IV.6 Au-delà des limites
IV.6.1 Modèle analytique de l’impact de la diffusion multiple
Formalmente parece-nos haver alguns pontos de contacto entre esta Sagrada Família e a obra escultórica de Machado de Castro, como seja o entalhe dos rostos, com especial atenção para as parecenças entre o rosto da Nossa Senhora e o rosto de Santa Ana
Ensinando a Virgem a Ler, o recurso à base e os poucos atributos encontrados. Contudo, desde logo a dimensão das esculturas deste conjunto foge ao que é comum na produção em madeira de Joaquim Machado de Castro que executa figuras à escala natural. Também o facto das figuras se apresentarem calçadas, o que não é recorrente, é um ponto de afastamento bem como o trabalhado dos panejamentos que, tal como nos alertou Ana Duarte Rodrigues quando lhe pedimos a sua opinião sobre este conjunto, parece menos cuidado, muito amarrotado.
Relativamente aos materiais utilizados, apenas concluindo que a madeira utilizada seria de uma árvore conífera, não podemos estabelecer uma ligação directa ainda que desse grupo façam parte o cedro, o pau-brasil e o pinho.
Já a técnica utilizada no entalhe das figuras, de acordo com as informações recolhidas nos trabalhos de Rita Medina Peixoto e Helena Pereira, é distinta do que se vem revelando ser
prática repetida, a utilização de um numeroso agrupado de blocos, pois este conjunto foi entalhado num bloco principal ao qual foram unidos outros blocos mais pequenos, embora pese o facto das esculturas da Sagrada Família serem de dimensões bastante menores o que permitiria mais facilmente trabalhar num menor número de blocos.
Quanto aos materiais utilizados embora haja referência de que a obra de Machado de Castro apresenta preparação à base de gesso este seria o material habitual na escultura deste período, não se cingindo apenas à escultura de Machado de Castro, não sendo de todo o suficiente para esclarecer a autoria.
É comum também a presença de uma camada de bolo e de folha metálica embora não se tenha identificado concretamente a composição dos materiais destas esculturas, e sejam documentadas as duas técnicas de douramento, a água e a óleo, nas esculturas do presépio da basílica da Estrela.
Nos materiais empregues na policromia, daquilo que se encontrou a utilização de têmpera nos panejamentos e um aglutinante de óleo nas carnações descritas na escultura de São
Francisco de Assis vai de acordo ao que se encontra neste conjunto, o caso da Nossa
Senhora do Rosárionão deve ser considerado tendo em conta que a policromia é posterior ao entalhe da madeira.
Nestas considerações é ainda importante apontar que a tarefa de policromar as esculturas não era realizada no laboratório de Machado de Castro, podendo não ser o ponto mais directo na tentativa de encontrar uma ligação.
Relativamente às proporções, não tendo sido realizado um estudo ao corpo inteiro das figuras Ana Duarte Rodrigues adiantou-nos que estas não lhe pareciam ser as de Machado de Castro. As proporções do rosto parecem-nos concordar com o estudo do mestre, o que nos conduz á ideia de que quem concebeu este conjunto conhecia pelo menos a obra de Joaquim Machado de Castro.
Voltando à Sagrada Família que se encontra no Convento do Carmo na nossa opinião tem similitudes com o nosso objecto de estudo embora com formas mais exuberantes e exageradas. Ponderamos então a possibilidade de o conjunto do Carmo ser anterior ao que estudamos, por ser datável de meados do século XVII e pelas características formais, tendo servido, pela proximidade entre ambos, de inspiração ao conjunto integrado na Igreja Matriz.
Achámos interessantes as ligações encontradas entre o discípulo favorito de Joaquim Machado de Castro, Faustino José Rodrigues, e os Marqueses de Borba, Senhores de Figueiró. No entanto não encontrando ligações concretas entre o escultor e esta Sagrada
Família não podemos fazer qualquer tipo de vínculo. Também Ana Duarte Rodrigues nos escreveu que este conjunto poderia ter saído talvez de um discípulo afastado o que diminui as probabilidades de ter saído das mãos de Faustino José Rodrigues, discípulo directo de Machado de Castro. Pensamos ser mais provável que o autor desta Sagrada Família tenha contactado com Faustino Rodrigues, já que este era considerado amigo da família Borba, ou pelo menos com a sua obra, que muito está ligada à obra de Machado de Castro.
Importa, por fim, reflectir sobre os diferentes graus de atribuição que são possíveis e sobre que denominações serão mais correctas. Para isso baseámo-nos na publicação das normas de inventário na área de Escultura (CARVALHO, 2004).
Não tendo dados directos que nos permitam com exactidão afirmar quem concebeu este conjunto, como sejam a assinatura ou um contracto, não poderemos, por enquanto, referir- nos a algum nome como “autor” da Sagrada Família. Após o estudo realizado, a atribuição que nos foi transmitida não nos parece ser correcta, embora se possam apontar algumas semelhanças formais tendo em conta o panorama da produção em madeira de Machado de Castro não terá saído este conjunto das mãos do mestre, eliminando assim as hipóteses de “atribuir” ou considerar “atribuível” este conjunto ao seu nome. Tendo em conta que poucas eram as obras em madeira que eram produzidas na oficina de Joaquim Machado de Castro considerar o conjunto como sendo da “Oficina de” também não será o mais acertado, no mesmo sentido, percebendo que o espaço de oficina seria o mesmo da Aula de Escultura e que a formação em produção em madeira seria diminuta o termo “Escola de” cai também um pouco na especulação ponderando que o autor deste conjunto terá aprendido directamente com o mestre. O termo que nos surge mais adequado será “círculo de” ou “seguidor de” onde o autor ainda desconhecido não terá de ser discípulo do mestre ou ter trabalhado com ele, contudo apresenta características que o associam ao seu nome (CARVALHO, 2004: 77).