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A. Hammad

8.5. Microbiology laboratory

Esther Thelen se dedicou a pesquisar o desenvolvimento de bebês e crianças visando a entender os processos cognitivos de construção de relações entre os seres humanos e seus ambientes, bem como, a compreender a emergência de capacidades cognitivas de maior complexidade. O pesquisador francês François Delalande, por sua vez, fez algo semelhante no campo musical.

Delalande analisou as condutas musicais das crianças como um caminho em direção à compreensão da gênese da atividade musical que, segundo ele, poderia estar presente no comportamento do bebê que tem à sua disposição alguns brinquedos e materiais sonoros. Assim sendo, ele traçou paralelos entre os primeiros gestos produtores de sons (com a voz, com o corpo ou em contato com materiais ou instrumentos musicais) e aqueles encontrados na performance do músico profissional.

Tomando de empréstimo as fases de jogos propostas por Piaget, Delalande analisou as condutas musicais das crianças, como também, das culturas musicais, em sua diversidade. Ele classificou tais condutas em três categorias: exploração, expressão e construção, relacionando-as aos jogos sensório-motor, simbólico e de regras, respectivamente.

Piaget propôs que o jogo infantil se alicerça sobre três grandes tipos de estruturas – o exercício, o símbolo e a regra – as quais mantém relações com as estruturas de pensamento características de cada etapa do desenvolvimento,

segundo suas pesquisas. Dessa feita, os jogos sensório-motores, de exercício, seriam próprios da fase na qual o essencial é a conquista da autonomia corporal; os jogos simbólicos, corresponderiam a uma etapa em que o cérebro já está dotado de maior flexibilidade, valendo-se da capacidade de simbolizar, enquanto que os jogos de regras contariam com regras prescritas e determinadas, visando a fins específicos e movidos por um pensar enfaticamente intelectual (PIAGET, 1986).

Considerando que o acontecimento musical vincula-se, de um lado, ao mundo do jogo, da atividade lúdica e que, de outro, as proposições piagetianas agregam os aspectos constitutivos do humano e, consequentemente, de suas produções, François Delalande sugeriu que ao jogo sensório-motor corresponderia toda parte de exploração e realização gestual próprias à atividade musical. Seria, assim, o domínio do gesto que, se está presente nas explorações realizadas por um bebê de posse de um pequeno tambor, está presente, também, no estudo técnico do músico profissional em busca da conquista de domínio e eficiência de sua realização mecânica. Muda, efetivamente, a complexidade.

Ao jogo simbólico corresponderia a relação simbólica que se estabelece com o sonoro; o valor que se atribui ao fato musical; as sensações e sentimentos que a música provoca pela escuta, pela execução ou pela criação. E toda a parte relacionada à estruturação musical, incluindo aspectos relacionados aos idiomas (modal, tonal...), à forma, dentre outros aspectos, relacionam-se ao jogo de regras.

Para Delalande, as obras musicais contém elementos de todos os modos de jogo, ainda que um prevaleça sobre a outro. Desse modo, é possível sinalizar, em uma mesma obra, a presença de ênfases em um ou outro aspecto, ainda que a composição completa integre todos os modos de jogo, sem dissociação, como ocorre com o todo das atividades humanas. Nesse sentido, sua proposta cria uma linha de fuga com relação à proposta piagetiana: “os jogos propostos permitem agregar os componentes considerados inerentes a toda e qualquer produção musical, sem fragmentar, ou ainda, sem pretender sequenciar a produção do acontecimento musical” (BRITO, 2007, p.46).

Observando bebês e crianças, de quatro meses a dozes anos, o pesquisador francês analisou a transformação de complexidade do fazer musical. A título de exemplo, relato o fato de que ele acompanhou o percurso de um bebê, aos quatro meses, produzindo sons em um tambor: raspando, batendo ou esfregando a pele. Meses depois, o mesmo bebê já apresentava variações mais elaboradas, as quais resultavam das modificações do gesto por ações intencionais, cognitivas. Procedimentos semelhantes foram aplicados à observação de crianças com diferentes idades, em situações de interação com materiais sonoros sem a orientação ou intervenção de um adulto.

Julguei viável relacionar (e adaptar) a argumentação de Delalande à proposta dinamicista de Esther Thelen: se o bebê “descobre” o gesto produtor de sons por acaso, é por meio de repetições intencionais, “pesquisadoras”, que ele reelabora sua experiência e conquista outras possibilidades. Transforma-se dinamicamente a complexidade, conferindo singularidade à exploração gestual/sonora que integra o jogo pensamento/ação. Dessa feita, somam-se às proposições piagetianas que fundamentam teoricamente a pesquisa de François Delalande, os pontos defendidos por Thelen acerca da integração entre percepção e ação desde o início da vida, bem como acerca do caráter emergente e singular que cerca a transformação de complexidade própria ao viver de cada ser humano.

A repetição conduz as experiências para planos mais elaborados, sendo uma das formas de estabilização das condutas de produção sonora (e não só delas!). Ocorre, no entanto, que repetir um gesto quase idêntico num corpo sonoro provoca variações, posto que a conexão gesto/escuta transforma a percepção e também o produto sonoro que, pela intenção de escutar/produzir, ganha qualidade e se reelabora.

Acompanhando o comportamento musical das crianças durante a infância (nos planos da escuta, da exploração gestual de sons em materiais diversos, da repetição, da criação e do significado da interação com o

musical), constato a conexão corpo/mente, fazer/pensar, ainda que detectando ênfases em um ou outro aspecto, tal como salientou Delalande, em sintonia com colocações feitas por Thelen, conforme expus anteriormente.

Concluindo

Reconhecer e respeitar a produção musical infantil implica em reconhecer que a música é um sistema aberto e dinâmico e que as crianças elaboram e reelaboram dinamicamente suas ideias de música, em planos que consideram a emergência dos acontecimentos. Tais ideias abarcam as representações mentais acerca da questão, o modo como elas elaboram e lidam com os conceitos envolvidos, bem como, a prática e os significados conferidos ao fazer musical.

Significar o acontecimento musical da infância, assim como, o seu exercício expressivo nos planos da educação, implica em observar e respeitar o modo como as crianças percebem, escutam, exploram e produzem sons e músicas, assim como, a maneira como pensam acerca da experiência musical.

Cabe aos educadores favorecer o exercício expressivo e o desenvolvimento das condutas musicais, com atenção ao permanente e dinâmico movimento de transformação, considerando a singularidade de cada ser e de cada experiência, assim como, a emergência dos acontecimentos e o papel essencial dos ruídos no curso dos distintos processos, em seus muitos tempos de atualização e ganhos de complexidade.

Referências

BRITO, Maria Teresa Alencar de. Por uma educação musical do Pensamento: novas estratégias de comunicação. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica, PUC/SP, 2007

DELALANDE, François. La musique est un jeu d’enfants, Paris: INA, Buchet/Chastel, 1984. PIAGET, Jean e INHELDER, B. A psicologia da criança. SP: Difel, 1986.

THELEN, Esther e SMITH, Linda B. A dynamic systems approach to the development of cognition and action; 3o edition. Cambridge. The MIT Press (A Bradford Book), 1998.

TORRES, Vera Lucia Amaral. Cognição em diálogo: Vigotski e Thelen. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica. PUC/SP, 2000.