O entrelaçamento dos temas trabalhados no decorrer deste capítulo permite uma reflexão mais apurada do significado de cada um deles para esta pesquisa e mostra de que forma eles estão totalmente interligados, de modo que não podem ser vistos individualmente.
Compreender a autonomia relativa, o biopoder e a biopolítica das instituições é nitidamente relevante, mas os conceitos de vida, dados pela ciência e pela religião são complementares.
Contudo, apesar de permitir um embasamento teórico, a partir da análise do conceito de vida, de biopoder e de autonomia relativa, tão importantes para a temática do aborto, a bioética e seu cunho religioso endossa ainda mais essa discussão, tendo em vista que seu discurso de dignidade humana poda os avanços científicos e são bastante considerados por diversos setores da sociedade.
Além disso, perceber o caráter religioso dos discursos de pessoas ligadas a esse campo do saber endossa a impressão de que cada instância que exerce autonomia relativa está totalmente imbricada, fazendo com que o próprio cunho religioso influencie o discurso bioético e se afaste do científico, mesmo num ambiente secularizado, mediante a cultura religiosa arraigada na sociedade, como é explicado por Arendt (1999).
Assim, iniciamos este trabalho chamando a atenção para um conceito muito importante abordado por Bourdieu (1998): a autonomia relativa. Estudar a autonomia relativa faz com que se observe criticamente como o tema em questão envolve várias nuances que se entrelaçam e que contribuem relativamente para a forma como ele vem sendo visto pela sociedade.
Esse jogo de diálogos, em que cada instituição exerce uma autonomia relativa, permite compreender, desde o início, a complexidade do tema e do controle exercido por cada esfera diante do poder de decidir sobre o direito à vida, ou seja, o biopoder das instituições.
Compreender a relevância dos posicionamentos de cada esfera da sociedade e a autonomia relativa desempenhada por cada uma delas faz com que se observe de que maneira a Igreja Católica e as organizações feministas também desempenharam papéis importantes nesse jogo de interesses, a partir do poder simbólico. Este, como se viu a partir de Bourdieu (1998), aparece de maneira invisível, mas é trazido à tona na análise hermenêutica das entrelinhas do discurso e na forma em que são construídas as leis.
Neste jogo de interesses e de autonomias, apareceu um grupo que vem se destacando na sociedade pós-moderna, ou seja, as Católicas pelo Direito de Decidir que trazem um cunho libertário para as mulheres e se voltam para a questão socioeconômica das mesmas e as situações caóticas nas quais elas têm realizado o
aborto. A maneira como elas têm sido escutadas e duramente criticadas pela Igreja Católica faz com que se observe a sua autonomia relativa nesse debate.
A vida, tão debatida por estas mulheres, a questão de até onde se pode considerar um feto ou um bebê e ainda o senso maternal, convida todos para uma reflexão sobre esse tema, buscando compreender a partir de alguns autores o significado dessa palavra.
Assim, iniciamos a conceitualização da vida, observando a sua complexidade e os diferentes tipos de conhecimento que se volta para ela, que vão desde o senso comum, passando pelas explicações de cunho filosófico, até as mais complexas explicações biológicas.
Primeiramente, apontou-se o evolucionismo darwinista como forma de interpretar a vida e adentrar as teorias pautadas no surgimento do ser humano, a fim de trazer à tona a ausência de unanimidade nesse debate, tomando-se conhecimento das principais visões sobre o assunto.
Em seguida, foi observado como o homem se distingue dos animais e das plantas e sua autoconsciência, observando-se também a existência dos tipos de conhecimento referentes a ele, ou seja, o conhecimento sensitivo, o imaginário e o intelectivo.
Com isso, identifica-se que esse é o argumento mais usado para justificar o posicionamento contrário ao aborto, sem deixar de perceber que ele interioriza valores religiosos tais como os próprios estudiosos que buscam em suas análises o estudo da bioética.
Considerando o estudo da bioética como tendo um caráter relevante nesta discussão, resolvemos buscar entendê-lo em suas principais características e na forma como ele poda os avanços científicos. A intenção de podar tais avanços científicos diz respeito à preocupação que se tem pela defesa dos direitos humanos e a visão de que os avanços científicos muitas vezes se esquecem dos princípios bioeticos que são fundamentais para garanti-los .
Assim, como forma de esclarecimento, apresentamos cada um de seus princípios, ou seja, o princípio da autonomia, da beneficência, da não maleficência e da justiça, sem deixar de criticar a forma como o último não tem sido muito levado em consideração, já que as injustiças sociais são gritantes, inclusive, quando se trata do acesso a medicações que provocam aborto e acompanhamento adequado.
Também conseguimos observar como os autores que pautam suas discussões no campo da bioética, algumas vezes demonstram claramente a sua religiosidade ao se referir à questão de todos serem filhos de Deus. Essa situação fez com que se captasse o entrelaçamento de autonomias relativas, observando que a religião ainda determina o posicionamento de pessoas que estão neste e em outros campos do saber da área da saúde.
Enfim, cada conceito trabalhado neste capítulo inicial serve de base para o restante do trabalho que buscará observar as autonomias relativas de vários setores da sociedade e a grande influência da Igreja Católica por meio da invisibilidade do poder simbólico, e também servirá para compreender a noção de vida presente em cada setor da sociedade que está direta ou indiretamente ligado à visão religiosa.
Diante disso, segue-se a abordagem deste estudo, examinando um pouco da história da instituição que nos propusemos analisar como aquela que consegue aparecer nas entrelinhas do discurso e nos posicionamentos de médicos, políticos, midiáticos, e ressaltando seu principal grupo opositor, ou seja, as organizações feministas e, em especial, as Católicas pelo Direito de Decidir.
2 A CONSTRUÇÃO DOS VALORES E DAS NORMAS NA IGREJA CATÓLICA E