Inicio esta pesquisa a partir da releitura que Fernando de Azevedo faz em 1958 do “Manifesto ao Povo e ao Governo” de Anísio Teixeira, que assina conjuntamente com outros 25 educadores em 1932:
Estas palavras, que não perderam sua atualidade, mostram que o Manifesto ainda é e permanecerá um documento vivo e atual, enquanto a nação continuar “perplexa entre as ruínas de um passado e um futuro para o qual não se atreve a caminhar” (Azevedo, 1958)27
Portanto é a partir da segunda metade do século XX, com o inicio da proliferação do sistema de regime democrático nos países ocidentais em desenvolvimento, que se dá a disseminação do conhecimento nas classes menos favorecidas. Pode-se agregar a este fato outros importantes acontecimentos que geraram pressão sobre os governantes, dentre eles:
• O crescimento do parque industrial, cultural e de serviços nos centros urbanos destes países se dá de maneira rápida, desordenada e concentrada;
• O rápido crescimento dos centros urbanos das principais cidades e o surgimento, de maneira desordenada e sem infra-estrutura, das chamadas
periferias28;
27 Azevedo F. de, A educação entre dois mundos: problemas, perspectivas e orientações, 1958, p.57, grifo do autor.
28 Entendo a palavra Periferia como sendo o local que apresenta grande número de moradias simples e pequenos comércios, às vezes de madeira ou alvenaria sem acabamento, e que dispõem de maneira precária da oferta de serviços de saúde, transporte, limpeza, educação, rede da água / esgoto e luz etc., onde moram pessoas de “baixa renda” ou de pequeno poder aquisitivo (minha definição). Dic. Michaelis (eletrônico) s. f. 1. Geom. Contorno de uma figura curvilínea. 2. Circunferência. 3. Superfície de um sólido. 4. Numa cidade, os bairros mais afastados do centro urbano.
• A expansão da classe trabalhadora proletária e autônoma, além da criação de uma classe intermediária, entre os trabalhadores e os patrões burgueses, isto é, a ascensão e ampliação dos domínios da classe média;
• A identificação das novas necessidades inerentes aos centros urbanos, agregadas às novas exigências propiciadas pela evolução do parque industrial;
• A demanda e pressão popular pela democratização do acesso ao ensino.
Os fatos apontados acima foram capazes de causar uma enorme pressão popular e fizeram com que as classes dirigentes e patronais se vissem obrigadas a aceitar o compromisso de democratização e de universalização da informação, do saber e do acesso. Paulo Freire em “Educação e Mudança” nos recorda que:
O povo se encontrava na fase anterior de isolamento da nossa sociedade, imerso no processo. Com a ruptura da sociedade e sua entrada em transição, emerge. Imerso era apenas espectador do processo; emergindo, descruza os braços, renuncia a ser simples espectador e exige participação. Já não se satisfaz em assistir; quer participar; quer decidir. Não tendo um passado de experiências decisivas, dialogais, o povo emerge, inteiramente “ingênuo” e desorganizado. E quanto mais pretende participar, ainda que ingenuamente, mais se agrupam as forças reacionárias que se sentem ameaçadas em seus princípios. Por isso, esta educação ao significar um esforço para chegar ao homem-sujeito enfrentava, como uma ameaça, os setores privilegiados. Para o irracionalismo sectário, a humanização representava um perigo. (Freire, 1979)29
Neste processo a escola pública passa a desempenhar um papel fundamental, principalmente para os filhos dos trabalhadores da classe média e para grupos mais humildes da população, que só terão condição de acesso ao saber sistematizado através da ampliação e disseminação dos serviços públicos ofertados pelo Estado.
Desta maneira, com o passar dos anos a concepção de escola tradicional 30 existente no passado começa a ruir graças a diferentes contribuições científicas, como as da Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem; da Neurologia; da Epistemologia Genética; da Pedagogia Moderna e do Sócio Construtivismo, que discutiram em seus trabalhos e pesquisas que a aprendizagem das crianças tem características próprias e de forma distinta dos adultos, e que o processo de aprendizagem é progressivo e cumulativo, nem sempre ocorrendo de forma linear, mas sim por saltos e em ciclos. (Silva, 2001)31
Assim, ao modelo de relação pedagógica autoritária, elitista e excludente (escola tradicional) até então existente irá contrapor-se um radicalmente novo, onde o ser que aprende - o aluno -, passará a ser o centro do processo de aprendizagem.
Este novo modelo deverá estimular o aluno à participação, atividade construtiva, pesquisa, comportamento e posicionamento crítico, pois educação é o conjunto de estratégias desenvolvidas pela sociedade que tem a finalidade de possibilitar, a cada indivíduo, atingir seu potencial criativo, estimulando e facilitando a ação comum com o intuito de viver em sociedade e de exercer a cidadania. (D’Ambrósio, 1999)32
Como é sabido, diversos pensadores, teóricos e educadores contribuíram para a construção deste novo modelo educacional. Vale lembrar aqui: Montessori, Piaget, Vygostsky, Wallon, Anísio Teixeira, Ana Maria Popovich, Paulo Freire, Emília Ferreiro, dentre tantos outros.
Alguns destes pesquisadores, por sua vez, propõem uma escola democrática marcada por relações pedagógicas de inclusão, troca, respeito e estimulação; o aluno deve ser respeitado e suas características bio-psico-sociais consideradas no processo de planejamento, desenvolvimento e avaliação do projeto de ensino.
30 A palavra tradição vem do latim: traditio. O verbo é tradire, e significa precipuamente entregar, designa o ato de passar algo para outra pessoa, ou de passar de uma geração para a outra geração. Em segundo lugar, os dicionaristas referem à relação do verbo tradire com o conhecimento oral e escrito. Isto quer dizer que, através da tradição, algo é dito e o dito é entregue de geração a geração. Bornheim, Gerd A., Conceito de tradição in Cultura brasileira: tradição/contradição, 1987, p.18.
31 Silva, Tereza Roserley Neubauer da: Quem tem medo da progressão continuada? Ou melhor, a quem
interessa o sistema de reprovação e exclusão social?, 2000, p. 11 – 18.
32 D’Ambrósio, U., A História da Matemática: questões historiográficas..., em Bicudo, M.A.V., Pesquisa
Ao professor é atribuído o importante papel de mediador e facilitador do processo de aprendizagem, isto é, o de criar as condições necessárias e adequadas de exposição e apropriação do conhecimento pelos alunos. (Silva, 2001)33
Certamente estas novas atribuições implicarão maior responsabilidade, dentre elas, zelar e garantir a aprendizagem do educando. Logo, a função do professor, que era apenas de ensinar, será agora a de levar o aluno a aprender e a participar efetivamente do processo de ensino-aprendizagem. (Silva, 2001)34
Vários tipos de relação são possíveis de se construir dentro de um sistema de ensino que tenha como objetivo melhorar a relação ensino-aprendizagem.
Atribuir como princípio fundamental destas relações que os parceiros sejam tratados de maneira equânime é visto por Paulo Freire ao discutir a relação professor - alunos em conexão com que chamou de “pedagogia emancipadora”:
Através do diálogo, o professor–dos–estudantes e os estudantes-do-professor se desfazem e um novo termo emerge; professor–estudante com estudantes- professores. O professor não é mais meramente o “o-que-ensina”, mas alguém a quem também se ensina no diálogo com os estudantes, os quais, por sua vez, enquanto estão ensinando, também aprendem. Eles se tornam conjuntamente responsáveis por um processo no qual todos crescem. (Freire, 1972)35
Com o passar do tempo, vários países (Rússia, França etc.) se dão conta da necessidade urgente de adotar um novo modelo de educação e mudar radicalmente a cultura da escola. Rompem com o modelo anterior e adotam o sistema de ciclos da aprendizagem para melhor assegurar a permanência com sucesso das crianças na escola e a formação de cidadãos críticos e criativos.
Esta mudança tem algumas premissas básicas fundamentadas nas ciências modernas. São elas:
• O ser humano é singular, desde o início de sua vida apresenta ritmos e estilos significativamente diferentes para realizar toda e qualquer
33 Silva, Tereza Roserley Neubauer da: Quem tem medo da progressão continuada? Ou melhor, a quem
interessa o sistema de reprovação e exclusão social?, 2000, p. 11 – 18.
34 Silva, Tereza Roserley Neubauer da: Quem tem medo da progressão continuada? Ou melhor, a quem
interessa o sistema de reprovação e exclusão social?, 2000, p. 11 – 18.. 35 Freire, P., Pedagogia da Autonomia, p. 53
aprendizagem - andar, falar, brincar, comer com autonomia, ler, escrever, relacionar-se, analisar, interpretar, etc.; (Silva, 2001)36
• Toda aprendizagem, inclusive a cognitiva, é um processo contínuo, que ocorre em progressão e não pode nem deve ser interrompida ou sofrer retrocessos ao longo do percurso; (Silva, 2001)37
• Padrões de aprendizagens cognitivas desenvolvidas pela escola podem ocorrer com maior ou menor grau de intensidade em função das características e estimulação desenvolvidas dentro dos ambientes sociais de onde seus alunos provêm; (Silva, 2001)38
• Nos anos iniciais de escolaridade, o desempenho cognitivo e acadêmico de crianças e jovens de diferentes classes sociais atinge patamares médios bastante semelhantes, se forem respeitados as dificuldades e obstáculos iniciais dos alunos e garantida a aprendizagem continuada com reforço, orientação e processos paralelos de acompanhamento para aqueles que ao longo do ciclo apresentem maiores dificuldades na relação ensino-aprendizagem. (Silva, 2001)39