FranCês baseadas eM alGuMas
das MelHores traduções
da atualidade (1660)
Em 1660 é publicado em Paris um método de tradução realizado por um certo senhor de l’Estang, pseudônimo de Gaspard de Tende. A obra, que foi publicada simultaneamente por dois editores (Jean Le Mire et Damien Foucault) é, na verdade, um dos primeiros tratados de tradução em língua francesa. Quase desconhecido entre os especialistas, de Tende, didático, escreve uma obra ampla, séria, na qual Ballard salienta o caráter inovador, considerando-a como o “primeiro esforço notável para codificar a tradução a partir da observação de sua prática”1 O texto que segue é o prefácio da obra
editada em Paris: Foucault, 1660.
Quando estabeleci estas regras, eu não pensava que elas devessem um dia vir a público, porque as organizei apenas para minha satisfação pessoal. Mas tendo-as mostrado, mais tarde, a um amigo, que me declarou delas desejar se servir para aprender a traduzir e, tendo eu reconhecido que este amigo havia feito, em pouco tempo, um grande progresso neste domínio, acreditei que não seria talvez completamente inútil tornar comum uma coisa que eu havia feito apenas para meu uso pessoal. Confesso que hesitei, no início, em expor a vista de todos uma obra tão imperfeita sobre um assunto que mereceria
1 BALLARD, Michel. De Cicéron à Benjamin. Traducteurs, traductions,
accompli, sur un sujet qui méritait d’exercer la plume de nos plus célèbres écrivains. Aussi ne l’ai-je fait qu’à la persuasion d’une personne que j’honnore pour sa grande suffisance, et encore plus pour sa haute vertu. Car cette personne m’a assuré que cela pourra être utile, non seulement aux enfants et à ceux qui les instruisent, mais encore à tous ceux qui veulent apprendre le latin; puisque la traduction est sans doute un des moyens le plus court et plus facile pour apprendre les langues.
Ce qui me donna la première pensée de recueillir ces règles fut l’accord merveilleux et la convenance admirable qui se rencontre dans tous les bons traducteurs. Car j’ai remarqué que ceux qui ont bien traduit les mêmes mots et les mêmes phrases ont tous pris un même tour et se sont tous servis d’une même façon de traduire; tant il est vrai que tous ceux qui font bien quelque chose, le font par une lumière et une raison du bien, qui ne luit et ne se découvre bien souvent que dans les esprits les plus épurés; et que tous ceux, au contraire, qui font mal la chose, le font par un défaut de cette lumière et de cette raison du bien qui, n’éclairant pas leurs esprits, les laisse dans l’obscurité et dans les tenèbres. D’où il s’ensuit que tout ce qui est dans l’ordre et dans l’arrangement où il doit être n’y est que par cet ordre et cette raison du bien qui a son principe dans Dieu même; et que tout ce qui n’est pas dans cet ordre immuable et éternel est dans le désordre et dans la confusion. Mais puisque je parle de l’ordre il faut que je dise ici celui que j’ai moi-même observé.
J’ai divisé ce petit ouvrage en trois livres. Dans le premier, j’apporte toutes les différentes façons de traduire les noms et les pronoms. Dans le second je traite des mots, c’est-à-dire des choses qui peuvent servir à la traduction. Et dans le troisième je parle des liaisons qui peuvent entrer dans le discours.
On verra dans le premier comment il faut quelquefois rendre un nom latin par deux significations synonimes, comment
ser desenvolvido pela mão de nossos mais famosos escritores. Só o fiz persuadido por uma pessoa que respeito e estimo por sua grande segurança e, mais ainda, por sua virtude. Tendo ela me assegurado que fazê-lo poderia ser útil, não somente às crianças e àqueles que as educam, mas também a todos que desejam aprender latim, visto ser a tradução, sem dúvida, um dos meios mais rápidos e fáceis para aprender as línguas.
O que me fez primeiro pensar em recolher estas regras foi a conformidade maravilhosa e a harmonia admirável que se encontra em todos os bons tradutores. Pois notei que aqueles que bem traduziram as mesmas palavras e frases escolheram, todos, a mesma construção e se utilizaram de uma mesma maneira de traduzir; tanto é verdade que todos aqueles que fazem bem alguma coisa, fazem-no porque possuem uma certa clarividência e um certo conhecimento do bem, que, com frequência, brilha e se mostra apenas nos espíritos mais depurados; e aqueles, ao contrário, que fazem mal alguma coisa, fazem-no porque lhes falta esta mesma clarividência e conhecimento do bem que, não lhes iluminando o espírito, deixa-os na obscuridade e nas trevas. O que tem como consequência que tudo o que se mostra na ordem e na disposição que deve estar emana desta ordem e conhecimento do bem que tem seu princípio em Deus; e que tudo o que não se mostra nesta ordem imutável e eterna encontra-se em meio à desordem e à confusão. Mas visto que estou falando de ordem, é preciso que eu discorra aqui sobre aquela que eu mesmo observei.
Dividi esta pequena obra em três livros. No primeiro, trato de todas as diferentes maneiras de traduzir nomes e pronomes. No segundo, das palavras, quer dizer das coisas que podem servir à tradução. E no terceiro, trato dos termos de ligação que podem tomar parte no discurso.
Veremos, no primeiro, como algumas vezes é necessário restituir um nome latino por duas significações sinônimas,
on traduit les adjectifs par les susbstantifs, quel est l’usage des participes, quel est celui des adverbes, enfin comment on traduit les pronoms par les noms propres, dont ils tiennent la place, ou par les noms des choses qu’ils veulent marquer.
On pourra remarquer dans le second comment on embellit notre langue, en se servant bien à propos des antithèses, en découvrant les oppositions, en ajoutant à la traduction pour la rendre plus claire et plus intelligible; et enfin en employant les figures et les beautés dont on se sert en écrivant.
Pour le troisième, qui est celui des liaisons, il fera voir comment on peut continuer les mêmes périodes, lorsqu’elles sont trop courtes, et comment, au contraire, on peut les couper lorsqu’elles sont trop longues; de quelle manière on peut les commencer avec grâce, et, enfin, quel est l’usage de ces liaisons.
De plus, je puis dire que ce petit ouvrage fera connaître comment il faut également éviter deux sortes d’extrémités où tombent aisément la plupart de ceux qui traduisent. L’une est une certaine liberté qui, dégénerant en licence, porte le traducteur à s’écarter du dessein qu’il s’était proposé, de rendre fidèlement toutes les pensées de son auteur. L’autre est un assujettissement qui aproche de la servitude, et qui fait que le traducteur ne s’élevant jamais au-dessus de lui-même, s’attache trop aux termes et aux paroles qu’il traduit. D’où il paraît qu’une contrainte trop basse ruine toute la grâce et toute la beauté des paroles; et qu’une liberté trop hardie en altère tout le sens. Mais il est temps de donner ici quelques règles plus particulières de la traduction. Car il y a sans doute dans cet art, aussi bien que dans tous les autres, des règles certaines et assurées pour former un excellent ouvrier.
La première règle, selon Monsieur de Vaugelas, est de bien entendre les deux langues, mais surtout la langue latine; de bien entrer dans la pensée de l’auteur qu’on traduit, et de ne pas s’assujettir trop bassement aux paroles; parce qu’il suffit
como traduzir adjetivos por substantivos, qual a utilização dos particípios e dos advérbios, como traduzir, enfim, os pronomes pelos nomes próprios que substituem ou pelos nomes das coisas às quais eles se referem.
Poderemos observar, no segundo, como embelezar nossa língua, utilizando convenientemente as antíteses, descobrindo as oposições, acrescentando-as à tradução a fim de torná-la mais clara e mais inteligível, e, enfim, empregando as figuras e belezas das quais nos servimos quando escrevemos.
O terceiro, aquele que trata dos termos de ligação, mostrará como alongar os períodos que são muito curtos e, ao contrário, como se pode cortá-los, quando muito longos; como podemos iniciá-los com graça e, enfim, como são utilizados esses termos de ligação.
Além disso, posso dizer que esta pequena obra mostrará, igualmente, como se deve evitar dois tipos de exagero aos quais facilmente se rende a maioria daqueles que traduzem. O primeiro é uma certa liberdade que, degenerando em licenciosidade, leva o tradutor a se afastar do objetivo que se tinha traçado, qual seja restituir fielmente todos os pensamentos de seu autor. O outro é uma sujeição que beira a subserviência, fazendo com que o tradutor jamais ultrapasse seus próprios limites e se prenda por demais aos termos e às palavras que traduz. O que permite supor que uma restrição muito forte arruína toda a graça e beleza das palavras e que uma liberdade ousada demais altera completamente seu sentido. Mas é tempo de tratar aqui de algumas regras mais particulares da tradução. Pois há, sem dúvida, nesta arte, tanto quanto em todas as outras, regras certas e seguras para formar um excelente artesão.
A primeira regra, segundo o senhor de Vaugelas, é bem compreender as duas línguas, mas sobretudo a língua latina, é captar com precisão o pensamento do autor que se traduz e não se prender exageradamente às palavras, pois é suficiente que
de rendre le sens avec un soin très exact et une fidélité toute entière, sans laisser aucune des beautés ni des figures qui sont dans le latin.
La seconde, selon l’auteur de la traduction du poème de S. Prosper, est de ne garder pas seulement une fidélité et une exactitude toute entière à rendre les sentiments de l’auteur, mais de tâcher encore à marquer ses propres paroles, lorsqu’elles sont importantes et nécessaires.
La troisième, selon Monsieur de Vaugelas, est de conserver l’esprit et le génie de l’auteur qu’on traduit, en considérant si le style en est ou simple ou pompeux; si c’est un style de harangue ou un style de narration. Car comme il ne serait pas à propos de traduire en un genre sublime et élevé un livre dont le discours serait bas et simple, comme celui de la Sainte Écriture ou de l’Imitation de Jésus Christ, à cause que la simplicité est elle-même une beauté dans certaines matières de dévotion, de même, il ne serait pas convenable de traduire en un style précis et coupé les harangues qui doivent être étendues, ni en un style étendu les narrations qui doivent être courtes et précises. En effet, qui voudrait mettre en un style pompeux le style simple de l’Écriture Sainte ferait une copie bien différente de ce saint original. Car ainsi qu’un excellent peintre doit donner à une copie tous les traits et toute la ressemblance de l’original qu’il s’est proposé de copier, de même un excellent traducteur doit faire remarquer dans la traduction l’esprit et le génie de l’auteur qu’il a traduit. Et comme une copie, pour être bien faite, ne doit point paraître une copie, mais un véritable original, de même une traduction, pour être excellente, ne doit point paraître une traduction, mais un ouvrage naturel et une production toute pure de notre esprit.
La quatrième, selon l’auteur de la dissertation, est de faire parler et agir un chacun selon les moeurs et son naturel; et d’exprimer le sens et les paroles de l’auteur en des termes qui soient en usage et convenables à la nature des choses
se restitua o sentido com exato cuidado e completa fidelidade, sem renunciar a nenhuma das belezas e figuras que existem no latim.
A segunda, conforme o autor da tradução do poema de S. Prosper, é não somente manter completas fidelidade e exatidão ao restituir os sentimentos do autor, mas tratar, ainda, de manifestar suas próprias palavras, quando elas são importantes e necessárias.
A terceira, segundo o senhor de Vaugelas, é conservar o espírito e o caráter do autor que se traduz, considerando se o estilo é simples ou pomposo, se é um estilo de arenga ou narração. Pois, como não seria apropriado traduzir em um gênero sublime e elevado um livro cuja linguagem fosse pouco elevada e simples, como aquela das Santas Escrituras ou da Imitação de Jesus Cristo, visto que a simplicidade é, por si mesma, um tipo de beleza em alguns temas de devoção, não seria também conveniente traduzir em um estilo preciso e breve as arengas que devem ser longas, nem em um estilo prolixo as narrações que devem ser curtas e precisas. Com efeito, quem quisesse render de maneira pomposa o estilo simples da Santa Escritura acabaria por fazer uma reprodução bem diferente desse santo original. Pois assim como um excelente pintor deve transmitir a uma cópia todos os traços e aparência do original que se propôs copiar, um excelente tradutor deve, da mesma maneira, fazer notar na tradução o espírito e o caráter do autor que traduziu. E como uma cópia, para ser bem feita, não deve parecer uma cópia, mas um verdadeiro original, da mesma maneira uma tradução, para ser excelente, não deve parecer uma tradução, mas uma obra natural e uma produção totalmente pura de nosso espírito.
A quarta, segundo o autor da dissertação, é fazer com que cada um fale e atue segundo os costumes e sua natureza e também exprimir o sentido e as palavras do autor em termos que estejam em uso e sejam convenientes à natureza das coisas que
qu’on traduit. Par exemple, ayant à traduire ces paroles de l’écriture, ex adipe frumenti, il ne faudrait pas les traduire par la graisse de froment, encore que le mot de graisse soit la signification naturelle du mot latin adipe; parce qu’outre que le mot de graisse n’est pas un terme qui convienne à la nature du froment, l’usage veut encore qu’on dise: la fleur de froment ou le pur froment. Tout de même, il ne faudrait pas faire parler en homme civil et poli un barbare ni un villageois, parce que cela ne convient point aux moeurs et au naturel de l’un ni de l’autre. D’où il s’ensuit que, pour bien traduire, il faut non seulement faire parler un chacun selon ses moeurs et ses inclinations, mais il faut encore que les expressions soient en des termes simples et naturels, que l’usage ait déjà reçus; sans se servir néanmoins de ces façons de parler qui, pour ainsi dire, ne font encore que de naître, parce qu’il y a des façons de parler qui ne sont pas toujours bonnes à écrire et qui peuvent le devenir par le temps.
La cinquième, selon l’auteur de la traduction du poème de S. Prosper, est de s’efforcer de rendre beauté pour beauté et figure pour figure; lorsqu’il arrive que les mêmes grâces ne se rencontrent pas dans les deux langues, comme il arrive bien souvent, et qu’on ne saurait exprimer les mêmes figures, et les mêmes beautés.
La sixième, selon l’auteur d’une traduction de quelques lettres de Ciceron, est de ne pas user de longs tours, si ce n’est seulement pour rendre le sens plus intelligible et la traduction plus élégante. Car il y en a, dit cet auteur, qui ne pouvant rendre les choses en peu de mots et en termes propres et significatifs, se servent d’un grand tour de paroles superflues et prennent des licences qui ne seraient pas permises aux plus petits écoliers. Ainsi en allongeant, comme ils font, les paroles qu’ils traduisent, ils énervent bien souvent toute la force des termes latins et altèrent même, quelquefois, le sens et les
se traduz. Por exemplo, devendo traduzir as seguintes palavras da escritura, ex adipe frumenti, não se deve traduzi-las por la graisse de froment [“a gordura do trigo”], ainda que a palavra graisse [“gordura”] seja a significação natural da palavra latina adipe; porque além de que a palavra graisse não é um termo que convenha à natureza do trigo, o uso determina que se diga: la fleur du froment [a flor do trigo] ou le pur froment [o puro trigo]. Da mesma maneira, não se deveria fazer falar como um homem civilizado e polido um bárbaro ou um camponês, porque tal não convém aos costumes e à natureza nem de um nem de outro. Do que se conclui que, para bem traduzir, deve-se não somente fazer falar cada um segundo seus costumes e suas inclinações, mas é preciso ainda que as expressões se formem com termos simples e naturais, que o uso já consagrou, sem se servir, no entanto, dessas maneiras de falar que, por assim dizer, acabam de nascer, pois há maneiras de falar que não são adequadas à escrita e que podem vir a sê-lo com o tempo.
A quinta, conforme o autor da tradução do poema de S. Prosper, é esforçar-se para restituir beleza por beleza e figura por figura, quando não se encontram, nas duas línguas, as mesmas graças, o que ocorre com bastante frequência, e que não se consiga exprimir as mesmas figuras e as mesmas belezas.
A sexta, segundo o autor de uma tradução de algumas cartas de Cícero, é não usar longas construções, a não ser apenas para tornar o sentido mais inteligível e a tradução mais elegante. Pois, existem aqueles, diz esse autor, que não conseguindo restituir as coisas em poucas palavras e em termos próprios e significativos, servem-se de uma grande quantidade de palavras supérfluas e tomam liberdades que não seriam permitidas nem mesmo aos mais jovens escolares. Assim, alongando, como eles fazem, as palavras que traduzem, enervam toda a força dos termos latinos, chegando mesmo a alterar, algumas vezes, o sentido e as palavras do autor. É por
paroles de l’auteur. C’est pour cette raison que les expressions les plus courtes et les plus naturelles sont les plus belles et les meilleures; étant à désirer qu’on puisse rendre vers pour vers, et que la traduction soit aussi courte que l’original qu’on traduit.
La septième, selon Monsieur de Vaugelas, est de tendre toujours à une plus grande netteté dans le discours. Et c’est pour cette raison sans doute que les plus excellents traducteurs ont reconnu la nécessité qu’il y avait de couper ou de partager les périodes; parce que le discours qui est si lié et si étendu est beaucoup moins intelligible que celui qui est plus court et plus précis. C’est pourquoi il faut couper les périodes latines, lorsqu’elles sont trop longues, à cause que notre langue, étant encore plus étendue, tiendrait trop en suspens l’esprit qui attend toujours avec impatience la fin de ce qu’on lui veut dire.
La huitième, est de joindre ensemble les périodes qui sont trop courtes, lorsqu’on traduit un auteur dont le style est précis et coupé. De force que, comme il faut quelquefois couper les périodes trop longues, il faut de même joindre bien souvent celles qui sont trop courtes, en tenant dans ces deux rencontres un juste tempérament et une médiocrité raisonnable, et le faisant avec beaucoup de discretion.
La neuvième et la dernière règle est de ne rechercher