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Autores como Tap e Lipiansky (cf. Santos, 1998), do campo da Psicologia Social, têm definido identidade coletiva como as pertenças de um sujeito com respeito às etnias, às religiões, aos gêneros, às sexualidades, aos Estados, às afiliações ideológicas, a clubes esportivos, às classes sociais, aos status e papéis sociais. Hall (2000), por sua vez, tem chamado a atenção para a influência das culturas nacionais – entendidas como discursos ou modos de construir sentidos – como fontes de significados orientadores de nossas cognições e afetividades e, por conseguinte, de nossas pertenças.

Dessa maneira, é de fundamental importância para o trabalhador ou agente social a apropriação dos significados impregnados na cultura da sociedade na qual atua para que de um modo crítico oriente sua prática conforme a sua opção política de mudança ou de antimudança, para definir quais pertenças estimular, quais categorizações e identificações incentivar na convivência com os outros com quem trabalha.

Para compreender as falas das docentes entrevistadas acerca do que elas pensam sobre o que é ser alagoano, isto é, de o que elas pensam que são os principais atributos dos alagoanos, é fundamental neste ponto esclarecer de que modo estou usando o termo Estado.

Na perspectiva da Teoria Geral do Estado (FERREIRA, 1975) que adoto neste trabalho, as representações sobre um Estado se articulam através de três elementos: a população (o elemento humano), um território (base física e geográfica), um poder de comando (uma sociedade política ou uma organização político-administrativa). Dessa maneira, uma das etapas necessárias para a compreensão das representações das professoras do Ensino Fundamental de

Maceió sobre o Estado de Alagoas é entender como elas estruturam suas representações sobre os alagoanos, o povo do Estado.

Essa forma de representar Alagoas produz e é produzida por um autoconceito, ou um olhar do alagoano para si mesmo, no qual a visão depreciativa produzida a respeito de Alagoas reverte-se sobre a identidade do próprio sujeito alagoano que internaliza o estereótipo socialmente construído que se evidencia nas entrevistas, das quais o trecho seguinte é bem representativo:

O alagoano usa de esperteza para conseguir o que quer. Não foi à toa que ficamos conhecidos em todo Brasil como a República das Alagoas, querendo dizer que aqui é a terra de quem sabe roubar. E o pior é que é mesmo. A carapuça caiu na cabeça de quase todo alagoano. Da maioria, eu acho

(Professora Turmalina).

Os discursos das docentes em torno de o que é ser alagoano são fortemente regidas pela ambivalência, entendendo esse termo como “presença simultânea, na relação com um mesmo objeto, de tendência, de atitudes e de sentimentos opostos, fundamentalmente o amor e o ódio” (LAPLANCHE e PONTALIS; s/d). Ao mesmo tempo em que nutrem um forte sentimento de afeto e expressam a necessidade de estimular o amor à terra em que nasceram, exprimem também um discurso de reprovação sobre o Estado no que diz respeito aos abusos de poder, à ineficiência e à desonestidade.

No Teste de Associação Livre de Palavras as respostas com relação ao estímulo “ser alagoano”, as respostas das professoras entrevistadas foram classificadas nas categorias: Política, Afetividade, Comportamental, Social.

Categorização das palavras para o estímulo SER ALAGOANO Afetos Política Positivos Negativos Comportamental Social Corrupto Feliz Alegre Orgulhoso Sofredor Triste Lutador Inteligente Forte Trabalhador Corajoso Pobre Acolhedor Discriminado Violento Amigo

As professoras representam o alagoano como pobre, feliz, acolhedor. Convém ressaltar, entretanto, conforme a descrição feita acima no estudo do gráfico de Análise Fatorial de Correspondência, que os professores tendem a apresentar uma visão do alagoano ressaltando características afetiva e socialmente ambivalentes.

O caráter de ambivalência que marca o discurso das docentes também tem sido constatado no discurso de historiadores e literatos alagoanos. A título de exemplo, posso citar, no âmbito da historiografia, as divergências em torno da interpretação do episódio de emancipação político-administrativa do Estado em 1817, e a frase clássica do historiador Dirceu Lindoso em sua palestra proferida no Instituo Histórico e Geográfico de Alagoas em 1981: “Alagoas é o que se ama e dói”. No âmbito literário, lembro o depoimento de Ledo Ivo (cf. www.geneton.com.br) acerca de Graciliano Ramos em uma entrevista concedida em 01/04/2004 a Geneton de Moraes Neto: “A relação de Graciliano Ramos com Alagoas era de amor e ódio, porque ele tinha saído do Estado de cabeça raspada, jogado no porão de um navio”. O episódio aqui mencionado pelo escritor Ledo Ivo refere-se ao relato de Ramos em seu livro Memórias do cárcere decretada sobre sua à prisão no regime de exclusão do Governo de Getúlio Vargas. Esses exemplos, e vários outros podem ainda ser enumerados, e são eles que vão puxando o fio de uma trama que vai sendo costurada pelos setores da intelectualidade sobre o Estado de Alagoas.

O psiquiatra suíço Eugen Bleuler, que introduziu o termo ambivalência no campo da Psicologia, o utiliza em três domínios: a) voluntário, para referir-se a conflitos nos quais se quer, ao mesmo tempo, fazer e não fazer uma mesma coisa; b) intelectual, quando o sujeito enuncia com respeito a um mesmo objeto uma proposição e o seu contrário; c) afetivo: ama e odeia a mesma pessoa ou o mesmo objeto, em um mesmo movimento (cf LAPLANCHE e PONTALIS, s/d). No que diz respeito à relação dos sujeitos com Alagoas, a noção de ambivalência é central porque designa não apenas flutuações de atitudes ou sentimentos acerca de um determinado objeto, mas de assimetria oscilando entre sim-não, situação na qual a noção de ambivalência se apresenta como fundamental:

A originalidade da noção de ambivalência, relativamente ao que fora descrito como complexidade de sentimentos ou flutuação de atitudes, reside, por um lado, na manutenção de uma oposição do tipo sim-não, em que a afirmação e a negação são simultâneas e indissociáveis; e, por outro lado, no fato de que essa oposição fundamental pode ser encontrada em diversos setores da vida psíquica. Bleuler acaba por privilegiar a ambivalência afetiva, e é este o sentido que orienta o seu uso por Freud” (LAPLANCHE e PONTALIS, s/d; p.17).

Os sentimentos ambivalentes das docentes com relação a Alagoas, (de amor e ódio, inclusão-exclusão, aproximação-distanciamento, ufanismo- depreciação, aceitação-rejeição, etc.) como foram evidenciados nos discursos, transportam-se do âmbito histórico-geográfico para transfigurar-se na construção identitária, usando de analogia entre o funcionamento do social e a atividade psicológica. Isso significa que sua auto-imagem e os conceitos que têm de si mesmas são moldadas conforme as leis de interpretação que elas fazem sobre a

construção sociopolítica da realidade onde se inserem os sujeitos alagoanos. Numa relação de causalidade, o alagoano é a semelhança do que é feito de Alagoas.

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