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METHODOLOGIE

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Ao longo da análise, refletimos sobre o trabalho dos Microrroteiros da Cidade em termos de suas dinâmicas micropolíticas, assim como algumas de suas relações com aspectos de macro contexto. Nesse item, vamos enfocar nas características dos microrroteiros enquanto construção em rede e potência móvel.

Como fora mencionado anteriormente, a ideia de uma construção em rede já pôde ser identificada, cada uma a seu modo e contexto, nos trabalhos de Hélio Oiticica, Paulo Bruscky e Ricardo Basbaum. No caso dos microrroteiros, esse pensamento interligado se caracteriza por um modo de uso dos meios de comunicação na prática artística e também por uma aproximação das esferas arte e vida no nível do intersubjetivo. Lembrando que o trabalho não se constitui como rede pelo fato de circular pela internet, mas pelo seu caráter fragmentário de narrativas do qual podem, como destaca Nicolas Bourriaud (2009), ser projetados outros enredos e itinerários possíveis. Como afirma o autor, em grande parte das práticas contemporâneas de arte a ideia não está centrada no: “o que fazer de novidade?”, mas sim em como “elaborar sentidos a partir dessa massa caótica de objetos, de nomes próprios e de referências que constituem nosso cotidiano?” (BOURRIAUD, 2009, p. 13).

Dessa maneira, ao considerarmos os modos pelos quais Laura Guimarães se utiliza do meio de comunicação internet, temos que refletir sobre seu circuito a partir de dois movimentos principais: tanto o movimento de tradução da codificação da plataforma do Twitter para a linguagem do seu trabalho e de suas colagens, quanto o movimento de retorno dos microrroteiros, principalmente por meio do registro fotográfico, para circulação nas redes sociais, e assim por diante. Nessa dinâmica de retorno, podemos considerar que, diferentemente dos poetas concretos que utilizavam a linguagem do computador e do videotexto diretamente como linguagem artística para a composição de suas visualidades135, as redes sociais se caracterizam hoje mais como um modo de compartilhamento, exposição e memória das práticas e materializações do trabalho.

O conjunto de dinâmicas do mapa de trânsitos dos microrroteiros traduz certa aproximação com a ideia de potência móvel trabalhada por Robert Smithson em Spiral Jetty, com as fotomontagens de Matta-Clark e com a documentação das ações efêmeras do Grupo 3nós3, caracterizando essas materializações como parte integrante da obra. Por sua vez, no caso do trabalho de Laura Guimarães, o próprio lugar de enunciação dos microrroteiros é construído de modo desterritorializado e descolecionado. O gesto poético é híbrido, pois nunca está plenamente onde se procura: não é roteiro, nem arte digital, nem somente arte urbana, etc. Nesses trânsitos, a noção de objeto escorrega e o trabalho vai sendo construído de modo tensionado e negociado por meio de “compartilhamentos via web – compartilhamentos

135“A poesia concreta colocou em jogo formas de experiência que alargam os parâmetros de discussão do âmbito

literário A expressão joyceana vebivocovisual, sintetizou a experimentação de dimensões semânticas, sonoras e visuais de poemas, permanecendo ao longo de mais de cinco décadas no horizonte de produção desses poetas, que se desdobrou em diversos suportes e meios técnicos, tais como: livros, revistas, jornais, cartazes, objetos, LPs, CDs, vidoetextos, holografias, vídeos, internet” (POESIA, 2008, p. 9).

via colagem” como um jogo de vai e vem que se retroalimenta e caracteriza o processo dos microrroteiros.

Como afirma Krauss, a partir da lógica do campo ampliado, a práxis não é definida em relação a um determinado meio de expressão, mas em relação a “operações lógicas dentro de um conjunto de termos culturais para o qual vários meios – fotografia, livros, linhas em parede, espelhos ou escultura propriamente dita – possam ser usados” (KRAUSS, 1989, p. 136). Para a autora, o campo estabelece um conjunto ampliado, porém finito, de uma organização de trabalho que não é prescrita pelas condições de determinado meio de expressão.

Por isso, ao longo dessas imagens que transitam de maneira variável entre diferentes mídias, o trabalho dos microrroteiros se constitui a partir de um conjunto de desdobramentos que possuem diferentes autores(as) e representações no sistema. Pode-se dizer que, em seu processo de circulação social, a fronteira do que ou de quem o constrói é borrada, pois sua construção depende tanto da artista quanto do contexto da cidade, dos relatos de terceiros(as), dos compartilhamentos e apropriações que outras pessoas fazem dos microrroteiros, dentre outros fatores de produção, circulação e consumo que se materializam em sua codificação técnica e, consequentemente, em suas visualidades.

6 CONSIDERAÇÕES POSSÍVEIS

Dentre algumas das considerações possíveis, destacamos como os processos de descoleção e desterritorialização, problematizados por García-Canclini, podem ser observados nos complexos cruzamentos entre as manifestações, encaradas como tipicamente de rua – como o grafite, o estêncil, o lambe-lambe – se articulando com as manifestações e instituições artísticas já legitimadas. Nessas dinâmicas, o posicionamento político do projeto dos Microrroteiros da Cidade se caracteriza por uma complexa, e paradoxal, intersecção entre os rastros de arte de rua e os rastros de uma arte contemporânea, apresentando, simultaneamente, um caráter marginal e institucionalizado, relacionando-se com organizações de natureza pública e privada e participando de suas diretrizes de políticas públicas.

Essas relações, muitas vezes controversas, apontam para o caráter indispensável de se pensar as práticas artísticas não como criações de uma dimensão paralela, mas como práticas políticas sempre inseridas nos meios de produção, circulação e consumo, ou seja, respondendo a demandas e reinvindicações de uma sociedade situada em um contexto histórico específico. No caso dos microrroteiros, devemos pensar esse fomento de leitura, imaginação e criação de laços de intersubjetividade por meio da materialidade da cidade, tendo em vista a coexistência de interesses das instituições que visam subsidiar tais práticas. Diferentes agentes participam do movimento de valorização de concepções estéticas, motivados por questões diversas, como interesses econômicos, nacionalistas, valores religiosos, entre outros. No momento em que essas intenções são problematizadas e se tornam mais claras, torna-se mais possível a construção e mobilização de tensionamento e negociação das ações micropolíticas em conjunto com seu macro contexto, como apontado nos casos da ocupação do Largo da Batata e da região da Luz.

Nesse âmbito micropolítico do trabalho artístico das décadas recentes, com seus coletivos e projetos de intervenção em processos de co-construção com a cidade, também devemos considerar a recorrência de um perfil de artistas que busca criar diálogos com outros artistas e com habitantes e transeuntes locais por meio de suas propostas. Tanto as práticas artísticas de Laura Guimarães, quanto as práticas de outros coletivos mencionados ao longo do trabalho, demonstram uma preocupação com a construção dessa comunicação. Para Newton Goto (2010, p. 14), é a partir da conversa que se inscreve uma “linguagem da arte, um lugar para a arte, um circuito de arte, uma política cultural para a arte, uma história da arte, uma economia da arte, uma coletividade de artistas (ou tudo isso no plural)”.

Observando as características e processos dessas práticas, podemos encará-las, em partes, como certa reserva utópica de proposições das neovanguardas da metade do século XX. Hal Foster (2014, p. 48) comenta que “a temporalidade e a textualidade são as duplas obsessões das neovanguardas”, não apenas na introdução do tempo no texto nas artes espaciais e visuais, como fora comentado sobre a visualidade da Poesia Concreta, mas também na elaboração teórica da temporalidade museológica e da intertextualidade cultural identificadas. No trabalho dos Microrroteiros da Cidade, identificamos rastros de uma mediação artística trabalhada a partir da problematização da instituição arte e das ideias de participação, rede, circuito, registro, desenvolvidos nos trabalhos de Lygia Clark, Hélio Oiticica, Cildo Meireles, entre outros – não como uma evolução, mas como essa reserva utópica trabalhada em outro contexto histórico.

A partir da dinâmica da prática dos microrroteiros nesse campo ampliado, se faz possível compreender como a dimensão tecnológica se constitui em um fator fundamental na conjuntura de seus desdobramentos, de suas descoleções e coleções, desterritorializações e reterritorializações. Através desses processos, podemos discutir como as práticas artísticas e a cidade real de Argan se co-constroem de modo negociado e tensionado, materializando suas diversas mediações valorativas por meio de seus códigos técnicos. Valores esses que estão nos imaginários das relações interpessoais tanto presenciais quanto via web, pois os compartilhamentos de opiniões e posicionamentos políticos que se constituem nesses meios também compõem as complexas e contraditórias configurações da urbe e seus significados sociais.

Para García-Canclini (2013), esses processos urbanos de decomposição das categorias modernas clássicas, que complexificaram cada vez mais as relações entre o culto, o popular e o massivo, não devem ser encaradas com tom de lamentação, pois elas, isoladamente, constituíam meios de promoção de desigualdades sociais. Contudo, o autor destaca a necessidade de se pensar se essa descontinuidade extrema, e

a diminuição de oportunidades para compreender as reelaborações dos significados subsistentes de algumas tradições para intervir em sua transformação, não reforça o poder inconsulto dos que realmente continuam preocupados em entender e dirigir as grandes redes de objetos e sentidos: as transnacionais e os Estados (GARCÍA- CANCLINI, 2013, p. 307).

Como pontua Martín-Barbero em relação ao aspecto fragmentário dos territórios- cidade e esse momento de intensa descaracterização da política tradicional, levanta-se a necessidade de problematizar as visões que depositam na internet e nas novas tecnologias de informação a crença de que seus espaços digitais, e sua aparente fluidez, se configuram em

instâncias democráticas, horizontais, livres da ação e dos interesses do capital e dos governos em pequena e grande escala. A potência de mobilização desses meios não ocorre de maneira neutra e não deve ser encarada de modo alienado a outros processos, pois demanda a aderência e manutenção de certos dispositivos tecnológicos e serviços de rede, por meio de smartphones, tablets, dentre outros, comumente produzidos por empresas de porte transnacional; assim como demanda a inserção em determinadas redes sociais de uso massivo, como Twitter, Facebook, Instagram, cujo lucro das empresas fundadoras ultrapassa a casa dos bilhões. Além da questão financeira, as redes de compartilhamento também propulsionam um maior fluxo de publicidade e de exposição pública de informações pessoais sobre os usuários – seus interesses, pensamentos e gostos – facilitando a criação de novos nichos mercadológicos e, consequentemente, da retroalimentação do sistema.

É importante frisar que com essas considerações, não negamos as potencialidades conversacionais, de discussão e mobilização que essas plataformas digitais geram, contudo, é fundamental que elas também sejam pensadas a partir de seus posicionamentos políticos e econômicos, reconhecendo seu caráter paradoxal, a fim de que alternativas possam ser geradas. Laura Guimarães desterritorializa essa prática digital ao traduzir o tweet em microrroteiro e devolvê-lo ao espaço público da cidade, contudo é notável a sua necessidade de manutenção e uso das plataformas digitais como uma resposta às demandas sociais do público que a acompanha. Ao mesmo tempo, é significativa a sua prática de utilizar as plataformas como um modo de expor seu processo de trabalho e os processos de construção dos microrroteiros com outras(os) artistas, de modo que a relação de Laura com as redes sociais acaba se construindo a partir de uma mistura de pressões sociais e da possibilidade de expor, circular e registrar o seu processo de trabalho.

Apesar dessas pressões, é notável que os outros projetos mencionados, que também fazem uso da tecnologia do lambe e se encontram no circuito internet-rua, pensam e trabalham a noção de autoria de modo distinto dos microrroteiros. Através da análise das espacializações de composição interna do plano visual, de composição de plano avançado e de composição do espaço fotográfico, foi possível perceber como trabalhos de arte, aparentemente similares, podem apresentar diferentes modos de lidar com aspectos de participação e de co-autoria.

Em relação à problematização sobre arte e tecnologia, é importante ressaltar que apesar da questão artística não fazer parte do repertório de discussão da Teoria Crítica da Tecnologia de Andrew Feenberg, podemos pensar a suas proposições sobre códigos e objetos técnicos de modo ampliado. A partir da releitura feita pelo autor sobre as reflexões de

Marcuse a respeito de arte e tecnologia, em conjunto com os conceitos de desterritorialização e descoleção e seus processos de hibridação trabalhados por García-Canclini, a dinâmica dos territórios-cidade e seus meios comunicacionais abordados por Martín-Barbero, assim como outras questões sobre arte e política, foi possível refletir sobre os Microrroteiros da Cidade sob diversos pontos de vista. Ao considerarmos os objetos técnicos como materializações das dimensões dos significados sociais e do horizonte cultural de determinado contexto, relacionamos as dimensões técnico-estéticas dos microrroteiros e de seus registros fotográficos com o modo pelo qual a proposta de Laura Guimarães problematiza questões de autoria, de produção coletiva e de apropriação do espaço público.

Compreendemos a necessidade de desenvolver uma reflexão interdisciplinar na qual as dimensões tecnológicas e artísticas não sejam interpretadas de modo alienado, mas pensadas em conjunto, em uma perspectiva coexistencial e correlacionada, como considerou Marcuse. Tendo em vista essa abordagem multidimensional, podemos pensar como a prática dos Microrroteiros da Cidade, assim como práticas artísticas similares, ao serem compreendidas no contexto material da cidade de São Paulo, possibilitam uma análise mais detalhada da própria cidade e de seus meios comunicacionais, contribuindo para a negociação cotidiana de aspectos econômicos e sociais.

Por fim, destacamos que um dos aspectos mais interessante ao trabalhar com a Teoria de Andrew Feenberg foi a possibilidade de utilizá-lo para temas que não foram abordados pelas reflexões do autor e para períodos e contextos, como o Latino-Americano, que não foram historicamente os mais importantes para ele. Ao nos apropriarmos de seus conceitos, tentamos articular suas perspectivas e a ideia de um pensamento relacional, refutando uma projeção universal de categorias historicamente definidas. Desse modo, a partir da análise dos microrroteiros, consideramos que a Teoria Crítica da Tecnologia pode trazer contribuições para pesquisas no campo de estudos de Ciência, Tecnologia e Sociedade relacionadas a práticas artísticas por meio de outro tipo de olhar para as experiências múltiplas vividas na cidade.

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