Fonte: Arquivo da autora (2007).
Milena é a filha do meio, é branca, possui cabelos ondulados e olhos claros. Quando iniciamos a pesquisa, ela cursava o ensino fundamental e desejava tornar- se professora. A menina cigana, entretanto, é desde muito cedo preparada para o casamento. Dessa forma, sua passagem pela escola é curta. Apesar de suas intenções de continuar estudando, pouco tempo depois de iniciarmos a pesquisa, Milena foi retirada da escola pelos pais. Esse momento foi um momento que nos suscitou muitas inquietações e reflexões. Rosa, percebendo que esse fato iria de certa forma nos causar admiração, procurou ir aos poucos deixando claro que a saída de Milena da escola era algo decidido pela família, pela tradição e não por necessidade de uma cooperação maior dela em casa, como havia dito num primeiro momento.
Tentamos elaborar todas as reflexões, atentas para que nossos valores não se sobrepusessem à condição de pesquisadora. Confessamos que foi o momento em que mais nos sentimos desafiadas, tentadas por uma concepção adquirida, de que os saberes de fato estão confinados nas instituições formais de educação. Essa experiência, no entanto, nos permitiu alargar o campo de leitura e apreensão de mundo, e dessa forma compreender que as culturas, metaforicamente falando, se assemelham a um labirinto. E era em meio a esse labirinto que muitas vezes nos víamos. Buscávamos saídas, respostas, algumas delas que só agora começamos a perceber e outras tantas que ao finalizarmos essa pesquisa, desapareceram juntas com o labirinto.
A família Ivanovichi, faz parte de um grupo cigano bastante numeroso, com cerca de trinta pessoas. A maioria dos que são sedentários vivem também no município de Palhoça. Um outro grupo da mesma família, de aproximadamente quarenta pessoas, reside em Piçarras e Tijucas, ambos municípios catarinenses. Essa família também possui alguns membros nômades que se locomovem pelos estados de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. Quando os conhecemos,
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eles viviam em uma grande barraca, que foi motivo de alguns conflitos tanto com os moradores do condomínio quanto com a fiscalização da Prefeitura Municipal de Palhoça.
Ao comprarem o terreno de terceiros, eles não foram informados de algumas cláusulas contratuais, específicas desse tipo de condomínio, tais como: tamanho mínimo de área construída, tipo de material, padrões estéticos (grades de proteções, muros, jardins etc). Ocorreram muitas discussões, até que a família conseguissem deixar claro que, para eles, “barraca” é casa, e que não tinham, pelo menos por enquanto, nenhuma intenção de construírem outro tipo de residência. Quanto aos órgãos públicos, após provarem, por meio de documentação, serem os legítimos proprietários e cumprirem com algumas exigências sanitárias, foram enfim deixados em paz. Depois de algum tempo, no final de 2006, iniciaram a construção de uma edícula, a fim de tornar possível a realização de pequenas viagens sem terem que se preocupar com segurança.
A organização social dessa família se dá com a divisão de tarefas, que segue a divisão sexual do trabalho, comum à maioria dos grupos ciganos. À mulher compete os afazeres domésticos, a leitura da mão (sorte) e, em algumas situações, a colaboração com o esposo nas vendas a domicílio. Ao homem cabe garantir o sustento da família e a sua proteção.
As atividades comerciais da família ocorrem em diferentes regiões do Estado e também se dão de forma coletiva. Um grupo de homens da mesma família se desloca para um determinado local, aluga uma casa por certo tempo, permanecendo nela até que as vendas se esgotem. Os ciganos, preferencialmente, desenvolvem atividades comerciais ligadas a vendas. Os sujeitos com os quais realizamos essa pesquisa, trabalham com a venda ambulante de roupas de cama, mesa e banho, sendo que alguns também negociam automóveis. Os meios de transporte têm se constituído em um elemento valioso para a vida nômade dos ciganos, pois, além de serem usados para os grandes deslocamentos, também representam uma moeda de troca. No passado, eles utilizavam animais que foram substituídos por carros.
Esse grupo, particularmente, evita que as mulheres saiam para ler a mão ou pedir esmolas, preferindo que elas participem das vendas a domicílio. O que não impede que nesses momentos de trabalho, elas não realizem também a leitura de mão. Essa escolha ocorre por dois motivos: o primeiro é que, com as vendas, elas
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têm mais garantias de um retorno financeiro imediato. O outro é que muitos grupos de mulheres ciganas costumam freqüentar a Praça XIV. Para o grupo de Rosa, são ciganas mal-educadas, com as quais não querem ser confundidas. Isso denota certa divisão social tendo em vista que, as mulheres ciganas que freqüentam a Praça XV, em sua maioria são nômades. O grupo em questão, com o qual realizamos a pesquisa, são sedentários e de certa forma, possuem uma vida mais confortável que os demais.
Apesar do pertencimento étnico, a divisão de classes sociais dos grupos ciganos é algo bastante visível. No processo de elaboração da pesquisa, conseguimos identificar além desse aspecto, alguns outros elementos próprios das sociedades capitalistas tais como desigualdade, e individualismo. Em diferentes momentos indagamos, a pessoas do grupo pesquisado, se o fato de haverem ciganos, nas próprias imediações, com dificuldades para acamparem não os preocupavam, ao que eles respondiam que, em virtude de seus muitos afazeres não tinham como largarem tudo para cuidar da vida dos outros.
Os ciganos, apesar de todos os princípios de liberdade que os caracterizam, também estão submetidos aos imperativos do modelo econômico atual. Dessa forma, é muito presente na fala deles seus compromissos bancários, expresso na fala de Ana Lucia39, quando ela diz: “Dona, é muita conta para pagar. Não dá tempo de ir ao médico, temos que trabalhar para pagarmos aos bancos” [sic].
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