Sem prejuízo pelo seu caráter recreativo, salvaguardadas as devidas e indispensáveis condições de preservação, a existência destes espaços justifica-se, fundamentalmente, pelo seu interesse científico, concretizado nas suas principais vertentes da investigação ou experimentação, da conservação, da exposição ou demonstração e ainda de divulgação científica.
Constitui evidência destes objetivos, o facto da grande maioria destas instituições se situarem junto a estabelecimentos de Ensino Superior e neles se encontrarem integrados, como acontece, aliás, com os principais jardins botânicos portugueses e como se verificou, desde logo, com o de Pisa, o primeiro do mundo, que foi criado naquela cidade (C. N. Tavares, 1967).
Porém, importa realçar ainda o papel educacional que eles podem e devem assumir, especialmente no nosso tempo, tendo como destinatários, não só o próprio meio científico mas também toda a comunidade, nas suas variadas instituições e público em geral.
A sua função de exposição ou demonstração botânica, de acordo com C. N. Tavares (1967), exige o estabelecimento de coleções diferenciadas, consoante os respetivos interesses: sistemático, morfológico, biológico, genético, ecológico e fitossociológico e utilitário.
A sua instalação e ou sucesso requerem específicas condições ambientais, muitas vezes de difícil concretização, considerando as exigências ecológicas, porventura inconciliáveis, de certas plantas da mesma coleção e colocam outras questões como, por exemplo, ao nível do solo, do clima e do próprio espaço, característicos em cada jardim botânico. Para além disso, assume ainda especial relevância o problema da seleção das espécies vegetais que devem constituir cada coleção, em ordem à evidenciação dos aspetos que se pretendem destacar em cada caso, sem a introdução de fatores estranhos ou indesejáveis.
Para além destes problemas mais comuns, C. N. Tavares (1967) elenca ainda os principais aspetos que cada tipo de coleção deve proporcionar, designadamente: a utilização de um sistema de classificação rigoroso, numa coleção de interesse sistemático; a realização de estudos comparativos da morfologia dos variados órgãos constituintes das plantas, numa coleção de interesse morfológico; a demonstração de diferentes tipos de polinização, disseminação diaspórica, parasitismo e epifitismo, numa coleção com objetivo biológico; a efetivação de estudos relativos à origem das espécies, sistemas reprodutores, mutação, variegação e hibridismos, numa coleção de
interesse genético; a exemplificação das relações entre as plantas e o ambiente em distintas associações vegetais do país, em coleções de caráter ecológico e ou fitossociológico; a evidenciação dos variados produtos provenientes das plantas, em coleções de interesse utilitário.
Outra função, nomeadamente, questões de conservação de espécies, exige a presença e o apoio permanentes de especialistas, não só pela extinção, mas também pela alteração na natureza. Apesar de, em muitos casos, tal já não ser possível, observam-se exemplos da existência de espécies vegetais apenas porque a sua cultura foi efetuada em jardins botânicos. Outro tanto poder-se-á perspetivar, em relação a muitos espécimes, através da assunção plena desta função, por parte dos jardins botânicos. A mesma poderá concretizar-se também através dos chamados reservatórios de genes. Realça-se ainda a importância da permuta internacional de frutos, sementes, esporos e outros diásporos, bem como plantas espontâneas, entre jardins botânicos, como meio de potenciar a conservação das espécies.
Com especial interesse para o mundo científico, em sentido mais restrito, o papel dos jardins botânicos no âmbito da investigação pode ser, contudo, alargado a outros domínios da nossa vida coletiva.
Nos jardins botânicos, diversas Faculdades encontram um poderoso instrumento, não só de observação mas, essencialmente, de experimentação, aplicada aos seus diferentes domínios do saber, quer seja realizada in loco, quer em contexto laboratorial. Também outros níveis de ensino poderão beneficiar deles, não só através da realização de visitas guiadas, mas também através de outras atividades e dinâmicas possíveis. Constituem assim um recurso pedagógico ao serviço do sistema educativo.
Esta vertente experimental dos jardins botânicos será enriquecida pelos contributos que poderá disponibilizar à comunidade, mais próxima ou mais distante, com significativo peso económico e social. Refere C. N. Tavares (1967) alguns deles em domínios como a horticultura, a jardinagem, a arboricultura, a indústria, entre outros. Escreve o autor: «Os jardins botânicos são centros onde, com vantagem, se deveriam criar cursos de jardinagem e onde se podem e devem investigar os problemas relativos à horticultura e mesmo à arboricultura científicas.»
O referido contributo não se esgota nos aspetos técnicos dos domínios identificados. Inclui-se nele fatores de inovação e mais-valia para a vida quotidiana.
Aludiu-se, anteriormente, ao papel educacional que, atualmente, se exige a estas instituições. Não é uma função paralela e distinta de tudo o que já foi descrito. É intrínseca a tudo isso, quando, em qualquer das atividades desenvolvidas, para além das matérias ou tarefas puramente académicas, existe uma componente formadora de
valores de cidadania, designadamente: o homem como um ente do meio natural, que o deve conhecer e usufruir dele de forma regulada e sustentada; o homem com capacidade para intervir na preservação do meio natural, como garantia da sua própria continuidade, enquanto ser vivo.
Ao longo da sua existência, os jardins botânicos foram assumindo distintos papéis, consoante os próprios contextos históricos e finalidades que os mesmos foram ditando. Inicialmente foram vocacionados para o cultivo e estudo de plantas com propriedades medicinais. Durante os séculos XVIII e XIX predominou o objetivo pela demonstração botânica, destacando-se o grande interesse pelas coleções de valor sistemático, denominadas por «classe» ou «escola» (C. N. Tavares, 1967). Atualmente tornaram-se locais que assumem um papel relevante na conservação de plantas e na educação da população que os visita.
No Mundo, existem mais de 2700 Jardins Botânicos, os quais desempenham e proporcionam várias atividades relacionadas com a descoberta, a compreensão, a documentação e a conservação da diversidade de plantas.
Estes jardins podem tornar-se absolutamente vitais na sobrevivência do planeta, na medida e na forma como atuarem em prol da conservação das espécies e na formação das pessoas.