariando previsões de críticos do sistema de cotas, no sentido de que este provocaria uma queda no padrão acadêmico da universidade (VELOSO, 2009, p. 621).
A pesquisa sobre as consequências das cotas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Monsma et. al, 2013) aponta resultados satisfatórios quanto ao fato de os alunos cotistas conseguirem acompanhar o desempenho dos não cotistas63.
Os estudos acima listados (Veloso, 2009; Monsma et al, 2013; Pedrosa et al, 2007; Dachs & Maia, 2006 e Maia et al, 2009) e a pesquisa de autoficácia na UFSC de Souza et al (2013), que aponta resultado em que as cotas criariam efeitos positivos, no que se refere à dimensão pessoal e institucional, são elementos que nos fazem crer ser possível ir contra a resignação que a teoria do privilégio cultural herdado poderia fazer crer.
62 Cf. Seção 3.2.6.
63 Vale frisar, no entanto, que os cotistas negros com menos sucesso que os cotistas oriundos de escola pública.
4. OBJETIVOS