A Psicologia Social tem uma perspectiva sócio histórica, adotando a dialética e o materialismo histórico marxista. Não compreende o indivíduo em sua dimensão isolada, fragmentada do mundo e dos outros homens. Ao contrário, analisa o fenômeno e no psicológico, como ressalta Bock (2001), no âmbito da sociedade, investigando o movimento dialético entre o “mundo interno” e o “mundo externo” que constituem o psicológico humano. “O fenômeno psicológico deve ser entendido como construção no nível individual do mundo simbólico que é social” (idem, pp. 22-23).
As relações humanas são tanto processo quanto produto, pois o mundo psicológico é um conjunto de registros construídos pelo homem na sua relação com o mundo. “O homem se insere em um universo sociocultural e através das relações e experiências que aí mantém desenvolverá seu mundo psicológico, ou seja, seu mundo de registros” (Aguiar, 2001, p. 96). Por conseguinte, o sujeito é interpretado no contexto histórico que o cerca, pelas atividades que realiza, ambiente social em que mantém suas relações, bem como constroem, reconstroem e resistem às diferentes imposições de sentido em seu cotidiano.
Esses pilares de investigação da Psicologia Social reforçam a necessidade de abandono das metodologias estruturalistas e positivistas das escolas norte-americanas que influenciaram várias áreas do saber, incluindo a Psicologia, a Comunicação Social e as Ciências Sociais. Tais disciplinas e áreas reproduzem pensamentos de dominação neoliberais, sistematizando processos de comodismo frente às desigualdades sociais, naturalizando o homem, crendo e fazendo crer que a humanidade também pode ser separada por aqueles acima e aqueles abaixo do peso, na qual aquela deveria buscar, de todas as maneiras, controlar seu comportamento alimentar – tornando-se saudável e melhorando sua qualidade de vida.
Seguindo ainda as práticas discursivas, que também é um produto humano, portanto social, a Psicologia Social também considera a linguagem um importante aspecto a ser analisado na compreensão de como vive o homem na sociedade em que mantém suas relações e condições de vida. A linguagem é o principal mecanismo pelo qual a cultura produz e reproduz os significados sociais, já que é produzida socialmente, pela atribuição de significados às palavras. E, portanto, como ela pode ter várias interpretações, a linguagem muitas vezes se torna uma arma de dominação. É por meio dela que podemos inferir qual o posicionamento ideológico das pessoas, pois, a luta ideologia é uma “guerra de posições”, como ressalta Gramsci (apud HALL, 2003, p. 287).
Logo se vê que não cabe a possibilidade de tratar a ideologia como falsa consciência, ou simplesmente como expressão de uma ideia, mas como expressão de uma tomada de posição determinada. Não dá para aceitar que a desigualdade seja natural, por exemplo, como defenderia a ideologia em uma sociedade capitalista, afirmando que uns nasceram mais inteligentes que outros, ou mesmo mais espertos; tal ideologia dominante também
defenderia que o capital é fruto do trabalho, e apagaria o fato de que é fruto do trabalho dos outros. Até mesmo a ciência seria invocada para afirmar que há raças inferiores e raças superiores. A difusão dessas concepções trouxeram grandes prejuízos para a constituição do humano do homem (MIOTELLO, 2005, pp. 169-170).
Porém, para assumir uma posição, devem-se criar as estratégias e dividir os sujeitos nessa batalha, tendo os opositores e os aliados. Mas como a sociedade cria todo esse cenário? Que elementos ela utiliza para que os sujeitos assumam tais posições, elaborem as estratégias, suas armas, defesas? Quais as características e parâmetros os sujeitos terão como base para saberem o que eles são?
As relações e os grupos sociais são balizados por diferenças e desigualdades de toda a ordem, seja política, econômica, educacional. Para que isso seja aceito, a medicina, principalmente com seu modelo biomédico, abastece nossa sociedade de estudos e conceitos, de argumentos biológicos e fisiológicos que sustentam uma discriminação político-moral. Por exemplo: traços biológicos, como o tamanho do cérebro, foram utilizados para dividir homens e mulheres, brancos e negros, crianças e adultos, etc. Esses mecanismos são criados e estabelecidos para que ideologicamente separemos os grupos, indivíduos e corpos em normais e anormais. Isso, também, evidencia porque focamos os estudos biológicos em determinados aspectos e não em outros. Costa (2006) nos faz refletir sobre os interesses biológicos nos estudos dos genes:
O problema é saber por que nos interessamos em explicar geneticamente tais coisas e não tais outras. Por que, por exemplo, nunca fizemos pesquisas psiquiátricas para explicar o mecanismo genético da ganância, da competição, da corrupção, da exploração econômica etc.?
[...] Ou seja, não explicamos geneticamente o comportamento dos profissionais de Wall Street, no entanto existem toneladas de livros para explicar a preferência sexual das pessoas. Por quê? Porque o comportamento humano do profissional de Wall Street é normativo; é dado como modelo do que devemos admirar, apesar de, olhado de outro ângulo, também poder vir a ser diagnosticado como um comportamento compulsivo por ganhar dinheiro que nunca se poderá gastar! (p. 142)
Somos “bombardeados” todos os dias por pesquisas nas áreas da biologia e medicina dizendo o que faz bem comer; quais alimentos levam a determinadas doenças; qual neurônio é responsável pela alegria, ansiedade, tristeza; como utilizar a semente de uma fruta exótica das florestas tropicais do Peru para ativar o crescimento uniforme das unhas do pé.
Aliás, as estatísticas, médias e números nos cercam por todo o ciclo da vida. Parece que se uma pesquisa ou matéria jornalística sobre ciência não contiver um dado médio, não terá credibilidade. Todo mundo tem que dormir x horas diárias para produzir melhor e viver mais; ingerir x calorias por dia para não engordar; ter a pressão x para não desenvolver hipertensão; mastigar x vezes para ajudar na digestão; urinar x vezes para não desenvolver infecção nos rins; ter
a temperatura x para não apresentar algum quadro de enfermidade.
A partir desses números ideais, a nossa cultura vai estabelecendo as fronteiras e médias para o aceitável e o desviante, marcando o que deve ser corrigido. A obesidade é um bom exemplo desse paradigma cartesiano.
Até pouco tempo, digamos menos de um século, estar “acima do peso” não tinha ligação com doença. Na Idade Média, era até sinônimo de riqueza, beleza e de boa saúde. A partir da década de 1930, o hábito de saber a quantidade de massa corporal no ato de subir em uma balança, torna-se fundamental para indicar o que é belo e o que é saudável. “A obesidade, por muito tempo fora da patologia, se transforma em doença grave e declarada” (NOVAES, ROCHA, VILHENA, 2008, p.389).
Para Carvalho e Martins (2004), a obesidade enquanto patologia é concebida num paradigma determinista, obtendo duas definições: o primeiro ligado à normalidade cultural, pois o corpo gordo é desviante dos padrões estéticos quantitativos e qualitativos aceitos pela sociedade – um corpo magro e/ou musculoso -, portanto, carregando um sentido de algo fora da normalidade; o outro, na esfera de doença, na qual a obesidade influencia negativamente na qualidade de vida e impossibilita o corpo a realizar sua condição de normalidade biológica.
Esse determinismo, leva à criação e aceitação de “verdades” baseadas no positivismo biomédico, uma vez que há uma reprodução idealizada de um corpo perfeito que é utilizado universalmente como parâmetro de saúde e normalidade. Esse universal:
[…] passa a servir de parâmetro de julgamento da essência dos particulares, podendo passar assim a desqualificá-los em sua existência presente, que, no entanto, é a única realidade concreta (...) [e] o faz na forma de mistificação, crença, ideologia e poder em nome de uma “verdade” transcendente ao real imanente (Martins, 1999 apud Carvalho e Martins, 2004).
Além disso, é neste contexto em que as profissões da área da saúde em especial a medicina é solicitada para tratar a problemática e torna-se o único ator especializado em curar e “salvar” os corpos obesos. A partir disso, o ato de comer não é mais característico do inconsciente e, sim, um ato objetivo e que pode ser controlado pelo sujeito. Assim, a sociedade instrumentaliza-se no julgamento moral da pessoa “acima do peso”. Ela é vista como responsável por apresentar tais características físicas e desenvolver a patologia. Porém, quando atingimos o outro extremo, das pessoas que apresentam anorexia, há uma predisposição no sentimento de piedade e buscar um atendimento psicológico ou psiquiátrico. Isso demonstra que os primeiros são culpabilizados enquanto estes últimos são vítimas.
capítulo encontrados nos artigos de revisão sobre a obesidade, verificamos que são construídos na lógica positivista e determinista do projeto biomédico apresentado por Canguilhem. A construção da obesidade como doença recai como uma “luva” pois evidencia-se as seguintes características:
a) o diagnóstico mais comum é quantitativo, numérico e realizado com base na homeostasia – na média populacional. Com o auxílio da equação do IMC, determina-se o estado corporal de uma pessoa e ela é classificada em normal ou anormal a partir do padrão numérico em que está submetida;
b) ao realizar simples equação, o especialista faz o diagnóstico de obesidade excluindo a subjetividade do paciente, sua relação com seu corpo e seu sentido em relação ao mundo. Não importa como o sujeito se sente (como é o caso da professora impedida de trabalhar) pois os números valem mais do os sentimentos. Os números cimentam o diagnóstico e legitima a visão do especialista;
1.1.1.c) por mais que o discurso biomédico nos artigos de revisão pontuem que a obesidade é um problema complexo, fica mais do evidente que os estudos e a prática biomédica é segmentada, fragmentada e unívoca. As especialidades não se relacionam e as contradições entre o que é falado e o que é realizado estão separadas por um abismo epistemológico que é quase intransponível pelos saberes ideológicos;
d) os discursos biomédicos tentam construir a obesidade como uma doença contrapondo um sentido de risco e/ou problema de saúde. Nos graus de obesidade, somente o estado “obesidade mórbida” é considerada clinicamente uma doença, enquanto o estado “excesso de peso” e “obeso” são considerados fatores de risco para o desenvolvimento de doenças relacionadas. Porém, os discursos dos especialistas generalizam os comportamentos dos sujeitos e determinam seu sofrimento futuro, independente do seu estado de peso corporal. Há uma coletivização dos comportamentos e criação de estereótipos negativos dos sujeitos acima do grau “normal”. Nesse prisma, essas novas produções de sentido alteram a relação das pessoas com a corporeidade, criando novas formas de marginalização, exclusão e subjetividades.
CAPÍTULO III – DISCURSOS MIDIÁTICOS DE OBESIDADE: A ANÁLISE DA