Sandra Orchard and Henning Hermjakob
7. MIAPE and the Proteomics
Não se importe de não ser alegre, também eu o não sou, ainda que pareça menos triste. Mas há em tudo um Limite. Sacuda de si esse mal. A arte é um
bom refúgio. Perdoa a banalidade do dito em favor da verdade eterna454.
(MACHADO DE ASSIS)
A língua é um espaço de contato entre sujeitos conscientes de si e do outro, movidos por um determinado propósito. Para Bakhtin (2002: 113), “a interação verbal é a realidade fundamental da linguagem” e todo enunciado é endereçado a um interlocutor, fisicamente presente ou não. A linguagem é por natureza dialógica, uma vez que convoca sempre dois sujeitos: o enunciador e seu interlocutor, cujas existências configuram-se em condição essencial à prática comunicativa. A interação verbal é o lugar no qual toda e qualquer linguagem é produzida e onde o sujeito é constituído socialmente.
Existe, portanto, uma relação de interdependência entre sujeito, sociedade e língua, pois o sujeito se consolida através de sua relação com o “outro”, numa constante relação de alteridade, construída e mediada essencialmente por meio da linguagem. Nesse contexto, o sujeito é marcado pelo ambiente sociocultural do qual participa enquanto membro e seu comportamento influencia e modifica, direta e constantemente, o meio ao qual pertence.
Segundo as teorias pragmáticas, a linguagem pode ser considerada uma forma de ação, pois cada ato de fala estaria relacionado às relações entre os sujeitos, ao papel que cada palavra desempenha em uma situação comunicativa. Esta concepção coloca em evidência o caráter interativo da linguagem, que por sua vez remonta à sua finalidade primordial que é a efetiva comunicação entre as pessoas.
Quando falamos em comunicação, obrigatoriamente pensamos em compreensão de enunciados. Sobre esse aspecto, Sperber & Wilson (1989) nos lembram que, durante o processo de comunicação verbal, o destinatário não tem diretamente acesso às ideias que o locutor quer comunicar, apenas aos sinais por ele emitidos. Ao produzir tais sinais (visuais ou acústicos), o locutor modifica o ambiente físico/acústico do destinatário. É a percepção desses sinais que vai permitir que o destinatário construa representações semelhantes às representações que o locutor quis lhe comunicar:
É verdade que uma língua é um código que associa representações fonéticas a representações semânticas. Mas a representação de uma frase está longe de coincidir com os pensamentos que podem ser comunicados ao se enunciar essa frase455.
(SPERBER & WILSON, 1989: 21)
Para os autores, comunicar é produzir e interpretar indícios e não transmitir
mensagens. Esta perspectiva conduz evidentemente a uma problematização do conceito de sentido, ao torná-lo dependente da interpretabilidade do enunciado. No ato da
comunicação, o enunciador produz sinais capazes de conduzir o interlocutor a associá-los à percepção de uma intenção comunicativa, baseando-se principalmente no que chamamos
critério de pertinência. Assim, o enunciador tem motivos para supor que seus sinais,
juntamente com o conhecimento prévio do destinatário, o conduzirão à interpretação desejada. Para tanto, ele busca adequar seu enunciado à suposta capacidade interpretativa do destinatário e ao seu universo cognitivo. Assim, antes mesmo de ser proferido, o enunciado é em parte determinado pela ideia que o enunciador faz de seu interlocutor. Tal conceito é de fundamental importância na análise do texto epistolar.
Cabe ao interlocutor — e no caso da correspondência, o destinatário — a tarefa de procurar identificar, durante o processo de interpretação, a intencionalidade do enunciador, a partir das informações obtidas. Ele deve estar consciente de que algumas hipóteses adquirem pertinência durante o ato comunicativo, enquanto outras vão sendo refutadas. Por tudo isso, é imprescindível entender que uma sentença é portadora de um significado estável, pois emana de sua estrutura proposicional, mas o sentido de um enunciado, ao contrário, possui uma relação bastante estreita com o contexto no qual é produzido, especialmente no caso das cartas familiares, alvo de nossa investigação. Como nos lembra Maingueneau (2001: 20):
Compreender um enunciado não é somente referir-se a uma gramática e a um dicionário, é mobilizar saberes muito diversos, fazer hipóteses, raciocinar, construindo um contexto que não é um dado preestabelecido e estável456.
Dizer, escrever, comunicar, enfim, implica transmitir informações sobre algo de que se fala, mas importa, sobretudo fazer. Trata-se, em um sentido mais amplo, de uma tentativa de agir sobre o interlocutor e sobre o mundo ao seu redor. Em uma perspectiva pragmática, ao valor que se encontra alojado no enunciado, dá-se o nome de valor
455 SPERBER, D. &, WILSON, D. La pertinence: Communication et cognition. Paris: Minuit, 1989. 456 MAINGUENEAU, Dominique. Análise de textos de comunicação. São Paulo: Cortez, 2001.
ilocutório (ou ilocucionário), que está mais intimamente relacionado à intenção de quem enuncia. Este valor equivale àquilo que o ato significa para aqueles que comunicam: um oferecimento, uma ordem, uma promessa, um pedido de desculpa, uma crítica etc. Chamamos, pois, de ato ilocutório, o ato de realizar uma ação através de um enunciado.
Mas para que o interlocutor possa entender perfeitamente a intenção do enunciador, ele deve colocar em prática a interpretação de informações que não são trazidas diretamente pelo enunciado, mas inferidas. Dessa forma, não se trata da mera compreensão de palavras, nem do significado individual que elas possuem, mas de hipóteses, de combinação de informações, de intenção comunicativa, de reconhecimento de posições sociais, de pertinência, de imagens de si (ethos) e do outro. Entram em jogo os elementos extralinguísticos, como o contexto de enunciação, o conhecimento prévio, os papéis sociais que os interlocutores exercem e tantos outros, que constituem parâmetros importantes para a interpretação dos enunciados.
Entretanto, é importante salientar que as “variações culturais afetam o funcionamento das interações e da realização dos atos de fala” (KERBRAT- ORECCHIONI, 2005: 200). Por conta desse fenômeno, é muito comum que os enunciados apresentem um certo grau de ambiguidade. Quando falta, ao interlocutor, algum dos parâmetros necessários à interpretação, é bem provável que o discurso possa ser mal compreendido, em função da ambiguidade presente em muitos enunciados. Nesse sentido, podemos dizer que há ambiguidade tanto no âmbito da frase (mais relacionada ao nível da língua, no qual importa o conteúdo) quanto no âmbito do enunciado (situada no contexto, nas inferências e nos propósitos). Há, portanto, situações em que a ambiguidade tende a se manter, apesar da contribuição dos fatores que interferem na interpretação.
Assim, a pragmática sustenta que o sentido é um modo de ação sobre o outro. O discurso não seria, portanto, apenas uma forma de ação, mas principalmente de interação. Todo discurso é uma construção coletiva, uma vez que a ideia que o locutor faz do destinatário orienta seu próprio dizer. A forma como se estabelece o discurso é, em parte, determinada por parâmetros referentes à relação social. Como afirma Kerbrat-Orecchioni (2001: 70), “o contexto interacional determina em uma larga medida quais são os atos permitidos ou proibidos a tal ou tal interagente”.
A partir destas considerações, fica mais clara a Teoria dos Atos da Fala, de John Austin457 e desenvolvida por John Searle458. A teoria confirma as primeiras análises por ele levantadas, ao afirmar que as palavras refletem uma maneira de agir, uma realização concreta. Tal perspectiva revela um novo olhar sobre a língua, vista agora como forma de ação e não apenas como uma simples representação da realidade.
Neste sentido, o contexto desempenha um papel fundamental no processo de produção/atribuição de sentido. De fato, o interesse dos estudiosos, antes seduzidos pela estrutura do enunciado, deslocou-se para outra direção, na tentativa de integrar ao estudo da comunicação verbal elementos pertencentes a outras dimensões, os quais orientam os sistemas de trocas e regulam o funcionamento das atividades sociais.
A análise dos atos discursivos passa a ser mais relacional, ou seja, ganham peso os aspectos funcionais, subjetivos e sociais, sejam eles conscientes ou não, que podem ser depreendidos do exercício da palavra. Incorpora-se, assim, aos estudos da linguagem a preocupação com certos aspectos da enunciação, tais como posições sociais, relações interpessoais, premissas culturais, motivações contextuais e pessoais, efeitos de sentido, processos de intervenção e interação na comunicação, possíveis negociações e estratégias discursivas, representação do ethos, conflitos e interesses dos interlocutores.
Com a necessidade de análise de tantos aspectos, admite-se a dificuldade, senão a impossibilidade, de determinar com alguma segurança o sentido de um enunciado sem fazer referência ao seu contexto de enunciação. Estudos acerca do contexto, nomeadamente no texto epistolar, podem fornecer ao leitor um apoio decisivo no que se refere ao cálculo interpretativo, ao vincular o enunciado a uma situação interlocutiva circunstanciada, restringindo dessa forma o espaço da ambiguidade.
Como dissemos, o ato ilocutório é uma estrutura linguística oral ou escrita dotada de determinada força. Servir-se da língua, em qualquer instância ou circunstância, é realizar uma ação ― enunciar é fazer. Realizar atos ilocutórios expressivos consiste em expressar estados psicológicos do locutor ou autor relativamente a uma situação ou estado de coisas, e ao interlocutor ou destinatário com o qual desempenha uma determinada função comunicativa.
A articulação do discurso no decorrer dos textos, sejam eles proferidos ou escritos pelos agentes da enunciação, revela uma reação e/ou intenção que em muito se aproxima
457 AUSTIN, John Langshaw. How to do things with words. Oxford: Clarendon Press. 1962. 458 SEARLE, John. Speech acts. Cambridge: Cambridge University Press, 1969.
de suas emoções particulares, exteriorizadas no momento do enunciado. Entretanto, cabe ressaltar que, em muitos casos, tal expressão pode estar relacionada também às convenções sociais do meio e não apenas na sinceridade de sentimentos e pensamentos. Esta afirmação fomenta a necessidade de investigação dos atos expressivos também sob a ótica de suas funções socialmente apreendidas e reproduzidas no discurso.
Seguindo os preceitos de Austin, Searle e, mais especificamente, no que se refere à análise do texto epistolar, os atos ilocutórios expressivos tendem a prevalecer sobre os demais, já que são bastante comuns neste género o uso de verbos como agradecer, congratular-se, desculpar-se, deplorar, dar as boas-vindas, exprimir condolências e saudar. Estudiosos mais recentes também têm dado suas contribuições ao tema (Norrick459 e Palrilha460) e mostraram que outras possibilidades também podem ser enquadradas na categoria dos atos expressivos, de forma que é possível identificar diversas outras situações que também encerram em si uma carga emotiva.
Assim, entendemos que a presença de tais atos nos textos epistolares compõe um painel extenso de variações e alternativas discursivas. Tendo como ponto de partida a análise da correspondência machadiana, elencamos algumas possibilidades de construção do “fazer ilocutório expressivo” e, para tanto, servimo-nos da recorrência de alguns elementos que ora destacamos:
a) verbos ilocutórios expressivos: adorar, agradecer, almejar, apresentar condolências, compadecer-se, conformar-se, congratular-se, dar as boas-vindas, deplorar, desculpar-se, desejar, elogiar, enaltecer, esperar, exaltar, felicitar, glorificar, gostar, lamentar, lastimar, odiar, perdoar, querer, queixar-se, saudar, vangloriar-se;
b) expressões verbais e adverbiais que criam universos de referência, expressando valores
e julgamentos: achar bem, achar mal, gostar muito, gostar pouco;
c) expressões exclamativas, frases ou não, com adjetivos valorativos, advérbios e verbos
experenciais, expressivos ou afetivos.
Para que pudéssemos proceder a uma investigação satisfatória das missivas machadianas, tornou-se imprescindível à nossa análise a apreensão destes conceitos, uma vez que comprovamos nas cartas do autor a recorrência dos atos expressivos. Machado faz
459 NORRICK, Neal R. Expressive illocutionary acts. In Journal of Pragmatics, Volume 2, Issue 3, pp. 277-
291, 1978.
460 PALRILHA, Silvéria Maria Ramos. Contributos para a análise dos actos ilocutórios expressivos em
um uso interessante destes atos ilocutórios, principalmente se pensarmos que o teor de suas correspondências poucas vezes reflete um comportamento confessional ou uma postura autobiográfica. Esta peculiaridade da construção epistolar estabelecida por Machado461 e as particularidades do autor no âmbito pragmático tornam sua epistolografia uma excelente opção para o estudo que ora propomos acerca da correspondência. Somam-se a esta análise dos aspectos retórico-discursivos das cartas, uma reflexiva interpretação das missivas, o que proporciona um campo bastante fértil de trabalho, e que auxilia, inclusive, a mapear uma nova gama de atos ilocutórios expressivos. No referido processo de investigação, listamos a ocorrência de alguns atos expressivos nas formas já cristalizadas pelos estudiosos e incluímos outros, que julgamos conter os mesmos requisitos necessários à expressividade do autor na situação comunicativa epistolar. São eles:
a) Pedir desculpa, desculpar-se por algo (ou apresentar informalmente uma desculpa a alguém): Segundo Palrilha (2009: 35), o ato de pedir desculpa “consiste na expressão de
arrependimento por um comportamento negativo, da responsabilidade do falante”. De acordo com as definições de Seara (2006: 241), ao produzir um pedido de desculpas, o locutor está realizando um ato expressivo, “cujo objectivo ilocutório é dar a conhecer ao seu interlocutor que violou determinada norma social e que se considera, pelo menos parcialmente culpado de ter ocasionado essa violação462”. Ainda segundo a autora, o pedido de desculpas reforça a face positiva do interlocutor e constitui-se como um ato imprescindível na manutenção das boas relações interpessoais. Optamos por incluir a este grupo os atos que expressam uma “isenção de responsabilidade” do falante em relação a um fato ou acontecimento. Em geral, na correspondência machadiana, este ato ocorre de maneira indireta, menos formal (sem o uso da expressão “desculpe-me por” ou afins), uma vez que suas justificativas, por inúmeras razões, eram bastante comuns:
Desculpe-me se concluo esta carta mais depressa do que quisera, mas cá me chama a tarefa do dia, e eu não quero perder o paquete. Seria demorar demais463.
Estimo muito e muito as tuas melhoras, e sinto deveras não ter podido ir ver-te antes da tua partida para a Tijuca464.
461 Discutiremos a questão do projeto pessoal epistolar de Machado de Assis no capítulo 5 desta dissertação. 462 SEARA, Isabel Roboredo. Da epístola à mensagem eletrónica, metamorfoses das rotinas verbais. Tese de
doutoramento em linguística. Lisboa: Universidade Aberta, 2006.
463 Carta de Machado a Magalhães de Azeredo, escrita em 03 de junho de 1899. In: ACT III-11 p. 375. 464 Carta de Machado a Francisco Ramos Paz, escrita em 19 de novembro de 1869. In: ACT I-08 p. 272.
Escrevo-te à pressa, à última hora, e por isso me dispensarás se te não digo uma série de coisas que há sempre que dizer entre bons amigos que se não falam há muito465.
Adeus, meu querido Mário; não digo mais por não poder cansar a cabeça e a vista466.
Caro e bom amigo. Esta carta devia ser imediata à sua, mas tais são aqui os meus trabalhos que não cumpri logo essa obrigação, aliás deleitosa, uma vez que é falar-lhe, ainda que de longe467.
Uma antedata salva tudo, mas nem a consciência nem o Graça Aranha deixariam mentir, e eu prefiro confessar a minha triste memória de velho. Pois não é que deixei passar o dia 8 de abril, sem lá mandar duas linhas de saudação, ou dar um pulo à Revista? Foi o Graça que me lembrou hoje aquele dia, e aqui lhe mando as saudações da amizade468.
b) Agradecer (expressar sentimento de gratidão ou reconhecimento a alguém):
Segundo a definição de Palrilha (2009: 39), o ato de agradecer “consiste na expressão de um estado psicológico de gratidão por alguma ação realizada pelo interlocutor, no sentido de beneficiar o falante”. A pesquisadora Seara (2006: 240) evoca, neste conceito, o sentimento de reação frente a um comportamento de seu correspondente: “o agradecimento é um acto expressivo reactivo que é determinado por um acto previamente efectuado pelo interlocutor. O acto de agradecimento restabelece o equilíbrio na relação custo-benefício entre os interlocutores469”. Em sua epistolografia, Machado faz uso deste ato expressivo inúmeras vezes, principalmente quando deseja demonstrar a importância dos gestos de carinho e amizade recebidos de seus amigos:
Agradeço-te outra vez a recomendação que de mim fizeste ao Afonso470.
Agradeço-te as felicitações pelo meu casamento471.
Agradeço-lhe de coração as suas palavras, ao mesmo tempo que me desvaneço de as ler tão cálidas e espontâneas472.
Antes de mais nada deixe-me agradecer-lhe a confiança que depositou em mim. Qualquer que fosse o objeto, devia agradecer-lha; tratando-se porém de seu futuro, como me disse, lisonjeou-me muito mais a escolha que fez de mim473.
Quero agradecer-lhe a impressão que me deixaram estas suas páginas de pensamentos e recordações474.
465 Carta de Machado a Salvador de Mendonça, escrita em 08 de outubro de 1877. In: ACT II-09 p. 135 466 Carta de Machado a Mário de Alencar, escrita em 12 de julho de 1908. In: AEO-09 p. 103.
467 Carta de Machado a Magalhães de Azeredo, escrita em 14 de janeiro de 1894. In: ACT III-11 p. 33. 468 Carta de Machado a José Veríssimo, escrita em 10 de abril de 1899. In: ACT III-11 p. 370.
469 SEARA, Isabel Roboredo. op. cit., p. 240.
470 Carta de Machado a Quintino Bocaiúva, escrita em 29 de outubro de 1866. In: ACT I-08 p. 169. 471 Carta de Machado a Francisco Ramos Paz, escrita em 19 de novembro de 1869. In: ACT I-08 p. 272. 472 Carta de Machado a Sílvio Dinarte, escrita em 07 de outubro de 1886. In: ACT II-09 p. 322.
473 Carta de Machado a Lúcio de Mendonça, escrita em 16 de abril de 1873. In: ACT II-09 p. 85. 474 Carta de Machado a Joaquim Nabuco, escrita em 19 de agosto de 1906. In: AOC-86 p. 939.
Recebe apertado abraço pelas boas palavras que disseste hoje de mim. A mão que me fez entrar para essa casa há sete anos é a mesma que tão lealmente me dá o adeus da despedida. São coisas que não se esquecem475.
c) Congratular-se, elogiar, enaltecer, glorificar, exaltar e felicitar (expressar louvor, grandiosidade, qualidade): O ato de congratular-se engloba uma série de situações que,
na língua portuguesa, preenchem os requisitos necessários a identificações similares. Para Palrilha (2009: 41), “o ato de congratulação consiste na expressão de satisfação pelo desfecho de uma situação e realiza-se através da felicitação do outro”. A correspondência configura-se, portanto, como o espaço ideal para a expressão desta situação enunciativa, uma vez que a polidez e a cortesia são elementos fundamentais a este tipo de comunicação e estão presentes em qualquer discurso epistolar:
Felicito-te pelo casamento do Mário, que conheci tão menino. A ele e a sua jovem esposa darás da parte de minha senhora e da minha, iguais felicitações476.
Tal ato pode ser observado constantemente nas cartas de Machado, em especial naquelas em que felicita os amigos literatos por seus textos, livros e demais investidas no campo das Letras. Não devemos ignorar também que o autor era um grande incentivador dos novos talentos, o que intensifica, ainda mais, a presença dos elogios e felicitações em sua correspondência pessoal:
Quero ler seu estudo sobre a Itália, as novelas, as poesias recentes. Uma destas apareceu agora na Revista Brasileira que só se distribuiu ontem à tarde; é bonita e elevada, como aliás costumam ser os seus versos; estes pertencem naturalmente ao prelúdio do seu consórcio. O metro corresponde bem ao sentimento, o verso é artístico477.
Deixe-me apertar-lhe as mãos pelas Procelárias, excelente volume, que será recebido como merece478.
Meu querido amigo, não escolho papel para lhe mandar o meu abraço de parabéns. Não me pergunte se merece tantas fortunas; é certo que sim, e não continuo este capítulo para não vexá-lo479.
[...] as questões inglesas [...] são pouco familiares neste país; e fazer com que todos as acompanhem com interesse, não era fácil, e foi o que Você alcançou. Sua reflexão política, seu espírito adiantado e moderado, além do estilo e do conhecimento das coisas dão muito peso a esses escritos480.
475 Carta de Machado a Quintino Bocaiúva, escrita em 09 de abril de 1867. In: ACT I-08 p. 68.
476 Carta de Machado a Salvador de Mendonça, escrita em 22 de setembro de 1895. In: ACT III-11 p. 115. 477 Carta de Machado a Magalhães de Azeredo, escrita em 17 de novembro de 1896. In: ACT III-11 p. 187. 478 Carta de Machado a Magalhães de Azeredo, escrita em 09 de setembro de 1898. In: ACT III-11 p. 320. 479 Carta de Machado a Magalhães de Azeredo, escrita em 10 de janeiro de 1898. In: ACT III-11 p. 286. 480 Carta de Machado a Joaquim Nabuco, escrita em 14 de abril de 1883. In: ACT II-09 p. 250.
d) Deplorar, censurar, criticar, lamentar, lastimar, queixar-se (expressar pena, lástima, reprovação, indignação ou outros sentimentos que interferem, direta ou indiretamente, no comportamento do interlocutor): O uso destes verbos é relativamente
comum na linguagem, especialmente em situações de interação comunicativa, onde existe