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MISE EN EAU DU BASSIN

Valorizar as experiências, as invenções locais, as ações de transformação dos espaços públicos são exemplos dessa nova maneira da população lidar com as questões da cidade, buscando um jeito de ser e fazer, mais proativo, colaborativo e que atua em rede. Assim, ao mesmo tempo em que estamos intervindo na vida urbana, estamos aprendendo coletivamente que esse é um jeito de lidar com a educação na cidade, nos bairros, nas comunidades. Colocar cada um dos sujeitos entre outros, organizar e discutir assuntos locais, de interesse de todos, é uma maneira de proporcionar desenvolvimento local através da cultura.

A cultura, no sentido antropológico do termo, revela-se como uma teia de relações simbólicas pela qual os indivíduos dão sentido a suas ações, e é a própria ideia de significado que se transforma, quando a cultura é posta em causa, nas sociedades modernas. Jorge Werthein (2003, p. 13), a partir da Conferência Mundial sobre as Políticas Culturais, no México, em 1982, apresenta o conceito de cultura adotado como correspondendo a “características espirituais e materiais, intelectuais e emocionais que definem grupo social [...], modos de vida, os direitos fundamentais da pessoa, sistema de valores, tradições e crenças”. E esse conceito está intimamente ligado ao de desenvolvimento, como nos mostra Jorge Werthein (2003), que também se baseia no entendimento da conferência do México:

como um processo complexo, holístico e multidimensional, que vai além do crescimento econômico e integra todas as energias da comunidade [...] deve estar fundado no desejo de cada sociedade de expressar sua profunda identidade... ‘Energia criadora e desejo de expressar identidade’... não seria

esta uma bela definição para cultura? Ou para desenvolvimento? Ou para os dois? (WERTHEIN, 2003, p. 13-14, grifos do autor)

Assim, integrar as culturas populares locais no cotidiano das pessoas, dos moradores, aproximá-los dos espaços culturais, oferecendo novas dinâmicas de sociabilização, valorizando a troca de experiências, estimulando os trabalhos coletivos, o engajamento comunitário e a valorização das expressões identitárias do lugar é uma maneira que a cidade, o bairro, as comunidades têm de produzir o seu espaço, agindo em rede, principalmente a partir da cultura e das relações locais, sendo “energia criadora” ao mesmo tempo em que “expressam identidade”.

Pude perceber, durante a pesquisa de campo do mestrado sobre a Festa de Itapuã, que, nas reuniões de organização, era possível ver pessoas muito diferentes, como os nativos

itapuanzeiros, políticos vindos de fora do bairro, artistas, mestres, curiosos e moradores que

detinham um forte sentimento de pertencimento, pesquisadores, professores, representantes do poder público, pescadores, líderes culturais, dentre outros. Todos faziam parte daquele momento em que se deveria decidir os caminhos que a lavagem poderia escolher. Muitas disputas acontecem sempre nesses processos, mas a importância do bem coletivo deve estar acima delas.

“As pessoas resistem ao processo de individualização e atomização, tendendo a agrupar- se em organizações comunitárias que, ao longo do tempo, geram um sentimento de pertença e, em última análise, em muitos casos, uma identidade cultural, comunal” (CASTELLS, 1999, p. 79). Para que isso aconteça, o autor explica que é preciso uma maior mobilização social, sendo os indivíduos pautados em interesses comuns, de algum modo, compartilhados. Castells (1999, p. 79) vai apresentar três classificações das metas principais dos movimentos urbanos, sendo elas: “necessidades urbanas de condições de vida e consumo coletivo; afirmação da identidade cultural local; e conquista da autonomia política local e participação na qualidade de cidadãos”.

A sociedade em rede permite que as pessoas exponham suas subjetividades, mostrando suas formas de pensar e agir. Dessa maneira, o líder dá espaço para as lideranças; a verdade absoluta passa a ser relativa, pois necessita de um consenso; e as pessoas passam a participar ativamente dos processos cooperativos, opinando e resolvendo coletivamente as suas demandas socioculturais e econômicas.

A partir da discussão sobre a participação nas ações e movimentos culturais locais, Cláudia Seldin (2008, p. 40), em sua dissertação de mestrado, intitulada “Ações culturais e o espaço urbano: o caso do complexo da Maré no Rio de Janeiro”, elenca uma série de benefícios

e consequências que afetam os campos econômicos, social, cultural e educativo, de comunidades.

Em termos econômicos, a valorização da cultura local pode levar a uma valorização da produção, permitindo o desenvolvimento de atividades geradoras de renda, estejam elas focadas na produção ou no consumo de cultura. Em termos sociais, elas contribuem para o crescimento da autoestima individual e para o fortalecimento de uma identidade local, pois se empenham em registrar e/ou recuperar memórias e tradições específicas, que dizem respeito a todo um coletivo de pessoas. Uma vez estabelecida a importância do coletivo, estas comunidades passam a enxergar a possibilidade de se impor através do engajamento constante nos seus cotidianos, fazendo aflorar discussões sobre os sentidos da cidadania. (SELDIN, 2008, p. 40-41)

O antropólogo Magnani (2003, p. 21) conta que só aos poucos ele foi percebendo a importância dos acontecimentos corriqueiros e que mobilizavam uma “rede de relações” (grifo nosso). No âmbito das cidades, as redes socioculturais são um caminho para se atingir a cidadania. São caracterizadas por proporcionar ambientes de comunicação, discussão e participação das pessoas, em uma localidade, desenvolvendo a autonomia e a consciência crítica dos participantes. Nesses ambientes estão também as disputas, os “alter-egos”, os sistemas de poder, de controle e domínio, centrados nos conteúdos e trocas.

Em muitos casos, quando acontece de existir um sentimento de pertença envolvido, de respeito ao próximo e de flexibilização perante a decisão da maioria, a apropriação coletiva encarrega-se de dar os encaminhamentos ao grupo. Dessa maneira, o empoderamento local passa a ser constantemente exercitado, a partir daqueles que se articulam coletivamente, permitindo que as pessoas envolvidas se desenvolvam de forma humana, estando em contato uns com outros, e, criticamente, construindo conhecimento a partir da identificação dos sujeitos com os temas e ações, oferecendo possibilidades de troca e diálogo peculiares a cada lugar.

Um exemplo disso, no bairro de Itapuã, pôde ser percebido na Festa da Lavagem, que, no passado, era realizada totalmente pelos moradores, mas que depois passou a receber verbas externas, tanto do poder público como de políticos e empresários, e atualmente conta com a mobilização de recursos oriundos tanto da comunidade como do poder público. Em alguns anos, a Festa de Itapuã esteve voltada para o turismo, para a exploração midiática, com bandas e trios elétricos que nada tinham a ver com o bairro. Nesse momento, a comunidade, ao perceber o enfraquecimento de suas tradições, passaram a fazer um movimento de retomada e de reconstrução cultural da Festa, buscando as formas de fazer de outrora. Muitas disputas de poder aconteceram para que as transformações pudessem ocorrer, tanto nos momentos de perda das tradições, como também de busca e de reconstrução cultural. (MAIA, 2012)

A mudança na forma de organizar a Lavagem influenciou as relações sociais locais, que sofreram também com as disputas de poder geradas pelos ganhos econômicos, pois, inicialmente, a Festa era realizada de forma compartilhada e solidária, entre os membros da comunidade, e, com o andar do tempo, passou a receber um financiamento do Estado e de empresários, o que acabou gerando uma nova estruturação e a necessidade de amadurecimento da comunidade para lidar com esse pecúlio, que não era tão grande assim, mas que, apesar disso, causava desentendimentos e disputas.

Outro exemplo que posso citar diz respeito à articulação dos protagonistas das culturas populares do bairro de Itapuã em defesa da preservação de elementos da Praça do Alto da Bela Vista, localizada no topo da Ladeira do Abaeté, que serve como espaço de educação popular, lazer e cultura com o coreto e Rumo do Vento, lugar que o mestre da cultura popular, Seu Regi, zelava, sendo muito mais do que apenas uma praça, tomando uma importância cultural para o bairro devido aos inúmeros eventos que passaram a ser ali realizados. Em 2015, obras começaram a ser feitas na Praça do Alto da Bela Vista sem a consulta dos moradores e estes lutaram para manter as características da Praça.

Desse modo, o processo de educação popular que perpassou as negociações levadas a cabo por uma parcela organizada dos moradores de Itapuã, que nesse recorte, discute junto ao poder público sobre a requalificação da praça do Alto da Bela Vista. Para isso, as tensões entre o poder público e a comunidade, mostram discursos, argumentos e entrelinhas evidenciadas pelas relações de poder existentes no processo de requalificação da praça e como influenciam na educação popular que acontece na comunidade. Gil Novaes, artista e ativista cultural do bairro, em depoimento mostra como a educação popular acontece no local.

Eu nunca vi o Rumo do Vento simplesmente como bar ou espaço comercial. O Rumo do vento apesar de vender bebidas foi sempre evidenciado como espaço cultural e coletivo de grande importância não só para a localidade, mas para centenas de pessoas de várias localidades que frequentavam o local, mostrando, aprendendo e ou ensinando cultura popular e samba de raiz. Seu Regi nos ensina a lutar e resistir com a harmonia que o samba de raiz exige e proporciona. (GIL, junho de 2017)

Artistas e grupos renomados já se apresentaram nesse espaço, a exemplo: As Ganhadeiras de Itapuã, Margareth Menezes, Mariene de Castro, Guilherme Arantes, Grupo Botequim, Walmir Lima, Firmino de Itapuã, Orquestra de Pandeiros, Escola de Samba Unidos de Itapuã, entre outros. Festivais de música, gravação de filmes e documentários, feiras de artesanato, festivais infantis, eventos comemorativos da comunidade, festas tradicionais do

bairro, dentre outros têm lugar na Praça do Alto da Bela Vista, que era preservada e cuidada pelos próprios moradores.

Segundo Michel Foucault (2014, p. 138), o primeiro passo para se iniciar uma luta contra o poder, ou melhor, para se fazer uma inversão nos ditames do poder, é falar publicamente a respeito, “forçar a rede de informação institucional, nomear, dizer quem fez, o que fez, designar o alvo”. Quando sujeitos ou grupos tentam imprimir sua força, seu poder, ficam susceptíveis a enfrentar resistências que vão se utilizar de táticas para lutar contra determinadas posições/imposições. Em novembro de 2015, a comunidade de Itapuã toma conhecimento de que a iniciativa de pleitear uma reforma na Praça tinha sido de uma vereadora da cidade de Salvador. No entanto, esta o faz sem consultar os moradores locais a respeito do seu projeto de requalificação

Para Foucault (2014), a disciplinarização é considerada um instrumento de poder, pois molda e fabrica novas espacialidades para o funcionamento da sociedade na lógica hegemônica, em que uma série de estratégias são utilizadas para desarticular e criar falsas expectativas nos cidadãos. Certeau (1994, p. 99), faz uma distinção entre os termos “estratégia” e “tática”, o que nos permite elucidar melhor a questão.

A estratégia permite que um entendimento prévio sobre o espaço seja feito, ao apontar caminhos para que objetivos maiores sejam atingidos; enquanto a tática, para o autor, se aproveita da situação, das falhas da conjuntura dominante, observando as “ocasiões” para agir ou se recolher, à espera de outro momento propício a uma nova tática. Desse modo, “a tática é a arte do fraco” (CERTEAU,1994, p. 100), daquele que não pode medir forças contra algo muito mais poderoso, mas é possível se utilizar das táticas para ir abrindo caminhos diversos, em prol de um objetivo maior. Assim, “as táticas apontam para uma hábil utilização do tempo, das ocasiões que apresenta e também dos jogos que introduz nas fundações de um poder” (CERTEAU, 1994, p. 102).

A cultura articula conflitos e volta e meia legitima, desloca ou controla a razão do mais forte. Ela se desenvolve no elemento de tensões, e muitas vezes de violências, a quem fornece equilíbrios simbólicos, contratos de compatibilidade e compromissos mais ou menos temporários. As táticas do consumo, engenhosidades do fraco para tirar partido do forte, vão desembocar então em uma politização das práticas cotidianas (CERTEAU, 1994, p. 45) (grifo nosso).

Certeau (1994, p. 42) explica que as culturas populares se apresentam de diferentes formas, mas essencialmente em “artes de fazer”, ou seja, maneira de pensar traduzida em um

modo de agir que mistura combinações e utilizações diversas nos territórios. A massificação dos espaços públicos, ou seja, a transformação sem consentimento dos moradores que os utilizam, aliada à imposição de padrões para toda uma cidade, ambas acabam por influenciar e reduzir os espaços de articulação dos sujeitos, onde as regras podem ser debatidas, questionadas, (re)elaboradas.

Essa massificação acaba gerando um silenciamento desses sujeitos (SANTOS, 1989), abrindo uma lacuna para que o poder do mais forte possa se estabelecer, sem que os processos democráticos de discussão das políticas públicas de interesse dos cidadãos sejam evidenciados. Mesmo assim, essas relações de poder, como diria Foucault (2014), são produtivas, pois podem permitir tanto a formação dos envolvidos, como também um processo de educação popular no local. Milton Santos (2009, p. 58), no mesmo sentido, diz que:

gente junta cria cultura e, paralelamente, cria uma economia territorializada, uma cultura territorializada, um discurso territorializado, uma política territorializada. Essa cultura da vizinhança valoriza, ao mesmo tempo, a experiência da escassez e a experiência da convivência e da solidariedade. É desse modo que, gerada de dentro, essa cultura endógena impõe-se como um alimento da política dos pobres, que se dá independentemente e acima dos partidos e organizações. (SANTOS, 2009, p. 144, grifo nosso)

Assim, as mobilizações comunitárias são produto de resistências que proporcionam conscientização e humanização dos sujeitos envolvidos, a partir da discussão de questões públicas, de interesse coletivo. A cidade, o bairro e as mobilizações que lutam para manter sua cultura, suas especificidades, seus espaços socioculturais, proporcionam aprendizados que têm relação com a educação política, cultural, social e, até mesmo, econômica de como gerir e lidar com recursos financeiros destinados, por exemplo, às obras no lugar. Gil Novaes retrata isso em sua fala:

O Rumo do Vento era um espaço à parte, lá tudo se transformava em arte; até seu processo de desconstrução serviu de lição para moradoras, moradores e frequentadores da localidade. As reuniões com representantes do poder público suscitaram respostas seguras e imediatas, provocou discussões sobre o significado da praça e do Rumo do Vento, mobilizou a comunidade, agregou pessoas de outros espaços, viabilizou a criação de “grupos virtuais” com a intenção de expandir a luta e divulgar o processo de trabalho. (GIL, junho de 2017)

Dessa maneira a cidadania é exercitada, pondo os sujeitos em discussão para decidir o melhor para todos ou para a maioria. Assim, as resistências culturais são

potencializadoras de uma educação popular que produz ações, conhecimentos e saberes importantes para se viver em sociedade, comunidade e em grupo. A participação e o envolvimento nesses espaços socioculturais, ambos contribuem para que as pessoas possam ser sujeitos/atores de sua própria história, construída e reconstruída, a todo instante, a partir da participação com voz ativa nesses processos públicos e coletivos.

Nesse sentido, temos algumas possibilidades de caminhos a serem seguidos que podem estar ligados à lógica moderna de valorização do dinheiro ou a uma outra lógica presente nas culturas populares, que coloca o ser humano no centro da vida. Assim, é no âmbito das experiências vividas que a educação popular se desenvolve, quando, aos poucos, as pessoas começam a compreender e a criar as suas táticas e estratégias de manutenção e valorização da cultura, que vêm sendo buscadas no cotidiano compartilhado, nos entretempos que renovam o que é comum a todos, para dar continuidade às suas tradições e eventos. Mas o que são essas ações e movimentos culturais?

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