Segundo Passos e Barros (2010) a pesquisa-intervenção encontra suas bases nos trabalhos desenvolvidos pelo movimento institucionalista, a partir dos estudos de René Lourau (1975) e Guattari (1987). Ambos, juntamente com outros autores franceses ampliaram as visões sobre o institucionalismo que surgiu na década de 1960 na França e se difundiu no Brasil na década de 1970, com especificidades distintas. O movimento institucionalista envolveu na época, profissionais ligados à arte, filosofia, educação e psicologia, e deixou como legado a constituição de novas práticas de investigação que romperam com as formas tradicionais de pesquisas, abandonando alguns conceitos contidos como ‘verdade’ e essenciais no desenvolvimento de uma pesquisa, como a neutralidade e a objetividade.
Para Aguiar e Rocha (2007, p. 655), os referenciais sociopolíticos da pesquisa- intervenção encontram nos “conceitos-ferramentas institucionalistas (franceses e argentinos), os foucaultianos e os esquizoanalíticos”, as bases que constituem o modo de fazer pesquisa-
68 Nesse estudo, o termo “intervenção” se aproxima da abordagem de Gorczevski (2007), ou seja, é relacionado
aos modos de apropriação feitos pelos movimentos socais, na perspectiva de reinventar suas práticas. Ele é abordado a partir das práticas comunicacionais que “evocam opiniões, ideias, produzem e agenciam informações e conhecimentos” (GORCZEVSKI (2007, p. 24).
intervenção no Brasil. Estes conceitos-ferramentas inauguraram as discussões de conceitos centrais, a exemplo o de implicação do pesquisador, abordado por Lourau (1975) e a genealogia foucaultiana acerca da produção do real, que apesar de minuciosa “é fragmentária porque recusa qualquer pretensão de totalidade” (LOBO, 2012, p. 17).
Lourau (1975) em seus estudos começou a pensar a desnaturalização das práticas, sobretudo as práticas de pesquisa, ensino e trabalho. Para o autor, “uma intervenção que
implica o observador supõe a análise dessa implicação” (LOURAU, 1975, p. 16) que se faz a partir das relações com as instituições e os processos interventivos. Esse conceito de implicação abordado por Lourau (1975) é visto como uma das principais contribuições do movimento institucionalista que ao mesmo tempo em que motiva as ações, discute a relação com o instituinte. Como “a análise institucional busca uma nova relação com o saber, uma consciência do não-saber que determina nossa ação” (LOURAU, 1975, p. 16), as possibilidades de construção do conhecimento se ampliam. Segundo Coimbra e Nascimento (2012, p.131), “colocar em análise as implicações permite, portanto, perceber as multiplicidades, as diferenças, a potência dos encontros, sempre coletivos, e a produção histórica desses mesmos objetos, sujeitos e saberes”.
Assim, “a intervenção como método indica o trabalho da análise das implicações coletivas, sempre locais e concretas” (PASSOS e BARROS, 2010, p.19), e o “intervir” não estaria ligado somente a uma ação desenvolvida em campo, mas se relaciona as próprias tensões e implicações que envolvem os sujeitos (pesquisador e objeto-pesquisado). Dessa maneira, o comum construído a partir das singularidades que envolvem o cotidiano do objeto- pesquisado estabelece na construção da pesquisa-intervenção relações diferentes daquelas já definidas em outros períodos pela pesquisa-participante e pesquisa-ação.
Ambas, apesar de serem precursoras da pesquisa-intervenção e fazerem uma discussão sobre o posicionamento do pesquisador em campo apresentaram abordagens distintas. A pesquisa-participante priorizou a relação pesquisador/pesquisado e a pesquisa- ação focou no agir sem identificar as diferenças estabelecidas nas relações dos sujeitos. Enquanto “a pesquisa-intervenção, considerada como um tipo de pesquisa-participante” (ROCHA; AGUIAR, 2003, p.66) buscou ir além, ao “acompanhar o cotidiano das práticas, criando um campo de problematização para que o sentido possa ser extraído das tradições e das formas estabelecidas, instaurando tensão entre representação e expressão, o que faculta
Na pesquisa realizada com os jovens em Barra do Leme, percebi que a participação nas oficinas audiovisuais, desenvolvidas pela ACARTES em parceria com o Arte e Cultura na Reforma Agrária, se constituem mais do que relações institucionais. Ao conhecer mais de perto as ações do Arte e Cultura e na Reforma Agrária, observei que as relações dos sujeitos que coordenam o projeto com os jovens assentados envolvem múltiplos afetos e saberes coletivos. É uma relação institucional que agrega as iniciativas artísticas dos assentamentos e busca a continuidade dos processos culturais pelos jovens convidados a participarem das formações, tanto em audiovisual quanto de teatro.
Percebi que o audiovisual, por não fazer parte dos processos históricos e culturais dos assentamentos, apresenta ainda baixa produção nos grupos, exceção para o assentamento Coqueirinhos69, que tem o Núcleo de Produção Audiovisual do Coqueirinho (NUAD), um grupo formado por jovens do assentamento que presta serviços para a comunidade e para o próprio INCRA, a exemplo, a cobertura do evento em comemoração aos 10 anos do Arte e Cultura. Nesse sentido, assinalo que o conhecimento das diferenças que constituem os grupos de jovens que participam destas oficinas é múltiplo e amplo, visto que uma das potências da pesquisa-intervenção é a “busca a interferência coletiva na produção de micropolíticas de transformação social” (AGUIAR; ROCHA, 2007, p. 650). Isso implica manifestar que o que me interessava na pesquisa era os conhecimentos que os jovens produzem a partir das oficinas audiovisuais e das produções realizadas durante a formação da ACARTES.
Partindo do pressuposto que na pesquisa-intervenção as dimensões do cotidiano estão para além daquilo que ganhou forma, levamos em consideração os planos (re)inventados e construídos durante a pesquisa. Nas primeiras idas a campo, Camilo, Joelma e Marta apontaram o desejo de trabalhar com os demais jovens do Caricultura que não participavam das oficinas da ACARTES, as lições aprendidas durante a formação em audiovisual. Esta ação é um dos objetivos do Arte e Cultura na Reforma Agrária que envolve outras linguagens artísticas que os jovens participam, a exemplo, as oficinas de teatro que acontecem em parceria com a Escola de Teatro da Terra. Porém, nem sempre acontece este momento de interação no assentamento paralelo a participação dos jovens nas formações, bem como o modo de compartilhar são outros. Os jovens vão construindo o próprio tempo deles e outras
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O assentamento Coqueirinhos está localizado no município de Fortim, distante 135 km de Fortaleza. Em agosto de 2005 foi realizado um curso de Capacitação em Audiovisual para jovens no Assentamento, a partir da parceria entre o Projeto Arte e Cultura na Reforma Agrária/INCRA e a Casa Amarela Eusélio Oliveira. Fonte: http://arteculturanareformaagraria.blogspot.com.br/2011/06/nucleo-de-audiovisual-do-Assentamento.html
formas de apresentação do que vivenciam nas oficinas, às vezes em uma reunião, ou até mesmo durante uma conversa.
Na entrevista com Joelma, por exemplo, ela cita o teatro como atividade principal do assentamento e o audiovisual como uma possibilidade de ser agregado ao teatro.
A gente já trabalhava antes das oficinas de audiovisuais com o teatro, e tava pensando em construir uma peça sobre os elementos naturais e o homem, e aí nós pensamos em gravar esta peça para começarmos a ter uma noção. Também começamos a pensar em reunir outros jovens da comunidade e começar a fazer vídeos, e trabalhar o audiovisual junto com o teatro, mas ainda não temos câmera. (Trechos da transcrição da entrevista com Joelma – 15/08/2013).
Marta também compartilhava esta ideia. Camilo, embora tenha participado do teatro, tinha outros desejos. Ele citou que gostaria de fazer projetos na área de audiovisual, produzir documentários com amigos, entre outras ações que fortalecesse o trabalho no assentamento. Essa diferenciação dos desejos de cada jovem, acredito está relacionada aos processos vividos por cada um. Marta e Joelma têm mais afetividade com o teatro. Ambas fizeram um curso na Escola de Teatro da Terra, e Camilo, desde criança já “mexia” com algum programa de edição como ele mesmo relatou em nossa entrevista.