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A organização de um movimento social rural de mulheres deve ser considerada no horizonte de outras organizações populares e sindicais que marcaram os anos de 1980, período da ditatura civil-militar e de enfrenta- mentos no processo de abertura democrática. Em artigo que envolve a dis- cussão acerca da temática “mulher rural e movimentos sociais”, Maria Ignez

Paulilo ressalta que, “embora exista uma organização nacional conhecida como Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais (MMTR) e assim ele seja conhecido também no Rio Grande do Sul”, nos estados de Santa Catarina e Paraná, respectivamente, eram nominados Movimento de Mulheres Rurais (MMA) e Organização de Mulheres Rurais (OMTR) (PAULILO, 2004, p. 242).

Sobre a importância da resistência popular em diferentes regiões do país, em Santa Catarina, “na década de 80, num dos momentos mais críti- cos da vida no campo, nascem as heroicas organizações camponesas” e a organização do MMA/SC, no distrito de Itaberaba, município de Chapecó (MMA/SC, 2000). Como eventos importantes que marcaram o processo de organização do MMA/SC, destacam-se os ocorridos no dia 25 de julho de 1981 e no dia 1.º de maio de 1983, no distrito de Itaberaba: no dia 25 de julho de 1981, evento de comemoração do dia do agricultor, foi organizado um grupo de base para a organização dos agricultores e disputa da direção do Sindicato dos Trabalhadores Rurais; no dia 1.º de maio de 1983, ocorreu o encontro que possibilitou os “rumos iniciais” do Movimento de Mulheres Agricultoras de SC e contou com a participação de 28 mulheres, religiosos e agentes de pastoral (CASAGRANDE, 1991, p. 38-39).

Como marcos da organização do MMA/SC, os acontecimentos de 1981 e 1983 evidenciaram experiências de exclusão social das mulheres, as quais se transformaram em demandas importantes de luta. Como registro de um encontro para comemorar os 15 anos do MMA/SC, realizado em 8 de março de 1998, agora no munício de Itaberaba, “é a persistência e a determinação das mulheres mostrando para todos que as causas justas devem ser levadas adiante, por mais difícil que possa ser o caminho.” (MMA/SC, 2000, p. 6). De acordo com registros localizados, a denominação “Movimento de Mulheres Agricultoras – MMA/SC” foi atribuída no ano de 1986 e 60 municípios do estado de Santa Catarina já estavam organizados (MMA/SC, 2000, p. 7).

Na condução do processo de organização, é central destacar as relações com a Igreja Católica, com o Partido dos Trabalhadores (PT) e com outros movimentos sociais, como, por exemplo, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Movimento dos Atingidos pelas Barragens (MAB). (CASAGRANDE, 1991; POLI, 1995; DABOIT, 1996). Da articulação com o MST, entre outras, destacamos a “conquista o direito da mulher viúva ou solteira constar como titular de posse de terras, em projetos de assentamento.” (MMA/SC, 2000, p. 8).

As relações (e os limites das relações) estabelecidas com setores pro- gressistas da Igreja Católica, principalmente, por meio de atividades de pas- toral, não representaram uma ação isolada e, a partir da década de 1970, marcaram o posicionamento da instituição religiosa em relação às lutas dos

povos oprimidos. Conforme ressaltado por Daboit (1996, p. 18), o “esforço de renovação da Igreja vai assentar-se numa proposta de conscientização do povo”, no âmbito da Teologia da Libertação2.

Em meio aos movimentos de organização popular e sindical, veri- fica-se a influência da Teologia da Libertação “no trabalho de formação e organização popular”, mediado pelas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e pela Comissão Pastoral da Terra (CPT); no oeste catarinense, destaca-se a contribuição da Diocese de Chapecó na formação da consciência crítica dos/as agricultores/as (MMC/SC, 2008, p. 7). Cabe observar que, no período, além das estreitas relações das atividades pastorais com a organização dos movimentos populares, as mulheres desenvolviam atividades na própria instituição religiosa, configurando-se como espaços tradicionais de partici- pação feminina (POLI, 1995).

Contudo, ao longo da trajetória de organização e de consolidação do MMA em território catarinense, ocorreram mudanças na condução e na relação com a instituição religiosa. Kroth (1999, p. 104) ressalta que a par- ticipação de agentes de pastoral na coordenação dos primeiros encontros e o modo como as mulheres foram assumindo a condução do processo: “mais tarde, quando o movimento já possuía uma estruturação própria, a direção estadual, através de suas dirigentes liberadas, planejava os cursos de formação, elaborava os convites e os enviava para as líderes das regionais do movimento.” Encontros e desencontros do MMA com a Igreja, segundo Casagrande (1991), também evidenciaram “limitações” em relação a determi- nados temas de interesse das mulheres, envolvendo demandas específicas de gênero, por exemplo. Além dos referenciais religiosos, questiona-se a influência do movimento feminista na organização e orientação de práticas do MMA, temática que será posteriormente tratada de forma mais específica (DABOIT, 1996).

No campo político-partidário, as mulheres apoiaram a candidatura, para deputada estadual, da agricultora Luci Choinacki, uma das dirigentes do movimento; em um processo vitorioso, Luci foi eleita como a primeira deputada estadual pelo Partido dos Trabalhadores – PT (MMC/SC, 2008, p. 11). A candidatura e a eleição foram narradas por Luci em uma entrevista, conforme fragmento que segue:

[...] foi a única que se elegeu do PT, em 86, e a única mulher também, num estado que não é, assim, tão democrático com

2  A Teologia da Libertação “nasce e se desenvolve enquanto expressão de problemas da realidade

social latino-americana, no desejo de transcendê-la através da criação de uma sociedade mais justa e igualitária. Trata-se do encaminhamento de uma nova visão para o papel da Igreja, da prática cristã e do pensar teológico, até então apoiado numa teologia feita a partir da realidade exógena europeia.” (SCHERER-WARREN, 1996, p. 32-33).

as mulheres, um estado de, que eu digo que Santa Catarina é de uma linha conservadora ainda, com a participação feminina popular, social, e eu vim desse meio e foi uma batalha enorme pra se garantir como, num mandato, pra fazer o meu trabalho, mas não abri mão, coordenei vários processos e a gente teve resultados muito bons de mobilização e de conquista, que trans- formado depois em 90 pra deputada federal que eu consegui aprovar, batalhar e mobilizar pra aposentadoria e aprovar o salário maternidade pras mulheres agricultoras, então a minha vida na política foi assim, muito dura, como é, porque […] por primeiro por ser mulher, segundo por ser agricultora, terceira por ter um envolvimento sempre social e botar sempre os pobres em primeiro lugar, pobre não dá lucro, pobre só dá voto, então isso eles, muito gente pensa, e pra mim trabalhar com esse público eu tive que fazer muito esforço, pra eles acreditar que eu podia ajudar, que o mandato podia ser um instrumento de, não de fazer as coisas, mas de mobilizar, de apresentar sugestões e trabalhar junto [...]. (CHOINACKI, 2017, s/p).

A partir das condições descritas, na primeira metade da década de 1980, verifica-se a participação das mulheres em processos de mobilização mais amplos envolvendo lutas de classe e pela igualdade entre homens e mulheres, principalmente, no direito à sindicalização. Observa-se que a par- ticipação das mulheres na organização de um movimento social específico se fez pela problematização das desigualdades de classe vivenciadas pelas populações do campo e pelas desigualdades de gênero.

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