CHAPITRE I: TECHNIQUES EXPERIMENTALES
I. 4. 1. Microscope à force atomique
O fortalecimento da identidade comunitária é outro aspecto importante para os grupos de Teatro de Vizinhos. Para Jock Young, é “precisamente quando a comunidade entra em colapso, [que] a identidade é inventada” (YOUNG apud BAUMAN, p. 20). Não sendo o objetivo do Teatro de Vizinhos reconstruir uma comunidade dentro dos parâmetros estabelecidos por Bauman (2003) para caracterizar as comunidades antigas, onde seus membros possuem um “entendimento compartilhado” que serve como um acordo prévio e inquestionável, ou, como define Bauman, um entendimento que “não precisa ser procurado, e muito menos construìdo: este entendimento já está lá, completo e pronto para ser usado” (BAUMAN, 2003 p. 15). Sendo assim, torna-se mais próximo dos objetivos dos grupos, a intenção de reconstruir os laços sociais a partir do fortalecimento da identidade comunitária, do que na reconstrução de um modelo de comunidade fechada, que para Bauman não pode ser alcançado.
Hall (2005) sugere a compreensão do conceito de identidade a
158 No original: La idea es pensar porqué el Sur es el territorio del miedo
y del peligro en la Ciudad de Buenos Aires. Trabajamos sobre el Parque Meghino y, desde el arte, llegamos a la hipotesis de que la fiebre amarilla dejó una huella yu dividió la ciudad en dos, dejando un fantasma en el Sur (RUIZ, 2012).
partir da identificação do sujeito com sistemas sociais:
À medida que em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possìveis, com cada uma das quais poderìamos nos idenficar – ao menos temporariamente (HALL, 2005 p. 13).
É na busca de gerar a identificação dos vizinhos em torno a um território especìfico, respeitando suas caracterìsticas culturais, resgatando as histórias do lugar e valorizando os conhecimentos de seus moradores, que as práticas do Teatro de Vizinhos buscam se desenvolver. Neste sentido, o interesse dos grupos em criar/fortalecer a identidade comunitária pode ser entendido como um objetivo transformador, pois, além de reivindicar o direito às diferenças culturais de um território a outro, o que Proaño Gomez (2013) chama de “genealogia distinta” ela sugere um empoderamento dos vizinhos do desenvolvimento de sua própria identidade comunitária, pois como explica Ricardo Talento:
Uma pessoa não pode querer fazer de um bairro um museu. Mas pode seguir aportando à identidade. Eu que viajo muito vejo como no interior do paìs acontece o mesmo, todo mundo sente que está perdendo a identidade e acredito que uma das razões por que isto está acontecendo é por que aceitamos mansamente propostas de identidade que não nos correspondem, através dos meios de comunicação.O tema é como conservar, as particularidades (TALENTO, 2011, p. 203).159
159 No original: Uno tampoco puede hacer de un bairro un museo.
Mientras tanto uno puede seguir aportando a la identid. You que viajo mcho veo que em el interior del pais pasa lo mismo, todo el mundo siente que está perdiendo la identiadad y creo que una de las razones por la que está sucediendo es porque aceptamos mansamente propuestas de identidad que no nos corresponden a través de los medios de comunicación el tema es como conservar la particularidades
O Teatro de Vizinhos não busca preservar uma identidade comunitária imutável, que deva ser preservada como se estivesse em um museu, mas, por sua vez, busca fazer com que os vizinhos sejam agentes ativos das transformações que a identidade comunitária tende a sofrer, questionando eles próprios os valores culturais que entendem fazer parte de seus territórios e preservando as particularidades que acreditam que devam ser preservadas.
Território, Memória e Identidade são três elementos que se relacionam e se complementam dentro da prática do Teatro de Vizinhos. Os grupos tendem a resgatar histórias e acontecimentos significativos da memória coletiva, desenvolvendo assim seu aspecto territorial, uma vez que este resgate expõe elementos culturais do território, se busca a construção ou fortalecimento da identidade comunitária, que por sua vez, contribui para a preservação da memória coletiva.
Um bom exemplo desta dinâmica está no grupo Patricios Unidos de Pié, da cidade de Patricios, Provìncia de 9 de Julio. O povoado de Patricios foi fundado em 1908 por conta da construção da estação ferroviária “Patricios”.160
Em 1977, o governo militar argentino decidiu fechar a estação de patrìcios, e um povoado que chegou a contar com 6.000 moradores, entre funcionários da empresa férrea e um grande número de pessoas com atividade econômica vinculada à estação ferroviária, viu grande parte de seus habitantes migrarem, transferidos pela empresa ferroviária a outras cidades ou em busca da subsistência, tornando-se um o povoado “fantasma” com apenas 600 habitantes (ROSENBERG, 2009).
No ano de 2003, formou-se o grupo de Teatro de Vizinhos Patricios Unidos de Pié. Isto ocorreu através da participação de Alejandra Orostegui e Mabel Hayes na oficina minstrada por Adhemar Bianchi e Ricardo Talento no Museo de La Memoria, e o posterior convite aos diretores de Buenos Aires a visitar o povoado (BIDEGAIN, 2007a).
(TALENTO, 2011, p. 203).
160Fonte: http://www.9dejulio.gov.ar/patricios.php acessado em 22 10
O primeiro espetáculo do grupo, Nuestros Recuerdos, foi realizado na estação de trens desativada no povoado de Patricios, e conta a história de Juan, maquinista obrigado a migrar a outra cidade, deixando Ana no povoado com a promessa de voltar e se casar com ela (BIDEGAIN, 2007a). Ana, resignada a esperar por Juan, resiste às investidas amorosas de outro personagem, simbolizando assim a resistência dos habitantes que se recusam contra todos os acontecimentos a abandonar o povoado. (ROSENBERG, 2009)
O espetáculo é baseado nas recordações dos moradores de Patricios, que presenciaram diversas “Anas” e “Juans” se separando por conta do fechamento da estação de trens. Mas a recuperação da memória dos habitantes não se resume à recordação nostálgica dos anos em que o povoado se encontrava em desenvolvimento, ela vai além da recuperação da memória de um acontecimento que tantos malefìcios trouxeram a Patricios.
No caso de Patricios, a territorialidade, o resgate da memória coletiva e da identidade comunitária, tornam-se elementos de ligação entre os moradores, permitindo que estes possam compreender o presente do povoado através da memória e articular um futuro melhor.
A partir do grupo de Teatro de Vizinhos, os moradores de Patricios passaram a desenvolver diversos projetos com o objetivo de revitalizar o povoado. Foi a partir do grupo de teatro que se revitalizou a estação de trens abandonada e se desenvolveu o projeto D & D (Dormir e Desayunar), onde os visitantes do povoado são hospedados em algumas das casas dos moradores, com direito ao café da manhã, melhorando a economia da cidade (RAMOS; SANS, 2009).
Esta dinâmica é apontada pela periodista Ines Hayes:
Patricios Unidos de Pie trabalha através da arte para a recuperação da memória, a retransmissão de experiências, a convivência de diferentes gerações, o desejo de mudar a ordem das coisas existentes, a busca constante da identidade e a comunicação (HAYES apud BIDEGAIN, 2007a, p. 176-177).161
161 No original: trabaja a través del arte por la recuperación de la
memoria, la retransmisión de experiencias, la convivencia de generaciones distintas, el deseo de cambiar el orden de cosas existentes,
Mesmo Patrìcios sendo um caso emblemático do Teatro de Vizinhos, no qual um povoado conseguiu iniciar um processo de revitalização a partir de um projeto teatral, os grupos de Teatro de Vizinhos tendem a trazer diversos benefìcios para a localidade em que estão inseridos, entre eles, revitalizar espaços públicos abandonados ou deteriorados e a promover o convìvio social entre as pessoas.
Ao participar do Fórum Mundial Social em 2005, onde o tema era “Outro Mundo é Possìvel”, Ricardo Talento propôs como tema de sua palestra, “Outro Mundo é Possìvel... se formos capazes de imaginá- lo (TALENTO, 2005)”. O Teatro de Vizinhos conclama, através de suas práticas e dos 51 grupos na Argentina e quatro em outros paìses, que um grande contingente de pessoaspossa imaginar, a partir de suas memórias, suas identidades e seus territórios, uma utopia em que outro mundo seja possìvel e, talvez, melhor.
la búsqueda constante de la identidad y la comunicación (HAYES apud BIDEGAIN, 2007a, p. 176-177).
CAPITULO 5 - DIÁLOGOS POSSÍVEIS COM O