A aposição pode ser de caráter restritivo ou não restritivo. Para Meyer (1992, p.82),
60 O Dinamismo Comunicativo, desenvolvido no contexto funcionalista da Escola de Praga e de autoria de
Firbas (1964), é baseado no princípio de que a distribuição das unidades em uma oração é feita de acordo com uma escala de dinamismo comunicativo que prevê o balanceamento entre informação velha e nova. Para Firbas, a organização linear da oração reflete a ordem dos fenômenos extralinguísticos. Assim, na estrutura tripartida tema-transição-núcleo, defendida por ele, temos uma escala ascendente de grau de informatividade, de modo que o tema apresenta o menor grau de informatividade enquanto o rema apresenta o maior grau de informatividade.
73 “Se uma aposição recebe uma interpretação restritiva ou não restritiva depende crucialmente da forma sintática da aposição e se a primeira unidade da aposição é um sintagma nominal capaz de tomar uma unidade restritiva ou não restritiva na segunda unidade.”
Nogueira (1999) esclarece que a aposição restritiva é reconhecida como uma estrutura de núcleo-modificador por muitos autores, tais como Rodriguez (1989), Burton-Roberts (1987), enquanto a aposição não restritiva é caracterizada pela possibilidade de omissão de uma das unidades sem afetar a aceitabilidade da oração. Para esses autores, a primeira teria estatuto de subordinação, enquanto a segunda seria desprovida de estatuto gramatical.
No que diz respeito à aposição não restritiva, Nogueira argumenta que ela tem seu próprio valor de verdade e se constitui como ato de fala independente daquele da proposição básica a que está ligada. Para demonstrar isso, pontua que, em geral, o emprego da aposição reflete o desejo de apresentar o referente sob mais de uma perspectiva, o conteúdo explicitado pela construção apositiva mantém seu próprio valor de verdade, mesmo que se negue a proposição básica da oração a que está ligada, sendo por isso semelhante aos parentéticos, que têm sua própria força ilocucionária, que, em geral, é a de asseverar, nem sempre correspondente à força ilocucionária da oração a que se liga, como demonstrado no exemplo a seguir apresentado em Nogueira (1999):
(43)Machado de Assis, autor do romance D. Casmurro, foi o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras?
Nesse exemplo, a proposição básica tem valor ilocucional de uma interrogativa, enquanto o valor ilocucional da aposição é declarativo, não sofrendo, portanto, modificação no seu valor de verdade, ou seja, o fato de questionarmos se Machado de Assis foi o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras não torna questionável o fato de ele ser autor do romance D. Casmurro, o que ratifica a afirmação de Nogueira de que a aposição não restritiva se constitui como ato de fala independente.
Hannay e Keizer (2005) assumem esse mesmo posicionamento de que as aposições não restritivas podem ser vistas de maneira mais adequada como unidades discursivas comunicativamente autônomas. É essa peculiaridade que justifica sua autonomia fonética, explicitada pela pausa ou sinal de pontuação.
Sobre a aposição não restritiva, Nogueira (1999) apresenta diferentes funções nos planos textual, cognitivo e argumentativo-atitudinal que podem ser exercidas por esse tipo de aposição, embora não sejam excludentes no uso efetivo. No plano textual, a aposição teria papel importante entre os mecanismos de progressão referencial. No plano cognitivo, serviria,
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por exemplo, ao favorecimento da identificação de referentes, e, no plano argumentativo- atitudinal, cumpriria a função de avaliação.
No plano textual, as estratégias de referenciação, segundo Nogueira (1999), assentam- se, principalmente, nas distinções entre definitude/indefinitude e especificidade/genericidade. Assim, nos casos de referenciação catafórica, o primeiro elemento apositivo é, tipicamente, um sintagma nominal indefinido ou uma proforma, e o segundo, um sintagma nominal mais específico, assemelhando-se a um tipo de anáfora descrita por Apothéloz e Reichler-Béguelin (1995), em que o objeto de discurso ainda não foi categorizado.
De acordo com Nogueira (1999), nas construções apositivas que envolvem esse tipo de referenciação, as nominalizações resumitivas de conteúdo de oração ou trecho maior de texto são muito comuns e são similares às estratégias de rotulação descritas por Francis (1994), tais como as rotulações por nome genérico (coisa, fato, aspecto etc), nomes de caráter metalinguístico ou metadiscursivo (nomes ilocucionários, relativos a atos de fala), nomes relativos a atividades de usos linguageiros ou resultantes delas (relato, esclarecimento, explicação, descrição etc.), nomes relacionados a processos cognitivos ou deles resultantes (análise, avaliação, suposição etc) e nomes de caráter metalinguístico relativos a aspectos formais (palavra, sentença, frase, seção etc).
Uma outra função atribuída por Nogueira (1999) à aposição não restritiva é a de reformulação textual, em que a segunda unidade reformula o conteúdo ou uma expressão linguística da primeira unidade na tentativa de garantir a compreensão satisfatória por parte do ouvinte daquilo que foi formulado. Essa reformulação pode ocorrer por paráfrase, equivalência semântica, ou por correção, contraste semântico. Além desses, Nogueira sugere um tipo de reformulação em que a equivalência não seja semântica, mas referencial, para a análise das construções apositivas. A reformulação diferencia-se da referenciação catafórica, de acordo com a autora, pelo objetivo de retomar o que foi formulado, utilizando outras palavras, enquanto na referenciação catafórica, o primeiro elemento, genérico, é especificado pelo segundo; na reformulação, o segundo elemento pode ser usado como definições ou redenominações.
No caso da correção, a aposição não restritiva operaria uma autocorreção, ajustando a referência totalmente, negando o elemento anterior e estabelecendo outro, ou parcialmente, em que o elemento é apenas ampliado ou restringido. Nos casos de correção parcial, tem-se o apoio de expressões do tipo “ou melhor”, “quer dizer”.
No âmbito cognitivo, a aposição não restritiva serve à instauração de referentes no discurso de modos distintos. No caso da referenciação catafórica, a primeira unidade da
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aposição instaura um referente que só será especificado na segunda unidade. Nas construções apositivas anafóricas, o referente é apresentado numa outra perspectivação a partir de redenominações ou da predicação de atributos com o intuito de evocar conhecimentos partilhados que contribuam para a identificação do referente.
Sobre a função argumentativo-atitudinal de avaliação da aposição não restritiva, Nogueira (1999) afirma que ela se torna evidente em construções em que o referente é apresentado com algum direcionamento de orientação avaliativa a partir de escolhas lexicais que revelem opiniões, crenças ou atitudes de quem constrói o texto.
Nogueira (1999) apresenta uma proposta de reformulação do quadro de relações textual-semânticas e funções textual-discursivas da aposição não restritiva, dando uma contribuição crucial no que diz respeito à distinção entre relação semântica (equivalência, atribuição e inclusão) e função textual-discursiva (ou retórica) de exemplificar, generalizar, particularizar, parafrasear etc. O quadro a seguir apresenta a proposta de Nogueira (1999):
Quadro 7: Relações textual-semânticas e funções textual-discursivas das aposições não-restritiva s
RELAÇÃO TEXTUAL-
SEMÂNTICA
FUNÇÃO
TEXTUAL-DISCURSIVA Equivalência Correferência Identificação
(Especificidade: A < B) Reformulação referencial Paráfrase referencial/ Correção (Especificidade: A = B)
Sinonímia Reformulação metalinguística ou metadiscursiva Paráfrase linguística /Correção
(Especificidade: A = B) Atribuição Avaliação (Especificidade: A ˃ B) Inclusão Exemplificação (Especificidade: A < B) Particularização (Especificidade: A < B) Generalização (Especificidade: A ˃ B) Fonte: (NOGUEIRA, 1999)
A tese de Nogueira (1999), ao dar um tratamento que vai além da descrição sintática a estas estruturas, colocando-as no campo dos estudos que abrangem a relação gramática-texto- discurso, traz grandes contribuições para a interpretação desse fenômeno, pois aponta para os aspectos funcionalmente motivados na construção dos sentidos do texto.
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especificamente, caracterizado pelo cruzamento da relação textual-semântica de atribuição e a função textual-discursiva de avaliação (da primeira para a segunda unidade). Esse tipo de aposição não restritiva é o tradicionalmente identificado como aposto de oração. Nossa pesquisa vai investigar um conjunto maior de ocorrências desse tipo de construção apositiva e poderá apontar outro tipo de relação semântica e função textual-discursiva, descrevê-las e analisá-las, detalhando propriedades.