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FOI EM 20 DE ABRIL

Foi em 20 de abril de 1847.

Era à hora do sol poente, na Bahia, mais bela na iluminação do crepúsculo que doura os oitões dos sobrados e as torres brancas das igrejas, ao longo do vasto presépio em que se distribui a cidade, debruçada sobre as águas mansas do golfo, descendo, nas suas ladeiras íngremes, dos cimos da colina ao alto casario da praia, e nobremente recolhida, numa cenografia de floresta e de palácios, à paz antiga de seus grandes conventos. É preciso lá estar, vendo da esplanada, que domina o mar e o recorte longínquo do recôncavo, a beleza tranqüila da paisagem, para lhe sentir a poesia melancólica, e o que há de romance, de história, de mistério social, de drama intraduzível, na sua harmonia mágica, de velha metrópole coroada de campanários, feita à imitação de Lisboa nos declives de sua montanha. Recuando, porém, no tempo para chegar àquele ano ilustre de 1847, teremos de compreendê- la como realmente era: a mais imponente cidade brasileira, intacta nas suas linhas barrocas e opulentas, o porto atulhado de barcos-veleiros, sobre os bairros da “baixa”, onde formigava o comércio lembrando os empórios da escravaria, os panos cinzentos de muralhas militares, o imenso perfil da Sé, os mármores do Colégio-catedral, a torre truncada do Paço da Câmara com o seu sino cívico, das convocações populares, a massa arcaica do Paço dos governadores, o zimbório dos beneditinos, as mangueiras do Passeio Público, a Gamboa e a Barra com seu santuário exposto. Podiam compará-la a Coimbra, pelo perfil altaneiro da alcáçova, que era Universidade; ao Porto, ousadamente arrumado à beira do abismo com o enxame de saveiros aos pés do talude barrento; ao gracioso arruamento de Viana-do-Castelo junto a maré branda; àquela Alfama, de telhados tão negros e pitorescos, respirando, na sua confusão mourisca de mirantes e mansardas, o vento heróico das navegações! Mas era original e única em si mesma. Era a Bahia do romantismo.

Pois findava a tarde, em 1847, quando ali sucedeu um crime espantoso.

No seu sobrado solarengo da rua do Rosário, do lado oposto ao hospício dos capuchinhos, Júlia Fetal...

Fale, por nós, a tradição. Que diga como foi, e a seu modo. Com o luxo de pormenor ou a nota sentimental que o quadro exige, e a época justifica.

Linda, no esplendor dos vintes anos, os lustrosos cabelos negros repuxados em coifa, “ a Stuart”, vestida de branco como uma virgem dos altares, o pequenino pé calçado de

duraque, imperiosa e faceira, Júlia acaba de sentar-se ao piano. A penumbra da sala entristecia-a. Pela ampla janela aberta para a praça da Piedade, entravam com a frescura da tarde os ruídos da vida, da larga e sonora vida que lá fora fremia. Correu pelo teclado os dedos ágeis. Foi quando passos fortes fizeram gemer a escada. Passos apressados de homem. Passos vigorosos que conhecia. Levantou nervosamente a cabeça. O estrondo de uma porta sacudida com violência estarreceu-a, estrangulou-lhe a voz na garganta, como que a amarrou ao seu lugar. Um braço poderoso colheu em dobras o reposteiro, e apareceu- lhe, pálido e ameaçador, na moldura da porta, e logo no meio da sala, o professor João Estanislau da Silva Lisboa.

Fora seu noivo. Iam explicar-se. Dissolver, talvez, o compromisso insuportável. Acabar com um amor absurdo. Recomendar- lhe – quem sabe? – um médico, para a sua saúde arruinada... Petrificou-a, porém, o terror.

Ele brandia uma pistola. Era uma arma leve de fechos niquelados, que os amigos lhe conheciam, porque, com pontaria infalível, costumava com ela acertar o alvo em provas difíceis de tiro. Lançava para o ar um limão e despedaçava-o com uma bala... Júlia pôs-se de pé, lívida como o corpete de cambraia que arfava com a sua respiração assustada; e fixou na sua fisionomia decomposta os olhos frios. Ia chamá- lo à razão. Ou acharia, no seu instinto de mulher, o magnetismo e a recriminação que o desarmasse, respondendo o ódio à inocência... Mas não trocaram palavra. Tremeu-lhe a mão? Que se passou, na agitação daquele espírito em desordem, sem ninguém entre o seu desatino e ela, num momento de suprema e impossível explicação, pronto a abatê- la morta em castigo da frivolidade e da beleza?...

A cena foi tão rápida que tudo se conjecturou, sem nada se elucidar. Que emudecera, estátua da vingança na moldura da porta, a fronte alagada de suor, perfilado e imóvel, como se nos seus músculos retesados lutassem ainda a ternura e o furor. Dir-se-ia um autômato. Por pouco a força estranha, que o levara até ali, não o desamparou, para derreá-lo, de joelhos, junto à mulher imperturbável que o continha com o seu espanto silencioso, talvez, na umidade das pupilas negras, uma centelha de desdém... Que inconcebíveis influências lhe enevoaram o juízo, enlouquecendo-o, apesar de sua sólida correção de cavalheiro, e homem de tanto saber? Seria o Oriente, de seu nascimento, que lhe tempestuava no sangue violências e visagens despertadas de imprevisto por um sopro maldito? Donde lhe vinha o tumulto trágico, misturado à amargura da vida incompleta, na torpeza dum destino que o empurrara, enfeitiçado, para o crime?... Algo de sonambúlico dava-lhe ao gosto uma calma atroz. Aperrou a arma, puxando-lhe os fechos que rangeram, ergueu-a, alongando o braço, como que se certificou que não erraria, e fez fogo.

Sacudiu o pavimento um estrondo seco. Correu no ar abafado um traço de fumaça alvadia. E a rapariga caiu pesadamente para a frente... Um grito elevou-se do fundo da casa. Era a viúva Fetal, surpreendida pela detonação, a adivinhar tudo, que corria para a sala, brandindo, no seu desespero, a talagarça do bordado, como se ainda pudesse interpor-se entre o assassino e a filha. Lançou-se sobre ela, tomando- lhe nos braços a cabeça desfalecida, babujou-lhe de beijos e lágrimas a face descolorida, e esmagou com as mãos enclavinhadas a rosa de sangue que lhe brotava do coração. Durou um instante essa agonia das duas almas que se enlaçavam num grande medo convulsivo. Porque as pálpebras se lhe cerraram brandamente, e os folhos da saia de renda se lhe acamaram, como um sudário, sobre os minúsculos sapatos de duraque, os braços tombaram- lhe, inertes, no tapete cor de avelã, e o lilás da morte lhe tingiu os lábios finos, que queriam sorrir (...).

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