Raquel Maria Carvalho Naveira nasceu em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Por isso, encontramos em seus versos inúmeras marcas da cultura daquele lugar, como uma espécie de compromisso da autora com a terra natal. Exemplo disso é Portão de Ferro, no qual a autora mergulha fundo nas lembranças da infância; o próprio nome do livro faz referência a um lugarejo de Campo Grande.
A autora nasceu em 23 de setembro de 1957; aos dois anos foi morar em São Paulo onde viveu até aos doze. Estudou no Colégio Liceu Pasteur, onde entoava o Hino Nacional e a Marselhesa, lembrança para sempre resguardada. Já de volta à cidade natal, ensinou na Aliança Francesa de Campo Grande, fato que mostra certa autonomia de Raquel que, aos poucos, ganhava espaço na terra de origem, traçando já o início da carreira profissional.
Mesmo tendo projetado, de início, o caminho do magistério, Raquel Naveira formou-se primeiro em Direito. Em 1978, um ano antes da formatura, casou com Adhemar
Hermógenes Portocarrero Naveira, colega de curso, com quem teve três filhos: Augusto (1980), Otávio (1982) e Letícia (1988).
No entanto, não demorou a voltar à estrada já iniciada. Concluiu o curso de Letras em 1986, nas Faculdades Unidas Católicas de Mato Grosso. É Mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie/SP e Doutora em Língua e Literatura Francesas pela Universidade de Nancy, França.
A experiência de Raquel Naveira na docência, conforme vimos, começou bem cedo. Teve a oportunidade de lecionar em vários níveis, desde o ensino fundamental ao superior. Foi professora de Língua Portuguesa no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora (Campo Grande/ MS) entre 1975 e 1988. Ensinou Literatura Latina, Literatura Brasileira, Teoria da Literatura e Língua Portuguesa na Universidade Católica Dom Bosco. Em 1996 dedicou-se ao ensino de Literatura Portuguesa na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Entre 2006 e 2008 lecionou na Universidade Santa Úrsula, Rio de Janeiro. Nessa Universidade teve a oportunidade de ser representante do Instituto de Educação e Letras no Conselho de Ensino e Pesquisa.
No dia 10 de abril de 2007, Naveira foi registrada como Docente no Portal SINAES (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior). A partir de então, sua atuação aconteceu na cidade de São Paulo, onde trabalhou como professora do curso de Pós- Graduação em “Práticas e Vertentes do Ensino Aprendizagem da Língua Portuguesa e suas Literaturas”, na UNINOVE (Universidade Nove de Julho), de 2008 a 2009. Nessa universidade participou do Grupo de Pesquisas ‘Linguística e Literatura: Teorias e Práticas discursivas”, inscrito no CNPq. Na mesma época ministrou aulas na Faculdade Anchieta, em São Bernardo do Campo/ SP, integrando o Departamento de Letras. Depois atuou como professora de Pós- Graduação na Universidade Anhembi Morumbi, no curso de Educação Infantil, ministrando a disciplina Literatura Infantil.
Ao fazermos um retrospecto da vida profissional de Raquel Naveira, observamos o quanto a experiência como docente influenciou e ainda influencia sua escrita. Referimo-nos não só às temáticas trabalhadas, muitas vezes resgatando personagens literários, autores diversos e poetas, mas também ao próprio estilo didático adotado no processo de escrita, fazendo com que o leitor perceba as relações existentes com outros textos, com outros momentos, bem como a essência de cada assunto, a partir das referências utilizadas. A linguagem simples, nem por isso menos profunda, comprova o acima exposto:
CASCA DE BANANA Quando menina
Caí numa casca de banana, Riram muito
Me acudiram Levantei,
Coberta de vergonha. Desde então
Acompanha-me o mau presságio: Caminho alerta,
Olhos baixos,
Temendo o escorregão. Atenta ao destino Que dá
Mas que também afana, Permaneço austera, Sei que nos espera, A cada esquina, Uma casca de banana.
(NAVEIRA, 2006, p. 65)
A leveza com que traça o cotidiano torna a sua poesia acessível aos diversos públicos, além de resgatar imagens simples e apresentar reflexões baseadas em conhecimentos partilhados. Tudo isso vem contribuindo para a popularização do trabalho da autora. Contudo, esse não é o único aspecto que colabora para a disseminação da produção naveiriana pelo país. Sua constante atuação na mídia e em grupos jornalísticos e/ou literários comprova a construção de uma carreira sólida, na qual a poesia ganha destaque e, muitas vezes, serve como apoio à luta social. De fato, boa parte de seus textos podem ser delineados nos parâmetros do que conhecemos como poesia insubmissa, como veremos no capítulo final desta tese.
Raquel sempre colaborou na imprensa de Campo Grande com ensaios e poemas. Foi apresentadora do quadro “Literatura”, no programa “Mulher”, dirigido por Maria Machado, no SBT7, de 1982 a 1987. Deste ano até 1990 foi Diretora Cultural do Rádio Clube, onde
articulou palestras, peças teatrais e vernissages. De fevereiro de 1999 a 2005 atuou como produtora e apresentadora do programa literário semanal “Prosa e Verso”, da TV UCDB, canal 14.
7 O Sistema Brasileiro de Televisão é uma rede de televisão comercial aberta brasileira. Ela foi fundada em 1981 pelo empresário e apresentador Silvio Santos.
A poeta também exerceu um trabalho mais técnico ao ocupar o cargo de revisora de textos no Tribunal da Justiça do Mato Grosso do Sul de 1980 a 1982. Com a mesma atribuição esteve na função de consultora da Editora da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, sendo colaboradora do jornal “Correio do Estado” e da revista “Arca”, ambos da cidade natal, em 1978. Foi revisora da Editora Universidade Católica Dom Bosco (UCDB) de 1996 a 2004. É colaboradora do jornal “Linguagem Viva” (São Paulo/ SP) e da revista “Arte e Cultura de Santos” (Santos/SP).
Raquel Naveira é membro de algumas academias de letras, dentre as quais a Sul- Mato-Grossense (desde 1989), a Academia Cristã de Letras de São Paulo (desde 2013), a Academia Bauruense de Letras (SP), e de sociedades de escritores brasileiros como a União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro (RJ). É sócia correspondente da Academia Mineira de Letras e Membro titular do PEN Clube do Brasil (Rio de Janeiro), eleita a 14 de janeiro de 2000. Também é diretora da União Brasileira de Escritores (UBE/ SP) empossada em abril de 2010.
A qualidade dos textos naveirianos resultou em diversos prêmios ao longo da carreira da escritora. Obteve primeiro lugar no Concurso Literário DACLOBE (Faculdade de Direito) em 1978. Desde então, o reconhecimento de sua obra ganha ímpeto, sobrevindo menções, diplomas, indicações de prêmios, vitórias em concursos e homenagens. Em 1982 recebeu menção honrosa no Concurso de Poesia Augusto dos Anjos, da Livraria José Olympio, na cidade do Rio de Janeiro. Nove anos depois foi agraciada com um diploma de Mérito Cultural do Rotary Clube de Campo Grande (MS). Nesse mesmo ano e na mesma cidade, a Secretaria Municipal de Cultura e do Esporte lhe conferiu o Prêmio Jacaré de Prata, nomeando- a como melhor poeta.
Em 1994 recebeu o Prêmio Escriba de Poesia, em Piracicaba/SP. No ano seguinte obteve 1º lugar no Concurso Nacional de Poesia e Prosa Zumbi, em Salvador. Ainda em 1995 recebeu o diploma de Mérito Cultural pela obra literária, concedido pela União Brasileira de Escritores, no Rio de Janeiro. Em 1996 o livro de poemas Abadia foi indicado ao prêmio JABUTI, da Câmara Brasileira do Livro.
Esta obra lhe rendeu ainda uma menção honrosa no prêmio Cecília Meireles, concedido pela União Brasileira de Escritores, no Rio de Janeiro, em 1997. Este ano foi afortunado, já que lhe propiciou a menção honrosa no prêmio Apollo Taborda França, pelo livro
Caraguatá, em Curitiba (PR). E o 2º lugar no 8º Concurso de Obras Publicadas, da Academia de Letras e Ciências de São Lourenço (MG), com o livro Pele de Jambo.
na categoria juvenil, concedido pela União Brasileira de Escritores, seção Rio de Janeiro, em 1998. Também recebeu menção honrosa nesse prêmio, na categoria poesia com o livro
Caraguatá. Em 1999, o livro Casa de Tecla foi indicado para o prêmio JABUTI, na Câmara Brasileira do Livro.
Não demorou para que Raquel Naveira fosse novamente reconhecida por seu trabalho. O livro Senhora, em 2000, recebeu dois importantes prêmios: o Henriqueta Lisboa de Poesia, da Academia Mineira de Letras e o Jorge de Lima- Brasil 500 Anos, concedido pela Academia Carioca de Letras e a União Brasileira de Escritores, seção do Rio de Janeiro.
Em 2002, com Maria Egipcíaca, alcançou o segundo lugar no prêmio Oscar Mendes, categoria ensaio, promovido pela Academia Mineira de Letras.
A autora sul-mato-grossense recebeu um troféu da Fundação de Cultura Esporte e Lazer (FUNCESP), em conjunto com a União Brasileira de Escritores, seção do Mato Grosso do Sul, em 2003. A homenagem aconteceu na XVI Noite Nacional de Poesia, no teatro da UNAES - Faculdade de Campo Grande (MS). Dois anos depois, a poeta foi reconhecida pela relevância de sua obra, em especial para as Letras do Mato Grosso do Sul e os países do Mercosul. Por isso, foi contemplada com o Prêmio Literário FERMERCO na 2ª Feira do Livro do Mercosul.
Em 2011, a publicação contemplada foi Caminhos de Bicicleta, que recebeu o prêmio Lygia Malaguti, concedido pela União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro (UBE/RJ).
De acordo com Layssa Gabriela Almeida e Silva (2009, p.8), a obra naveiriana vem sendo divulgada na mídia de modo acentuado. Layssa exemplifica tal fato citando as reportagens publicadas na Revista Caras (nº 41 e nº 281) e na Revista Taíra, da Universidade de Stendhal (Gronoble – França). Na primeira, podemos ler uma biografia de Raquel Naveira e alguns de seus poemas. E graças à segunda, o nome da escritora ganha alcance internacional com a publicação do poema “Lavoura”, do livro Nunca-te-vi:
LAVOURA Senhor,
Dá-me paciência de lavrador, Que ora eu empunhe o machado, Ora a foice,
Ora o arado
Até ter o peito calejado, O sangue misturado à terra.
Senhor,
Dá-me paciência de lavrador, Que a ânsia se dilua
Nas noites de lua
Em que eu continuar no cabo da enxada, Os olhos fixos numa estrela,
Os ombros orvalhados de esperança machucada. Senhor,
Dá-me paciência de lavrador, Que ao depositar a semente Na mente onde tudo é gerado, Eu tenha confiança
De que virá a colheita, Bagos de trigo dourado. Senhor,
Dá-me paciência de lavrador, A mim pobre semeador De sêmen, de dor, de poesia.
(NAVEIRA, 1991, 56-57) Figura 1 – Alguns livros de Raquel Naveira
Até o momento, Raquel Naveira publicou trinta e dois livros entre prosa e poesia (ANEXO 1). É em torno dessas publicações que nos deteremos no próximo tópico, buscando elencar as principais temáticas trabalhadas pela autora.