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Migration de comptes avec l’historique SID

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6.8 Migration des comptes

6.8.4 Migration de comptes avec l’historique SID

Num primeiro momento, é muito fácil identificar dois atores principais que são, à primeira vista, protagonistas desse conflito. São eles o centro e a periferia. Mas, sendo o assunto a violência urbana, outros espaços, que desempenham papéis igualmente importantes, não podem ser negligenciados em uma análise que se pretenda o mais possível completa. Um desses papéis parece ser aquele desempenhado pelo Estadona condição de mediador de situações conflitivas no que tange à lei, à ordem pública e ao crime. Tripartindo-o, grosso modo, o legislativo encarrega-se da questão produzindo leis e códigos de conteúdo penal – ou seja, o legislativo proíbe determinadas condutas, transformando em crime futuras contravenções; o judiciário, por sua vez, avalia os casos de crime – que já devem ter sido consumados e são, agora, domínio do passado – em seus tribunais, e decide pela inocência ou culpa – ele julga. Mas é o executivo, através de seu representante direto – a polícia –, quem se ocupa do crime em sua manifestação presente e flagrante, agindo no próprio “front”, vigiando a conformidade em relação à lei, ou seja, policiando o cumprimento da lei.

Se o legislativo é a norma (as “regras” do “jogo”), o judiciário é o juiz (que deve

ser imparcial), mas os policiaissão eles mesmos “jogadores”, estão direta e cotidianamente envolvidos no conflito em seus aspectos mais violentos, em sua dinâmica primeira, participando dele ativamente. A polícia, por encarnar o monopólio estatal da força, é ela mesma uma faceta da violência urbana. Além disso, é claro – e possivelmente por causa disso

–, a polícia (como instituição) e os policiais são personagens que aparecem na literatura sobre

a violência urbana.

A polícia, por certo, não é um espaço geográfico – ao menos não numa noção ligeira que se tenha sobre oespaço, tido como algo de “paisagem”. No entanto, não deixa de ser um espaço institucional, que encerra determinadas práticas, ideologias, rotinas, e sua presença se superpõe aos lugares físicos, espalhando-se no território independentemente da presença física de seus agentes – os policiais – pois, como polícia, podem estar em qualquer

lugar, aparecer a qualquer momento (como um Grande Irmão orwelliano – ator que se supõe

Além disso, o conjunto de práticas que gira em torno da lei, do crime e da atividade policial pressupõe a existência de um sistema penal e, com ele, ainda um outro espaço importante na realidade e na ficção acerca da violência urbana: o presídio. Assim como as regiões centrais, os bairros periféricos e a polícia, também o presídio encerra um conjunto de hierarquias, práticas e rotinas que lhe são próprias, podendo ser individualizado. Temos, assim:

Aí está um esquema bidimensional que representa o espaço encerrado pela junção dos pontos estabelecidos até aqui.31Para mostrar que não são apenas pontos aleatórios, no que pese certa dose de arbitrariedade de minha parte, observe-se que cada um deles desempenha seu próprio papel importante no imaginário acerca do assunto. Basta pensarmos que existem, no Brasil, exemplos de narrativas que se posicionam a partir de cada um dos pontos do esquema. A periferia, por exemplo, é muito bem representada, no caso do Rio de Janeiro, pelo já citado Cidade de Deus (1997), além das obras de Ferréz em São Paulo; a polícia encontra seu ponto de vista representado em Elite da tropa(2006), de Luiz Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel (o primeiro, antropólogo; os outros dois, membros ou ex-membros do BOPE); a partir do presídio, cito Memórias de um Sobrevivente (2001), do na época presidiário Luiz Alberto Mendes; o ponto de vista do centro pode ser entendido de várias

31 É importante perceber que o eixo polícia/presídio vem acentuar a percepção de um abandono das favelas pelo Estado, que nelas se faz presente principalmente através das instâncias de vigilância, punição e controle. Isso fica ainda mais marcado porque, conforme se percebe inclusive na leitura dos produtos culturais em torno do tema, essas duas instituições funcionam com uma unilateralidade fortemente orientada pela defesa do centro contra as periferias (o que, se pensarmos sinceramente na dinâmica das forças políticas, não deixa de ser um gesto, por parte do Estado, de autodefesa). Então, para os fins da leitura do esquema que proponho, há de se considerar o eixo polícia/presídio (o Estado) como um intermediador das relações entre centro e periferia, que atravessa e interfere em suas dinâmicas. De fato, nesta pesquisa, a leitura das obras selecionadas como corpus será orientada por essa constatação.

maneiras, desde suas diversas tentativas de lançar um olhar literário para os outros pontos do esquema – por exemplo, Estação Carandiru (1999), do médico Drauzio Varella, que retrata o cotidiano do presídio –, ou mesmo aquelas obras que mostram o crime nos próprios bairros de classe alta. Nesse caso, pode ser que as narrativas se aproximem do gênero policial, de investigação, como em O silêncio da chuva(1996), de Luiz Alfredo Garcia-Roza, que analisarei mais profundamente nestadissertação para tentar argumentar sua atribuição ao ponto central. É o livro inaugural de uma série em que seu personagem-detetive Espinosa transita pelos bairros da Zona Sul do Rio buscando pistas para a resolução de crimes às vezes violentos, mas sempre sofisticados e, muitas vezes, envolvendo altas somas em dinheiro e gente importante da sociedade carioca. Muitos outros exemplos seriam possíveis, para todos os pontos, mas prefiro destacar os acima citados por conta de sua data de publicação, que abrange a passagem para o século XXI, período que aqui interessa.

A proposta que tenho para o uso do esquema é a de que se possa analisar qualquer narrativa a partir da posição que ocupaem seuinterior, como se aquele ponto estabelecesse o lugar a partir do qual o romance nos fala. Resgatando as reflexões feitas sobre o posicionamento do autor através da metáfora da câmera, na seção 2.1, esse esquema representa de certa forma o campo de visão que se abre a partir do ponto em que o texto estudado se posiciona. É possível utilizá-lo não apenas para mapear a maneira como é construída a representação de cada um desses espaços em uma obra específica, mas também como uma forma de perceber as relações que os pontos estabelecem entre si. Assim, ao se analisar um romance como Cidade de Deus, que aborda o conflito a partir da perspectiva da favela, tomaremos a periferia como o lugar de onde se olha para todos os outros pontos e para as relações que estão sendo estabelecidas entre eles. E, se o que se quer é um estudo mais específico – por exemplo, as relações entre a polícia e a periferia no romance Cidade de Deus

– também é possível realizá-lo, sempre lembrando, entretanto, que o ponto de onde se fala é

que estabelece o campo de visão e a perspectiva da representação, sendo que, no caso de

Cidade de Deus, essa representação das relações entre a polícia e a periferia surge do campo

de visão que se abre a um romance posicionado no ponto da periferia – e não o contrário. Gostaria de adicionar e esclarecer aqui que, além disso, a equidistância entre os pontos no desenho não pretende significar que os pontos simbolizados possuam, em suas dinâmicas, relações equidistantes entre si – pode-se supor, por exemplo, que os interesses da instituição policial estejam mais próximos ou conjugados com os interesses das classes dominantes do que com os das classes marginalizadas. O valor da equidistância no esquema assume, na verdade, a função de demonstrar que o peso de sua importância no imaginário a

respeito do conflito urbano é, aqui, considerado equivalente. Quero dizer com isso que, ao pensarmos em violência urbana, acessamos imediatamente conteúdos relacionados à palavras

como “morro” (ou “favela”), “asfalto”, “polícia”, “presídio”. Esse é o motivo também para

que nenhum dos pontos assuma uma posição central (ou centralizadora) no desenho do esquema. Mais ainda, acho importante que se visualize o seguinte: quanto mais perto o objeto de estudo for localizado em relação a essa posição central32, menor é de se supor a marcação de classe no discurso do objeto estudado. Isso porquê, do ponto central, há uma equidistância em relação a todos os pontos extremos e, consequentemente, aos espaços que eles representam e suas formas culturais correspondentes, possibilitando um posicionamento sob menos influência da atração de um ou outro polo específico.

Mas, como toda a discussão deste estudo originou-se da percepção de que há uma nova forma de compreensão das diferenças sociais circulando na produção cultural brasileira

– a chamada “dialética da marginalidade”, de João César de Castro Rocha (2006) – e, como

ele afirma que a velha e a nova ordem coexistem numa batalha simbólica, o esquema pode ser levado a um nível mais complexo ao incluirmos um eixo vertical que represente as dinâmicas polarizadas entre pacificação e violência nas obras.

Se, antes, o eixo vertical estava frouxamente relacionado a ideias pouco definidas

de “pacificação” como utopia e “violência” como distopia (MATTE; AMODEO, 2014), aqui

o esquema se articula mais diretamente às recentes discussões sobre as ordens relacionais da malandragem e da marginalidade na cultura brasileira. Pois, nesta reformulação, o pacifismo passa a corresponder a uma aproximação com a velha ordem, a dialética da malandragem, que pressupõe a conciliação entre os polos de modo a evitar o conflito. Nesse sentido, haveria uma

“pacificação” social na medida em que o malandro se utiliza do jogo de cintura para evitar a

violência. A violência, por sua vez, corresponde à dialética da marginalidade, em que a ruptura é evidenciada e, não havendo possibilidade de conciliação, parte-se para o conflito. Ao introduzirmos tal eixo, conforme a figura abaixo, obtemos uma tridimensionalização do esquema:

32Refiro-me agora não ao ponto específico chamado “centro”, mas ao ponto matemático em que se encontram as diagonais internas do quadrilátero.

Reformulo, assim, o modelo esquemático – um esquema heurístico? – em que o conflito básico, travado entre o centro e a periferia urbanos, é atravessado pela presença e atividade de dois outros espaços, a polícia e o presídio. O plano resultante sofre um novo atravessamento, dessa vez de um eixo vertical que polariza a conciliação e o conflito nas relações: quanto mais para baixo, mais conflitivo, mais ruptura evidenciada; quanto mais para cima, mais conciliatório é o ponto de vista33. Dessa forma, ao se localizar um romance em algum ponto da figura, estabelece-se sua posição em relação aos quatro pontos horizontais (centro, periferia, polícia e presídio), e também se busca localizá-lo de acordo com as nuances conciliatórias (malandras) ou conflitivas (marginais) que possivelmente retrate.

33

Aqui, gostaria de abrir uma porta para outro questionamento, ao qual não tenho ainda resposta: em que medida, ao participarem do mesmo eixo, malandragem e marginalidade não podem ser percebidas, mais que meros polos opostos, como gradações ou matizações de uma mesma tradição social e simbólica?

Diagrama2 Marginalidade (conflito) (-) Pe rif eri a Polícia Cent ro Malandragem (conciliação) (+) Presídio

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