III. Approche de définition de l’espace technologique et fonctionnel : Construction du CdC et définition des spécifications du système MTI au niveau systémique 0
1. Mise en équation du problème d’optimisation
Após apresentarmos o perfil dos entrevistados, faz-se também necessário elucidar como eles conheceram o projeto e suas respectivas visões da organização dele. Todos os entrevistados que compunham a equipe do LAMCE participaram do projeto em quase todo o período em que ele esteve na comunidade quilombola Mesquita e o conheceram por meio da disciplina de Linguagem Musical, ofertada pela professora Patrícia Pederiva ou por meio de cartazes dentro da própria Universidade. Já o parceiro do grupo Batucadeiros que foi entrevistado relata que conheceu o projeto por meio do convite da professora para compor o grupo no último ano do projeto.
Em relação aos líderes comunitários que acompanharam mais efetivamente o projeto, temos a professora Cristiane Pereira Costa, que ministra aulas do primeiro ciclo no quilombo, é uma das lideranças dentro da Igreja e integrante também do Som de Quilombo. Ela conheceu o projeto e se envolveu com ele por meio de sua filha e da diretora da escola, que já estava inserida nesse espaço. Outra liderança que teve uma participação muito significativa e que se envolveu apenas por ver o projeto atuar foi o Paulo César Ramos, conhecido como PC.
É importante ressaltarmos também a participação da Regiane Pereira de Assis, que é quilombola, estudou no Mesquita, formou-se, retornou para dar aula na escola da comunidade e se tornou diretora dessa escola de 2013 até 2014, quando foi transferida para a escola Aleixo Pereira Braga II, localizada no jardim ABC, onde também aconteciam atividades do projeto. Como diretora das duas escolas onde o projeto atuou, Regiane o apoiou e participou de todo o processo.
Por último, temos as crianças que foram entrevistadas. Elas conheceram o grupo por meio de uma das lideranças e de outros colegas também participantes.
4.3.1.1 Organização do projeto
Dentro das percepções sobre o projeto e da organização dele, que já foi relatada brevemente acima, iremos agora abordar e apresentar um pouco das visões e percepções dos integrantes entrevistados sobre a sua organização, tendo em vista que o projeto visava ao estudo, à pesquisa de questões relacionadas à música e às atividades culturais e educativas de modo interdisciplinar e transdisciplinar.
Dessa forma, a entrevistada Anny Leite de Jesus, que esteve presente nesses momentos de organização das atividades, relata-nos que
A professora ela dava uma autonomia pra gente, e a gente ajudava a planejar as aulas para os meninos a partir daquilo que eles traziam pra gente, a partir da perspectiva de vida deles, do histórico musical deles e cultural. A partir daí a gente tentava fazer com que as aulas fossem direcionadas a eles, centrando neles como sujeitos ativos desse processo (Anny Leite de Jesus, 20 anos).
A partir do relato da Anny, podemos perceber que o grupo baseava sua forma de organização na perspectiva de autonomia, tanto dos componentes do LAMCE como também dos participantes do projeto. Segundo Paulo Freire, em seu livro Pedagogia da
autonomia, podemos ter uma prática educativa fundada na autonomia a partir da ética,
do respeito à dignidade e também da própria autonomia do educando, sendo esta conquistada e construída por meio das vivências, experiências, tomadas de decisões e da própria liberdade dos sujeitos. Assim, “ninguém é autônomo primeiro para depois decidir. A autonomia vai se constituindo na experiência de várias, inúmeras decisões, que vão sendo tomadas” (FREIRE, 1996, p. 107). Dentro dessas decisões que foram tomadas ao longo do processo de constituição do grupo, Mario Jorge nos aponta uma delas quando nos diz:
A gente parou de planejar. A gente não tava levando as coisas prontas, a gente tinha determinadas atividades que poderiam ser usadas ou não, poderiam ser aplicadas ou não. Já chegou um ponto da gente falar, vamos dar espaço para as crianças no começo pra eles apresentarem, por exemplo, alguma coisa pra gente, e ficarmos quase uma aula inteira naquilo. E o que a gente mesmo levou, ficar ali de lado (Mario Jorge da Silva
O planejamento dentro de um projeto ou uma organização se faz necessário como norte das atividades propostas, pois “o planejamento configura-se como uma atividade necessária ao desenvolvimento de qualquer ação humana e, em particular, daquelas ligadas ao setor educacional” (SOUSA, 2010, p. 1). Contudo, existem várias formas de se planejar e, dentro de cada contexto, é importante observar a forma que mais se adéqua ao grupo. A meu ver, o grupo não deixou de planejar as atividades que seriam realizadas, mas passaram a adotar um novo tipo de planejamento, adaptando-se aos interesses das crianças e dos participantes. Com isso, perceberam que nem sempre é necessário seguir à risca o que foi planejado. Nessa perspectiva, temos o relato do Ricardo, um dos parceiros integrantes do Batucadeiros, que não participava das reuniões de formação e planejamento do projeto por conta de suas demandas, porém tinha acesso a ele, antes das atividades, procurando sempre adaptar-se ao que tinha sido acordado. Nesse relato, Ricardo nos diz:
A gente tentava se inserir dentro do planejamento que já estava elaborado, daquela proposta que como todo planejamento, e aí é uma coisa que pra minha experiência a gente já tinha descoberto, que não existe nenhum planejamento que você faça que vá seguir de A a Z, dentro da proposta que é o norte. Então, o que eu observei é que muitas vezes rolava isso. Então assim, pela pouca experiência, o grupo tinha aquela necessidade de seguir um planejamento ali que estava escrito de A a Z e quando chegava no primeiro minuto, como era uma proposta dialógica, as crianças naturalmente quebravam aquele fluxo e aí ficava e agora como a gente vai lidar com isso
(Roberto Ricardo Santos de Amorim, 41 anos).
Podemos inferir dessa fala que o grupo, com o passar do tempo, com uma nova percepção e experimentação das atividades, adquiriu um amadurecimento a respeito do planejamento e da forma organizacional, percebendo que existem várias formas de se alcançar os objetivos traçados. Tendo em vista que “o planejamento corresponde ao processo cujo propósito mais amplo é ajudar os envolvidos a pensar a respeito dos melhores meios para realizar determinada atividade, em função de objetivos pré- definidos” (SOUSA, 2010, p. 2).
Ricardo também nos traz um componente importante em sua fala quando se refere à relação dialógica com as crianças, com as quais tinham liberdade para mudar o
fluxo das atividades que seriam realizadas. Nessa perspectiva, Freire nos diz ser necessário que “o educando mantenha vivo em si o gosto da rebeldia que, aguçando sua curiosidade e estimulando sua capacidade de arriscar-se, de aventurar-se, de certa forma o imuniza contra o poder apassivador do bancarismo” (FREIRE, 1996, p. 25).
Diante disso, percebemos que as crianças, a partir da proposta dialógica do projeto, conseguiram romper com essa lógica de subordinação em que estão inseridas dentro das escolas, subvertendo as ideias que nós colocávamos e nos desafiando ao novo e inesperado. Essa rebeldia referida acima não é aquela da simples desobediência sem propósito, mas sim de uma desobediência que é ponto de partida para uma posição crítica e revolucionária. Nesse sentido, concordo com Freire (1996) quando diz: “prefiro a rebeldia que me confirma como gente e que jamais deixou de provar que o ser humano é maior do que os mecanicismos que o minimizam” (p. 115).
Pelas falas, é perceptível que a organização do grupo, mesmo com todas as dificuldades ocorridas, dificuldades estas normais dentro de um trabalho em equipe, em que os sujeitos se colocam dentro de uma postura horizontal, dialógica e de experimentação, conseguiu ter êxito em sua proposta. A fala de Mario nos transpassa um pouco desse êxito quando diz
Pra uma parada que chama Laboratório de Arte, Música, Cultura e Educação, a gente foi bem-sucedido em várias coisas. Pra ideia de laboratório acho que cumpriu a missão. É um laboratório, a gente tá experimentando? É isso mesmo? Vamos ter aqui nossos enfrentamentos, nossos debates? Então eu acho que cumpriu a missão
(Mario Jorge da Silva Jaymowich, 28 anos).
Dessa forma, o projeto, em sua constituição, durante o tempo em que existiu, propôs-se a se fazer e se refazer dentro do processo de ação e reflexão das atividades propostas e desenvolvidas.