Na atualidade, a atuação das fotojornalistas está intimamente relacionada ao domínio sobre os equipamentos fotográficos, dos sistemas de tratamento e envio de imagens, assim como outros conhecimentos já discutidos anteriormente. As tecnologias envolvidas neste processo avançam de forma rápida, visto que profissionais ativas, pertencentes às faixas etárias de 36 a 49 anos e de 50 a 60 anos, puderam acompanhar a mudança de suporte fotográfico, com a introdução de câmeras digitais nas redações, a assimilação do uso de programas de tratamento de imagens em substituição aos laboratórios fotográficos, o aperfeiçoamento dos recursos para produção de imagens, entre outros exemplos.
A evolução tecnológica possibilitou ao/à fotojornalista obter maior controle sobre o seu trabalho, à medida que todo o processo desde a captura, seleção e tratamento estão concentrados na figura do fotógrafo, como relata a entrevistada Maria, 51 anos:
A tecnologia foi boa porque ela deu mais controle para o fotógrafo. Antigamente você fotografava, pegava o filme, entregava, aí o cara revelava, o cara que escaneava, o cara que tratava, o cara que cortava, o cara que tudo. Agora, não. Agora posso eu mandar já no meu corte e no meu tratamento, e agora o máximo que eles fazem é adequar ali para os parâmetros do jornal, ali da gráfica.
A abertura possibilitou aos fotojornalistas conquistar um papel mais ativo junto à sua produção, ao mesmo tempo em que demandou que os/as profissionais dominassem novos programas de tratamento de imagens, trabalho antes dividido com o laboratorista. A autonomia é vista de maneira positiva pelas entrevistadas de modo geral, pois o maior controle sobre o trabalho faz com que elas se identifiquem mais com as suas produções. Entretanto, a adesão à ideologia propalada de profissional polivalente causa também o acúmulo de trabalho antes dividido entre uma equipe de suporte. Além disso, ainda se faz necessário despender mais tempo para estudar e manejar programas de tratamento de imagem, sempre em evolução, pois o fotógrafo é cobrado pela entrega da imagem pronta para publicação, capturada e processada em tempo recorde, para ser divulgada rapidamente no imprenso diário ou alimentar os portais noticiosos. A maior carga de tempo exigida de dedicação dos/as fotógrafos/as em relação à aglutinação de todo processo para produção de imagens, visto como parte da sua qualidade profissional, os/as sobrecarrega com uma carga maior de trabalho não remunerada. A sobrecarga de trabalho é ainda pior para as mulheres que já se encontram culturalmente incumbidas de acumular as obrigações das esferas produtiva e simbólica, e o exercício das disposições da profissão requer uma dedicação que as afasta do âmbito doméstico, simbólica e temporalmente.
Assim como no passado, os primeiros fotojornalistas precisavam ser técnicos para dominar tanto os conhecimentos sobre a química quanto a ótica para conseguirem produzir imagens de qualidade, na atualidade as novas tecnologias colocam a gestão do processo fotográfico de volta nas mãos dos repórteres visuais. Na avaliação de Tarsila, 26 anos, "você tem que ser mais completo né? Hoje em dia ele não fotografa mais só! Ele fotografa, ele edita, ele trata, ele faz várias coisas que tinham várias outras pessoas que faziam né? [...] O fotógrafo tem que fazer tudo". A aparência de evolução, propiciada pelas tecnologias, encobre um retrocesso para a necessidade do(a) fotógrafo(a) ser um especialista em todas as áreas que influem sobre o intermédio entre a produção da cobertura, a seleção do material e seu tratamento por meio de programas específicos. Ao rememorar o curto espaço de tempo que os/as fotojornalistas possuem para realizar as suas coberturas, com o apelo da cobertura quase simultânea, a cobrança sobre o(a) fotojornalista se intensifica retirando o foco da cobertura, supostamente a sua obrigação maior, em favor de acelerar o cumprimento das demais etapas
acumuladas. A cobrança dos veículos pela urgência em primeiro lugar, segundo a entrevistada Eve, 54 anos, acarreta a depreciação da elaboração da cobertura:
O que eu vejo é o seguinte, aquele cara com pressa de colocar logo na rede, e vai e faz uma foto aqui ó... tum, fez um registro! Não é uma foto, é um registro, mandou, e aí eles vão lá e publicam. Agora, eu não faço isso! Porque embaixo está escrito assim “Eve”. O cara quando ele faz isso, ele esquece que embaixo está o nome dele. Você tem um padrão! Puxa vida! Eu tenho um nome! A minha foto tem que ser vinculada com o nome ali.
O discurso da fotojornalista revela uma contradição, pois ao mesmo tempo em que a evolução tecnológica propiciou o maior controle do fotógrafo sobre a produção, a exigência de aumento da velocidade prejudica a dedicação à cobertura de pautas, pela preocupação em captar e transmitir rapidamente. As maiores críticas a respeito da aceleração da cobertura da imprensa são realizadas pelas fotojornalistas mais experientes, na faixa dos 50 a 60 anos, que percebem a desvalorização profissional incutida na cobrança, resultando em uma banalização da fotografia, enquanto proliferam registros superficiais dos acontecimentos. A velocidade seria convertida, assim, em critério estético, mesmo perante uma cultura imagética exigente. As profissionais mais jovens tendem a naturalizar em seus discursos o acúmulo de obrigações e rapidez exigida como parte do exercício da profissão, sem levantar argumentos contrários.
O fenômeno da popularização dos aparatos fotográficos, dos programas de tratamento e disponibilização de imagens não preocupa a maior parte das entrevistadas pela questão da concorrência, mas provoca a conscientização de que elas precisam diferenciar mais a sua produção para não ficar no lugar comum, ainda mais desvalorizado social e economicamente. A entrevistada Tarsila, 26 anos, avalia que o maior acesso aos meios de produção de imagem e distribuição deixou o mercado mais exigente para o trabalho profissional:
Não é porque você tem dinheiro que você vai comprar uma câmera que você vai ser fotógrafo hoje um dia. As pessoas acham que “ah não, banalizou todo mundo é fotógrafo hoje em dia!". Para mim, muito pelo contrário, hoje em dia para você ser fotógrafo, você tem que ter um embasamento muito maior.... [...] Eu acho que um fotógrafo completo ele tem que querer dizer alguma coisa com o trabalho dele. O maior acesso aos equipamentos fotográficos não significa possuir as referências imagéticas necessárias para conseguir elaborar imagens expressivas e informativas. A habilidade desenvolvida pelas fotojornalistas, ao longo de anos de experiência na cobertura de pautas, é essencialmente diferente da preocupação do repórter-cidadão, que por mais que viva em uma sociedade de forte cultura imagética não domina a linguagem para reunir no espaço da
fotografia, ou de um ensaio, elementos suficientes que contém uma história, a preocupação deles é principalmente garantir registros pontuais.
De modo geral, é concebível considerar que o nível de apropriação tecnológico das fotojornalistas é compatível com o grau de profissionalização exigido, e pelos perfis analisados se manteve elevado. As entrevistadas demonstraram ter um grande domínio crítico sobre como utilizar as tecnologias para produzir coberturas competitivas de mercado. Entretanto, a evolução tecnológica dos equipamentos profissionais empregados pelas fotojornalistas, como câmeras, lentes diversas e computador portátil, não foi capaz de diminuir o peso dos equipamentos que ainda permanecem um fardo no conjunto, sendo esta uma reclamação recorrente das profissionais. Os relatos evidenciam que a sobrecarga de peso é causada pela necessidade de carregar um maior volume de equipamentos para garantir a captura de situações variadas e inesperadas presente no cotidiano das profissionais.
Durante a cobertura de uma manifestação Maria, 51 anos, avalia que chega a carregar "uns 8 quilos. O que, no final da manifestação, já está pesando 80. Fica andando, andando, andando. Então é cansativo". Apesar de reconhecer o peso dos equipamentos, Maria, 51 anos, não o entende como impeditivo para participação feminina na profissão, e sim uma necessidade para os profissionais. Entretanto, o argumento relacionado ao peso dos equipamentos está constantemente presente nos relatos que apontam motivos para desestimular o ingresso e permanência das mulheres no fotojornalismo. Evidencia-se a utilização do argumento biológico, da incompatibilidade física entre a carga excessiva e a constituição do corpo feminino, para manter as mulheres enquadradas no estereótipo de fragilidade construído sobre o seu gênero. A questão será parte integrante da definição da autoimagem profissional, como será aprofundado mais adiante.