Tratar a educação a partir de uma abordagem intercultural é, acima de tudo, considerar a realidade plural que constitui o mundo atual, compreender que o progresso introduz novos conceitos que precisam ser desmitificados, e pensar o ensino de línguas como uma maneira de instaurar a paz, a compreensão e o respeito. Muito se pode melhorar nas relações entre as pessoas a partir de um diálogo saudável, tolerante, onde ambas as partes se tratariam com respeito apesar das diferenças. Guerras seriam evitadas e a maioria dos conflitos que geram o ódio, também. Nesse sentido, há uma responsabilidade que se assenta sobre os pensadores e pesquisadores e produtores de conhecimentos, como explica Bohn (2005, p. 13):
A globalização exige que os linguistas aplicados desenvolvam compreensões e talvez até explicações porque os principais conflitos mundiais e locais não ocorrem por causa de grandes diferenças entre as culturas mais distintas, mas agressões mais sangrentas [...] têm se desenvolvido entre povos que durante décadas têm convivido nas mesmas escolas, têm feito compras no mesmo mercado e consumido os mesmos produtos [...].
O autor assegura ainda que é na linguagem que se constroem as diferenças constituintes da identidade humana. Que os fatos indicam que são as pequenas variações linguísticas que geram os preconceitos, um simples modo de falar; que a intolerância, na maioria das vezes, é causada pela mera banalidade da diferença, e conclui afirmando que “isto está na linguagem local, e isso merece ser estudado” (BOHN, 2005, p. 13).
Porém, a crença de que o mundo pode ser modificado pelo simples fato da mudança de um paradigma de ensino, neste caso, o que defendo aqui, o ensino intercultural, pode se tratar, apenas, de uma utopia. A educação intercultural ainda está longe de alcançar as “margens” e os meios mais “sofisticados” da sociedade. Refiro-me a grupos que sobrevivem sob suas próprias regras, dentro dos extemos sociais que os separam. Cada um com seus valores age conforme seus preceitos e a população, em geral, vive sob os efeitos produzidos por ambos os lados. Como aparece no documento Educação um Tesouro a Descobrir da Unesco,
[...] a ideia de uma nação monoétnica, culturalmente homogênea, é invocada, [...], na medida em que apenas um grupo étnico majoritário ou dominante impõe a sua própria visão da “nacionalidade” aos outros componentes da sociedade. Neste caso, os grupos étnicos que não se conformem com o modelo dominante são tratados como “minorias” no plano numérico, mas também, e, sobretudo, no plano sociológico e político. Não é raro que esta contradição gere tensões e conflitos sociais que se verificaram de uma maneira crescente, nos últimos anos, em certo número de países. (UNESCO 1998, p. 247)
Corroboram com os temas sociais presentes na citação acima, os autores Freire (1967), que fala sobre a educação libertadora, e Marx (1818-1883), que se debruça sobre questões de cunho social. Ambos os pensadores, preocupados com a proporção que estão tomando as organizações sociais (desde a época de cada um deles), com suas complexas elaborações tentam nos levar à reflexão de que “não há educação fora das sociedades humanas e não há homem no vazio” (FREIRE, 1976, p.35).
Portanto, fazendo referência aos quatro pilares da educação para este século, determinada pela UNESCO (1996), aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos, aprender a ser, Alonso (2004, p. 861) explica que:
Aprender a viver juntos é um dos quatro pilares no qual deve se sustentar a educação neste novo século. É um pilar, um objetivo e una tensão, que vão viver e sofrer as personas, com a segurança de que estas tensões influenciarão em nossa identidade. Ainda que os quatro pilares tenham a mesma consideração e constituem um todo, nos deteremos, especialmente, nos pilares Aprender a conhecer, Aprender a ser a Aprender a viver juntos. Podemos afirmar que são os pilares aos quais se podem referir e sobre os quais pode descansar a educação intercultural, como esperança e alternativa, como instrumento de reconhecimento da cultura, e, através disso, de valorização das diferencias cultuares como um marco de diversidade e de pluralidade cultural.21
Aprender a viver, portanto, é desenvolver a reflexão voltada para o semelhante e para o mundo em forma geral, é praticar a tolerância, no sentido de respeitar e compreender as diferenças que fazem parte da formação indenitária de pessoas ou grupos. A prática desta ação não pode ser construída nem fundamentada em atitudes ligeiras. Na realidade, trata-se de um constante construir, um profundo conhecimento das diferenças culturais que formam a diversidade humana. Precisamos nos revestir de coragem e nos despir de conceitos prontos que foram introduzidos desde sempre e reforçados no decorrer da vida, para podermos adentrar no universo do “desconhecido” e desbravar suas peculiaridades com o olhar de que o mundo não é, nem nunca foi análogo, e que a beleza está nas diferenças.
A partir deste pensamento, defendo que o ensino de E/LE pode influenciar as pessoas a enriquecer e melhorar seus pensamentos e estilos de vida a ponto de perceberem que outros
21 Aprender a vivir juntos es uno de los cuatro pilares en los que debe sustentarse la educación en este nuevo siglo. Es un pilar, un reto y una tensión, que vamos a vivir y a sufrir las personas, con la seguridad de que estas tensiones incidirán en nuestra identidad. Aunque los cuatro pilares tienen la misma consideración y constituyen un todo, nos detenemos especialmente en los pilares Aprender a conocer, Aprender a ser y Aprender a vivir juntos. Podemos afirmar que son los pilares a los que se pueden referir y sobre los que pueden descansar la educación intercultural, como esperanza y alternativa, como instrumento de reconocimiento de la cultura, y, a través de ello, de valoración de las diferencias culturales en un marco de diversidad y de pluralismo cultural.
povos têm muito a contribuir com suas maneiras diferenciadas de ver e conviver com o mundo.
Não me refiro aqui à passividade e aceitação do que não condiz com a crença do indivíduo, é um direito que assiste a todos a liberdade de escolhas e opiniões. Porém, que os julgamentos e conceitos particulares estejam pautados em ações que assegurem o direito do outro, de igual modo, também se expressar e opinar sem causar ressentimentos e/ou conflitos maiores.
Aprender a viver, portanto, é a proposta que traz em seu bojo a ideia de uma abordagem intercultural desde seus primórdios, representada nos pensamentos de Rodolfo Kuch (1975), que defende a alteridade como o princípio de perceber o “outro” para reconhecer-se a si mesmo, de Paulo Freire, que em toda a sua obra, pautou uma luta política em favor de um ensino libertador e democrático e Milton Santos (2008) que, em seus pensamentos dedicados à conscientização dos diversos “mundos”, alavancou os discursos sobre esta atual “perversa” globalização.
Porém, é na atualidade que a proposta dos citados autores encontra maior dimensão entre os estudiosos e reforça as ideias de um ensino transformador. Sobre este assunto Siqueira (2012, p.38) se posiciona e afirma que
Dentre os inúmeros campos do saber que têm como princípio norteador o compromisso com a diversidade humana e as suas manifestações, fomentando o conhecimento e a tolerância para com o diferente, o ensino de línguas, materna ou estrangeira (LM/LE), é um daqueles que detêm maior capacidade de reação e promoção de uma tomada de consciência intercultural crítica, uma vez que, dominar línguas (não apenas aquelas de grande prestígio internacional), interagir com outros povos e outras culturas, é condição fundamental para a educação para a cidadania.
Desta forma, Siqueira (2008), em momento anterior, defende o ensino de LE baseado na interculturalidade e deixa clara a importância desta atitude, especialmente no tocante ao ensino de línguas. Porém, seria ingênuo acreditar, como já foi discutido anteriormente, que as bases da pedagogia intercultural, sozinha, possam alcançar todas as pessoas, redimensionar os pensamentos e construir um mundo de paz. Porém, o foco na mudança, na certeza de que nós, professores, somos as pessoas preparadas para formar outros indivíduos, deve prevalecer. Insistir que, em meio de todos os ventos contrários, há sim a esperança na construção de um mundo mais humano para se viver, é o papel do professor formador, como está explícito no excerto abaixo:
É nessa seara, portanto, que diversos nós ainda carecem de ser desatados. E é aqui que o profissional de Letras contemporâneo, o professor, seja de língua materna ou língua estrangeira, depara-se com um campo fértil para uma tomada de consciência da grande importância de sua tarefa, não apenas no tocante à formação acadêmica de seus aprendizes, pequenos ou adultos, mas, principalmente, no reconhecimento de que diversidade, ensino e linguagem formam uma tríade que, dentre outras coisas, ostenta a capacidade de pavimentar o caminho de cada um dos nossos alunos na busca por sua cidadania plena (SIQUEIRA, 2012, p.42).
É no desatar dos nós, na desconstrução e reconstrução de verdades que percebo que o caminho de cada um é tecido por histórias entre pessoas e grupos, que no formar-se se constituem saberes dos quais a mente não cansa de buscar. Sou professora de línguas e sinto na fala de Siqueira (2012), retratada acima, a minha responsabilidade por um ensino que auxilie meus alunos na busca pela cidadania em toda sua plenitude cidadã. Assim, como sou responsável na posição de formadora de oferecer um ensino baseado na pedagogia intercultural que possa, no mínimo, empoderar meus aprendizes e os levar a se verem como capazes de ir muito além do que possam imaginar.
5.3 PESQUISA, CIÊNCIA, ENSINO DE LE E LINGUÍSTICA APLICADA: UMA