O sebastianismo congrega uma série de elementos que antecedem ao próprio rei D. Sebastião e que, somados ou mesmo isolados, concorrem para difusão, permanência e ampliação do mito por terras não só lusitanas, porém também, nesse caso, brasileiras. Há no sebastianismo um sentindo de permanência pouco testemunhado e dos mais admiráveis nas culturas lusófonas.
A Idade Média, que já prenunciava um nome para libertar o povo e dar-lhe um destino renovador, com efeito foi para a Península Ibérica um período de grande expectativa messiânica. Em função de um contexto de fome, guerras, pobreza extremada, analfabetismo e grande apego e submissão aos ditames da Igreja Católica, Portugal e Espanha alimentavam em suas populações desejos de mudança, de renovação e esperanças por dias melhores. Na verdade, não só para Portugal e Espanha, porém para toda a Europa o período medieval foi considerado messiânico, como destaca Queiroz (2003, p. 99) ao afirmar que
A Idade Média tem sido apontada pelos autores como época que se caracteriza por intensa espera messiânica. Acreditava-se piamente então que o mundo não duraria grande coisa, que o Juízo Final estava iminente, instalando-se em seguida um Reino divino, que seria a própria reedição do paraíso terrestre.[...]
É inútil dizer que, não se tendo verificado o tão esperado acontecimento, justificativas foram encontradas e novos cálculos foram sendo feitos. Os movimentos, porém, não se limitam à época medieval, são encontrados pela Renascença adentro, mas ligados de maneira uniforme às mesmas situações sócio-econômicas e estruturais. [...]
Alguns movimentos têm lugar quando determinados grupos territoriais perdem sua autonomia, passando a ser comandados por outros povos; outros movimentos têm lugar nas camadas inferiores da sociedade e buscam alçar-se à camada superior.
Com efeito, o que informa Queiroz é bastante pertinente ao caso lusitano: há que se considerar o intenso contexto messiânico em geral, mas, particularmente, enfatizado pelo fato de que, após a morte do rei D. Sebastião, Portugal passaria sessenta anos sob o domínio da Espanha, reforçando, com isso, o sentimento de libertação e, ao mesmo tempo, o desejo de que um libertador restaurasse a glória da coroa lusitana, isso no âmbito popular. Já no que diz respeito às elites portuguesas da época, há igualmente um forte desejo de que Portugal reassuma seu posto pioneiro de desbravador dos mares, explorador de novas terras e conquistador de colônias para além-mar.
Nesse cenário de vaticinação, um nome surge com bastante força: Gonçalo Anes, chamado pelo epíteto de Bandarra, da cidade de Trancoso, que, entre 1530 e 1540, publica suas conhecidas Trovas, cujo conteúdo anuncia um rei “encoberto” para Portugal: “Há no sebastianismo dois factos a considerar: a esperança na vinda de um rei predestinado, e os anelos do que ele havia de realizar. Estes existiam já antes de aparecer o predestinado, e foi seu primeiro intérprete Gonçalo Anes, o Bandarra, sapateiro de Trancoso, na Trovas que são o evangelho do sebastianismo.” (AZEVEDO, 1947, p. 8)
No entanto, alerta Hermann (1998) para o fato de que há dúvidas sobre a verdadeira autoria dessas Trovas, e que, por isso, é necessário considerar alguns elementos: as dificuldades de comprovação de autoria desses textos, o papel desses escritos para a comunidade em que nasceram, o sentido e a intencionalidade de seu escritor e a forma e o conteúdo do texto que chegou até os dias de hoje. Por outro lado, a importância desse profeta é tanta para a literatura portuguesa que Azevedo (1947, p. 9) afirma categoricamente: “Nas Trovas pela primeira vez se materializa o estado de alma, tão peculiar, que por tanto tempo distingue a raça portuguesa; e ao autor delas coube o dar-lhes expressão, com o que, por apagados que sejam seus méritos, tal foi a sua acção que de nenhum modo o podemos excluir da história da literatura nacional”.
Os trechos abaixo são fragmentos dos versos proféticos que servirão de inspiração para tantos ao longo dos séculos.
LXX
Portugal tem a bandeira Com cinco Quinas no meio, E segundo vejo, e creio, Este é a cabeceira, E porá sua cimeira,
Que em Calvário lhe foi dada, E será Rei de manada
Que vem de longa carreira. LXXI
Este Rei tem tal nobreza, Qual eu nunca vi em Rei: Este guarda bem a lei Da justiça, e da grandeza. Senhoreia Sua Alteza Todos os portos, e viagens, Porque é Rei das passagens Do Mar, e sua riqueza. LXXV
Já o Leão é experto Mui alerto.
Já acordou, anda caminho. Tirará cedo do ninho O porco, é mui certo. Fugirá para o deserto. Do Leão, o seu bramido Demonstra que vai ferido Desse bom Rei Encoberto.
(BANDARRA apud QUADROS, 1982, p. 26 -28)
Note-se que todas as referências dizem respeito a prenúncios da figura mítica de um rei: na primeira estrofe, há as “Quinas”, cujo símbolo reporta ao Quinto Império que será inaugurado pelo rei português há muito esperado, além disso Portugal aí figura como cabeceira, isto é, tem posição de destaque nesse novo cenário; o rei tirará o país de um “calvário”, ou seja, de uma crise, uma situação tenebrosa; esse governante dominará todo o mundo, comandará toda a humanidade, que vem de “longa carreira”. A segunda estrofe apresenta um rei cujo destino é ser nobre, tal qual nunca se viu outro igual, guardando as leis e promovendo a justiça; será ele também um rei que ampliará seu domínio e consolidará seu império por meio do mar, tal qual se acredita ser uma vocação lusitana. Por fim, a última estrofe apresenta um dos títulos mais populares do rei D. Sebastião, que seria o “Encoberto”, quer dizer, um rei cuja glória precisaria ser restaurada, redescoberta por um líder messiânico, esperado e desejado pelo seu povo.
Muitas são as trovas escritas por Bandarra e são passíveis de inúmeras identificações com personagens da história de Portugal, como é o caso de uma feita por António Vieira em cujas trovas ele reconhece D. João IV como o Encoberto. Além disso, cabe apontar que muitos outros poetas irão cantar essa tradição. “Para além do seu caráter messiânico e mítico-profético, as Trovas exprimem uma vaga popular de fundo, um patriotismo de expansão, um sonho imperial”. (QUADROS, 1982, p. 35). Braga (2001) afirma que a intelectualidade portuguesa no século XVI estimulava a empresa marítima do país, que teve início em 1415 e, aos poucos, ia ganhando contornos mais modernos e audaciosos. A missão portuguesa seria de ordem divina: missionários, soldados e marujos levariam a palavra do cristianismo às nações recém-descobertas, já que a missão lusitana seria a de cristianizar toda a Terra. Isso constituía a essência e o fundamento da ideologia da predestinação de Portugal, alicerçada no expansionismo colonial.